Arquivo mensal: junho 2014

A história de Ishtar – V

Quando Dummuzi foi dado por morto, Ishtar enlouqueeu, seus servos abandonaram seu palácio, seu reino ficou vazio e tornou-se deserto. Apenas Ishtar habitava o palácio vazio e, quando ela saiu vestindo seu traje de guerra, os Filhos das Estrelas esqueceram do tempo de glória e poder de Ishtar. Riram em seus palácios, olhavam para Ishtar como se fosse uma criança com roupas de adultos.

Alguns soldados foram enviados para espantar Ishtar quando ela aproximou-se das cidades mais periféricas. Um destacamento de cem soldados com algumas espadas, lanças e flechas podem lidar com uma pequena rebeldia, pensavam. Com um único aceno de sua mão, Ishtar reduziu todos a uma polpa sanguinolenta. As cidades periféricas foram invadidas, destruidas e queimadas até seus alicerces. Não houve sobreviventes. As cidades seguintes, maiores, mais ricas, mais próximas das capitais, entraram em pânico. Generais levantaram suas bandeiras, deslocaram várias colunas de soldados, cavaleiros, lanceiros, arqueiros e diversas máquinas de guerra. Exércitos enormes lançaram seu ataque contra Ishtar, sem êxito, Ishtar os sacudia como se fossem moscas e como insetos caíam mortos pelo solo e Ishtar caminhou por sobre o campo de batalha com sangue até seus tornozelos. Deuses pegaram suas armaduras, lanças e espadas, pelas mãos de Ishtar, pelas artes de Ishtar, pelas armas de Ishtar, tombaram todos. Então os Filhos das Estrelas temeram por Ishtar, recordaram de seu poder e glória, mas não iriam detê-la com doces palavras e promessas vazias.

Disfarçado de camponês, Enki levou até Ishtar a notícia que Dummuzi não morrera, mas que adormecera, foi sequestrado e levado cativo até o Submundo. Aliviada e desconfiada, Ishtar suspendeu sua fúria, tomou o mapa dos reinos do camponês e foi até a entrada do Submundo, uma fortaleza onde, para entrar, é necessário passar por sete portões e a única forma de passar por cada portão é deixar uma oferenda. Deixou primeiro sua coroa, depois os brincos, depois os colares, depois o peitoral, depois o cinto, depois as pulseiras e por fim tirou seu vestido. Aquela que era a grande e poderosa Ishtar, aquela que era o Amor encarnado, estava diante do trono do Submundo como todo ser vivente entra no Mundo dos Mortos, sem honra, sem glória, sem nome, sem vida.

A história de Ishtar – IV

Ishtar tinha todo o poder, toda a riqueza, mas era infeliz porque não tinha Deus que pudesse equiparar a ela. Apesar de muitos terem conhecido seu leito, nenhum pode penetrar seu mais íntimo mistério e Ishtar pedia aos Deuses Antigos, que ela pudesse encontrar um Deus que pudesse arar sua terra. Sua irmã mais velha, Ereshkigal, soube disso e com um disfarce de simples serviçal, segredou a Ishtar que ela somente conseguiria um companheiro se fosse procurar entre os Filhos de Gaia. Ali o boato é de que havia um Deus Touro, descendente legítimo dos Primeiros, era o único Deus Guerreiro que teria a força e a lança para semear o solo de Ishtar.

