Arquivo mensal: abril 2014

Venera sama – IV

Tiros e explosões interrompem minha entrevista com nossa amada líder. Plamia sama entra na sala de conferências e  me fulmina com seu olhar matador.

– Kate, a White Light está nos cercando. Ei, você, brasileiro! Chega de folga! Ponha seu uniforme e apresente-se no batalhão!

– Imediatamente, Plamia sama. Ainda bem que eu deixei minhas duas katanas curtas junto com meu uniforme bem aqui ao lado.

Sai em disparada e esqueci meu gravador na mesa da sala de conferências.

– Eu não confio nesse brasileiro, Kate. Você sabe como são os brasileiros.

– Sim, latinos em geral são assim. Ou são falsos ou são leais. Esse aí me interessou quando passamos pelo Brasil por ser pagão.

– Kate, você não acha mesmo que ele pode incorporar o Deus das Florestas, acha?

– Vamos ver, Itsuka. Muitos poucos acreditariam que eu, por parecer uma menina de oito anos, possa ser um ente divino.

– Você é diferente, Kate. Qualquer idiota pode ver a estrela pairando em sua cabeça. Mesmo em sua forma de menina, qualquer idiota consegue sentir o poder que existe dentro de você.

– Vamos dar a ele uma oportunidade, Itsuka. Pode ser que na batalha ele mostre seu poder.

– Eu não gosto do jeito como ele olha pra você, Kate.

– Você está com ciúmes, Itsuka. Não fique, querida irmã. Eu te amo. Amor não tem limite, quantidade ou idade.

– Kaaateeee….

– Itsuka, agora não.

Eu deparo-me com as Forças Especiais de Toquio, comandadas por Kyoshiro Jimon, prefeito de Tóquio e pai de Asuta. Coincidência? Eu não acredito. Eu saco minhas katanas curtas de suas baionetas fixas em minhas costas. As metralhadoras não demoram a disparar suas rajadas mortíferas. Bombas de efeito moral e granadas são lançadas por todo o campo de batalha, acertando nossos bravos soldados. Minha prioridade é dar cobertura ao general Pepel, proteger o Professor Um e não atrapalhar a Roboko.  O embate segue duro, cruel e sangrento, eu vejo no flanco direito a ação da comandante Plamia sama e tento imitá-la no flanco direito, abatendo muitos soldados com suas patéticas e ineficazes metralhadoras. Estávamos indo bem, podíamos sentir o gosto da vitória. Um grito. Gelei. Quando olhei, a última coisa que lembro é ter visto minha comandante Plamia sama ferida.

Venera sama – III

– Fuaaa! Eu estou estufada. Asuta consegue ser melhor do que os cozinheiros que me serviam no meu palácio.

– A senhorita então tinha um palácio, um reino e servos?

– Presta atenção! Pare com perguntas simplórias. Evidente que eu tive um reino, um trono e servos. Isso foi há um bom tempo.

– Ai! Sim, Venera sama. Mas a senhorita podia contar um pouco sobre esse reino.

– Meu reino não é deste mundo. Hã…essa frase tem direitos autorais?

– Acredito que não, adorada Venera sama. Mas os cristãos podem reclamar.

– Pffft. Que reclamem. Eu irei conquistá-los também. Além do que o Deus dele quem roubou de mim o título de Estrela da Manhã, sendo que eu existia antes.

– Hã…Estrela da Manhã? Vênus? A senhorita é uma Deusa?

– Presta atenção! Acha que eu escolhi Venera sem motivo? Venera é Vênus em russo e sim, eu sou o que vocês humanos chamam de Deusa, Lucifer.

– Ai! Sim, Venera sama. Mas Lucifer tem um significado diabólico.

– Apenas para as mentes pequenas dos humanos. Lucifer, aquele que porta a Luz, quem trouxe à humanidade o Fogo dos Deuses. Como isso pode ser demoníaco? Diabólico é um Deus que põe em seu jardim uma árvore do conhecimento apenas para ter o prazer sádico de proibir, sabendo que suas criaturas não conseguiriam obedecer a seus designios tão arbitrários.

– Então a senhorita é Deusa e Diabo?

– Presta atenção! Eu sou um ser que está acima dessas classificações e idiossincrasias humanas.

