Arquivo mensal: abril 2014

Venera sama – IV

Tiros e explosões interrompem minha entrevista com nossa amada líder. Plamia sama entra na sala de conferências e  me fulmina com seu olhar matador.

– Kate, a White Light está nos cercando. Ei, você, brasileiro! Chega de folga! Ponha seu uniforme e apresente-se no batalhão!

– Imediatamente, Plamia sama. Ainda bem que eu deixei minhas duas katanas curtas junto com meu uniforme bem aqui ao lado.

Sai em disparada e esqueci meu gravador na mesa da sala de conferências.

– Eu não confio nesse brasileiro, Kate. Você sabe como são os brasileiros.

– Sim, latinos em geral são assim. Ou são falsos ou são leais. Esse aí me interessou quando passamos pelo Brasil por ser pagão.

– Kate, você não acha mesmo que ele pode incorporar o Deus das Florestas, acha?

– Vamos ver, Itsuka. Muitos poucos acreditariam que eu, por parecer uma menina de oito anos, possa ser um ente divino.

– Você é diferente, Kate. Qualquer idiota pode ver a estrela pairando em sua cabeça. Mesmo em sua forma de menina, qualquer idiota consegue sentir o poder que existe dentro de você.

– Vamos dar a ele uma oportunidade, Itsuka. Pode ser que na batalha ele mostre seu poder.

– Eu não gosto do jeito como ele olha pra você, Kate.

– Você está com ciúmes, Itsuka. Não fique, querida irmã. Eu te amo. Amor não tem limite, quantidade ou idade.

– Kaaateeee….

– Itsuka, agora não.

Eu deparo-me com as Forças Especiais de Toquio, comandadas por Kyoshiro Jimon, prefeito de Tóquio e pai de Asuta. Coincidência? Eu não acredito. Eu saco minhas katanas curtas de suas baionetas fixas em minhas costas. As metralhadoras não demoram a disparar suas rajadas mortíferas. Bombas de efeito moral e granadas são lançadas por todo o campo de batalha, acertando nossos bravos soldados. Minha prioridade é dar cobertura ao general Pepel, proteger o Professor Um e não atrapalhar a Roboko.  O embate segue duro, cruel e sangrento, eu vejo no flanco direito a ação da comandante Plamia sama e tento imitá-la no flanco direito, abatendo muitos soldados com suas patéticas e ineficazes metralhadoras. Estávamos indo bem, podíamos sentir o gosto da vitória. Um grito. Gelei. Quando olhei, a última coisa que lembro é ter visto minha comandante Plamia sama ferida.

Anúncios

Venera sama – III

– Fuaaa! Eu estou estufada. Asuta consegue ser melhor do que os cozinheiros que me serviam no meu palácio.

– A senhorita então tinha um palácio, um reino e servos?

– Presta atenção! Pare com perguntas simplórias. Evidente que eu tive um reino, um trono e servos. Isso foi há um bom tempo.

– Ai! Sim, Venera sama. Mas a senhorita podia contar um pouco sobre esse reino.

– Meu reino não é deste mundo. Hã…essa frase tem direitos autorais?

– Acredito que não, adorada Venera sama. Mas os cristãos podem reclamar.

– Pffft. Que reclamem. Eu irei conquistá-los também. Além do que o Deus dele quem roubou de mim o título de Estrela da Manhã, sendo que eu existia antes.

– Hã…Estrela da Manhã? Vênus? A senhorita é uma Deusa?

– Presta atenção! Acha que eu escolhi Venera sem motivo? Venera é Vênus em russo e sim, eu sou o que vocês humanos chamam de Deusa, Lucifer.

– Ai! Sim, Venera sama. Mas Lucifer tem um significado diabólico.

– Apenas para as mentes pequenas dos humanos. Lucifer, aquele que porta a Luz, quem trouxe à humanidade o Fogo dos Deuses. Como isso pode ser demoníaco? Diabólico é um Deus que põe em seu jardim uma árvore do conhecimento apenas para ter o prazer sádico de proibir, sabendo que suas criaturas não conseguiriam obedecer a seus designios tão arbitrários.

– Então a senhorita é Deusa e Diabo?

– Presta atenção! Eu sou um ser que está acima dessas classificações e idiossincrasias humanas.

– Ai! Sim, Venera sama. Mas essa aparência de uma menina de oito anos não atrapalha em seu objetivo de conquistar o mundo?

– Sim, atrapalha porque reles humanos como o senhor vê apenas a aparência. Eu escolhi esta aparência e este corpo exatamente para mostrar o quanto a humanidade é arrogante, presunçosa, prepotente e preconceituosa. Ou o senhor é daqueles que acha que existe faixa etária?

