Crônicas de Gaia

Os parâmetros cosmológicos indicar um valor provável para a idade do universo há 13,8 bilhões de anos. A Via Láctea começou a se formar cerca de 12 bilhões de anos. A formação e evolução do Sistema Solar iniciou-se há cerca de 4,568 x 109 anos com o colapso gravitacional de uma pequena parte de uma nuvem molecular. A Idade da Terra é de 4,54 bilhões de anos. A história evolutiva da vida na Terra traça os processos pelos quais organismos vivos e fósseis evoluíram. Engloba a origem da vida na Terra, que se pensa ter ocorrido há 4,1 bilhões de anos, até aos dias de hoje.

Vamos arredondar as contas. O “universo” tem 14 bilhões de anos. Há 12 bilhões de anos atrás, surgiu a Via Láctea e há 6 bilhões de anos atrás surgiu o Sistema Solar e a Vida surgiu na Terra há 5 bilhões de anos. Vida, aqui, considerada padrão esta, de existência física, estrururada em carbono. Carl Sagan apontou que o silício e o germânio são alternativas concebíveis ao carbono.

Nada impede que outras formas de vida tenham aparecido no primeiro bilhão de anos do universo. Isso parece impossível, improvável, diriam os descrentes, pedindo evidências, mas, para esses seres, nós estamos vivendo em apenas uma das muitas singularidades tempo-espaço. Estipula-se [Teoria das Cordas – Teoria Quântica] que existam até dez dimensões, mas eu seria tachado pelo descrente de propagar superstição ao ousar afirma que são doze dimensões. Nós somos como peixes no aquário exigindo evidências que existe oceano e os seres que ali habitam.

Os monges da matéria podem contestar alegando o Paradoxo de Fermi [aparente contradição entre as altas estimativas de probabilidade de existência de civilizações extraterrestres e a falta de evidências para, ou contato com,
tais civilizações]. Ninguém pensou na possibilidade de que isso seja consequencia do simples fato que Gaia seja uma colônia penal. Mas eu estou me adiantando. Voltemos ao “princípio”, que não foi o “começo” nem a “origem”. Só é mais uma volta na Roda.

Chamam, nos dias de hoje, de Big Bang, a singularidade de onde “surgiu” o universo… ou é melhor dizer “eclodiu”, como no Ovo Primordial? Explosões costumam ser bagunçadas… ou melhor é dizer Caos? Enfim, tudo está em um enorme turbilhão de incertezas, inúmeros elementos em revoada, em ebulição… Névoas ou Águas Primordiais?

A Vida “surgiu” no Caldo Primordial e minúsculos seres rapidamente proliferaram os mares de Pangeia. Gaia refletiu em escala menor, local, o “nascimento” do universo. Os seres unicelulares são os lumens. Na Grande Alquimia, esses seres se desenvolveram, formando seres multicelulares, flora e fauna, formas astrais simples e primitivos, até desenvolver seres evoluídos. Seres dos quais nós somos os descendentes diretos, seres conscientes que, tal como nós nesse torrão de terra, são a espécie dominante que construíram as civilizações.

Hominídeos [e Antropoides] perambularam por Gaia entre 3 e 1 milhão de anos atrás. Seres Humanos habitam Gaia há cerca de 200 mil anos, mas a contagem da cultura humana se inicia por volta de 12 mil anos. Grandes civilizações humanas apareceram entre 7 e 5 mil anos atrás. Alguns prognósticos tentam imaginar como o ser humano será no futuro, se é que sobreviveremos a nós mesmos, mas com um milhão de anos nós, provavelmente [sendo muito otimista] podemos chegar no mesmo nível de esclarecimento que as “civilizações cósmicas” em seus primórdios e nós até podemos “evoluir” para adquirir a mesma forma [energia] desses seres, se conseguirmos existir por um bilhão de anos.

De certa forma, nós somos a mesma espécie. Da mesma forma que todo ser humano é imigrante e miscigenado, todo ser humano é “alienígena”, visto que nós somos Filhos e Filhas das Estrelas. Estes seres foram vistos, reconhecidos e denominados de anjos, demônios… Deuses e Deusas. Nós temos esse mesmo potencial… isso se conseguirmos superar a nossa “outra natureza”, essa que herdamos do “outro lado” de nosso parentesco, dos seres que desejam e sonham com a volta do Caos.

Aqui não cabem julgamentos morais, mas escolhas. São três forças básicas: Criação, Manutenção e Destruição. Essas forças básicas são defendidas e representadas por sete diferentes famílias. Isso é mais complicado do que aparenta. Frequentemente a Criação precisa da Destruição e a Manutenção pode estagnar a Criação, agora potencialize isso por sete famílias, com dramas, ciúmes, invejas, tramas, traições. Esse é o panorama geral da Grande Tragicomédia Cósmica.

Exatamente neste ponto. Como aconteceu [ou não aconteceu] a rebelião que causou a vinda dos engenheiros planetares para tornar Gaia, a Colônia dos Annunaki, em prisão. Isso tem a ver com o Mito da Queda do Homem e a Guerra dos Deuses. Deuses lutando com Serpentes e Dragões primordiais. Humanos lutando com reptilianos e outros seres conscientes. Deuses vencedores fundaram as cidades e as civilizações da nossa História Antiga. A [Deusa] Serpente [e seu Consorte, o Deus Touro] foi banida de Gaia e os demais seres nativos de Gaia, relegados às lendas. Ah, sim, nós marchamos orgulhosamente ao lado dos vencedores, clamamos nosso direito ao botim, crescemos, rapidamente destronamos aqueles que entronizamos e agora [egoístas e antropocêntricos] tememos ser superados por nossas criações.

Ah, a sutil e doce ironia. Tal como Cronos temeu que Zeus o matasse [porque ele matou Uranos], nós tememos que os androides nos matem. A maior ameaça contra nós [e este mundo] somos nós mesmos. Desde que o ser humano entrou na Era Industrial e tem tido enormes avanços tecnológicos que este tem criado essa neurose e paranoia, eu diria um Complexo de Édipo invertido… ou melhor dizer Síndrome de Prometeu? A única coisa que se pode dizer é que é impossível pensar a vida do ser humano contemporâneo sem tecnologia.

Algo deve ter acionado os sensores do Centro Administrativo Laniakea, administrado pelo Cluster de Virgem, supervisionado pelo Cluster Perseu-Pisces. Um mísero blister luminoso faiscou alucinadamente quando foi lançado em 04 de outubro de 1957 [data local] o Sputnik. O vigia de plantão deve ter entrado em pânico quando dezenas de blisters foram acionados, fazendo aquele efeito “agradável” das famigeradas luzes de árvore de natal, quando em 20 de julho de 1969 [data local] uma espaçonave humana pousou em Selene [mais conhecida como lua].

