Culpado por amar – IV

– Estamos chegando a algo. O senhor conheceu a duquesa de Varennes. Como e por que surgiu a acusação contra o senhor de a ter seduzido e a desonrado?

– Chegamos aqui, se é que o senhor me entende. Como responsável pelo acordo entre Espanha e França, sendo a duquesa a personagem principal, era bastante lógico que eu e ela mantivéssemos contato, por muito tempo. Eu disse que criatura adorável é a duquesa? Eu não saberia fazer justiça a tal mulher. Pegue qualquer assunto, Laplace, que ela discutiria com o senhor com mais propriedade do que seu professor. Passeie por toda Paris, Laplace, mesmo por toda a Europa, jamais verá tal beleza. Participe de tantas reuniões com a mais alta nobreza da Europa, advogado, e nunca verá tanta postura e virtude.

– Então o senhor apaixonou-se pela duquesa. Como ficaram íntimos?

– Paixão é para fracos e meninos, Laplace. Homens amam. Apesar de ser imerecedor de estar em tão divina e sagrada companhia, eu compartilhei de suas inseguranças, medos, sonhos. Por graça, piedade, compaixão, destino, fortuna, ela encontrou uma alma gêmea nesse pobre miserável diante de ti. Então, senhor Laplace, os Portões do Paraíso se abriram para mim e eu imergi na Luz.

– Então o senhor não nega que teve contato físico com a duquesa?

– Contato físico, advogado? Nossas carnes tornaram-se um só ser. Isto eu não nego. O que eu nego é que eu a tenha desonrado. Amor nunca é desonroso.

– O senhor deve entender a posição que o senhor tomou. Ela devia casar-se com o conde de Voyeur. Intacta, virgem. Para o conde de Voyeur, a Igreja e as casas reais, o senhor desonrou a jovem duquesa.

– Desonra, caro advogado, é forçar uma alma tão sublime a viver feito escrava de um contrato por interesse.

– As coisas são como são, não como queremos que seja, senhor Ornellas. Principalmente se levarmos em conta a idade da duquesa.

– As coisas são como são, mas nós a queremos assim? Duvido. Mas veja bem que situação o senhor se colocou. Se a idade da duquesa é o problema, como podem querer casá-la? Se o casamento lhe é proibido por uma discriminação etária, então deixaria de existir a queixa contra mim, mas eis que aqui estamos nós.

– Senhor Ornellas, nossa posição e nossa vontade são ínfimas diante da autoridade daqueles que são nossos superiores. Tivéssemos o mesmo poder e influência, talvez tivéssemos discutindo estas coisas bebendo cerveja em um pub irlandês.

– Então o que o senhor veio fazer aqui, se nossa posição e vontade em nada conta?

– Simples, senhor Ornellas. O bispo de Voyeur contratou-me, isto é certo, mas não é a ele a quem eu devo subordinação. Vê que eu dou-lhe uma lição de casa, senhor Ornellas. A rainha Helena da Prússia apresentou sua filha ao conde e bispo de Voyeur. O conde e bispo de Voyeur, encantado com esse avatar da Deusa, rapidamente aceitou o acordo, fingindo estar interessado no casamento, mas seu alvo é o trono de Roma. Devidamente orientado e manipulado pela rainha Helena da Prússia, o conde e bispo de Voyeur o acusou de ter seduzido e desonrado a duquesa exatamente para forçar a Igreja a iniciar o processo. Os demais advogados eram realmente da Igreja, mas o Vaticano não é dono de toda a Igreja, senhor Ornellas. Eu sou um orgulhoso servidor de um setor progressista da Igreja. Sim, meu caro e miserável cliente, eu vim com um certo atraso, mas vim unicamente para certificar-me de seus sentimentos e intenções. Eu ouvi suas confissões, o destino e a fortuna mudaram de maré. Eu devo partir, mas o senhor deve aguardar meu retorno.

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