Arquivo mensal: maio 2014

Meu daimon – VIII

Cipriano acordou no dia seguinte, dolorido, mordido, arranhado. Na primeira vez sentiu medo, mas agora estava ficando acostumado e ele também começou a arranhar e morder Kelek. Ele percebeu algumas mudanças em seu corpo e em seu apetite. Enquanto Kelek ressoava, satisfeita, cabelos desgrenhados, arranhada, mordida e preenchida com a seiva de Cipriano, este desceu e foi preparar o café da manhã. Ambos ainda moravam com os pais de Cipriano, mas o jovem fez questão de fazer ele mesmo o desjejum e levar até a cama onde Kelek ainda dormia.

– Ei, dorminhoca! Bom dia! Acorde para tomar o café da manhã.

Com preguiça, Kelek ergue o corpo da cama, esfrega os olhos e vê uma mesa móvel com um prato com queijo, frutas, presunto, pães e vinho. Sorriu e foi se servindo, sem esquecer de deixar Cipriano se servir.

– Mestre alimenta Kelek. Mestre bom.

– Kelek, nós vamos viver juntos não como mestre e daemon, mas como homem e mulher. Então, por favor, pare de me chamar de mestre. Eu não sou seu dono. Nunca fui. Você me aceitou como seu parceiro e eu te aceitei como minha parceira. Nós somos iguais.

Kelek parou de comer, até engasgou-se e Cipriano custou a crer que a via ruborizar.

– Kelek tem medo. Mestre pode não gostar de Kelek. Kelek diferente de mestre. Kelek tem outra face que mestre não viu.

Um barulho e uma confusão na rua chamou a atenção do jovem casal. Era Apolônio, com um grupo de sacerdotes do Deus Cadáver, causando tumulto e briga com os vizinhos, tudo por causa de Cipriano e Kelek. Para os sacerdotes do deus cadaver, tudo que for diferente do que crêem ou diferente do que conceituam como Deus, eles dizem que é maligno. Cipriano era chamado de bruxo e amante do Diabo. Kelek era chamada de filha de Satan. Para defender seus pais e a sua casa, Cipriano desceu e enfrentou os agressores, homens fortes e armados, que não tiveram misericórdia ou compaixão, atacaram e feriram Cipriano.

A ferida não era muito profunda ou forte, mas o impacto fez com que Cipriano ficasse desacordado e sangrando. Kelek viu seu amado caindo no chão, desacordado. Ela então liberou toda sua fúria. Em instantes, aumentou de tamanho, seus pelos cobriram novamente seu corpo, chifres e garras apareceram. Muitos dos sacerdotes cairam feito moscas, suas vidas ceifadas de muitas formas, mas outros tinham um aparato que os deixava protegidos do ataque de Kelek e podiam atacá-la. O aparato era um artefato místico que havia sido consagrado pelas artes da Goecia, magia negra e apenas isto podia machucar Kelek. Os sacerdotes também não tiveram misericórdia ou compaixão, por Kelek, na verdade, tiveram muito prazer em atacá-la e machucá-la. Kelek também caiu ao chão e estava entregando sua vida aos Senhores do Orco quando Cipriano ressurgiu, avançou, desafiou e venceu os sacerdotes, quebrando os artefatos que carregavam.

– Kelek, eu vi sua outra face. Eu te acho linda em todas as suas faces. Agora que eu não sou mais humano, Kelek vai me aceitar como seu marido?

Kelek ficou constrangida. Ela não havia percebido o quanto Cipriano havia mudado. Ambos tinham dormido juntos, feito amor juntos, morderam-se, arranharam-se, lamberam o sangue um do outro. Cipriano nunca havia pertencido a mundo algum, agora ainda mais, pois tornara-se um ser que vivia no limiar entre humano e daemon.

– Kelek aceita Cipriano como marido.

Uma semana depois celebraram sua união, na entrada da mesma caverna onde se conheceram, abençoados por sacerdotes humanos e sobrehumanos. Naquele dia, todas as igrejas dos sacerdotes do Deus Cadaver ficaram em chamas e a região inteira ficou livre de tal praga.

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Meu daimon – VII

Quando Cipriano chegou em casa com Kelek transformada a mãe dele, Leucoetea, estranhou mas ficou feliz por Cipriano finalmente trazer uma garota para casa, para ser apresentada à família.

