Culpado por amar – VI

Depois de banhado e alimentado, Nestor é colhido por Cluseau pelo braço, gentilmente, para que aguardasse no salão de visitas.

– La Reine virá em breve.

– Meu velho amigo, o que a rainha Helena da Prússia pode querer ter comigo?

– Ah! Ohohohoho! Mester Ornellas, o senhor não perdeu seu bom humor! Neste salão o senhor há de encontrar um bom suprimento de bebidas, sirva-se à vontade.

Cluseau deixou-o no luxuoso salão a sós, mas não por muito tempo. Com alarido, duas aias entraram, vistoriaram todo o salão, certificando-se que Nestor encontrava-se sozinho para somente então anunciar a chegada da dama.

– Ajoelhem-se todos e baixem as cabeças para La Reine, Princesa da Astúrias, Princesa de Hesse.

Nestor ajoelhou-se e baixou a cabeça por achar que estaria diante da herdeira da rainha Helena e por prudência. As aias aproximaram-se dele e, com gestos amáveis e suaves, o fizeram se erguer e olhar para a dama, sua amada duquesa de Varennes.

– Então Senhor Ornellas, como foi sua estadia em Desmoyne?

– Nada agradável, vossa majestade. Mas o pior castigo foi ser privado de vossa magnificência.

– Senhor Ornellas, nós lemos vosso confessionário. Estamos diante de duas testemunhas de virtude e caráter ilibado. Teria coragem e audácia de confirmar teu amor por nós?

– Sim, vossa majestade. Eu confesso. Eu sou culpado por amar.

– Não incomoda ao senhor ou lhe causa dores na consciência pela minha jovem constituição e pouca idade?

– Vossa majestade, eu posso enumerar uma lista de reis e rainhas que regeram mais jovens ainda e seus reinados foram mais memoráveis do que quando os regentes eram velhacos.

– O senhor está ciente que a atual Sociedade, o atual Estado e a atual Igreja não irão aceitar ou reconhecer tal amor?

– Estes são meras moscas diante da Eternidade e do Divino, vossa majestade. Nenhum possui a autoridade, a competência e a capacidade para ditar as coisas do amor.

– Então nos ensine, senhor Ornellas, o que é amor.

– Não cabe a mim ensinar a vossa graça aquilo que vos é próprio. O que pobres homens vêem é aparência e a aparência é uma ilusão. A idade é medida do corpo ou é mera ilusão de tempo? Quantos anos tem uma alma dentro de um corpo? Nós não podemos estar prisioneiros a este limite ilusório, vossa magnificência. Amor não vê o corpo, mas a alma. Mas como nós estarmos provisóriamente presos ao corpo, expressamos este amor pelo corpo. O contato físico, corporal, é uma ferramenta para transcender essa separação material ilusória e nos possibilitar sermos um, mais uma vez, como no início.

– Então aceite minha última ordem a ti, meu amor, remova suas cascas mortais, suas roupas, junte sua carne com a minha, voltemos à nossa essência divina e que nosso êxtase abençoe e liberte esse mundo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s