– Ai! Sim, Venera sama. Mas essa aparência de uma menina de oito anos não atrapalha em seu objetivo de conquistar o mundo?

– Sim, atrapalha porque reles humanos como o senhor vê apenas a aparência. Eu escolhi esta aparência e este corpo exatamente para mostrar o quanto a humanidade é arrogante, presunçosa, prepotente e preconceituosa. Ou o senhor é daqueles que acha que existe faixa etária?

– Não, não, não! Venera sama, eu a amo. Tanto que estou escrevendo um blogue para falar da Sociedade Zvezda. Eu sou totalmente contra a discriminação etária. Uma pessoa é uma pessoa, independente de sua idade cronológica.

– Otimo. Senão eu não teria mais utilidade para o senhor. Eu percebo que “grande pensador” é um evidente exagero. O mesmo pode se dizer de “escritor”. Então resta saber se me será util em incorporar o Deus das Floresta, como o senhor diz que faz, para que eu possa gerar uma longa descendência.

Venera sama – II

– Venera sama, como a senhorita formou a Sociedade Zvezda?

– Primeiro eu recrutei Goro Shikabane, que trouxe sua filha com ele. Itsuka tinha mais ou menos nove anos quando eu os encontrei. Infelizmente Goro acabou também trazendo o Yasu, pela ligação que ambos tinham na Yakusa.

– Hã…a senhorita está se referindo a General Pepel e Plamia sama? Ela parece ter dezenove anos.

– Presta atenção! Eu não escolhi parecer com uma criança de oito anos. Eu sou bem mais velha do que Goro, em termos humanos. Ter o poder tem consequências.

– Ai! Sim, Venera sama. Plamia sama tem sido condescendente comigo nos treinos com espada. E o Professor Um?

– A Natasha eu encontrei quando eu passei pelo leste europeu, pouco depois que o muro caiu. Ela parecia assustada, desamparada, desorientada e abandonada. Foi uma excelente aquisição para a Sociedade, uma vez que ela desenvolveu nossa biotecnologia.

– E quanto a Dva? Ele é um tipo de animal de estimação?

– No começo, sim. Foi muito engraçado como eu o recrutei. Depois ele mostrou suas habilidades e agradeçemos a ele pelas refeições.

– E a White Light? Como surgiu? Quando se enfrentaram pela primeira vez?

– Essa é uma pergunta dificil. Luzes e Sombras existem desde o início do Tempo. A White Light é uma organização contemporânea feita por seres humanos que tenta ocultar a Luz da humanidade.

– Hã…mas a organização é chamada de luz branca, não é uma contradição?

– Presta atenção! A humanidade não percebe a Luz, mas uma iluminação artificial. A White Light cega a humanidade com um facho de luz falso.

– Ai! Sim, Venera sama.

– Nosso primeiro embate foi pouco depois de nos instalarmos em Udogawa. Curiosamente foi assim que eu conheci Asuta.

– Falta falar sobre a senhorita. Qual sua origem? Seus pais?

– Presta atenção! Esta é uma informação sigilosa!

– Ai! Sim, Venera sama.

– Asuta está chamando. Vamos comer e depois continuamos. De barriga cheia pode ser que eu mude meu humor e te conte algo.

Carta dos Direitos Sexuais

Os seres humanos têm o direito a ter necessidades. Esta simples afirmação tem sido uma base natural para a nossa consciência crescente como uma espécie que todos nós merecemos respeito. Nossa consciência sobre a necessidade de tratar as pessoas com respeito aos seus direitos cresceu inexoravelmente. Esses direitos são verdades universais para todas as pessoas, em todos os lugares, para todos os tempos e esses direitos nos pertencem, os governos reconhecendo-os ou não. Da mesma forma que temos os direitos político, direitos sociais e mesmo direitos físicos, nós temos direitos sexuais que incluem:
1. O direito de ser um ser sexual: ter sentimentos sexuais, pensamentos sexuais e se envolver em fantasias sexuais, comportamentos e conversa s sexuais consensuais.
2. O direito ao seu próprio senso de humor e brincadeiras sobre a sexualidade.
3. O direito de ler e receber informações sexuais que é apropriado para a minha idade e necessidades.
4. O direito de ser aceito e protegido como um ser sexual (incluindo o meu sexo, pensamentos e preferências), por toda a minha comunidade.
5. O direito à educação e o acesso religioso que afirma, apoia e respeita a minha sexualidade.
6. O direito de estar protegido de atenção, palavras e atos sexuais indesejados, incluindo a invasão da minha privacidade.
7. O direito de avaliar por si mesmo os potenciais parceiros para compatibilidade sexual e casamento.
8. O direito de mudar meus pensamentos ou qualquer aspecto da minha sexualidade.
9. O direito de divulgar qualquer aspecto da minha sexualidade no meu próprio critério, incluindo os meus pensamentos privados, sentimentos e comportamentos.