– Filho, quem é essa formosa dama?

– Mãe, essa é a Kelek!

– Nossa, como você mudou! Se você quiser, Kelek, eu tenho algumas túnicas que podem servir em você.

– Kelek gosta segunda pele. Kelek aceita oferta de senhora.

Tertuliano chegou vendo a cena inusitada na mesa de jantar, com sua esposa conversando com uma garota que ele nunca tinha visto antes e Cipriano.

– Ora, ora! Cipriano mal fez os votos no templo de Juventa e está trazendo sua namoradas para casa? Quem é a garota, Cipriano?

– Pai, essa é a Kelek!

– Entendo. Filho, você gosta de Kelek?

– Sim, meu pai.

– Kelek, você gosta de Cipriano?

– Kelek gosta muito de mestre.

– Nesse caso, eu lhes dou minha benção. Meu amor, precisamos combinar um dia para unir os dois diante de Juno. Cipriano e Kelek, sejam muito felizes juntos!

Meu daimon – VI

Cipriano arrumou-se com sua melhor túnica e saiu à rua, acompanhado de Kelek, que andava com seus quatro membros ao lado de Cipriano, sem roupas humanas, com todo aquele pelo negro ela mais parecia um cachorro grande. Alguns velhos pragejavam nas esquinas dizendo que um cachorro deve andar com coleira. Cipriano não atinava, pois para ele Kelek era uma garota peluda.

Diante do templo de Juventa Cipriano encontrou Helena, uma amiga de infância. Ela ficou assustada com Kelek, mas gostava muito de Cipriano. O convidou para uma conversa particular. Cipriano levou Kelek por que ele não queria que tivesse segredos entre eles.

– Cipriano, hoje nós entramos para a vida adulta. Eu queria que soubesse que eu te amo. Aceite-me como sua mulher.

Helena abriu seu roupão mostrando seu corpo jovem em formação, os quadris curvilíneos, os seios firmes e suas coxas esculturais como colunas e seu arbusto de pelos negros. Cipriano gostava de Helena também e teve a reação que qualquer homem teria diante da nudez de uma mulher. Kelek nada disse, apenas observou curiosa. Saindo do templo, Apolônio, um rival de Cipriano, que trabalhava com os estranhos sacerdotes do Deus Cadáver, não gostou de ver Helena entregando-se a Cipriano. Ignorando a presença de Kelek, o empurrou com força.

– Saia daqui, Cipriano! Você ainda é criança! Helena deve ter um homem! Saia daqui e leve esse seu cachorro feio!

Kelek não gostou de ver seu mestre machucado. Colocou-se em pé, sobre suas pernas e esmurrou Apolônio, jogando-o longe, para o outro lado da rua. Helena, assustada em ver Kelek sobre duas pernas, como humanos, saiu correndo. Cipriano olhou para a cena, mas não repreendeu Kelek.

– Venha, Kelek, nós temos que entrar no templo de Juventa. Eu quero ser homem.

Ambos entraram no templo, sem que os sacerdotes protestassem com a presença de Kelek. Diante da estátua de Juventa, Cipriano ofertou seu brinquedo mais querido, sua velha túnica e seu cabelo cortado e enfaixado com uma fita vermelha. Kelek observou em silêncio e com respeito. Assim que saíram, Kelek resolveu falar.

– Mestre é homem. Desde que nasceu, mestre é homem. Kelek não entende templo. Vazio. mestre deve ofertar a alguém presente. Kelek gosta mestre. Pode ensinar a evocar Deus. Mestre ama Helena? Kelek tem mesma coisa que Helena. Kelek pode cortar pelo como mestre fez.

Usando suas garras, Kelek debasta seu pelo até restar uma cabeleira sobre sua cabeça e uma touçeira entre suas pernas. Cirpiano ruborizou ao ver Kelek, idêntica a uma garota.

– Kelek, se quer andar como humanos, deve usar uma segunda pele, como eu. Vamos, eu acho que podemos achar uma túnica feminina para você no templo de Juventa.

Andaram ao redor do templo de Juventa e encontraram, como se fosse uma benção da Deusa, uma toga feminina aos pés da estátua da Deusa. A toga milagrosamente serviu perfeitamente para Kelek. Cipriano ficou feliz em ver Kelek parecer mais humana, mas achou por bem não fazer pouco dela em dizer que aquele era um presente de Juventa.

