Arquivo mensal: março 2014

A cor do céu – VIII

General Seuss estava começando a ficar entediado no meio de tanta gente distinta mas sem interesse em ouvir suas histórias de caserna ou sobre suas queixas militares quando então percebeu a ausência de sua filha Catarina. Antes que começasse a surgir um pequeno sinal de preocupação, eis que Landlord surge bem diante dele, com sua preciosa Catarina ao seu lado.

– General Seuss! A providência divina nos reuniu mais uma vez. Eu estava exatamente querendo falar com o senhor.

– Eu espero que seja sobre meus projetos de melhorias no exército.

– Isto também, mas para que seus sonhos e tornem realidade, o senhor terá que me ajudar para que eu realize um sonho.

– Mas é claro, sir Landlord. O que esse velho soldado pode fazer pelo senhor?

– Aceite a minha pretensão pela mão de Catarina.

O golpe seco pegou o general de surpresa e com a defesa aberta. Como pai, sentiu perder sua filha, como general rejubilou por ganhar um distinto e poderoso genro. Ele mesmo tratou dos detalhes e consegui, com o p´roprio bispo de Cantebury, um casamento digno da nobreza. A população também esteve presente, mas mantida há vários metros de distância, por barreiras e pelos homens do general. Enquanto Landlord tinha com Catarina sua legitima lua-de-mel, o general sonhava com um exército dele, para as conquistas dele, para que seja ele o portador da coroa britânica.

No dia seguinte, ele despertou com toda a Cantebury tomada por uma tropa, os cidadãos presos ou mortos, destruição, tiros e bombas haviam devastado quase todos os prédios da cidade, coalhada de corpos de policiais e soldados. Saiu de sua casa, atônito, perguntando-se quem teria tomado a cidade, qual exército e como ele não viu a chegada de tal tropa, quando deparou com sua Catarina, com um uniforme e divisa diferente, enfeitada com os galardões de general de cinco estrelas e sua cabeça decorada comuma coroa de rainha.

– Catarina, o que significa isso?

– Ah, meu bom e velho pai! Por anos o senhor sonhou em conquistar Cantebury e a Grâ Bretanha, um sonho que sempre foi meu. O senhor, mais que todos dessa cidadezinha, merece meu desprezo e julgamento. O senhor nunca acreditou em mim, por mais vitórias que eu tivesse em campo de batalha. Fui sempre eu, que usando o senhor como marionete, coloquei um exército em ordem, os armei e os treinei. O senhor sempre achou que eu era uma menina, indefesa e insegura. O que acha de mim agora, pai? Eu agora sou a rainha e meu decreto é que o senhor seja enforcado na Torre de Londres.

– Mas…Landlord…

– Eu sou a senhora Landlord, meu pai. Ele despreza o senhor ainda mais do que eu. Com ele vamos repovoar esse mundo e criaturas abjetas como o senhor receberão a única coisa decente que merecem, a morte. 

Meu corpo, minhas regras

Eu vim e nasci nesse planeta como todos, mas eu não escolhi esse mundo de aparências. Eu posso ter vivido mais de cem anos, mas tudo o que veem é meu rosto jovem.

Desde que eu me conheço por gente eu ouço que o homem é um animal social e que o grupo acaba ditando regras de convivência. Parece bom, mas nem sempre. Se as ditas regras e códigos sociais fossem realmente seguidas não teria tanto assédio moral entre alunos nas escolas.

Diariamente vemos gente que se diz adulta infringir essas tais leis e regras sociais, sem nenhum pudor ou vergonha. Medidas retaliadoras apenas demonstram e atestam quão frágeis, discutíveis e questionáveis são as regras sociais. Quando regras são uma mera fachada para uma realidade, o que temos é simplesmente briga de cachorro, o maior, o mais forte vence.

O poder de muitos é mantido por esse sistema injusto, a contestação é tachada de “minoria”, se não for denunciada como subversivo. O tecido social é feito do indivíduo, se o indivíduo está insatisfeito, é dever do cidadão se organizar e mudar o sistema.

Então quem pode dizer, definir, ditar os limites etários? Como alguém, por ser “adulto” resolve o que é próprio ou impróprio? Quem disse que idade cronológica é sinônimo de competência ou capacidade? Então ninguém pode se intrometer em como eu sinto e percebo o meu corpo.

Eu nasci com boca e como, certo? Eu nasci com nariz e respiro, certo? Então por que, queira eu tenha nascido com chave ou fechadura, não tenho sexo? Todos os seres vivos nascem com isso, é algo normal e natural. Nós somos a única espécie problemática. A biologia, a fisiologia e a anatomia são claros, nós nascemos com sexo, o que é bem diferente de gênero e sexualidade.

