Como surgiram os fetiches

Desde que a humanidade surgiu neste mundo, vários tabus foram criados por nós. Os tabus podem ser categorizados em proibições alimentares, proibições comportamentais, proibições erótico-afetivas.

Freu praticamente afirmou que a religião surgiu do tabu de não matar combinado do totem do rei sagrado sacrificado. Proibições alimentares poderiam ser uma extensão desse tabu, uma vez que a crença colocou a possibilidade do rei sagrado reencarnar como um bicho. Mas aqui os tabus quanto ao aspecto erótico-afetivo não se encaixam. Nisso mesmo Freud se embananou.

Por que criamos tantos tabus e proibições ao nosso desejo, especificamente à libido, tem a ver com os mitos antigos. Matar a figura paternal é apenas o aspecto mais imediato, mas o que está em cena é o incesto. Incesto entre filho e mãe, entre pai e filha, entre irmão e irmã. A Teogonia, mitos e textos sagrados contam essas histórias, envolvendo diversos Deuses e Deusas.

Nesse caso, tabu significa exatamente “separado por ser sagrado”. Assimilamos esse tabu no nosso inconsciente coletivo, mas a libido, o desejo, continua atuante e fervendo dentro de nós. Como se isso não bastasse, criamos também a “fidelidade” e a “monogamia”, tabus e proibições sociais que surgiram de nosso próprio desenvolvimento cultural. No entanto, com a Era Moderna, começaram a aparecer formas de tolerar, ainda que sigilisa e secretamente, estas regras, como as casas de swing. Mas eu estou me adiantando. As casas de swing são um sintoma de algo menos saudável, que é a pornografia.

A pornografia apenas surgiu e tem sucesso exatamente porque não consegimos resolver esse fantasma da libido, do desejo e criamos um mundo irrreal onde representamos a mulher em um ideal inexistente, a mulher como uma pessoa livre, libertina, auto-confiante, resolvida, consciente de sua sexualidade e sensualidade, dona de seu corpo e do seu prazer. A pornografia torna a mulher uma “prostituta”, no pior sentido da palavra. No entanto, a sociedade, a cultura e até a biologia faz com que a mulher tenha recato, reserva e vergonha. Inevitavelmente, violencia física e sexual contra a mulher aumentou com o aparecimento da pornografia.

Nisso consiste o vicio e o perigo da pornografia. Estimula a imaginação masculina, oferece um mundo irreal, expõe mulheres inexistentes, fora do alcance. Um paradoxo, pois as revistas masculinas adultas mostram mulheres que parecem querer ser tocadas, mas são intocáveis. Ao invès de expor e celebrar a nudez como algo belo, bonito, sagrado e divino, essas revistas aumentam a noção de que o desejo, o prazer, o amor e o sexo são coisas vulgares, sujas, pecaminosas. Como a satisfação é meramente virtual, homens com baixa consciência ética irão, por meio da força, buscar um alívio real de suas necessidades.

Mas isso nunca é o suficiente. Aberta a porta da libido, tudo aquilo que secretamente desejamos e queremos, esperamos ver ou ser encorajado, ainda que virtualmente, nas revistas masculinas adultas. Como um ciclo vicioso, as revistas alimentam a libido e satisfazem as pulsões que temos. Aquilo que socialmente é condenável passa a ser normal nesse mundo utopico.

Hoje em dia existem grupos de pessoas que praticam sado-masoquismo, bondage e dominação. Sintoma da libido e do desejo até então reprimidos e trazidos ao mundo real pela pornografia. Como no caso do swing, tudo é feito com consentimento, de forma velada, controlada e limitada. Mas a libido liberada, ainda que de forma restrita, achado o canal, continua a verter sobre nós nossa própria sombra que tentávamos esconder, negar, reprimir.

Com o advento da internet a libido aumentou seus canais de comunicação. Com um clique do mouse, podemos encontrar milhões de sites com erotismo e pornografia. Seja lá qual for seu fetiche, tara ou sonho, a internet tornou-se um paraíso virtual maior do que as revistas masculinas adultas. Zoofilia, gang bang, creampie…dê um nome e terá! No entanto ainda é um alívio virtual, eu ainda não conheço nenhum grupo que se proponha a ter relações sexuais com animais ou ter relações sexuais sem proteção. Mas existem grupos de pessoas que praticam gang bang. como no swing e no BDSM, tudo velado, restrito, controlado, limitado. Conseguiremos quebrar com essa hipocrisia e termos uma vida erótico-afetiva realmente livre e satisfatória? Enquanto vivermos nessa sociedade cheia de recalque em relação ao sexo, amor e relacionamentos, resultado da cultura judaico-cristã, dificilmente poderemos discutir e encarar nossa libido com franqueza e sinceridade.

Um sintoma desse limite, desse choque entre nossa libido e os tabus, regras e proibições sociais é a neurose, a paranóia em torno da pedofilia. Violência fisica e sexual é crime, em qualquer idade. A idade da vítima não deveria definir o crime. Esse desejo nós temos desde que nos tornamos gente. Em algum momento, quando éramos mais jovens, nós víamos um determinado adulto e fantasiávamos. Todos nós nascemos com sexo, todos nós somos seres sexuais. Em algum momento de nosso desenvolvimento nos damos conta disso e isso não pode ser arbitrariamente definido em uma faixa etária. A lei pressupõe abuso, mas não pressupõe inocência.

Lembra quando eu disse da internet? Mais do que isso, temos diáriamente, em notícias, em novelas, em propaganda, uma presença excessiva do erotismo, sendo exposto aos jovens. Em nossa infância e adolescência o acesso a tal informação ainda era um tabu, uma proibição. Discutir sobre ou ter educação sobre sexo era algo impensável, dependendo da criação de seus pais, dependendo do tipo de família. Nessa Era da Net, a informação chega, instantânea, sem filtro, sem censura, aos olhos de jovens que não estão tendo a devida orientação e educação sexual. Podemos ver como tem sido comum vermos adolescentes com problemas com a pessoa com que se relaciona, alguns anos mais velho. Uma situação limiar, pois até pouco tempo aquele que é considerado “maior” também foi um adolescente. Como fica a questão da idade de consentimento, do abuso de menor e pedofilia nesses casos? Não fica, porque nos recusamos a discutir o assunto. Homens tem atração por meninos ou meninas.

Produto da pornografia ou um aspecto de nossa eterna libido que não queremos encarar por ser um tabu? Por que idealizamos as crianças e os adolescentes como seres assexuados, inocentes e ingênuos? Por acaso na idade deles nós não tentávamos seduzir, ganhar atenção, ter relações erótico-afetivas com um adulto, porque sonhávamos, fantasiávamos? Não construiriamos uma sociedade mais sexualmente sadia se todo adolescente tivesse o direito e a liberdade de optar e escolher sua sexualidade? Não diminuiríamos toda essa violencia fisica e sexual se tivessemos educação sexual desde jovens? Não exorcisaríamos a libido de vez se todos tivessem o direito e a liberdade de amar quem quiser, quantos quiser, desde que com mútuo consentimento e maturidade?

Quando os jovens puderem ter um tutor ou uma professora que ensinasse, não apenas por teoria, mas também na prática, como expressar esse desejo, essa libido, acabaria todo o sentido da existência da pornografia. Acabaria toda nossa neurose, paranóia, recalque. Acabaria a discriminação etária. Viveríamos nossas vidas erótico-afetivas com mais liberdade e satisfação.

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