– Capitão Keeper! Capitão Keeper! Emergência! Rebelião na Colônia Penal Gaia!

O carcereiro olha seu subalterno de alto a baixo. Insectóide classe F. Houve época em que os Moluscóides e Insectóides estiveram em guerra, mas isso foi antes da União Galáctica e do Tratado Universal.

– Gras, não é porque eu convivo com sua irmã que eu tenho que aturar seus descontroles no serviço. Verifique as rotas de cargueiros. Verifique as rotas de patrulha.

– Tudo verificado, senhor. Não há rotas programadas para a seção ou cluster.

– Você vai mesmo interromper minha vídeo conferencia virtual 3D com Nania para ver os controles e olhar aquele bando de símios pelados?

– De… desculpe… senhor… senhora…

– Oi Gras? Como vai Libelle?

– Va… vai bem… senhora… [fecha os oito olhos para não ver o “corpo” nu de Nania].

[apertando o sifão]- Tudo bem, Gras… Nania, eu vou ter que interromper. Fica para depois quebrar o recorde de vinte orgasmos.

– Vai em paz, Keeper. Meu corpinho gelatinoso não vai a lugar algum.

Keeper desce de sua “cadeira” [nota pessoal – objetos são moldados conforme a estrutura de seus usuários] e “anda” [nota pessoal – seres antropoides podem possuir diversas “formas” de locomoção] até o painel de controle. Se ele tivesse sobrancelhas, estaria franzindo enquanto olha para Gras.

– Você me interrompeu para ver os símios pelados em uma lata? Eles chegaram em Selene. Grande coisa. Os engenheiros planetários construíram este satélite próximo em Gaia exatamente com esse propósito. De onde você acha que nós recebemos esses sinais? Quando e se eles conseguirem enviar algum voo tripulado até Marte, aí sim, você pode me chamar.

Keeper volta correndo para sua cadeira e aciona o VR. Nania ainda está online, esperando.

– Voltei, meu amor. Eu fiquei só cinco minutos fora. Ainda está valendo para quebrar o recorde?

– Eu não sei, meu lindo. Vamos continuar de onde paramos, depois nós vemos. Eu ainda estou molhadinha.

Keeper coloca seu probóscite para fora, fazendo com que Gras tampe com suas “mãos” seus oito olhos, ao mesmo tempo em que seu exoesqueleto adquire tonalidade amarelada, indicando estresse. Gras nunca disse e vai esconder isso a todo custo, mas como muitos da classe Insectóide, “ele” pode ser tanto masculino quanto feminino e, para piorar a dificuldade de ter que manter aquela união de fachada com Libelle, “ele” tem que esconder sua atração pelo seu “chefe”. Isso incomoda mais do que ver seu “chefe” interagindo de forma tão promíscua com Nania, conhecida profissional do sexo em toda constelação de Vênus. Não que isso seja problema. A União Galáctica reconheceu, legalizou, regulamentou e até incentivou a pornografia e a prostituição em pouco mais de 10 mil anos de sua existência. Para sorte de Gras e inúmeras outras espécies, o Tratado Universal reconheceu seis identidades sexuais, sete opções sexuais e oito regimes sexuais. Só as Entidades Cósmicas vão entender porque Gras simplesmente não assume e expressa seus sentimentos.

Encolhido como um verme [que ele não me ouça], Gras volta ao posto, apesar de ter sua atenção constantemente perturbada pelos sons que seu “chefe” profere em coreografia com os sons vindos [de Nania] do VR [antenas são extremamente sensíveis
a estímulos sonoros]. Gras equipou-se com um supressor de som e ficou fitando o painel com extrema atenção, procurando qualquer sinal que justificasse sua precaução exagerada. Sua infância foi recheada de lendas de como os símios pelados tratam seus inúmeros parentes habitantes de Gaia. Aliás, impossível não pensar em uma única espécie habitante dos inúmeros planetas habitáveis e civilizados que não tenha alguma lenda horrível envolvendo os símios pelados.

Pode-se dizer que este é um dos principais motivos pelos quais, depois de 200 mil anos de deliberações, debates, monólogos acirrados e acordos complicados que a União Galáctica incluiu toda uma seção no Tratado Universal sobre Gaia e os símios pelados. Por traição, conspiração, ingratidão [entre inúmeros outros crimes cósmicos], Gaia foi considerada região contaminada e os símios foram considerados espécie perigosa. Todo o sistema solar onde Gaia está localizada foi considerado área de contenção e foi proibida qualquer forma de contato ou interação. E os símios pelados não decepcionaram a expectativa de Gras.

Em 1972 e 1973 [data local] surgiram a Pioneer 10 e 11. Em setembro e agosto de 1977 [data local] surgiram a Voyager 1 e 2 [nota pessoal – unidades de tempo fora de Gaia possuem padrão diferente, assim como a sensação da passagem de tempo]. São quatro sondas construídas pelos símios pelados e conseguiram passar dos limites do sistema solar. Seria questão de poucos ciclos [tempo universal] até que os símios pelados desenvolvessem tecnologia suficiente para invadir e colonizar Selene e Marte. Todo orgulhoso, levou o relatório para Keeper, confiante de que seria ouvido e, quem sabe, promovido, até mesmo amado. O fino e leve monitor de cristal estatela no chão quando Gras o larga, assim que vê seu chefe, seu amado, desmaiado.

– Gras? Graças às Plêiades! Keeper desmaiou! Veja se ele está bem!

Gras checa o metabolismo de Keeper [bem que “ele” queria tê-lo em seus “braços”, mas não assim] e percebe vários emplastos, cremes, pílulas e injeções esparramadas pelo chão em volta, certamente para ajudar Keeper a “bater o recorde”, mas pelo visto, exagerou.

– Ele… está bem… mas inconsciente. O que vocês fizeram?

– Eu e Keeper batemos o recorde de vinte orgasmos, mas sabe como ele é, não sabe parar. Por isso que ele é meu cliente favorito e muitas vezes nós interagimos fora dos contratos comerciais. Eu não estou certa disso, mas eu acho que eu fiquei apaixonada por ele. O que você acha, Gras? Eu devo dizer para ele? Nós devemos entrar com o pedido de registro de união?

Estranhos estalos saem das protoasas [resquícios atrofiados de seus ancestrais] indicando irritação. Gras quer gritar não, “ele” prefere que Keeper seja amante “dele”. Mas as prioridades vêm primeiro.

– Eu não sei, senhorita Nania. Ele deve voltar a si em algumas horas, pergunte a ele. Eu só sei que, enquanto ele está inconsciente, eu sou o responsável e eu devo emitir ao nosso tenente Ictios, da Confederação Perseu-Pisces, sobre essas atividades suspeitas em Gaia.

