A história de Ishtar – V

Quando Dummuzi foi dado por morto, Ishtar enlouqueeu, seus servos abandonaram seu palácio, seu reino ficou vazio e tornou-se deserto. Apenas Ishtar habitava o palácio vazio e, quando ela saiu vestindo seu traje de guerra, os Filhos das Estrelas esqueceram do tempo de glória e poder de Ishtar. Riram em seus palácios, olhavam para Ishtar como se fosse uma criança com roupas de adultos.

Alguns soldados foram enviados para espantar Ishtar quando ela aproximou-se das cidades mais periféricas. Um destacamento de cem soldados com algumas espadas, lanças e flechas podem lidar com uma pequena rebeldia, pensavam. Com um único aceno de sua mão, Ishtar reduziu todos a uma polpa sanguinolenta. As cidades periféricas foram invadidas, destruidas e queimadas até seus alicerces. Não houve sobreviventes. As cidades seguintes, maiores, mais ricas, mais próximas das capitais, entraram em pânico. Generais levantaram suas bandeiras, deslocaram várias colunas de soldados, cavaleiros, lanceiros, arqueiros e diversas máquinas de guerra. Exércitos enormes lançaram seu ataque contra Ishtar, sem êxito, Ishtar os sacudia como se fossem moscas e como insetos caíam mortos pelo solo e Ishtar caminhou por sobre o campo de batalha com sangue até seus tornozelos. Deuses pegaram suas armaduras, lanças e espadas, pelas mãos de Ishtar, pelas artes de Ishtar, pelas armas de Ishtar, tombaram todos. Então os Filhos das Estrelas temeram por Ishtar, recordaram de seu poder e glória, mas não iriam detê-la com doces palavras e promessas vazias.

Disfarçado de camponês, Enki levou até Ishtar a notícia que Dummuzi não morrera, mas que adormecera, foi sequestrado e levado cativo até o Submundo. Aliviada e desconfiada, Ishtar suspendeu sua fúria, tomou o mapa dos reinos do camponês e foi até a entrada do Submundo, uma fortaleza onde, para entrar, é necessário passar por sete portões e a única forma de passar por cada portão é deixar uma oferenda. Deixou primeiro sua coroa, depois os brincos, depois os colares, depois o peitoral, depois o cinto, depois as pulseiras e por fim tirou seu vestido. Aquela que era a grande e poderosa Ishtar, aquela que era o Amor encarnado, estava diante do trono do Submundo como todo ser vivente entra no Mundo dos Mortos, sem honra, sem glória, sem nome, sem vida.

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