Quem pode definir quando eu estou pronto para expressar e ter relações erótico-afetivas? Aquele que é o dono desse corpo, que sou eu. Meu corpo, minhas regras. Não é o Estado, não é a Sociedade, não é a Igreja. O metabolismo e desenvolvimento de cada um é diferente, então os limites de faixa etária são arbitrários e absurdos. Eu escolho com quem, quando e como eu vou me relacionar. Quem não me quiser, por imposições sociais, por limitações doutrinárias, por medo ou recalque, faz mal a si mesmo, não sabe o que está perdendo.

Felizmente não cabe a mim libertar quem quer que seja do cativeiro. Quem vive como servo e se contenta com os grilhões não quer ser livre nem pede para ser salvo. Venera-sama foi a única que viu como eu sou. Por ela, eu irei conquistar o mundo. Sem feitores, os cativos terão apenas duas escolhas, liberdade ou morte. Que a Luz de Zvezda brilhe por todo o mundo!

A cor do céu – VII

Landlord é uma criatura racional e lógica, mas não sabe o que está acontecendo. Conforme seus tentáculos exploram os contornos e reentrâncias do corpo de Catarina, o seu corpo reage de uma forma como ele não havia sentido antes. Cada gemido, cada resfolegar de Catarina é como música. Ele sente aumentar o calor interno e surgem pistilos. Sua natureza vegetal sabem qual a função dos pistilos e dos estametas. Sua natureza animal sabe qual a função do apêndice masculino e da vacância feminina. Ele supõe que seja algo normal e natural, portanto, parte da vida e da existência.

Sem saber muito bem o que sente e o que faz, Landlord tem medo, mas continua sua exploração e com um de suas patas, com uma extremidade mais macia, tateia pelos vãos de Catarina. Catarina geme mais alto, ruboriza, sua respiração parece pesada a ponto de fabricar um pequeno vapor. De início ela resiste, tenta fechar as pernas, mas rende-se. Catarina está tão entregue à excitação que mal percebe que não está mais presa pelas outras garras de Landlord.

Landlord observa a ponta de sua pata, coberta de um liquido transparente e viscoso, mas com um cheiro mais perfumado do que qualquer flor. Conforme escorre ao longo da extensão do seu braço, Landlord sorve o liquido e, apesar de ser salgada, ele quer mais. Landlord cai de joelhos e, feito beija-flor, colhe o néctar de Catarina, sorvendo, lambendo, sugando, até que ele faz com que a concha dela jorre.

Truque? Armadilha? Veneno? Landlord não quer saber. Se for veneno, ele quer morrer envenenado. O conquistador foi conquistado. Landlord ergue-se para declarar sua rendição, mas quem se ajoelha é Catarina que leva sua mão entre as pernas de Landlord até achar o maior pistilo que ela vira em sua vida. Catarina beija, lambe e suga o pistilo, ávidamente, fazendo as pernas de Landlord bambearem. O que resta da mente racional de Landlord antevê um golpe final, mas ele não se importa mais.

Landlord senta-se, pronto para morrer, mas Catarina não o mata, mas o ama. Ela se põe próximo de seu colo e acima do pistilo e, com habilidade, o introduz em seu íntimo. Cedendo ao instinto e ao movimento dos quadris, Landlord penetra Catarina, em movimentos de vai-e-vem, até que ambos atingem o êxtase.

A cor do céu – VI

Catarina está aterrorizada. E isto não é seu usual. Ela passou antes por tantas e diversas situações no campo de batalha que faria muitos de nós cair de joelhos e chorar. Ela enfrentou batalhões e tanques. Mas nada parecia ser igual ao que ela enfrentava. Diante de seus olhos, o tão incensado e aplaudido “sir” Landlord mostra uma face horrível. De seu torso, membros que mais parecem patas de insetos brotaram em um instante. Suas técnicas em artes marciais são inúteis, socos e chutes atingem pontos vitais, sem qualquer efeito, torções e alavancas naquele tecido estranho não o detém. Landlord apenas se desfaz do “braço” e outro surge no lugar, atacando-a, enquanto o que está em suas mãos se debate por vontade própria. Ela poderia gritar, mas pouco ou nada poderia fazer algum herói que se apresentasse, sem falar que ela não se permite tal fraqueza. Mesmo armada com o tição da lareira, os cortes gerados pelos golpes simplesmente cicatrizam em segundos. Ela é facilmente cercada e acuada em um canto, dominada pelas patas de insetos, restando-lhe apenas encomendar a alma, antes que Landlord dê seu golpe final.