Depois de muitos ciclos, o Cluster de Perseu-Pisces recebe notícias do Cluster de Virgem e isso envolveu o Cluster de Sagitário. Com três regiões galácticas alarmadas, a União Galáctica convocou assembleia geral para discutir e decidir. Não foi fácil, simples ou tranquilo, pois foram necessários diversos acordos para suspender os artigos do Tradado Universal, sobretudo os capítulos que regiam Gaia e os símios pelados. Pode-se dizer que o aumento de aparições e relatos de OVNIS é a primeira consequência. Sondagens mais próximas e mais detalhadas, para averiguar a nossa espécie.

Evidente que os governantes das grandes potências vão negar, mas os sistemas de satélites militares detectaram a presença de algo se movendo no “horizonte conhecido”. Enquanto o mundo fica mesmerizado com a Copa do Mundo, mais abrigos são construídos e projetos de exploração espacial voltaram a fazer pauta, tudo para providenciar uma fuga das autoridades. Eu diria até que Gras nos ajudou a impulsionar em direção ao espaço. Mantido em segredo, tem algo vindo em direção de Gaia. Alguns dizem que é o retorno de Nimbiru, mas quando ficar próximo do limite do sistema solar, dirão que é o Segundo Sol e quando tiver “engolido” Júpiter, verão que se trata de uma nebulosa que está vindo ao nosso encontro, como se… como se fosse algo navegado.

Então chegamos ao ponto onde eu entro e começa esta estória. O que é estranho, porque começa com a minha morte. Eu não tinha coisa alguma com isso tudo. Eu estava feliz e contente, em férias, viajando com meus familiares, dirigindo o carro quando alguém comentou do céu estar cor de rosa. Aquela nuvem rosada desceu rapidamente e tudo ficou nesse tom considerado romântico, mas não há romantismo algum em sentir seu corpo ser despedaçado. Consequência inevitável quando o carro é arremessado fora da estrada. Eu vi meu sangue, ossos e tripas saírem revoando antes de apagar em dor excruciante. Resumo da estória, eu morri.

– Doutor, doutor, paciente nove está acordando!

– Excelente. Enfermeira Falbala, avise nossa gentil patrocinadora. Ela certamente irá querer ver o resultado de nossos esforços e do investimento dela.

Eu passei por várias ressacas ruins e a pior é a ressaca depois da cirurgia. O corpo inteiro parece pesar uma tonelada. Dói até por respirar. Eu sinto como se eu estivesse imerso em gelatina, porém a sensação de temperatura é morna e cada fibra de minha carne formiga intensamente. O cabelo parece feito de fios de aço e a pouca luminosidade do ambiente machuca meus olhos. Meus lábios estão ressecados e meus ossos parecem ferro em brasa.

– Doutor, a Imperatriz parecia satisfeita com a notícia. Será que ela vem em pessoa?

– Provavelmente. Os resultados apresentados pelo simulador são muito otimistas. O paciente nove tem potencial de Mestre nível S. Isso é incrivelmente raro e inusitado.

Eu consigo me adaptar à luminosidade ambiente e passo ao estado consciente, observando duas criaturas. A maior parece um urso com roupas de médico. A menor parece um coelho com roupas de enfermeira. Eu estou em um hospital que permite cosplay?

– Bom dia, senhor Weinberg. Eu sou o doutor Rufus e esta é a enfermeira Falbala. O senhor deve estar confuso e desorientado, mas eu não tenho muito tempo para lhe explicar os detalhes. O senhor está no Hospital Geral de Arcturus, onde passou por uma delicada e detalhada cirurgia de reconstrução.

– Re… reconstrução?

– Sim, senhor Weinberg. Poucos, pouquíssimos humanos sobreviveram depois que a Nebulosa Unicórnio passou por Gaia. Depois desse trágico acontecimento, Gaia passou de prisão a terminal intergaláctico. Nós preferimos ignorar o motivo, mas nós recebemos o seu corpo no estado em que foi encontrado após a efemeridade cósmica e nós temos autorização e permissão para utilizar todos os recursos disponíveis. Se me permite falsa modéstia, o senhor é minha obra prima.

– Ma… mas… por que?

Doutor Rufus põe a mão na orelha, som de estática e distorção de voz indica que ele recebeu mensagem em seu comunicador biointegrado.

– Isso o senhor pode perguntar diretamente para sua tutora e nossa patrocinadora. Venha, Falbala, vamos colocar o senhor Weinberg na cadeira de rodas e deixa-lo apresentável para encontrar a Imperatriz.

Enquanto eu sou colocado na cadeira de rodas, Falbala aproveita para passar a mão nas minhas partes intimas e mordisca o lábio.

– Falbala, nós temos que entregar a mercadoria sem dano.

– Ah, doutor, o paciente nove vai precisar de fisioterapia, não vai?

– Isso quem decide é a Imperatriz.

O hospital é grande, tem vários funcionários, mas poucos pacientes. Eu me sinto como se eu fosse a atração principal do circo. Todos olham para mim, com misto de curiosidade, medo e aversão. O bom doutor não explicou a parte que eu fui “reconstruído” [engenharia genética, células tronco, impressoras 3D] com partes de outras espécies. Evidente que a aparência humanoide foi mantida.

No saguão, seguranças do hospital e particulares mantinham o público afastado. Em volta, pelos corredores, alabardas e do lado de fora, pessoas se aglomeravam para tentar ver, ouvir e falar com a figura central que se destaca na clareira providenciada pelos seguranças. Essa mulher deve ser a Imperatriz. Alta, loura, olhos cor púrpura, chifres adornam sua fronte, corpo atlético parcamente coberto com vestido branco, dois belos e fartos seios.

– Eu… eu te conheço…

– Evidente que me conhece, Mestre Weinberg. Nós nos conhecemos desde os primórdios. Assim sendo, eu não preciso te explicar porque eu te salvei. Ele está pronto, doutor?

– Sim, Imperatriz.

– Excelente. Acompanhe-me, Mestre Weinberg. Eu vou dizer qual a missão que eu te confiarei.

Lucifer ofereceu-me o braço e nós dois saímos, lado a lado, como se fossemos amantes [técnica e literalmente, nós somos], deixando a multidão irritada e revoltada. Ao entrar na limusine, outra figura conhecida nos aguardava.

– Mestre Weinberg! Que satisfação encontra-lo novamente.

– Satisfação a minha, major Degurechaff. Isso significa que eu estou na Quinta Dimensão?

