Culpado por amar – III

– Senhor Ornellas, essa postura não irá tirá-lo dessa prisão. Muitos, maiores e melhores do que nós, lutaram e pereceram diante da Igreja. Somar sua vida a uma pilha de mártires não tornará o senhor menos culpado nem menos miserável. Heróis e mártires não irão resolver os problemas da humanidade, o sacrifício deles é em vão. Então vamos retomar ao que interessa.

– O que pode ser mais importante do que o flagrante interesse da Igreja em condenar-me senão para expurgar, ocultar ou eliminar suas culpas? Senhor Laplace, sua função é totalmente desnecessária e infrutífera. Este processo é apenas uma fachada de legitimidade a negócios escusos.

– Isto é o que pretendo descobrir, provar e mostrar no tribunal, senhor Ornellas. Mas o senhor precisa colaborar e provar o que diz. O senhor refuta a acusação de ter seduzido e desonrado a duqueza de Varennes. Pode alegar ou provar que sequer a conhecia?

– Não, não posso. O senhor veja como é o desígnio do destino, da fortuna. Eu fui encarregado de cuidar do acordo entre espanha e França. Este acordo remetia a um casamento forjado entre o conde e bispo de Voyeur e a duqueza. O acordo foi forjado por ordem direta ou implícita da rainha Helena da Prússia. O objetivo é o de desafiar o trono de Roma e derrubar o Papa Filóstemo. Fora as implicações de incesto e linhagem, isto é suficiente para provocar uma guerra por toda a Europa.

– Quem lhe convocou para tal missão? Como essa missão colocou o senhor nessa posição desconfortável? Como esta missão envolveu a duquesa de Varennes?

– Quem, meu pobre advogado, senão seu patrão, o bispo de Voyeur? Foi ele quem me convocou, pelo nome da minha família e pelos laços de sangue que temos com a casa real da Espanha. Foi esse velho pervertido quem apresentou-me à duquesa de Varennes. O senhor a conheceu? Conversou com ela? Alguém perguntou à pobre moça o que ela quer? Não, ninguém perguntou e ela também é prisioneira.

– Vejo e percebo que o senhor fala com paixão quando se refere à duquesa, então eu tenho que presumir que exista algum sentimento entre os dois.

– E eu vejo que o senhor não a conheceu nem conversou com ela. Senhor Laplace, alguma vez conheceu uma mulher? Eu tive a felicidade ou a maldição de conhecer esta. Uma criatura adorável, imerecedora de ser vendida como gado a troco de um acordo sórdido. Ninguém merece ser vendido ou escravizado em nome da pátria, da família, da Igreja, seja do que for. Casamento, meu caro Laplace, não é nada mais do que uma venda, um contrato de escravidão, protegido, instituído e mantido pelo Estado, pela Sociedade, pela Igreja.

– Então o senhor é contra os laços sagrados do casamento?

– Eu sou contra chamar de casamento a essa política que obriga as pessoas a se unirem contra sua vontade, contra seu coração, contra sua liberdade. Casamento, da forma como é entendido e permitido pela sociedade, não passa de escravidão, onde um torna-se propriedade de outrem.

– Então qual devia ser a forma como dois indivíduos devam tornar-se um?

– Da forma mais simples, normal e natural possível, senhor Laplace. Instituições tornam-se desnecessárias, cerimônias tornam-se obsoletas, permissões tornam-se ridículas. Quando dois corpos decidem unir-se, coisa alguma pode impedir.

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