Foi diante das terras de Indo, o Deus do Rio Leste, que Ishtar encontrou o Deus Touro, Dummuzi. Aquela que era o Amor tremeu, seus lábios umedeceram, seus olhos bilharam, sua pernas fraquejaram. Aquela que era o Desejo sentiu frio, seu coração palpitou, seus seios empinaram, sua flor desabrochou. Mas o Grande Guerreiro não se ajoelhou, as graças de Ishtar não o conquistaram, ele não moveu sua poderosa lança. Ishtar ficou desolada, como pode um Deus resistir a seus encantos? Ereshkigal disfarçada como serviçal deu a Ishtar um poderoso líquido que faria Dummuzi se apaixonar por Ishtar, mas que isto teria um custo. Ishtar serviu cerveja, o líquido dos Deuses, misturado com a poção, sem ter ouvido a advertência. Dummuzi então amou Ishtar, sua lança moveu e o solo de Ishtar abriu, sua semente preencheu e cobriu todo seu vaso. Passaram dias, noites, semanas, meses, debaixo do sol e da lua Dumuzzi e Ishtar não cessavam de celebrar a união.

Mas um dia Ishtar acordou solitária, não encontrou Dummuzi e Ereshkigal, disfarçada como serviçal, disse que Dummuzi morreu. Dummuzi morreu por ter bebido um veneno servido com cerveja para despertar o amor nele. Ishtar enlouqueceu, seu brilho se apagou e sua face escura transbordou. Filha do Deus Coxo, Ishtar exalava fúria e ódio com a mesma força que emanava amor. Toda sua corte fugiu, temendo pela vida, todos seus suditos fugiram, temendo por seus rebentos e Ishatr ficou terrivelmente sozinha. Ela entrou em seus aposentos, abriu uma porta secreta, entrou em sua sala oculta particular e vestiu-se com um elmo, com cota de malha, com armadura, com ombreiras, com braceletes, com caneleiras, com botas, com espada e lança. Ishtar declarou guerra a todos os Filhos das Estrelas por causa de Dummuzi.

A historia de Ishtar – III

Em uma região longe, bem distante da Cidade dos Deuses, de seus reinos e guerras, Inanna viveu no exílio e ali, entre feras e entre os Filhos de Gaia, nasceu Ishtar. Inanna tinha uma grande beleza, mas era física, Ishtar nasceu com beleza em plenitude. Inanna tinha um grande amor, mas este também era físico, Ishtar era o Amor encarnado. As feras e entidades ali presentes enlouqueceram de amor, assim que Ishtar saiu do ventre de Inanna e soltou seu primeiro fôlego no mundo de Gaia. Outras ficaram cegas diante de tanto esplendor, seu brilho rivalizava com o brilho do sol. Quando Ishtar abriu os olhos, ela viu o intimo de todo ser vivente, todo o desejo e prazer que habitava em cada vida e sorriu por reconhecer seu reflexo. Quando Ishtar se levanou do solo, onde sua mãe a havia colocado no momento do parto, todos os seres viventes se ajoelharam, pois ali estava a Majestade encarnada. Quando ishtar abriu seus lábios para dizer suas primeiras palavras, trovões se esconderam, o fogo se encolheu, a lua fugiu com seu rebanho de estrelas, o sol ficou encabulado e Gaia sentiu-se honrada por ser testemunha da encarnação da Sabedoria.

Ishtar cresceu, aumentou sua formosura, seu corpo manifestava abundante sensualidade, desde seus longos cabelos negros lisos, passando por seios perfeitos, nádegas perfeitas, pernas e coxas perfeitas, até seus olhos almiscarados, boca rubra e ventre quente. Inanna despertava o desejo nos Deuses por seus atributos, Ishtar era o Desejo, não havia um ser vivente, entidade ou Deus que não se perturbasse diante de Ishtar. Fascinados, apaixonados, loucos, criaturas e entidades de todas as regiões vinham sem cessar até a cabana de Inanna para prestar reverência a Ishtar. Não demorou para surgirem cidades e todo um reino. Não demorou para darem uma coroa e um trono a Ishtar. Não demorou para que até a Cidade dos Deuses e seus reinos dobrassem seus joelhos para Ishtar.