– Não, não, não! Venera sama, eu a amo. Tanto que estou escrevendo um blogue para falar da Sociedade Zvezda. Eu sou totalmente contra a discriminação etária. Uma pessoa é uma pessoa, independente de sua idade cronológica.

– Otimo. Senão eu não teria mais utilidade para o senhor. Eu percebo que “grande pensador” é um evidente exagero. O mesmo pode se dizer de “escritor”. Então resta saber se me será util em incorporar o Deus das Floresta, como o senhor diz que faz, para que eu possa gerar uma longa descendência.

Venera sama – II

– Venera sama, como a senhorita formou a Sociedade Zvezda?

– Primeiro eu recrutei Goro Shikabane, que trouxe sua filha com ele. Itsuka tinha mais ou menos nove anos quando eu os encontrei. Infelizmente Goro acabou também trazendo o Yasu, pela ligação que ambos tinham na Yakusa.

– Hã…a senhorita está se referindo a General Pepel e Plamia sama? Ela parece ter dezenove anos.

– Presta atenção! Eu não escolhi parecer com uma criança de oito anos. Eu sou bem mais velha do que Goro, em termos humanos. Ter o poder tem consequências.

– Ai! Sim, Venera sama. Plamia sama tem sido condescendente comigo nos treinos com espada. E o Professor Um?

– A Natasha eu encontrei quando eu passei pelo leste europeu, pouco depois que o muro caiu. Ela parecia assustada, desamparada, desorientada e abandonada. Foi uma excelente aquisição para a Sociedade, uma vez que ela desenvolveu nossa biotecnologia.

– E quanto a Dva? Ele é um tipo de animal de estimação?

– No começo, sim. Foi muito engraçado como eu o recrutei. Depois ele mostrou suas habilidades e agradeçemos a ele pelas refeições.

– E a White Light? Como surgiu? Quando se enfrentaram pela primeira vez?

– Essa é uma pergunta dificil. Luzes e Sombras existem desde o início do Tempo. A White Light é uma organização contemporânea feita por seres humanos que tenta ocultar a Luz da humanidade.

– Hã…mas a organização é chamada de luz branca, não é uma contradição?

– Presta atenção! A humanidade não percebe a Luz, mas uma iluminação artificial. A White Light cega a humanidade com um facho de luz falso.

– Ai! Sim, Venera sama.

– Nosso primeiro embate foi pouco depois de nos instalarmos em Udogawa. Curiosamente foi assim que eu conheci Asuta.

– Falta falar sobre a senhorita. Qual sua origem? Seus pais?

– Presta atenção! Esta é uma informação sigilosa!

– Ai! Sim, Venera sama.

– Asuta está chamando. Vamos comer e depois continuamos. De barriga cheia pode ser que eu mude meu humor e te conte algo.

Carta dos Direitos Sexuais

Os seres humanos têm o direito a ter necessidades. Esta simples afirmação tem sido uma base natural para a nossa consciência crescente como uma espécie que todos nós merecemos respeito. Nossa consciência sobre a necessidade de tratar as pessoas com respeito aos seus direitos cresceu inexoravelmente. Esses direitos são verdades universais para todas as pessoas, em todos os lugares, para todos os tempos e esses direitos nos pertencem, os governos reconhecendo-os ou não. Da mesma forma que temos os direitos político, direitos sociais e mesmo direitos físicos, nós temos direitos sexuais que incluem:
1. O direito de ser um ser sexual: ter sentimentos sexuais, pensamentos sexuais e se envolver em fantasias sexuais, comportamentos e conversa s sexuais consensuais.
2. O direito ao seu próprio senso de humor e brincadeiras sobre a sexualidade.
3. O direito de ler e receber informações sexuais que é apropriado para a minha idade e necessidades.
4. O direito de ser aceito e protegido como um ser sexual (incluindo o meu sexo, pensamentos e preferências), por toda a minha comunidade.
5. O direito à educação e o acesso religioso que afirma, apoia e respeita a minha sexualidade.
6. O direito de estar protegido de atenção, palavras e atos sexuais indesejados, incluindo a invasão da minha privacidade.
7. O direito de avaliar por si mesmo os potenciais parceiros para compatibilidade sexual e casamento.
8. O direito de mudar meus pensamentos ou qualquer aspecto da minha sexualidade.
9. O direito de divulgar qualquer aspecto da minha sexualidade no meu próprio critério, incluindo os meus pensamentos privados, sentimentos e comportamentos.

