Culpado por amar – V

Nestor acordou no dia seguinte com uma enorme confusão e balbúrdia na prisão. Quando levantou-se notou que não apenas a nevasca havia cessado, como também o sol brilhava. Os tiros e explosões chegavam mais perto, os gritos tornavam-se mais ferozes e desesperados. Quando a porta de sua cela abriu, deparou-se com o diretor Donatien, sujo, despenteado, sem uniforme e coberto por fuligem e sangue.

– Venha comigo! Agora!

– Eu terei outra audiência no tribunal?

– Audiência? Suas piadas foram melhores, Ornellas. O senhor irá me acompanhar para garantir que eu saia vivo dessa prisão.

O diretor apontou o mosquete com uma mão enquanto com outra forçava Nestor a erguer-se e caminhar. Seja por fome, por frio ou por tortura, Nestor não tinha muita força para ficar em pé, menos ainda para caminhar, sendo que avançava um tanto quando Donatien o empurrava com o cano do mosquete. Mas não foram muito longe. Assim que chegaram em um dos muitos salões de ligação entre as alas, viram-se cercados por um exército cujo uniforme não era nem da Espanha nem da França.

– Parados! Os dois! Identifiquem-se!

De trás das fileiras de soldados, surge Laplace, fazendo as apresentações.

– Senhores, o cidadão com correntes e barbudo é Nestor Ornellas, aquele a quem viemos buscar. O outro senhor, mais atrás, evidentemente armado, é o diretor Donatien. A este, façam o que quiser. Senhor Ornellas, siga-me, o senhor está livre.

Nestor custuo a crer, mas foi se arrastando até seu advogado. Dois soldados do enigmático exército o ampararam e, servindo como muletas, o ajudaram a sair das entranhas de Desmoyne. Do lado de fora, a uma distância de cem metros, uma carruagem o aguardava. Assim que a carruagem partiu, uma enorme explosão terminou com o terror da prisão de Desmoyne.

– Laplace, o que significa isso? Aonde o senhor está me levando?

– Senhor Ornellas, vê como um único homem pode mudar uma situação desesperadora. Sim, senhor Ornellas, o senhor é culpado, culpado por amar e foi por sua culpa que tudo pode acontecer. Eu estou conduzindo o senhor ao destino que o senhor merece. Mas antes, o senhor será testado.

– Como? Que teste? Quem irá me testar?

– A jovem senhora, evidente. Ela o está aguardando em sua casa de campo. Eu devo acrescentar que ela está muito satisfeita com meu relato e muito ansiosa por vê-lo.

Algumas horas mais tarde, Nestor é deixado diante de uma mansão, em algum lugar entre França e Espanha, não muito longe da fronteira com a Prússia. Ao redor de toda a mansão haviam soldados com o mesmo uniforme dos que invadiram Desmoyne, o libertaram e demoliram o pesadelo.

– Oh! Mas que lástima! Monsieur Ornellas, o senhor precisa tomar um banho, trocar de roupa e jantar antes de falar com La Reine.

Nestor reconhece o velho Cluseau, o mordomo da casa da duquesa de Varennes, com quem ele adquiriu uma amizade.

– Que bom vê-lo novamente, Cluseau. Eu achei que fossemos apenas nos rever no outro mundo.

– Ah, que bobagem, mestre! O senhor irá me fazer chorar! Vamos, que La Reine não gosta de atrazos.

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