– Sim e não, querido. A Nebulosa Unicórnio fez mais do que romper a isolação à qual Gaia estava sujeita por sua condição enquanto colônia penal. Gaia voltou a ser ponto de intersecção entre as galáxias, entre as dimensões. Eu sinto certa nostalgia com isso. Afinal, eu fui perseguida, maldita e demonizada por causa disso. Eu sempre vi e acreditei no potencial humano.

– Eu imagino que isso tem algo a ver com a minha reconstrução.

– Tem tudo, querido. De certa forma, as sete famílias mais importantes da União Galáctica estão recriando o evento que causou a minha “queda”. Essa é a parte mais doce. Os Deuses estão fazendo aquilo que eu fui punida e condenada. Você, meu querido, entre tantos, é mais do que capaz de ser meu Mestre, aquele que vai representar a minha família.

– Eu sou capaz de fazer qualquer coisa por você, Lucifer [gemido excitado]. Mas o que eu tenho que fazer?

– Permita-me, Imperatriz, afinal, eu também estou nesse time.

– Oh, sim, Tanya, isso será divertido.

– Mestre Weinberg, Gaia não é somente um minúsculo grão de poeira, este é o único grão de poeira com vida inteligente dentro da extensa região da área de 100 parsecs. Trocando em miúdos, Gaia é ponto de referência para as espécies que queiram, agora, colonizar ou explorar as rotas cósmicas dentro desse cluster. Então, para decidir isso, cada espécie, cada família, escolhe um Mestre que irá liderar até sete Guerreiras. Por alguma regra universal arcaica, apenas machos podem ser Mestres e apenas fêmeas podem ser Guerreiras.

– Não importa como isso seja dito, explicado ou justificado. Soa como péssimo roteiro de animação adulta.

– Felizmente essas pobres limitações humanas estão extintas. No entanto, no melhor interesse da minha família, eu acho que eu tenho que… testar… seu corpo reconstruído.

– Permita-me que eu a ajude nessa tarefa, Imperatriz.

– Oh, sim, Tanya, sua ajuda será muito providencial.

Foi assim, entre as coxas de Lucifer e Tanya, que eu comecei minha missão para salvar Gaia e a humanidade.

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As aparências enganam

Todos ouviram alguma vez o conto Rapunzel [graças aos inúmeros filmes da Disney] e todos conhecem a estória, ou assim acreditam. Essa estória da criança mágica que fica presa dentro da torre por uma bruxa malvada até ser salva por um príncipe. Eu prefiro sempre ouvir a outra parte.

E se a bruxa não fosse malvada? E se a criança fosse a malvada? E se o príncipe, ao “libertar” a Rapunzel, tivesse soltado algo maligno?

Nada de bom pode advir de algo fechado, selado, preso. Pandora liberou os males no mundo ao abrir a caixa que Epimeteu ganhou dos Deuses ao casar-se com ela. Isso fala muito de presentes de casamento, de parentes e de Deuses, mas quem ficou com a péssima reputação foi Pandora.

A família Redherring estava no cais de Southampton como muitas outras que estavam prestes a embarcar rumo ao Novo Mundo. Adam Redherring, o pai, estava assinando o Pacto dos Peregrinos, mera formalidade burocrática para o capitão do navio, mas indispensável para todos os que embarcariam. Leila Redherring mantinha-se ocupada, lendo o Livro da Oração Comum e tentando manter o pequeno Abraham distraído. Abigail estava encarando a estranha figura de proa, fazendo caretas para ela e lia o nome do navio quando Adam voltou.

– Oquei, pessoal, tudo pronto, tudo acertado. Nós podemos pegar nossas coisas e embarcar.

– Graças a Deus. Você sabe o quanto eu não suporto apinhamento de gente.

– Papai! Mamãe! A moça do barco me disse que nós estamos indo para uma terra cheia de selvagens.

– Moça do barco?

Abigail aponta o dedinho para a figura de proa. Leila torceu o rosto e virou, envergonhada. Adam puxou os longos bigodes e alisou a barba. Abraham soltou um pum.

– Querida, nós conversamos sobre isso antes. Você não deve conversar com espíritos e não deve expor seu talento.

– Mas papai, eles são meus amigos e me ensinaram muitas coisas!

– Coisas do Diabo, Abigail. Coisas do Diabo. Nós estamos viajando para o Novo Mundo exatamente para fugir da Besta, o Papa e da Grande Meretriz, o Vaticano.

– Ouça seu pai, Abigail. Se souberem que você fala com espíritos, nós seremos excomungados. Pense no seu irmãozinho.

Abigail aperta com as mãos os frisos decorativos de sua saia, faz bico e lágrimas começam a se formar em seus olhos. Ela funga, mas não chora, ela sabe que isso não resolve o assunto. Seus pais nunca vão entender e aceitar. Ela nunca vai deixar de lado seus melhores amigos.

Os ajudantes de marinheiro içam a parte mais pesada e volumosa dos pertences dos Redherring enquanto o quarteto sobe a rampa de acesso, com a bagagem de mão. Os ajudantes de bordo ajudam na transição entre o cais seco e o bordo, sempre balançando ao sabor das ondas. Camareiros vão orientando os que embarcam, indicando a cabine onde cada qual permanecerá por duas semanas até cruzar o Atlântico.

– Família Redherring, eis nossa cabine!

Adam abre os braços em toda amplitude, como se estivesse apresentando sua “casa” nas próximas semanas. Leila ficou boquiaberta com o conforto. Não era grande como a casa deles em Cornwall, mas era suficientemente grande para os quatro. Situação privilegiada, se levarmos em conta a grande maioria dos viajantes. Abraham agarrava o carpete com suas mãos e Abigail se restringia em só olhar para os demais “passageiros” que lá estavam.

– Adam… isso é… fabuloso! Tem certeza de que temos dinheiro para isso?

– Não se preocupe, meu amor. Nossa congregação nos deu dinheiro mais que suficiente para inaugurarmos uma comunidade no Novo Mundo.

– Mesmo assim, meu amor, nós temos que guardar para imprevistos. Contam muitas estórias sobre o Novo Mundo. Eu não gosto de incentivar Abigail, mas a “moça do barco” falou algo que nós devemos nos preocupar que são os selvagens que lá vivem.

– Nada temam, meus amores! John Talbot, nosso ministro e fundador, disse que esses selvagens são descendentes da Tribo Perdida de Israel, portanto, nossos irmãos em Deus e em Cristo.

– Ah, Adam! Eu não sei se eu o amo por ser tão otimista ou por ser tão ingênuo.

– Desde que me amem, meus amores, tudo está bem.

Abraham engatinhava e ria. Abigail conversou discretamente com os espíritos enquanto Adam e Leila se beijavam. Duas semanas que podem produzir mais um irmãozinho ou irmãzinha para Abigail.