Para ficar com Ishtar por alguns minutos, os Deuses, tão orgulhosos, tão esnobes, a Ishtar nada recusavam, ofertavam sem reservas, a ela deram o poder e suas coroas. Alguns acharam que podiam usar Ishtar como se fosse uma criança ingênua, usá-la como usaram Inanna e depois descartá-la. Mutios provaram de seu leito, mas nenhum podia lhe abrir seus mistpérios mais íntimos. Quem provava de seu mel tornava-se prisioneiro e teria que beber do fel. Mesmo o temido Deus Coxo rendeu-se a Ishtar e em seu leito faleceu. Em estranhas eras, mesmo o Deus da Morte morre. No Submundo reinou então a irmã mais velha de Ishtar, Ereshkigal, que jurou vingar seu esposo.

A história de Ishtar – II

Os Filhos das Estrelas prosperaram, com a técnica de Enki expandiram suas terras e por uma extensa área, seus lares espalharam pelo corpo de Gaia. Cidades surgiram, reinos surgiram, a coroa de Anu foi dividida entre seus filhos e filhas, a descendência  multiplicou como a riqueza que do solo era extraída. De todas, a mais procurada e cobiçada tinha que ser tirada do fundo das entranhas de Gaia, um material brilhante, macio e moldavel, de grande utilidade para dar poder aos seus artifícios, os Deuses queriam cada vez mais aureum.

Cobiça, inveja e ciume, colocaram reino contra reino, Deus contra Deus, a inimizade e a guerra aconteceu entre os Deuses. Quem estava no trono do Submundo controlava o aureum, o Deus Ferreiro, o Deus Desfigurado, era chamado também de Deus da Morte. Os reinos dependiam do aureum que ele extraía, os Deuses tinham que negociar com ele e seu preço era pesado e cruel. Pelo fornecimento de aureum, os reinos mandavam ao Submundo seus filhos, para trabalharem nas minas, nas entranhas de Gaia. Para conquistar o apoio e a amizade do Deus Coxo, os reinos mandavam ao Submundo suas filhas, para deitarem-se no leito, para receberem a semente dele.

Antes desprezado e rejeitado entre seus próprios irmãos e irmãs, humilhado pelos Filhos das Estrelas, pela mágoa, rancor e vingança, o Deus Sujo tornou-se um déspota, um tirano, um usurpador que exigia oferendas diárias e tomava tudo aquilo que seu coração desejasse. Ele passeava pelos reinos, transitava por toda a extensão de Gaia, como se fosse o próprio Grande Anu, escolhia e levava os jovens, homens e mulheres, para o Submundo, trazendo tristeza e choro a muitos pais. Foi assim que um dia o Sombrio encontrou Inanna e por ela encantou-se. Inanna, das Filhas das Estrelas, a mais bela, esfuziante, abundante. Todos os Deuses a desejaram e ela não negava amor a quem a procurava, mas ao Canhoto ela tentou recusar, sem êxito, foi agarrada, presa, levada e como cativa viveu no Submundo, até conseguir fugir, levando consigo o fruto da união.

A história de Ishtar – I

Houve uma época onde passado, presente e futuro eram uma coisa só. Existência e não-existência, espaço e vazio, tempo e eternidade, vida e morte, rodopiavam em um torvelinho. Era o Caos. Dentro do Caos, diversos sseres e entidades estavam mergulhados em um sono lucido, dispersos, não conseguiam ter consciência. Então houve um despertar, um Deus e uma Deusa, os mais antigos, os primeiros Filhos do Caos, perceberam a si mesmos, perceberam um ao outro, perceberam onde estavam e dentro do indistinto Caos, se amaram e deste Amor, surgiu a Ordem, o Caos encontrou sossego, paz e quietude.

Os Filhos das Estrelas vagavam pelo Universo criado, fugitivos ou expulsos do Caos, procurando onde fixar residência, procurando um lugar firme para habitar. Nas bordas do Cosmo que se expandia, encontraram Gaia, uma Deusa filha dos Primeiros e no mundo que é sua manifestação, os Filhos das Estrelas levantaram acampamento, por sobre o corpo cheio de terra e água, ali pousaram. O rei deles, o Grande Anu, confiou a seu filho, Enki, para separar a água da terra, para construirem suas casas, para plantarem suas sementes, para criarem seus gados, para espalharem sua descendência.