Mate seus sonhos

Nós viemos a este mundo tendo várias restrições, começando pelo limite do corpo material. Pelo nosso próprio desenvolvimento em sociedades, vieram as restrições culturais, que existem apenas para um grupo, uma época, um local, uma religião. Mas guardamos muitas memórias de nossa origem no mundo divino, quando habitávamos na plenitude e passamos por este mundo carnal sonhando em retomar esse estado de beatitude eterna.

Sonhamos com vidas melhores e aceitamos nos manter subordinados a um governo que há tempos não nos representa. Sonhamos com realização pessoal e profissional e nos acovardamos, preferindo viver uma vida virtual, personagens virtuais, ao invés de aplicar na vida real o esforço e dedicação que emprestamos a nossos avatares. Sonhamos com influência e riqueza, quando a riqueza verdadeira é a natureza e os nossos corpos. O poder deveria ser do indivíduo e da comunidade, mas nos dispresamos em teorias esdrúxulas e utopias impossíveis. Sonhamos com amor, sexo e relacionamento, sem nos darmos conta de que todo tabu, limite e proibição existe apenas porque cremos nelas. Idealizamos um corpo ideal, masculino ou feminino, mas na realidade, na sociedade, elogiamos um tipo de estética histérica e histriônica.

Por sermos incapazes, inventamos doutrinas, teorias, fetiches, para nos conformar, nos acomodar, nos controlar. Eu poderia ser um herói, a mulher poderia ser uma súcubo, mas nos contentamos com vidas medíocres.

Basta de sonhos. Mate seus sonhos. Saia da vida virtual, saia do mundo da utopia. Viva aquilo que você deseja, seja aquilo que você quer ser.

Meu daimon – V

Cipriano acordou no dia seguinte com Kelek aconchegada ao seu lado. Sua cama estava bem bagunçada e com sinais de que ele teve um contato bem íntimo com Kelek. Sentindo seu corpo dolorido, com arranhões e mordidas, Cipriano levantou, sentindo as pernas bambas, mas decidido a ir à cozinha para o café da manhã, sacudiu Kelek.

– Oi Kelek. Bom dia. Vamos tomar banho antes do café?

– Banho? Kelek não sabe se banho é bom.

– Venha comigo. Você vai gostar.

Curiosa e interessada que Kelek era em aprender tudo sobre os hábitos humanos, ela segue Cipriano até uma banheira escavada em um tronco de árvore. Cipriano pega água do fogareiro e põe na banheira, completando com água tépida dos vasos. Em seguida, pega o sabão, tira a túnica e entra na banheira.

– Venha! A água está ótima!

Kelek olha com um pouco de desconfiança, aproxima, toca a superfície da água com seus dedos. Cipriano oferece um pouco de sabão para ela cheirar, para tentar tranquilizá-la. Kelek abre um sorriso e pula dentro da banheira.

– Banho bom. Sabão cheiroso.

Conforme se banham e se esfregam, as brincadieras acabam provocando outra ereção em Cipriano que é imediatamente aproveitado por Kelek. Inclusive com arranhões e mordidas. Quando acabaram, Cirpiano saiu primeiro e mostrou a Kelek a toalha para se secar, pente, perfume. Kelek imitava tudo o que Cipriano fazia e sorria satisfeita.

– Agora nós podemos comer o café da manhã.

– Kelek com fome.

Leucoetea, a mãe de Cipriano gostou de ver seu filho e seu daemon se darem tão bem. Colocou na mesa bastante leite, pão, queijo, presunto, biscoitos. Cirpiano comia, Kelek imitava.

– Queridos, assim que acabarem não esqueçam que hoje o Cipriano tem que ir ao templo de Juventas para ofertar seus brinquedos e sua velha túnica.

Meu daimon – IV

Cipriano voltou alegre para seu lar, acompanhado de Kelek, que observava tudo com curiosidade e interesse. Anoitecia, então Cipriano tratou de trocar suas vestes, quando se lembrou que agora tinha uma companhia.

– Kelek, você se importa se eu trocar de roupa?

– Kelek não sabe o que é roupa.