Traduzido do Sexual Futurist.

Venera sama – I

– Então, Beto, você acha que o público está pronto para saber de como me encontrou?

– Não, Venera sama. Em Udogawa talvez, mas não em São Paulo. Mesmo assim eu quero contar essa história.

– Bom, o blogue é seu, o pescoço também. Desde que isto não interfira nem atrapalhe em suas funções em nossa Sociedade, eu concordo.

– Talvez seja interessante explicar para os leitores como separar o anime da Sociedade.

– Isso é simples. Com tantos filmes no cinema, deve ser fácil perceber que existem personagens, reais e fictícios, dentro e fora da tela.

– Então Hoshimiya Kate é uma atriz, enquanto a pessoa real é Venera sama?

– Preste atenção! Eu sou Kate e Venera! Eu deixei ser filmada para o anime para que todos ouvissem e soubessem da minha mensagem!

– Ai! Sim, Venera sama, eu sei, mas os leitores não sabem. A senhorita pode resumir sua mensagem ao mundo?

– Que a Luz de Zvezda brilhe por todo mundo. Não é muito dificil.

– Mas e a conquista do mundo?

– Que gente dificil. Isso também é simples. O mundo deve render-se a mim. Somente quando eu conqusitar o mundo é que haverá liberdade.

– Isso está confuso, Venera sama. Como o mundo pode ser livre se for conquistado?

– Preste atenção! O mundo está em confusão, guerras, violência, ódio e intolerância porque existem muitos líderes, cada um conduzindo as pessoas para direções e interesses contraditórios. Eu estou oferecendo ao mundo paz e verdadeira liberdade ao aceitar a mim como sua única líder.

– Ai! Sim, Venera sama. Como a senhorita pretende conquistar o mundo?

– Ai, ai. Mais uma pergunta simplória. O senhor tem certeza de que é um grande pensador? Eu conquistarei o mundo usando os soldados e os recursos da Sociedade Zvezda.

– Quais são os recursos e quantos membros tem a Sociedade?

– Isso é informação confidencial. As pessoas deviam primeiro ter a noção do meu poder.

– Qual é o seu poder, Venera sama?

– Pffft. Idiota! Não vê a estrela pairando acima de minha cabeça?

– Ai! Sim, Venera sama, eu vejo, mas e quanto a Galactika?

– Um dos meus recursos pessoais e privados. Mas eu posso manifestar meu poder por outros meios.

– E os kurukuru? São aliens?

– Presta atenção! Os kurukuru são um armamento militar biotecnológico que meros mortais não entenderiam.

– Ai! Sim, Venera sama. E seus comandantes?

– São humanos que me servem integral e totalmente, com felicidade, alegria e desapego. Cada um tem uma história, mas agora está na hora da minha soneca, depois continuamos.

Culpado por amar – VI

Depois de banhado e alimentado, Nestor é colhido por Cluseau pelo braço, gentilmente, para que aguardasse no salão de visitas.

– La Reine virá em breve.

– Meu velho amigo, o que a rainha Helena da Prússia pode querer ter comigo?

– Ah! Ohohohoho! Mester Ornellas, o senhor não perdeu seu bom humor! Neste salão o senhor há de encontrar um bom suprimento de bebidas, sirva-se à vontade.

Cluseau deixou-o no luxuoso salão a sós, mas não por muito tempo. Com alarido, duas aias entraram, vistoriaram todo o salão, certificando-se que Nestor encontrava-se sozinho para somente então anunciar a chegada da dama.

– Ajoelhem-se todos e baixem as cabeças para La Reine, Princesa da Astúrias, Princesa de Hesse.