A Cidade dos Deuses surgiu gloriosa, por sobre as águas de Gaia, vencendo a fúria do grande mar, Enki extendeu a terra firme, um solo vermelho fértil, onde os Filhos das Estrelas puderam lançar suas sementes, criarem seu gado e terem seus filhos. Mas o grande mar tinha sua Deusa, filha tanto de Gaia quanto dos Primeiros e na guerra contra a Deusa-Serpente, morreu o Grande Anu. Ali teria o início da rivalidade entre os Filhos das Estrelas e os descendentes dos Primeiros.

Eu amo meu senpai – IV

Com Giacomo nos círculos de lutas clandestinas da escola, Gwen conquistou muitos seguidores e inimigos. Ela se tornou a numero um na escola, todas as gangues a temiam, mas não demorou para surgirem alunos de outras escolas, de outras gangues, para desafiar a Akage.

Se fossem apenas lutas clandestinas entre gangues de alunos, tudo ficaria bem. O problema é que gangues de alunos frequentemente estão associadas à gangues de adultos. Não demorou para que Gwen chamasse a atenção da Máfia e da Yakusa. Gwen achou muito estranho os “alunos” que vinham desafiar o campeão que eram muito grandes ou velhos para estarem no segundo ano, mas em um círculo de lutas clandestinas não existem regras. Giacomo teve que enfrentar todos, até os lutadores profissionais.

– Seu italiano burro! Por que continua a lutar?

– Porque você é meu senpai.

– Idiota! Você está lutando com adultos e lutadores profissionais, está quase morrendo em cada luta. Fazer o que eu mando por ser seu senpai é uma coisa, isso é estupidez. Por que faz isso?

– Porque eu amo meu senpai.

Gwen cresceu sem amizade, carinho ou amor. Mas aquilo era demais. Ela acabou gostando de Giacomo também. Ela deu um jeito para apagar as luzes do ginásio, entrou no ringue e fugiu com Giacomo, sumiram do mundo, foram viver juntos em algum lugar nas montanhas, como homem e mulher.

Eu amo meu senpai – III

– Hei, Madre, eu sou cristã! A senhora precisa me ajudar!

– Giacomo, ajude aquela Akage.

Giacomo foi para cima do bando, socando e chutando. Quem ficasse na frente ia caindo, os mais espertos sairam correndo e os mais lentos tentaram lutar. Até conseguiram dar alguns socos e chutes em Giacomo, mas era como acertar um tronco de árvore. Giacomo espancou e derrotou todos, ficando frente a frente com Gwen.

– Você é a minha senpai?

– Eu acho que sim. Meu nome é Gwen.

Do nada, surgiu um aluno, imitando as firulas e poses do Bruce Lee, provocando Giacomo. Quando este se aproximou, o aluno desconhecido deu um forte chute na altura da cabeça de Giacomo, um chute que teria desacordado ou matado qualquer outro. Giacomo apenas ficou com um inchaço e vermelhidão, o chute conseguiu apenas entortar seu pescoço. Umsegundo depois, Giacomo deu um soco que fez com que o aluno fosse jogado há dois metros de onde estavam.

– Impressionante. Sabe, Giacomo, eu acho que eu vuo te aceitar como meu kohai. Eu tenho grandes planos para você.

A Madre Superiora deixou-os e voltou ao seu escritório, sentindo um certo arrependimento. Naquele mesmo dia, Gwen inscreveu Giacomo no círculo de lutas clandestinas. Quando não estava lutando, Giacomo ficava ao lado de Gwen, protegendo-a das outras gangues. Andando tanto tempo juntos, Giacomo acabou se afeiçoando com Gwen, apesar dela tratá-lo como um cachorro.