– Esse pano que uso por cima do meu corpo. Eu tenho que tirar esse e colocar outro.

– Trocar de pele? Muito trabalho. Kelek vive e dorme com mesma pele.

– Então Kelek não vai ficar envergonhada ou brava comigo se eu “trocar de pele”?

– Kelek quer ver mestre trocando pele.

Meio envergonhado, Cipriano tira sua túnica que usa durante o dia e coloca pouco mais que uma faixa ao redor dos quadris. Kelek não deixa de observá-lo, com atenção, curiosidade e interesse.

– Corpo do mestre bom, forte. Não tem pelo. Tem apenas um pedaço pendente. Corpo do mestre bom.

– Ahm…você deve estar falando do meu trabuco, Kelek. Não era para você ver. Eu fiquei envergonhado.

– Trabuco do mestre? Kelek viu muitos trabucos no Orco. Kelek gosta mais trabuco mestre. Por que mestre envergonhado? Trabuco bom.

– Eu fui educado assim Kelek. A moral diz que eu só posso mostrar o meu trabuco apenas para garota que eu estiver amando.

O daemon feminino ficou com sua negra pelagem eriçada e seus rubros olhos brilharam. Cipriano acha que viu um rubor na face de Kelek.

– Mestre gosta de Kelek? Kelek gosta mestre. Kelek mostra sua concha para mestre.

A criatura afasta algumas mechas do seu pelo na parte intima revelando uma entrada tão normal e comum como de qualquer garota humana. Cipriano tem a reação que qualquer homem teria em ver as partes íntimas de uma mulher. Tendo o corpo nu, a ereção ficou ainda mais evidente. A criatura observa, com atençâo especial.

– Mestre quer concha Kelek? Kelek quer trabuco do mestre. Mestre quer amar Kelek?

Apesar do recato e da vergonha, Cipriano vivia em um tempo feliz onde o contato físico entre homem e mulher era algo normal, natural e saudável. A criatura parecia muito uma garota peluda. Cipriano fez aquilo que parecia inevitável. Deitou-se em seu catre e chamou Kelek para compartilhar o leito com ele naquela noite.

Meu daimon – III

Cipriano chegou acompanhado de seus pais e sua avó na Casa di Averno, uma gruta na base das Estepas de Belchite, cuja entrada era resguardada por colunas, arcos, muros e outras construções em ruínas. Diante de uma ara, onde resquícios de muitos rituais repousavam ao redor, dona Serena, chamada Nona Guardia, colocou um cálice de porcelana, duas velas, um incensário. Tertuliano cuidou de amarrar um carneiro jovem. Leucoetea cuidou da bacia de oferenda e de manter a pira acesa. A avó de Cipriano entoou um cântico em uma língua desconhecida, mas que soava familiar para a alma do jovem.

– Agora, queridos, chamem pelos seus ancestrais. Depois nossos ancestrais trazem os daemons e Cirpiano escolhe ou sente aquele que for mais adequado a ele.

Tertuliano entoou os nomes de sua descendência até a sétima geração. Não demorou para aparecerem muitos dos fantasmas com seus daemons. Leucoetea entoou os nomes de sua descendência até a sétima geração. Não dmeorou para aparecerem muitos dos fantasmas com seus daemons.

– Agora é contigo, Cipriano. Olhe bem, sinta, escolha.

Cipriano andou por entre figuras tão distintas, alguns daemons pareciam guerreiros grandes e poderosos, outros pareciam antigos sábios e doutores. Andou até a beira da gruta e, ali escondido na sombra, ele viu pequenos olhos vermelhos. Como tivesse sido chamado, Cipriano aproximou-se para ver de quem eram tais olhos. Viu uma criatura pequena, acanhada, coberta por um longo e grosso pelo negro. Sentindo compaixão, Cipriano tentou conversar com a criatura.

– Olá, meu nome é Cipriano. Você veio com alguém? Você está sozinha? Eu gostaria que você fosse meu daemon, se você aceitar.

A criatura, olhou espantada para Cipriano. Então se ergueu, mostrando que era apenas um pouco menor do que Cipriano e parecia ser uma garota muito peluda. Chegou perto, olhou, cheirou, pegou no cabelo de Cipriano, tocou em seu braço.

– Kelek gosta jovem humano. Kelek fica jovem humano.