Nestor ajoelhou-se e baixou a cabeça por achar que estaria diante da herdeira da rainha Helena e por prudência. As aias aproximaram-se dele e, com gestos amáveis e suaves, o fizeram se erguer e olhar para a dama, sua amada duquesa de Varennes.

– Então Senhor Ornellas, como foi sua estadia em Desmoyne?

– Nada agradável, vossa majestade. Mas o pior castigo foi ser privado de vossa magnificência.

– Senhor Ornellas, nós lemos vosso confessionário. Estamos diante de duas testemunhas de virtude e caráter ilibado. Teria coragem e audácia de confirmar teu amor por nós?

– Sim, vossa majestade. Eu confesso. Eu sou culpado por amar.

– Não incomoda ao senhor ou lhe causa dores na consciência pela minha jovem constituição e pouca idade?

– Vossa majestade, eu posso enumerar uma lista de reis e rainhas que regeram mais jovens ainda e seus reinados foram mais memoráveis do que quando os regentes eram velhacos.

– O senhor está ciente que a atual Sociedade, o atual Estado e a atual Igreja não irão aceitar ou reconhecer tal amor?

– Estes são meras moscas diante da Eternidade e do Divino, vossa majestade. Nenhum possui a autoridade, a competência e a capacidade para ditar as coisas do amor.

– Então nos ensine, senhor Ornellas, o que é amor.

– Não cabe a mim ensinar a vossa graça aquilo que vos é próprio. O que pobres homens vêem é aparência e a aparência é uma ilusão. A idade é medida do corpo ou é mera ilusão de tempo? Quantos anos tem uma alma dentro de um corpo? Nós não podemos estar prisioneiros a este limite ilusório, vossa magnificência. Amor não vê o corpo, mas a alma. Mas como nós estarmos provisóriamente presos ao corpo, expressamos este amor pelo corpo. O contato físico, corporal, é uma ferramenta para transcender essa separação material ilusória e nos possibilitar sermos um, mais uma vez, como no início.

– Então aceite minha última ordem a ti, meu amor, remova suas cascas mortais, suas roupas, junte sua carne com a minha, voltemos à nossa essência divina e que nosso êxtase abençoe e liberte esse mundo.

Culpado por amar – V

Nestor acordou no dia seguinte com uma enorme confusão e balbúrdia na prisão. Quando levantou-se notou que não apenas a nevasca havia cessado, como também o sol brilhava. Os tiros e explosões chegavam mais perto, os gritos tornavam-se mais ferozes e desesperados. Quando a porta de sua cela abriu, deparou-se com o diretor Donatien, sujo, despenteado, sem uniforme e coberto por fuligem e sangue.

– Venha comigo! Agora!

– Eu terei outra audiência no tribunal?

– Audiência? Suas piadas foram melhores, Ornellas. O senhor irá me acompanhar para garantir que eu saia vivo dessa prisão.

O diretor apontou o mosquete com uma mão enquanto com outra forçava Nestor a erguer-se e caminhar. Seja por fome, por frio ou por tortura, Nestor não tinha muita força para ficar em pé, menos ainda para caminhar, sendo que avançava um tanto quando Donatien o empurrava com o cano do mosquete. Mas não foram muito longe. Assim que chegaram em um dos muitos salões de ligação entre as alas, viram-se cercados por um exército cujo uniforme não era nem da Espanha nem da França.

– Parados! Os dois! Identifiquem-se!

De trás das fileiras de soldados, surge Laplace, fazendo as apresentações.

– Senhores, o cidadão com correntes e barbudo é Nestor Ornellas, aquele a quem viemos buscar. O outro senhor, mais atrás, evidentemente armado, é o diretor Donatien. A este, façam o que quiser. Senhor Ornellas, siga-me, o senhor está livre.

Nestor custou a crer, mas foi se arrastando até seu advogado. Dois soldados do enigmático exército o ampararam e, servindo como muletas, o ajudaram a sair das entranhas de Desmoyne. Do lado de fora, a uma distância de cem metros, uma carruagem o aguardava. Assim que a carruagem partiu, uma enorme explosão terminou com o terror da prisão de Desmoyne.

