Culpado por amar – II

Laplace chega, enfim, ao seu destino e deixado com dois guardas, além de uma mesa e velas para escrever. Antes de sair, o diretor Donatien tenta provocá-lo.

– Então, doutor da Igreja, este é o dito. Antes do senhor, dez enlouqueceram e agora são nossos “hóspedes”. Dessa forma, eu não te digo boa sorte, mas até breve, com cadeias em mãos.

Laplace não se perturba, ele ouviu coisas bem piores de seus superiores.

– Senhor Donatien, se eu for bem sucedido, eu penso que é bem provável que venha a ser o senhor a tornar-se um “hóspede” de Desmoyne.

– Hah! Pelo visto o senhor não conheceu o caso. Hahahahah!

Donatien volta pelos corredores, deixando sua risada sarcástica ressoar pelas galerias da prisão. Aliviado de se ver livre de tal bufão, Laplace põe-se a trabalhar. Abre sua pasta com os testemunhos e pareceres dos curas da Igreja. Toma uma folha em branco, prepara sua pena e tinteiro. Tudo pronto, chama por seu cliente.

– Senhor Ornellas, eu sou Laplace. O bispo de Voyeur nomeou-me como seu defensor. Eu tenho seu caso transcrito pelas mãos de meus antecessores e de seus confessores, mas eu prefiro iniciar do zero. Pode, por favor, aproximar-se das grades, apresentar-se e contar sua história?

– Laplace hem? O senhor deve estar pagando uma enorme penitência para ter pego meu caso. Bom, vamos começar do zero então. Eu sou Nestor Ornellas, nascido de Saragoça, filho da nobre família de Ornellas, primos da Casa Real da Espanha, Aragão e Castela. Nascido e criado em berço de ouro. Por capricho e ironia do destino ou fortuna, coube-me cuidar dos assuntos internos quanto ao acordo entre Espanha e França. Acordo a ser acertado pelos meios tradicionais, isto posto, que se trata de unir as casas e famílias reais pela união de um nobre com uma dama. O que ninguém me avisou é que haveria um terceiro nesse acordo, um alto signatário de Roma . Foi por eu saber o que sei e ser quem o alto signatário é hoje que eu estou preso em Desmoyne. Ou seja, senhor Laplace, um caso perdido.

– Então o senhor nega as acusações de ter seduzido a duquesa de Varennes e de tê-la desonrado antes de sua união com o fidalgo conde de Voyeur?

– O senhor não fez a lição de casa. O conde de Voyeur é seu patrão, o bispo de Voyeur que, no momento, procura uma forma de tirar o atual Papa do trono de Roma. A duquesa de Varenne, veja só que coisa, é filha do Papa Filóstemo com ninguém menos do que a Rainha Helena da Prússia, um império que tem sonhos de conquistar a Espanha e a França. O senhor tem certeza de que quer continuar?

– Senhor Ornellas, nós não estamos em posição para questionar ou discutir as ordens da Igreja. O que o senhor alega não faz o menor sentido. Como o bispo de Voyeur pode subir ao trono de Roma casando-se com a suposta filha ilegítima do atual Papa?

– Como vocês franceses falam mesmo? Serches la famme. A rainha Helena sem dúvida quer dar uma lição ao seu amante ingrato, jogando Espanha contra França, colocando o exército da Prússia nas fronteiras e ameaçando revelar ao mundo católico as coisas que sua amada Igreja vem fazendo por detrás das cortinas.

– Senhor Ornellas, eu sou um mero funcionário a soldo da Igreja, eu não sou católico e, como o senhor, não tenho coisa alguma com o que padres fazem na sacristia.

– Mas tem, senhor Laplace. O senhor diz que não estamos em posição para questionar ou discutir as ordens da Igreja. Por que não? Os inúmeros atos sórdidos que o senhor deve ter ajudado a escamotear colocam em risco a suposta autoridade moral, política e espiritual da Igreja. O senhor tem certeza de que quer continuar?

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