O navio Leão de Judá chegou em Provincetown, Plymouth, Massachusetts no início da primavera. O cais, construído no promontório natural, era imenso e extenso, porem mesmo assim estava lotado de navios e pessoas. Ligeiros, os ajudantes de bordo passam pelos gabinetes avisando da chegada e pedindo aos passageiros para desembarcarem. Mal a família Redherring põe os pés no Novo Mundo e suas bagagens os aguardavam no cais.

– Chegamos, meus amores! Isto é o que chamam de Nova Escócia.

– Por Deus e por Cristo! Quanta gente! E agora? O que faremos? Para onde iremos?

– Ah, preciosa esposa! Tudo está sob controle. Bons cristãos hão de vir nos ajudar. Nossas comunidades aqui no Novo Mundo sabem de nossa vinda.

– Adam? Meu bom amigo Adam?

– Ebenezer? Por Deus, Ebb! Você envelheceu!

– Isso lá são modos de saudar seu velho amigo de escola? Eu não estou velho, eu só trabalho muito. Aqui trabalho é que não falta.

[ahem]- Querido, quem é o cavalheiro?

– Falando em educação… Ebb, Leila, Leila, Ebb.

– Satisfação inenarrável em conhecê-la, senhora.

– Senhor Ebenezer, não tome conta as bobagens de meu esposo. O senhor não está velho. Este é meu pequeno Abraham e esta é minha adorável filha, Abigail.

– Igualmente satisfeito em conhecê-los. Mas permitam-me ser prático. Como vão transportar seus pertences até o próximo condado ou mesmo até o próximo estado?

– Nós estamos aguardando que congregacionistas venham nos ajudar.

– Hah! Eu te peguei nessa, Adam. Eu não estou aqui por mero acaso. Eu sou o contato enviado pela Congregação Presbiteriana de Ohio. Eu trouxe meus homens, todos bons cristãos. Esse é Matt, aquele é Joe e atrás tem o Chuck.

– Eu agradeço aos cavalheiros pela ajuda. Que Deus e Cristo os abençoem.

Os três “cavalheiros” mantiveram as feições fechadas e carregadas. Matt cuspiu no chão e colocou outro naco de tabaco para mastigar. Joe proferiu algumas palavras que fizeram Leila tampar os ouvidos de Abigail. Chuck era menos amistoso ainda por ser aborígene local, por carregar consigo várias mágoas e rancores. Alheia a tudo isso Abigail foi direto falar justo com ele.

– Moço, você conhece alguém chamado Manitu?

– Manitu? Sua gente chama de Deus.

– Ele me disse que está muito preocupado com você. Ele me pediu para te dizer que não é culpa sua.

O velho nativo americano olhou para a garota, espantado pela falta de desconfiança e medo que sempre percebe no olhar e no cheiro do homem branco. Ele sorriu e deu algo pequeno, que cabia na palma da mão, antes de Abigail ser brutalmente afastada dele pelas mãos de Leila.

– Por Deus, Abby! Não foi essa a educação que eu te dei. Lamento, senhor Chuck, se minha filha o incomodou.

– Incomodo algum, senhora. Eu só fico espantado em ver que sua gente tenha facilitadores espirituais.

– Facilitadores espirituais? O que significa isso?

– Sua filha nasceu com o dom de ver, ouvir e falar com o Mundo das Almas. Esse é um dom grande e bom.

Leila apertou ainda mais Abigail, com medo daquele homem, com medo que sua filha fosse levada para o caminho do Diabo. Ebenezer e Adam estavam ocupados demais em colocar as bagagens no vagão que os conduziriam até Boston, onde pegariam o trem até o “Fim do Mundo”.

Chegaram em Boston dentro do prazo de uma semana e, no trem, puderam ter mais espaço e privacidade por mais duas semanas. Quem não gostou muito foi Abigail, constantemente sendo acordada pelos gemidos de sua mãe e pelos guinchados da cama.

A rota da família Redherring: New Haven, Nova Iorque, Filadélfia, Baltimore, Alexandria, Richmond e destino final em Roanoke.

– Bem vindos ao Ponto Final, senhor e senhora Redherring. Eu nunca estive em Londres e certamente existem lugares no Novo Mundo que reacendem minhas memórias de Cornwall. Enfim, quando eu cheguei aqui nós praticamente construímos a cidade a partir do chão. Isso era o mais perto que os Peregrinos chegavam dos montes Apalaches, considerado a fronteira do mundo, para onde, além dessas belas montanhas, nós só ouvíamos falar de lendas e estórias estranhas, contada por mineiros que voltavam ou com ouro ou com demência.

– Sim, sim… [puxando o ar] isso parece bastante com Nova Caledônia, mas cheira bem melhor.

– Excelente memória, caro amigo. Tal como Nova Caledônia, onde nos tornamos homens e concluímos nossos estudos, aqui nós encontraremos um pouco de tudo. Católicos, Luteranos, Calvinistas, Batistas, Presbiterianos, Holandeses, Franceses, Escoceses e sabe lá Deus mais o que.

– A visão é reconfortante, cavalheiros, mas… eu temo pelo futuro de nossa congregação, de nossa família e de meus filhos nesse antro que mais parece a antessala do Inferno.

– Mais uma razão para nós termos lançado a pedra fundamental da congregação nessas terras, distinta senhora. Esse foi o compromisso que firmamos ao aceitarmos Cristo como nosso Senhor e Salvador. A missão de todo bom cristão é levar a Palavra de Deus até os confins da terra.

Adam fez o acerto com Ebenezer, despediram-se e que cada qual faça os acertos posteriores. Matt cuspiu na mão de Ebenezer, Joe proferiu mais palavras que abalaram até o coração de Adam. Chuck foi estranhamente gentil e atencioso com a família Redherring.

– Senhor, senhora, senhorita. Eu peço desculpas pelos meus companheiros. Em nossa profissão nós nos tornamos duros e frios por circunstancias próprias do ofício. Eles são homens bons, cristãos como todos de sua gente. Eu espero que o Deus da sua gente os acompanhe e os proteja.

– Não por isso, senhor Chuck, não por isso. Nós somos homens, fazemos o que deve ser feito.

– Eu devo dizer que eu estou confusa e envergonhada, senhor Chuck. Eu o tomei como exemplo do que eu encontraria nessas terras. Mas Deus escreve certo por linhas tortas. Nós viemos aqui para espalhar a Palavra da Boa Nova e o senhor também pode receber a Graça da Salvação. Então, se o senhor tiver tempo livre, venha visitar nossa pequena congregação e assista ao santo culto do Evangelho em nossa Igreja. Eu tenho certeza de que o Espírito Santo irá toca-lo e abrir seus olhos para o Caminho, a Verdade e a Vida.