Traduzido do Sexual Futurist.

Venera sama – I

– Então, Beto, você acha que o público está pronto para saber de como me encontrou?

– Não, Venera sama. Em Udogawa talvez, mas não em São Paulo. Mesmo assim eu quero contar essa história.

– Bom, o blogue é seu, o pescoço também. Desde que isto não interfira nem atrapalhe em suas funções em nossa Sociedade, eu concordo.

– Talvez seja interessante explicar para os leitores como separar o anime da Sociedade.

– Isso é simples. Com tantos filmes no cinema, deve ser fácil perceber que existem personagens, reais e fictícios, dentro e fora da tela.

– Então Hoshimiya Kate é uma atriz, enquanto a pessoa real é Venera sama?

– Preste atenção! Eu sou Kate e Venera! Eu deixei ser filmada para o anime para que todos ouvissem e soubessem da minha mensagem!

– Ai! Sim, Venera sama, eu sei, mas os leitores não sabem. A senhorita pode resumir sua mensagem ao mundo?

– Que a Luz de Zvezda brilhe por todo mundo. Não é muito dificil.

– Mas e a conquista do mundo?

– Que gente dificil. Isso também é simples. O mundo deve render-se a mim. Somente quando eu conqusitar o mundo é que haverá liberdade.

– Isso está confuso, Venera sama. Como o mundo pode ser livre se for conquistado?

– Preste atenção! O mundo está em confusão, guerras, violência, ódio e intolerância porque existem muitos líderes, cada um conduzindo as pessoas para direções e interesses contraditórios. Eu estou oferecendo ao mundo paz e verdadeira liberdade ao aceitar a mim como sua única líder.

– Ai! Sim, Venera sama. Como a senhorita pretende conquistar o mundo?

– Ai, ai. Mais uma pergunta simplória. O senhor tem certeza de que é um grande pensador? Eu conquistarei o mundo usando os soldados e os recursos da Sociedade Zvezda.

– Quais são os recursos e quantos membros tem a Sociedade?

– Isso é informação confidencial. As pessoas deviam primeiro ter a noção do meu poder.

– Qual é o seu poder, Venera sama?

– Pffft. Idiota! Não vê a estrela pairando acima de minha cabeça?

– Ai! Sim, Venera sama, eu vejo, mas e quanto a Galactika?

– Um dos meus recursos pessoais e privados. Mas eu posso manifestar meu poder por outros meios.

– E os kurukuru? São aliens?

– Presta atenção! Os kurukuru são um armamento militar biotecnológico que meros mortais não entenderiam.

– Ai! Sim, Venera sama. E seus comandantes?

– São humanos que me servem integral e totalmente, com felicidade, alegria e desapego. Cada um tem uma história, mas agora está na hora da minha soneca, depois continuamos.

Culpado por amar – VI

Depois de banhado e alimentado, Nestor é colhido por Cluseau pelo braço, gentilmente, para que aguardasse no salão de visitas.

– La Reine virá em breve.

– Meu velho amigo, o que a rainha Helena da Prússia pode querer ter comigo?

– Ah! Ohohohoho! Mester Ornellas, o senhor não perdeu seu bom humor! Neste salão o senhor há de encontrar um bom suprimento de bebidas, sirva-se à vontade.

Cluseau deixou-o no luxuoso salão a sós, mas não por muito tempo. Com alarido, duas aias entraram, vistoriaram todo o salão, certificando-se que Nestor encontrava-se sozinho para somente então anunciar a chegada da dama.

– Ajoelhem-se todos e baixem as cabeças para La Reine, Princesa da Astúrias, Princesa de Hesse.

Nestor ajoelhou-se e baixou a cabeça por achar que estaria diante da herdeira da rainha Helena e por prudência. As aias aproximaram-se dele e, com gestos amáveis e suaves, o fizeram se erguer e olhar para a dama, sua amada duquesa de Varennes.

– Então Senhor Ornellas, como foi sua estadia em Desmoyne?

– Nada agradável, vossa majestade. Mas o pior castigo foi ser privado de vossa magnificência.

– Senhor Ornellas, nós lemos vosso confessionário. Estamos diante de duas testemunhas de virtude e caráter ilibado. Teria coragem e audácia de confirmar teu amor por nós?

– Sim, vossa majestade. Eu confesso. Eu sou culpado por amar.

– Não incomoda ao senhor ou lhe causa dores na consciência pela minha jovem constituição e pouca idade?

– Vossa majestade, eu posso enumerar uma lista de reis e rainhas que regeram mais jovens ainda e seus reinados foram mais memoráveis do que quando os regentes eram velhacos.