– Laplace, o que significa isso? Aonde o senhor está me levando?

– Senhor Ornellas, vê como um único homem pode mudar uma situação desesperadora. Sim, senhor Ornellas, o senhor é culpado, culpado por amar e foi por sua culpa que tudo pode acontecer. Eu estou conduzindo o senhor ao destino que o senhor merece. Mas antes, o senhor será testado.

– Como? Que teste? Quem irá me testar?

– A jovem senhora, evidente. Ela o está aguardando em sua casa de campo. Eu devo acrescentar que ela está muito satisfeita com meu relato e muito ansiosa por vê-lo.

Algumas horas mais tarde, Nestor é deixado diante de uma mansão, em algum lugar entre França e Espanha, não muito longe da fronteira com a Prússia. Ao redor de toda a mansão haviam soldados com o mesmo uniforme dos que invadiram Desmoyne, o libertaram e demoliram o pesadelo.

– Oh! Mas que lástima! Monsieur Ornellas, o senhor precisa tomar um banho, trocar de roupa e jantar antes de falar com La Reine.

Nestor reconhece o velho Cluseau, o mordomo da casa da duquesa de Varennes, com quem ele adquiriu uma amizade.

– Que bom vê-lo novamente, Cluseau. Eu achei que fossemos apenas nos rever no outro mundo.

– Ah, que bobagem, mestre! O senhor irá me fazer chorar! Vamos, que La Reine não gosta de atrazos.

Culpado por amar – IV

– Estamos chegando a algo. O senhor conheceu a duquesa de Varennes. Como e por que surgiu a acusação contra o senhor de a ter seduzido e a desonrado?

– Chegamos aqui, se é que o senhor me entende. Como responsável pelo acordo entre Espanha e França, sendo a duquesa a personagem principal, era bastante lógico que eu e ela mantivéssemos contato, por muito tempo. Eu disse que criatura adorável é a duquesa? Eu não saberia fazer justiça a tal mulher. Pegue qualquer assunto, Laplace, que ela discutiria com o senhor com mais propriedade do que seu professor. Passeie por toda Paris, Laplace, mesmo por toda a Europa, jamais verá tal beleza. Participe de tantas reuniões com a mais alta nobreza da Europa, advogado, e nunca verá tanta postura e virtude.

– Então o senhor apaixonou-se pela duquesa. Como ficaram íntimos?

– Paixão é para fracos e meninos, Laplace. Homens amam. Apesar de ser imerecedor de estar em tão divina e sagrada companhia, eu compartilhei de suas inseguranças, medos, sonhos. Por graça, piedade, compaixão, destino, fortuna, ela encontrou uma alma gêmea nesse pobre miserável diante de ti. Então, senhor Laplace, os Portões do Paraíso se abriram para mim e eu imergi na Luz.

– Então o senhor não nega que teve contato físico com a duquesa?

– Contato físico, advogado? Nossas carnes tornaram-se um só ser. Isto eu não nego. O que eu nego é que eu a tenha desonrado. Amor nunca é desonroso.

– O senhor deve entender a posição que o senhor tomou. Ela devia casar-se com o conde de Voyeur. Intacta, virgem. Para o conde de Voyeur, a Igreja e as casas reais, o senhor desonrou a jovem duquesa.

– Desonra, caro advogado, é forçar uma alma tão sublime a viver feito escrava de um contrato por interesse.

– As coisas são como são, não como queremos que seja, senhor Ornellas. Principalmente se levarmos em conta a idade da duquesa.

– As coisas são como são, mas nós a queremos assim? Duvido. Mas veja bem que situação o senhor se colocou. Se a idade da duquesa é o problema, como podem querer casá-la? Se o casamento lhe é proibido por uma discriminação etária, então deixaria de existir a queixa contra mim, mas eis que aqui estamos nós.

– Senhor Ornellas, nossa posição e nossa vontade são ínfimas diante da autoridade daqueles que são nossos superiores. Tivéssemos o mesmo poder e influência, talvez tivéssemos discutindo estas coisas bebendo cerveja em um pub irlandês.

– Então o que o senhor veio fazer aqui, se nossa posição e vontade em nada conta?

