Culpado por amar – I

Inverno é uma estação fria, mas o outono na prisão Desmoyne o frio é mais intenso. Naquela tarde cinzenta pela nevasca que caía na região, uma figura toda encapotada aciona o sino na imensa e pesadíssima porta de ferro na entrada da prisão. O pobre vigia, quase congelado, debaixo de muitas peles, ajeita os óculos para tentar ver quem pode estar querendo entrar na prisão mais temida de toda a Europa.

– Boa tarde, monsieur. Eu sou Laplace, o advogado da Igreja. Eu vim tratar do caso do monsieur Nestor Ornellas.

O vigia prageja no dialeto local e, com dificuldade por causa das luvas, abre com um som estridente a pequena porta lateral por onde entram funcionários, soldados e advogados. Laplace entra e quase agradece ao seu Deus estrangeiro quando a porta se fecha, deixando o inferno branco do outro lado da porta.

– Tome doutor. O senhor vai precisar.

O vigia estende uma caneca com um líquido cor de cobre, com um aroma que denuncia se tratar de um conhaque ou brandy. Laplace normalmente recusaria, mas o bispo de Voyeur certamente concordaria que mesmo o mais pio dos católicos mereceria um gole desses depois de passar uma hora de viagem na região do Cisne Azul. O líquido desce macio, quase imperceptível na língua, mas sobe quente e forte até a cabeça.

– Obrigado, senhor…hã…senhor Ridel. O diretor Donatien me aguarda.

– Por favor me siga. Ficar livre alguns minutos dessa torturante vigília é tudo que eu preciso.

Laplace segue Ridel por intermináveis corredores, atravessa diversas portas, salões, escadas até por fim ser apresentado ao diretor do presídio de Desmoyne. Um homem que parece ter sido de família nobre, provavelmente de Nisse, olhava Laplace com um ar de indiferença.

– Então o senhor que é o doutor da Igreja? Eu espero que o senhor saia melhor do que os outros dez que passaram por aqui. Sabe, o senhor deve estar pagando alguma penitência para ter vindo aqui tratar do caso de Nestor Ornellas.

– Senhor Donatien, nós não estamos em posição para questionar ou discutir as ordens da Igreja. Então, se não for pedir muito, deixe-me ver o apenado.

Donatien grunhiu, levantou-se de sua cadeira, chamou mais três guardas consigo e foi andando, sem sequer olhar ou falar qualquer coisa a Laplace. Acostumado a lidar com pessoas difíceis, especialmente quando são funcionparios do governo, Laplace segue o grupo logo atrás, sem parar diante das outras celas e sem falar com qualquer outro apenado. A população carcerária, evidente, fez um grande alarido e piadas sujas brotavam de todo canto mas de onde Laplace veio as crianças dizem coisas piores do que esses graçejos.

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