Landlord observa sua presa. Ela o perturba, mas não é raiva que sente. Uma criatura admirável! Se ela tivesse mais tempo ou mais força, ele poderia ter sérios problemas, poderia até se ferir. Quantos ele havia assimilado e visto os olhos de pavor? Muitos humanos, até maiores e mais fortes do que esta em suas garras. Ele vê o medo naqueles olhos púrpuras, mas ela não hesitou na hora da luta, mesmo adivinhando o resultado. Uma criatura maravilhosa! Landlord sentiu a maciez do toque da pele humana, a pele de uma fêmea. O que é isto? Algum tipo de arma secreta? Landlord não quer matá-la e não sabe o porque. Na luta, as roupas de Catarina rasgaram em algumas partes. Curioso, ele quer ver mais pele. Ele tira o que resta das vestes de Catarina e observa seu corpo feminino perfeito, a harmonia das curvas, a forma dos seios e quadris, o triângulo do ventre. Ele sente algo diferente, algo incontrolável, algo que pode ser perigoso. Mas não consegue se dominar. Com suas mãos humanas, começa a alisar o corpo de Catarina.

Confusa e com medo, Catarina, mesmo derotada, olha para Landlord com seu olhar de batalha. O que esta “coisa” está fazendo? Seria algum tipo de pervertido? Ela havia visto isto antes e passou por situações parecidas, então, o que quer que “aquilo” fizesse, não seria novidade para ela. Mas Landlord não parece querer torturá-la nem estuprá-la. O toque daquelas “mãos” é gentil, carinhoso, cuidadoso. Envergonhada, Catarina começa a sentir o calor de seu corpo aumentar, sua pele eriçar e sua fenda umedecer. Ela está ficando excitada. Um coquetel de sensações invadem sua mente e inúmeros pensamentos a fazem delirar.

– Major Catarina, a senhorita perguntou quem eu sou. Muito nem, eis o que eu sou.

Landlord mostra seu corpo real, uma mistura de hunano e inseto, mas basicamente planta.

– Sir Landlord, eu estou nas mãos do senhor. Ou o senhor me mata, ou o senhor me ama.

– O que é isto? Algum truque ou estratégia?

– Não há truque ou estratégia. Eu sou uma flor em suas mãos. Corte meu caule ou sorva meu néctar.

A cor do céu – V

– Sir Landlord, eu tenho algumas dúvidas a respeito do senhor.

– Dúvidas, major Catarina?

– Exatamente. Eu pesquisei a respeito de sua família e nada encontrei.

– Minha cara major, meus títulos…

– Podem ser fácilmente comprados. O nome Landlord pertenceu a uma velha fábrica que existiu em Cantebury e não tinha relação alguma com qualquer família na Grã Bretanha. O nome Alphonse está bem na placa da rua que fica diante desta casa. Quem é o senhor, afinal?

– Ora, major, convenhamos. A senhorita não acha que eu…

– Eu não acho. Eu tenho certeza. De início eu suspeitei da cor de seus cabelos, de sua pele, de seus olhos, tudo em um tom azul. Então eu olhei os registros e os documentos. Farsas e fraudes. Não há nenhum registro de sua entrada, nenhum tiquete de viagem, nenhuma certidão de nascimento. Em toda Grã Bretanha não há um único registro. O senhor, portanto, vem de fora.

– Oh, sim, claro, que lapso o meu. Mas eu posso explicar. Eu venho das colônias britânicas. De Nassau, mas filho de britânicos. A senhorita sabe bem como são relapsos os prefeitos da coroa britânica nas colônias. O lugar onde eu nasci fez com que eu tivesse esse tom de pele e cabelo. Mas olhos azuis não são incomuns entre os britânicos.

– Não tente me enganar, sir Landlord, ou seja lá qual for seu nome verdadeiro. Eu e meu pai estivemos em Nassau. O senhor não tem qualquer característica dos britânicos nascidos nessa colônia. Não há qualquer referência a este tipo específico de tom de pele e cabelo na medicina. E a cor azul seus olhos são extravagantes até mesmo em países nórdicos. Eu o observei e pude ver que seus olhos parecem contas de vidro cheias de um líquido azul. Não tem expressão e amiúde olham para direções diferentes. Eu vou perguntar apenas mais uma vez. Quem é o senhor?