– Simples, senhor Ornellas. O bispo de Voyeur contratou-me, isto é certo, mas não é a ele a quem eu devo subordinação. Vê que eu dou-lhe uma lição de casa, senhor Ornellas. A rainha Helena da Prússia apresentou sua filha ao conde e bispo de Voyeur. O conde e bispo de Voyeur, encantado com esse avatar da Deusa, rapidamente aceitou o acordo, fingindo estar interessado no casamento, mas seu alvo é o trono de Roma. Devidamente orientado e manipulado pela rainha Helena da Prússia, o conde e bispo de Voyeur o acusou de ter seduzido e desonrado a duquesa exatamente para forçar a Igreja a iniciar o processo. Os demais advogados eram realmente da Igreja, mas o Vaticano não é dono de toda a Igreja, senhor Ornellas. Eu sou um orgulhoso servidor de um setor progressista da Igreja. Sim, meu caro e miserável cliente, eu vim com um certo atraso, mas vim unicamente para certificar-me de seus sentimentos e intenções. Eu ouvi suas confissões, o destino e a fortuna mudaram de maré. Eu devo partir, mas o senhor deve aguardar meu retorno.

Culpado por amar – III

– Senhor Ornellas, essa postura não irá tirá-lo dessa prisão. Muitos, maiores e melhores do que nós, lutaram e pereceram diante da Igreja. Somar sua vida a uma pilha de mártires não tornará o senhor menos culpado nem menos miserável. Heróis e mártires não irão resolver os problemas da humanidade, o sacrifício deles é em vão. Então vamos retomar ao que interessa.

– O que pode ser mais importante do que o flagrante interesse da Igreja em condenar-me senão para expurgar, ocultar ou eliminar suas culpas? Senhor Laplace, sua função é totalmente desnecessária e infrutífera. Este processo é apenas uma fachada de legitimidade a negócios escusos.

– Isto é o que pretendo descobrir, provar e mostrar no tribunal, senhor Ornellas. Mas o senhor precisa colaborar e provar o que diz. O senhor refuta a acusação de ter seduzido e desonrado a duqueza de Varennes. Pode alegar ou provar que sequer a conhecia?

– Não, não posso. O senhor veja como é o desígnio do destino, da fortuna. Eu fui encarregado de cuidar do acordo entre espanha e França. Este acordo remetia a um casamento forjado entre o conde e bispo de Voyeur e a duqueza. O acordo foi forjado por ordem direta ou implícita da rainha Helena da Prússia. O objetivo é o de desafiar o trono de Roma e derrubar o Papa Filóstemo. Fora as implicações de incesto e linhagem, isto é suficiente para provocar uma guerra por toda a Europa.

– Quem lhe convocou para tal missão? Como essa missão colocou o senhor nessa posição desconfortável? Como esta missão envolveu a duquesa de Varennes?

– Quem, meu pobre advogado, senão seu patrão, o bispo de Voyeur? Foi ele quem me convocou, pelo nome da minha família e pelos laços de sangue que temos com a casa real da Espanha. Foi esse velho pervertido quem apresentou-me à duquesa de Varennes. O senhor a conheceu? Conversou com ela? Alguém perguntou à pobre moça o que ela quer? Não, ninguém perguntou e ela também é prisioneira.

– Vejo e percebo que o senhor fala com paixão quando se refere à duquesa, então eu tenho que presumir que exista algum sentimento entre os dois.

– E eu vejo que o senhor não a conheceu nem conversou com ela. Senhor Laplace, alguma vez conheceu uma mulher? Eu tive a felicidade ou a maldição de conhecer esta. Uma criatura adorável, imerecedora de ser vendida como gado a troco de um acordo sórdido. Ninguém merece ser vendido ou escravizado em nome da pátria, da família, da Igreja, seja do que for. Casamento, meu caro Laplace, não é nada mais do que uma venda, um contrato de escravidão, protegido, instituído e mantido pelo Estado, pela Sociedade, pela Igreja.

– Então o senhor é contra os laços sagrados do casamento?

– Eu sou contra chamar de casamento a essa política que obriga as pessoas a se unirem contra sua vontade, contra seu coração, contra sua liberdade. Casamento, da forma como é entendido e permitido pela sociedade, não passa de escravidão, onde um torna-se propriedade de outrem.

– Então qual devia ser a forma como dois indivíduos devam tornar-se um?