– Eu não vou prometer, senhora, mas quem sabe? Eu bem que posso aparecer nessa congregação, com meus filhos. A senhorita estará lá?

[embaraçada e cismada]- Ah… bom… sim, Abigail certamente estará no coro da Igreja.

[enorme sorriso]- Bom! Muito bom! No tempo certo, quem sabe sua gente descobre que são vocês que estão com olhos vendados. A senhorita Abigail será necessária para os dias que virão.

[irritada e contrariada]- O que o senhor está insinuando?

[enorme sorriso]- Não fique chateada e irritada, senhora. Sua gente chegou e se espalhou por essas terras, as nossas terras, com toda essa pose superior, ditando e dizendo coisas que não compreendem. Nós não somos selvagens, senhora. Nós apenas somos uma civilização diferente. Nós não conhecemos Deus por livros ou por sermões, nós O vemos todos os dias, em todos os lugares. Nós também acreditamos que Deus envia um Emissário de tempos em tempos, para nos testar, para nos avaliar, para nos julgar. Nós também vivemos por Altos Ideais e foi a sua filha quem fez me lembrar disso tudo. Sua filha, senhora, irá ensinar a sua gente.

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Em semanas a família Redherring ambientou-se por inteiro. Adam conseguiu emprego facilmente, tal como Ebenezer dissera, o que não faltava era trabalho e a Igreja nem precisou esforçar-se muito. Leila mal teve tempo de desencaixar as coisas da família e encontrava-se atarefada com as senhoras da Igreja e os eventos da Escola Bíblica. Abraham ganhou muitos “irmãozinhos” na Creche da Igreja. Abigail estava encantada [e sua mãe horrorizada] com seus novos colegas de escola. Verdadeiro céu de brigadeiro, como dizem.

Até que a Congregação Presbiteriana de Ohio – Missão Apalache, recebeu a visita do Missionário John Talbot, o fundador dessa congregação de luteranos e calvinistas nas terras pagãs do Novo Mundo. A cidade de Roanoke ficou pequena para a confluência de pessoas vindas de outras cidades. Todos queriam ver e ouvir o lendário John Talbot que atravessou por toda a terra até o outro lado do mundo. Dizem que ele levou a Palavra até Ohio na Expedição de Lewis e Clark, embora alguns boatos alegassem que ele conheceu o Oeste Selvagem juntamente com James Cook ou Robert Gray. O sermão, diante de imensa multidão [digamos, 10 k pessoas, uma “multidão” para a época], foi impressionante e impactante.

– Povo de Deus! Eu estou aqui diante de tantas almas alcançadas por Cristo, eu posso dizer que sou testemunha da milagrosa multiplicação dos crentes na Palavra. Eu agora estou velho e meus cabelos brancos assim confirmam, mas quando aqui eu cheguei eu ouvi o que vocês devem ter ouvido. Essa é uma terra onde jaz o maligno. Além desses montes os Peregrinos vão encontrar Católicos, Luteranos, Calvinistas, Batistas, Presbiterianos, Holandeses, Franceses, Escoceses e sabe lá Deus mais o que. Mas aquele que anda ao lado de Deus e segue o mandamento de Cristo nada tem a temer! Eis aqui aquele que atravessou incólume por terras inóspitas, desde o Atlântico até o Pacífico! [palmas, assovios, aclamações] Sim, meu Povo, eu posso confirmar que esta é a Nova Jerusalém, mas como nossos antecessores, nós devemos conquista-la e expulsar os espíritos malignos que aqui ainda habitam. Então, por revelação e mensagem de Deus, eu estou aqui para ouvir a resposta. Cristo pergunta: Quem enviarei? Quem irá por nós?

Daquela enorme multidão cinco famílias foram voluntárias e [evidente] os Redherring estavam entre estas famílias. Adam estava animado, Leila nem tanto, Abraham estava concentrado com seu brinquedo e Abigail reclamava que teria que se afastar mais uma vez de seus amigos.

Doze vagões saíram de Roanoke, cinco para as famílias, cinco para as provisões, mais dois para a escolta e provisões de tropa. A rota da Missão Idaho: Charleston, Huntington, Lexington, Louisville, San Luis e Kansas. Semanas mal dormidas para Abigail, o vagão balançava demais para ser somente por conta da estrada. Para ajudar a cuidar dos pequenos, as famílias revezavam, assim Abigail pode dormir algumas noites, com exceção daquela em que ficou com o mítico fundador John Talbot.

A estorinha de sua origem remontar aos nobres ingleses costumava ser convincente para jovens mulheres, mas não estava impressionando Abigail, então ele misturou com outras estórias de sua família carregar a maldição do lobo, mas só conseguia risadas de Abigail.

– Senhor Talbot, isso não é engraçado. O senhor e sua família não carregam maldição alguma.

– Mas eu sou neto de homens-lobo! Quando a lua fica cheia, eu perco a consciência, aumenta meu tamanho, pelo e músculo. Vizinhos juram que me viram uivar em direção da lua.

– Pare de mentir, senhor Talbot. O senhor não tem a capacidade de mudar de forma.

– Como pode afirmar isso?

– Os espíritos me contam tudo.

– Os… espíritos… falam com você? Você vê, fala e ouve os espíritos?

– Por favor, senhor Talbot, não fale para meus pais! Não me denuncie!

– Mas isso é muito grave, senhorita Abigail. Esse é o talento dado aos servos do Diabo. A senhorita terá que me permitir examinar, investigar e avaliar o seu corpo… para ver se não há marcas do Diabo.

Abigail estava assustada e com medo, mas os espíritos que nunca a deixavam a orientaram para deixar o missionário satisfazer seus impulsos e assim foi que John Talbot desnudou Abigail, mas não pode fazer coisa alguma com ela. John Talbot não viveu para chegar em Denver. As cinco famílias se separaram em Boise, Idaho, o destino final da missão, cada qual decidindo para onde iriam com o intuito de levar a Palavra aos selvagens. A família Redherring decide seguir com o grupo que decidiu ir em direção a Deseret [Utah], onde espalhariam o Evangelho entre os selvagens que habitavam os cânions.

Ali encontraram três guias nativos que haviam se tornado bons cristãos e agora não apenas conviviam com o “homem branco” como esqueceram as rixas antigas nas quais suas tribos viveram antes de ouvirem a Palavra. Moe, o mais velho e experiente, foi guerreiro Navajo. Curly, o mais magro e alto, foi guerreiro Cheroquee. Larry, o mais ladino, foi guerreiro Sioux.

– Querem encontrar a Terra de nossos Pais? Nós podemos leva-los até Dinetah. Mas não se aventurem para depois de Hovenweep. Espíritos muito antigos e poderosos vivem lá.

