Meu daimon – VIII

Cipriano acordou no dia seguinte, dolorido, mordido, arranhado. Na primeira vez sentiu medo, mas agora estava ficando acostumado e ele também começou a arranhar e morder Kelek. Ele percebeu algumas mudanças em seu corpo e em seu apetite. Enquanto Kelek ressoava, satisfeita, cabelos desgrenhados, arranhada, mordida e preenchida com a seiva de Cipriano, este desceu e foi preparar o café da manhã. Ambos ainda moravam com os pais de Cipriano, mas o jovem fez questão de fazer ele mesmo o desjejum e levar até a cama onde Kelek ainda dormia.

– Ei, dorminhoca! Bom dia! Acorde para tomar o café da manhã.

Com preguiça, Kelek ergue o corpo da cama, esfrega os olhos e vê uma mesa móvel com um prato com queijo, frutas, presunto, pães e vinho. Sorriu e foi se servindo, sem esquecer de deixar Cipriano se servir.

– Mestre alimenta Kelek. Mestre bom.

– Kelek, nós vamos viver juntos não como mestre e daemon, mas como homem e mulher. Então, por favor, pare de me chamar de mestre. Eu não sou seu dono. Nunca fui. Você me aceitou como seu parceiro e eu te aceitei como minha parceira. Nós somos iguais.

Kelek parou de comer, até engasgou-se e Cipriano custou a crer que a via ruborizar.

– Kelek tem medo. Mestre pode não gostar de Kelek. Kelek diferente de mestre. Kelek tem outra face que mestre não viu.

Um barulho e uma confusão na rua chamou a atenção do jovem casal. Era Apolônio, com um grupo de sacerdotes do Deus Cadáver, causando tumulto e briga com os vizinhos, tudo por causa de Cipriano e Kelek. Para os sacerdotes do deus cadaver, tudo que for diferente do que crêem ou diferente do que conceituam como Deus, eles dizem que é maligno. Cipriano era chamado de bruxo e amante do Diabo. Kelek era chamada de filha de Satan. Para defender seus pais e a sua casa, Cipriano desceu e enfrentou os agressores, homens fortes e armados, que não tiveram misericórdia ou compaixão, atacaram e feriram Cipriano.

A ferida não era muito profunda ou forte, mas o impacto fez com que Cipriano ficasse desacordado e sangrando. Kelek viu seu amado caindo no chão, desacordado. Ela então liberou toda sua fúria. Em instantes, aumentou de tamanho, seus pelos cobriram novamente seu corpo, chifres e garras apareceram. Muitos dos sacerdotes cairam feito moscas, suas vidas ceifadas de muitas formas, mas outros tinham um aparato que os deixava protegidos do ataque de Kelek e podiam atacá-la. O aparato era um artefato místico que havia sido consagrado pelas artes da Goecia, magia negra e apenas isto podia machucar Kelek. Os sacerdotes também não tiveram misericórdia ou compaixão, por Kelek, na verdade, tiveram muito prazer em atacá-la e machucá-la. Kelek também caiu ao chão e estava entregando sua vida aos Senhores do Orco quando Cipriano ressurgiu, avançou, desafiou e venceu os sacerdotes, quebrando os artefatos que carregavam.

– Kelek, eu vi sua outra face. Eu te acho linda em todas as suas faces. Agora que eu não sou mais humano, Kelek vai me aceitar como seu marido?

Kelek ficou constrangida. Ela não havia percebido o quanto Cipriano havia mudado. Ambos tinham dormido juntos, feito amor juntos, morderam-se, arranharam-se, lamberam o sangue um do outro. Cipriano nunca havia pertencido a mundo algum, agora ainda mais, pois tornara-se um ser que vivia no limiar entre humano e daemon.

– Kelek aceita Cipriano como marido.

Uma semana depois celebraram sua união, na entrada da mesma caverna onde se conheceram, abençoados por sacerdotes humanos e sobrehumanos. Naquele dia, todas as igrejas dos sacerdotes do Deus Cadaver ficaram em chamas e a região inteira ficou livre de tal praga.

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