– Da forma mais simples, normal e natural possível, senhor Laplace. Instituições tornam-se desnecessárias, cerimônias tornam-se obsoletas, permissões tornam-se ridículas. Quando dois corpos decidem unir-se, coisa alguma pode impedir.

Culpado por amar – II

Laplace chega, enfim, ao seu destino e deixado com dois guardas, além de uma mesa e velas para escrever. Antes de sair, o diretor Donatien tenta provocá-lo.

– Então, doutor da Igreja, este é o dito. Antes do senhor, dez enlouqueceram e agora são nossos “hóspedes”. Dessa forma, eu não te digo boa sorte, mas até breve, com cadeias em mãos.

Laplace não se perturba, ele ouviu coisas bem piores de seus superiores.

– Senhor Donatien, se eu for bem sucedido, eu penso que é bem provável que venha a ser o senhor a tornar-se um “hóspede” de Desmoyne.

– Hah! Pelo visto o senhor não conheceu o caso. Hahahahah!

Donatien volta pelos corredores, deixando sua risada sarcástica ressoar pelas galerias da prisão. Aliviado de se ver livre de tal bufão, Laplace põe-se a trabalhar. Abre sua pasta com os testemunhos e pareceres dos curas da Igreja. Toma uma folha em branco, prepara sua pena e tinteiro. Tudo pronto, chama por seu cliente.

– Senhor Ornellas, eu sou Laplace. O bispo de Voyeur nomeou-me como seu defensor. Eu tenho seu caso transcrito pelas mãos de meus antecessores e de seus confessores, mas eu prefiro iniciar do zero. Pode, por favor, aproximar-se das grades, apresentar-se e contar sua história?

– Laplace hem? O senhor deve estar pagando uma enorme penitência para ter pego meu caso. Bom, vamos começar do zero então. Eu sou Nestor Ornellas, nascido de Saragoça, filho da nobre família de Ornellas, primos da Casa Real da Espanha, Aragão e Castela. Nascido e criado em berço de ouro. Por capricho e ironia do destino ou fortuna, coube-me cuidar dos assuntos internos quanto ao acordo entre Espanha e França. Acordo a ser acertado pelos meios tradicionais, isto posto, que se trata de unir as casas e famílias reais pela união de um nobre com uma dama. O que ninguém me avisou é que haveria um terceiro nesse acordo, um alto signatário de Roma . Foi por eu saber o que sei e ser quem o alto signatário é hoje que eu estou preso em Desmoyne. Ou seja, senhor Laplace, um caso perdido.

– Então o senhor nega as acusações de ter seduzido a duquesa de Varennes e de tê-la desonrado antes de sua união com o fidalgo conde de Voyeur?

– O senhor não fez a lição de casa. O conde de Voyeur é seu patrão, o bispo de Voyeur que, no momento, procura uma forma de tirar o atual Papa do trono de Roma. A duquesa de Varenne, veja só que coisa, é filha do Papa Filóstemo com ninguém menos do que a Rainha Helena da Prússia, um império que tem sonhos de conquistar a Espanha e a França. O senhor tem certeza de que quer continuar?

– Senhor Ornellas, nós não estamos em posição para questionar ou discutir as ordens da Igreja. O que o senhor alega não faz o menor sentido. Como o bispo de Voyeur pode subir ao trono de Roma casando-se com a suposta filha ilegítima do atual Papa?

– Como vocês franceses falam mesmo? Serches la famme. A rainha Helena sem dúvida quer dar uma lição ao seu amante ingrato, jogando Espanha contra França, colocando o exército da Prússia nas fronteiras e ameaçando revelar ao mundo católico as coisas que sua amada Igreja vem fazendo por detrás das cortinas.

– Senhor Ornellas, eu sou um mero funcionário a soldo da Igreja, eu não sou católico e, como o senhor, não tenho coisa alguma com o que padres fazem na sacristia.

– Mas tem, senhor Laplace. O senhor diz que não estamos em posição para questionar ou discutir as ordens da Igreja. Por que não? Os inúmeros atos sórdidos que o senhor deve ter ajudado a escamotear colocam em risco a suposta autoridade moral, política e espiritual da Igreja. O senhor tem certeza de que quer continuar?