Evidente que os missionários não ouviram nem deram conta do aviso. Afinal, estavam em missão do Verdadeiro e Único Deus. Despistaram seus guias na Terra Sagrada [Dinetah] e seguiram, por conta própria, arriscando-se através do labirinto natural formado entre as rochas dos cânions. Encontraram as ruinas do que era chamado de Hovenweep, mas não se intimidaram sequer com as estranhas formações rochosas que viam na região, indicando algum misterioso escultor.

Foi o velho Jededias que encontrou as estranhas gravações e alinhamentos. Para o velho Jededias, aquelas eram as mesmas marcas deixadas pelas Tribos de Israel, então provavelmente aquela era a pista que tanto procuravam que os levaria até a Tribo Perdida. Realmente, encontraram algo… ou alguém… para ser mais exato. Aquelas vinte almas ficaram cara a cara com o que os selvagens chamavam de Homem Velho.

– Criaturas inferiores! Como ousam invadir meu território?

– Nós estamos aqui para cumprir com a missão que nos foi dada por Cristo!

– Cristo? Quem é? Eu nunca ouvi ou olhei tal ser.

– Ele é o Cordeiro de Deus enviado para trazer a Salvação para todos.

– Para todos? Eu também?

– Sim!

– Isso é novidade. Vamos combinar assim, então. Eu deixo esse Cristo tomar conta dessa terra e eu vou tirar merecidas férias. Eu vou visitar meus parentes, beber, comer, fazer música e amor. Daqui a cinquenta anos eu venho ver como Cristo governou essas terras, então decidiremos.

As vinte almas, embasbacadas, viram o Velho Homem sumir feito névoa. Entoaram cânticos e se puseram a construir ali a Segunda Congregação Presbiteriana de Ohio. Mal assentaram a pedra fundamental quando vultos e espectros começaram a circular os viventes, os perturbando com visões, sonhos e terrores. Como se não fosse suficiente, larvas [astrais] brotavam do chão e insetos [espirituais] rastejavam atrás, caçando-as. Ossos secos saídos de covas ou apenas os fantasmas de selvagens e soldados mortos passeavam pelo que viria a ser a avenida principal, como que indicando que ali estava fundada a civilização do submundo. Essa foi a parte agradável. Aquelas vinte almas não queriam ver a parte desagradável.

– Meu Deus! Vinde nos ajudar!

– Relaxem, vizinhos. O Angara vai organizar essa bagunça. Aliás, Ele deveria ter aparecido.

– Ah! Cruz credo! Quem é você?

– Isso não foi educado, sabia? Eu fui gente como vocês, mas desencarnei. Conhecem Ebenezer? Ele é meu neto.

Adam conversa com Berenice [avó de Ebenezer] que fica bastante irritada ao saber que Angara [Homem Velho] tinha ido embora por causa dessas vinte almas viventes.

– Vocês enlouqueceram? Angara é o único que tinha poder para manter nossa cidade em ordem e protegida. Agora nós também seremos vítimas dos seres que virão.

Espectros, vultos e demais criaturas ficaram bastante agitadas conforme outras… coisas… começaram a se aproximar e cercar a cidade fantasma. Berenice chorava, dizendo que não queria morrer, apesar de estar morta. Os humanos só podiam ajoelhar e rezar, esperando para que Deus ou Cristo os livrassem do Mal. Mas a salvação veio de Abigail.

– Seu Homem Velho? Seu Angara?

– Hum? Quem me chama?

– Sou eu, seu Angara, Abigail.

– Pequena criatura, por que me chama?

– Seu Angara, minha gente, sua gente, precisa de ajuda.

[bufando]- Felizmente isso não é mais problema meu, mas de Cristo e de Deus.

– Mas seu Angara, Deus não vai nos ouvir, Cristo não vai nos ouvir!

– Como é que é? Como assim? Deus e Cristo não vão ajudar essas criaturas?

– Seu Angara, minha gente fala de Deus e de Cristo, mas eu vejo, ouço e falo com espíritos desde que me conheço por gente. Eu nunca vi, ouvi ou falei com Deus ou Cristo. Eu não posso falar isso para meu povo, mas a verdade é que eu sei que só o senhor é quem tem o poder e a autoridade para ajudar essas vidas!

– Eu devo dizer que desconfiava disso. Mas trato é trato. Eu quero tirar férias. Se sua gente morrer, problema deles. Se minha gente morrer, problema deles.

– Por favor, seu Angara, não faça isso. Essa é a minha gente e os espíritos sempre ficaram ao meu lado quando eu precisei. Eu não posso deixar isso acontecer.

– Eu não vejo como você, pequena Abigail, pode fazer algo a respeito.

– Eu sei que sou pequena, uma mera garota humana. Mas, seu Angara, você pode me emprestar um pouco do seu imenso poder. Assim eu tomo conta dessa terra e você pode tirar férias.

– Tem ideia do que me pede, Abigail?

A choradeira das criaturas era insuportável, assim como os olhos de filhote de Abigail. Angara cedeu uma parcela pequena de seu poder, o facho de energia durou um segundo, mas foi suficiente para Abigail receber poder suficiente para expulsar os mais inteligentes e destruir os mais ousados. Todas aquelas criaturas estavam a salvo. Mas Abigail nunca mais pode ficar com sua família, abraçar seu pai, passear com sua mãe ou carregar seu irmãozinho Abraham.

Com dor no coração, para que Aberdeen pudesse se erguer, os seres humanos [com ajuda das criaturas do submundo] tiveram que construir em volta de Abigail a morada dela. Conforme os anos foram passando, mais muros, paredes foram sendo acrescentados, fazendo com que Abigail pudesse vigiar a todos do alto de sua imensa torre.

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Aberdeen, em algum lugar de Utah, EUA. Provavelmente a única cidade em Utah que não tem a presença de Mórmons. Ou de Adventistas, ou de Testemunhas de Jeová, ou de Católicos, Luteranos, Calvinistas. Provavelmente a primeira e única cidade que se declarou secular e humanista. Não coincidentemente, sequer aparece no mapa oficial.

Mas está lá, eu lhes garanto. Afinal, eu nasci aqui, eu moro aqui e eu estudo aqui. Muito embora 99% dos habitantes daqui declaram morar em Idaho, Colorado, Wyoming, Arizona ou Nevada. Outro mistério é encontrar a atividade econômica. Como nossa cidade fantasma consegue ser tão bem sucedida, rica e influente se as empresas e indústrias são todas sediadas em outros Estados? Acha que é só mais uma Teoria de Conspiração? Então tente perguntar para qualquer dos locais quem é o prefeito, onde fica a Câmera Municipal, o Forum… tente localizar uma única delegacia de polícia ou quartel de bombeiro. Oficialmente, Aberdeen, Utah, não existe.

