Vida de vampira – II

-Permita-me refazer a frase, minha senhora. Quando os vampiros encontraram com os humanos?

– Em termos humanos? Sua gente era pouco mais que primatas evoluídos, se é que eu posso considerá-los evoluídos, em algum sentido.

– Como foi esse evento?

– Depois que nosso pai formou esse mundo que sua gente chama de Terra, meus muitos irmãos e irmãs saíram para colonizar. Gaia é um mundo mais do que suficientemente grande para nós. Cada qual criou suas plantas, seus animais, suas cidades. Meus irmãos tiveram a péssima ideia de usar sua gente para fazer o trabalho duro. Minha irmã mais velha, Layla, quis criar sua gente como gado, misturou nosso sangue com o de sua gente. Ela cruzou com os de sua gente. Não fique escandalizado, escriba. Sua gente cria gado e come. Por que se espanta quando é na sua pele?

– Na verdade, eu não me espanto. O homem é parte da natureza, não o rei dela. O meu espanto é que seus irmãos e irmãs podem muito bem ser os Deuses que meus antepassados adoravam.

– De certa forma, alguns eram. Outros nasceram depois e sua gente os fez Deuses. Quando sua gente fez de nós Deuses, surgiu a religião e da religião surgiram os sacerdotes que tem usado isto para ganhar poder, prestígio e autoridade sobre sua própria gente. Humanos são muito estranhos. Vocês estragam tudo e depois culpam a ferramenta que criaram. Muito parecido com o pequeno verme que queria ser um de nós.

– Pequeno verme, minha senhora?

– Sim, um ser abjeto que nasceu das misturas genéticas de minha irmã. Um espírito pequeno, em comparação aos que sua gente chamava de Deuses. Mas achou um coitado que acreditou que ele era Deus. Assim um espírito da natureza, um gênio local, tornou-se um Deus neste culto familiar, que depois com a multiplicação dessa semente, tornou-se a religião de uma nação.

– Expandindo-se dessa forma… deve ter se tornado uma ameaça para sua gente.

– Em verdade, tornou-se perigoso. Os humanos que nós criávamos lutaram contra os humanos que ele criava. Ganhamos e perdemos. Perdemos porque os humanos desse verme continuaram a viver como escravos, servos. Covardes, medrosos, dissimulados, conquistaram a compaixão e a simpatia natural entre semelhantes. A nação de escravos sobrepujou as nações de nobres. Surgiu uma instituição que deu a este verme o trono do mundo e o título de Deus. O Único e Verdadeiro. Meus irmãos foram perseguidos, suas cidades destruídas e muitos povos nobres tiveram que se ajoelhar diante do símbolo do verme: a cruz.

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