A caixa de Dora – II

Escola nova. Pela nona vez. Quantas vezes ele foi expulso ou teve que sair às pressas? Perdeu a conta. No começo, nós sempre fazemos o papel de vítima, culpando as circunstâncias, culpando as pessoas. Tentamos encontrar explicações, justificativas, desculpas, mas vamos encarar os fatos, nós somos os únicos culpados pelo que somos, pelo que fazemos, pelo que dizemos, pela circunstância que construímos, pelos nossos comportamentos.

Quando a diretora da escola se levanta, ele percebe que acabou o discurso que ele tinha ouvido tantas e diversas vezes e a seguiu pelos corredores da escolsa. Nada de excepcional. Uma escola como todas as outras. Mudam-se as cores, as disposições das salas, o conjunto de mesas e cadeiras, as faces dos alunos, os tipos de professores. Ele esperava que, ao menso desta vez, não arruinasse tudo. Ele esperava por algo diferente. Ele estava cansado dos mesmos desafios e das mesmas limitações que acabava sofrendo por ser melhor que a média.

Após uma breve introdução, Luiz é apresentado ao professor Darland e à sua nova classe. O professor parece ser do tipo “verde”, ou seja, sem experiência. Nem parece um professor. Quantos anos a mais ele tem? E importa? Idade não é sinônimo de capacidade ou competência. Luiz tinha, aos sete anos, mais conhecimento, capacidade e competência que muito “adulto”. Passados dez anos, o abismo ficou apenas mais distante e mais fundo.

Convidado a sentar pelo professor, Luiz tem que escolher um lugar o mais neutro possivel. Sentar perto do atleta desmiolado, mas carismático, dono do pedaço e sucesso com as meninas é encrenca certa. Sentar perto do nerd que acha que sabe tudo, mas é um desastre nas relações sociais é encrenca certa. Sentar perto da menina rica bonita, mas insegura e fútil, é encrenca certa. O “fundão” tem sido seu lar em diversas escolas e lá nunca foi um lugar neutro, mas tem um lugar vago no “meio de campo”, bem ao lado da menina ruiva.

Uma risada breve e abafada lhe escapa pois vem à sua mente as histórias em quadrinhos do Peanuts. Luiz senta nervoso, olhando para os lados, na esperança de que os demais alunos não tenham ouvido sua risada. Sorte ou azar, a classe está muito entretida conversando as mesmas besteiras de sempre. Sorte ou azar, a menina ruiva ouviu.

– Qual é a graça, “Lobo”?

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