Landlord sente estar acuado. Seria possivel que ele tenha se enganado a respeito dos humanos? Seria possivel existirem humanos realmente lógicos, racionais e superiores? Se sim, quantos? São organizados? Tem armas? Sabem quem ou o que ele é? Os olhos de Landlord ficam turvos como o oceano produndo e, para o horror de Catarina, de seu tórax saem mais quatro membros, dois de cada lado, não-humanos, insectóides.

A cor do céu – IV

Alphonse Landlord, uma cavalheiro distinto, recebia em sua casa os convidados que, de tempos em tempos, lotavam o salão do seu lar. Pode-se dizer que naquelas reuniões o futuro de Cantebury era decidido, não nos tribunias, não nas assembléias, não nas secretarias. Desde o preço do pão até uma declaração de guerra, tudo era discutido debaixo daqueles arcos enquanto a população seguia contribuindo para a sociedade como gado. Landlord poderia facilmente dominar Cantebury se matasse os presentes, mas seus planos eram mais sutis. Por que Landlord mancharia sua pessoa com o sangue de meros humanos, se estes mesmos podem fazer isso? Bastava um boato na orelha certa e logo milhares de homens, saídos da cidade, de seus lares, estariam perfilados em algum batalhão.

Das reuniões, quem mais gostava quando o assunto era guerra, sem dúvida era o general Seuss. Landlord ouvia passivo as memórias de caserna do velho soldado que desfilava a um verdadeiro estranho detalhes da estratégia e dos efetivos do exército britânico. Os sucessos dessa armada imperial e colonial deivia-se mais á muita sorte do que competência ou eficiência. com tantos detalhes Landlord poderia facilmente dominar o orgulhoso exército britânico para fazer para ele o trabalho sujo. Naquela noite o general Seuss tinha uma companhia que provocou um inusitado interesse de Landlord. Um espécime humano feminino. Com roupas que sugerem ter a mesma ocupação do general. Com postura e gestos que indicam haver algum laço entre ambos.

– Com mil perdões, sir Landlord. Eu não os apresentei da forma adequada. Esta é a major Catarina Seuss, minha filha.

– A satisfação é minha, general Seuss. A filha do senhor é assaz impressionante. Esta é uma verdadeira jóia da coroa britânica.

– O senhor é muito galante, sir Landlord. Com a permissão de meu pai, eu gostaria de ter uma conversa em particular.

A cor do céu – III

A criatura escolheu uma casa abandonada para traçar seu plano, enquanto repassava a análise que fez dos humanos. Tendo em vista as crenças humanas, a criatura decidiu fazer daquela casa abandonada um palacete, afinal o domicílio era um importante símbolo de alta posição na sociedade humana. Isto decidido, a criatura esquematizou uma função ou título para o personagem que iria se transformar. Com a devida aparência física, cronológica e vestimenta, o personagem inventado teria mais credibilidade diante dos humanos. As funções que mais aparentavam ter prestígio entre os humanos eram os espécimes que ocupavam cargos na esfera militar, na esfera do governo e na esfera da igreja.

A criatura ciente da credulidade humana, decidiu mesclar as três funções em um único personagem, que teria a estatura e porte de um humano adulto, masculino. Um homem de família nobre, da classe dos guerreiros e com um bom histórico dentro da igreja humana. Por acaso encontrou uma placa escrita Landlord, isto serviria como nome de família. A rua onde a casa ficava tinha por nome Alphonse, um nome comum mas com um ar aristocrático o suficiente.

Como bom observador, combinou as feições e tamanhos dos humanos que havia assimilado, além de improvisar com combinações próprias, a criatura chegou a uma perfeita aparência britânica. Roupas, pode conseguir várias, recolhendo de lixo e de suas vítimas. Para um simulacro de identidade, personalidade e outras documentações, a criatura sabia que podia achar vários diplomas, certificados e títulos na biblioteca local. Com a aparência escolhida e o calhamaço de documentos, não foi dificil a criatura obter dos registros públicos uma averbação e confirmação de sua identidade, personalidade e título. Com esse simulacro, consegui receber uma boa quantidade do papel que os humanos atribuem valor, dando mais respeitabilidade e coerência ao status que a criatura queria imprimir em seu personagem.

Embora fosse uma farsa do início ao fim, a credulidade humana funcionou como era esperado. Adiquirido capital, fez com que o capital aumentasse. Reformou a casa onde morava para melhorar ainda mais a fachada de seu logro. Não demorou para seu domicílio ser um local de reuniões de figuras da alta sociedade, da nobreza, do exército, do governo, da igreja. Todos o procuravam para obter alguma vantagem, alguma solução, alguma opinião. Tentavam enganar o malandro e saíam achando que tiveram êxito, mas apenas reforçavam o sucesso da empreitada.