– O senhor está ciente que a atual Sociedade, o atual Estado e a atual Igreja não irão aceitar ou reconhecer tal amor?

– Estes são meras moscas diante da Eternidade e do Divino, vossa majestade. Nenhum possui a autoridade, a competência e a capacidade para ditar as coisas do amor.

– Então nos ensine, senhor Ornellas, o que é amor.

– Não cabe a mim ensinar a vossa graça aquilo que vos é próprio. O que pobres homens vêem é aparência e a aparência é uma ilusão. A idade é medida do corpo ou é mera ilusão de tempo? Quantos anos tem uma alma dentro de um corpo? Nós não podemos estar prisioneiros a este limite ilusório, vossa magnificência. Amor não vê o corpo, mas a alma. Mas como nós estarmos provisóriamente presos ao corpo, expressamos este amor pelo corpo. O contato físico, corporal, é uma ferramenta para transcender essa separação material ilusória e nos possibilitar sermos um, mais uma vez, como no início.

– Então aceite minha última ordem a ti, meu amor, remova suas cascas mortais, suas roupas, junte sua carne com a minha, voltemos à nossa essência divina e que nosso êxtase abençoe e liberte esse mundo.

Culpado por amar – V

Nestor acordou no dia seguinte com uma enorme confusão e balbúrdia na prisão. Quando levantou-se notou que não apenas a nevasca havia cessado, como também o sol brilhava. Os tiros e explosões chegavam mais perto, os gritos tornavam-se mais ferozes e desesperados. Quando a porta de sua cela abriu, deparou-se com o diretor Donatien, sujo, despenteado, sem uniforme e coberto por fuligem e sangue.

– Venha comigo! Agora!

– Eu terei outra audiência no tribunal?

– Audiência? Suas piadas foram melhores, Ornellas. O senhor irá me acompanhar para garantir que eu saia vivo dessa prisão.

O diretor apontou o mosquete com uma mão enquanto com outra forçava Nestor a erguer-se e caminhar. Seja por fome, por frio ou por tortura, Nestor não tinha muita força para ficar em pé, menos ainda para caminhar, sendo que avançava um tanto quando Donatien o empurrava com o cano do mosquete. Mas não foram muito longe. Assim que chegaram em um dos muitos salões de ligação entre as alas, viram-se cercados por um exército cujo uniforme não era nem da Espanha nem da França.

– Parados! Os dois! Identifiquem-se!

De trás das fileiras de soldados, surge Laplace, fazendo as apresentações.

– Senhores, o cidadão com correntes e barbudo é Nestor Ornellas, aquele a quem viemos buscar. O outro senhor, mais atrás, evidentemente armado, é o diretor Donatien. A este, façam o que quiser. Senhor Ornellas, siga-me, o senhor está livre.

Nestor custuo a crer, mas foi se arrastando até seu advogado. Dois soldados do enigmático exército o ampararam e, servindo como muletas, o ajudaram a sair das entranhas de Desmoyne. Do lado de fora, a uma distância de cem metros, uma carruagem o aguardava. Assim que a carruagem partiu, uma enorme explosão terminou com o terror da prisão de Desmoyne.

– Laplace, o que significa isso? Aonde o senhor está me levando?

– Senhor Ornellas, vê como um único homem pode mudar uma situação desesperadora. Sim, senhor Ornellas, o senhor é culpado, culpado por amar e foi por sua culpa que tudo pode acontecer. Eu estou conduzindo o senhor ao destino que o senhor merece. Mas antes, o senhor será testado.

– Como? Que teste? Quem irá me testar?

– A jovem senhora, evidente. Ela o está aguardando em sua casa de campo. Eu devo acrescentar que ela está muito satisfeita com meu relato e muito ansiosa por vê-lo.

Algumas horas mais tarde, Nestor é deixado diante de uma mansão, em algum lugar entre França e Espanha, não muito longe da fronteira com a Prússia. Ao redor de toda a mansão haviam soldados com o mesmo uniforme dos que invadiram Desmoyne, o libertaram e demoliram o pesadelo.

– Oh! Mas que lástima! Monsieur Ornellas, o senhor precisa tomar um banho, trocar de roupa e jantar antes de falar com La Reine.

Nestor reconhece o velho Cluseau, o mordomo da casa da duquesa de Varennes, com quem ele adquiriu uma amizade.

– Que bom vê-lo novamente, Cluseau. Eu achei que fossemos apenas nos rever no outro mundo.

– Ah, que bobagem, mestre! O senhor irá me fazer chorar! Vamos, que La Reine não gosta de atrazos.