Mas que cabeça a minha! Onde está minha educação? Eu nem me apresentei. Enzo Vergessen. Aluno da Escola Cosmos Carl Sagan, nono grau do colégio. Como eu sou “cidadão” de cinco Estados diferentes, meus direitos como cidadão variam conforme o caso, a pessoa e o momento. Eu também costumo usar isso a meu favor, que eu não sou besta. Então pelas frestas do sistema, eu posso dirigir, fumar, beber e trepar. Eu tenho a vida que muitos garotos da minha idade sonham, ao mesmo tempo em que eu sou o pesadelo de muitos pais.

Para meus colegas e professores, as opiniões são variáveis. Eu quebrei no soco muitos deles, mas garotas e professoras sussurram coisas a meu respeito, frequentemente exageradas, mas eu posso me dar a coroa de conquistador. Na melhor das hipóteses, sendo muito otimista, eu sou a péssima influência que seu filho e filha devem evitar.

Desde que eu me conheço por gente o que mais se fala na galera é a lenda da Torre das Sombras. Existem várias versões, mas só um desafio. Todo garoto que se acha durão, para mostrar que é homem, tem que entrar e passar uma noite dentro da Torre das Sombras. Evidente que eu não ia chegar na velhice [16 anos] sem provar que eu sou o cara.

Encontrar e chegar na torre é tão fácil quanto declarar que eu nasci em Kansas. Aberdeen cresceu literalmente, em torno da enorme estrutura e, tipo, por quilômetros não há qualquer outra edificação. Não há cercas, grades, vigilância, policiamento. Mas, tipo, tem gente que se borra todo só de olhar para a torre, quanto mais ficar no perímetro externo. Uma fileira de pedras. Calçamento. Essa é a única margem que distingue a cidade do perímetro externo. Talvez arbustos, grama. Talvez a cor das pedras conforme eu vou avançando. Estranhas marcas no chão. Como que se algo tivesse se deslocado, embora eu não saiba dizer em que direção. Talvez o estranho silêncio. Nem o som tem coragem de entrar aqui. Eu duvido que tenha algum ser vivo, até mesmo baratas, por aqui.

Minha família trabalha com projetos e obras, eu absorvi algumas coisas e não consigo distinguir o estilo de construção ou materiais que foram usados, muito menos como isso foi erguido. Até parece que essa coisa “nasceu” e foi crescendo, criando escamas sobre escamas, subindo, aumentando. Eu percebo algumas lacunas, mas estão mais para nichos do que para janelas.

Enfim eu chego ao “tronco”, mais espesso que uma imensa sequoia, aparentemente feito em uma única peça de mármore [impossível] cor de cobre que parece pulsar vivo. Só então eu me dou conta que as estranhas marcas no chão fazem algum tipo de padrão, como que escrita em linguagem indecifrável. Seja quem for o decorador dessa coisa, ele tem péssimo gosto e acha que isso pode me assustar. Eu começo a rodear, pensando em como invadir a torre, eu não vi qualquer passagem, porta ou entrada, mas não é que apareceu uma brecha assim que eu pensei nisso?

A sensação da torre por dentro é curiosa, parece que as paredes são aveludadas, apesar de serem feitas de pedra maciça. Eu ouço uma respiração, algum tipo de pulsação e não é a minha [oquei,
talvez eu esteja só um pouco assustado]. Eu tento não pensar que a torre é uma coisa viva, mas o suor frio não deixa. Oquei, eu entrei e eu estou no térreo, no saguão principal dessa coisa. Deve ter algum jeito de subir para os níveis acima. Elevador? Se isso é vivo, é o mesmo que ser engolido. Uma escada cairia bem. Pensar é acontecer, isso é notável, mas calafrios sacodem meu corpo todo ao ver a “escada rolante” que mais parece as costas de uma centopeia.

Subir, subir… eu espero que eu não sofra de vertigens. Curiosamente, eu consigo ver o cenário que vai se descortinando na paisagem conforme eu subo. Eu posso jurar que eu vi uma águia voando. Qual a altura disso? Esquece. Ninguém tem coragem de chegar perto, menos ainda de medir.

Ponto final. Isso deve ser a cúpula. Caramba, eu consigo ver Las Vegas daqui! Eu imagino que isso deva ter um centro, um ponto principal, talvez o dormitório do monstro que habita essa torre. Mais paredes, mas passagens, mais corredores. Chato. Labirinto é brinquedo de criança. No maternal, minhas professoras ficavam assombradas com a minha facilidade em resolver labirintos. Isso aqui é estupidamente tedioso.

– Invasor! Criatura inferior, como ousa invadir meu território?

Eu sou surpreendido. Uma garotinha, com alguns dedos maior do que minha irmãzinha, mesma prepotência e arrogância, tenta me erguer do chão, agarrando o colarinho de minha camiseta.

– Hei, calminha aí, Cachinhos Dourados. Eu paguei cinquenta paus por essa camiseta. Se você estragar, vai ter que me pagar outra.

– Hã? Quê? Você está me vendo?

– Dãããã… é claro que eu estou te vendo.

[recuando, assustada]- Nãonãonão… isso não é possível. Isso não pode acontecer. Eu sou… melhor dizendo… como eu estou sendo vista?

Eu dou uma boa olhada na figura. Interessante. Enormes e fartos cabelos cacheados amarelos e brilhantes como ouro. Magra nos lugares certos, recheada nos lugares certos. Olho esquerdo verde, olho direito azul. Ela lembra muito uma prima minha com quem eu tive algumas liberdades.

– Olha, Cachinhos Dourados, deixando de lado essa sua roupa fora de moda que mais parece ter saído de um péssimo filme de Western, você tem a mesma aparência das minhas colegas de escola.

– Humana? Minha aparência é humana?

– Hã… bom… sim… é… humana… [gemido de tristeza], mas porque essa pergunta? Aliás, como uma garotinha como você veio parar aqui?

– Idiota! [soco-ai] Imbecil![soco-ai] Retardado! [soco-ai] Nunca te contaram a minha história não? [soco-ai]

– Garota, você tem problema? Não sabe se comunicar sem violência [epa, quem sou eu para falar isso]? Essas velhas lendas sobre os Pais Fundadores são… eeeh… lendas. Hoje em dia ninguém leva a sério.

– Lenda? Você está falando que mitos são mentiras? Por acaso eu pareço uma mentira?

– Eu ainda nem sei quem é você, muito menos como você veio parar aqui. Que tal mostrar um pouco de educação [isso soa estranho vindo de mim] e se apresenta?

– A… Abigail… Redherring.

– Muito prazer, senhorita Redherring. Eu sou Enzo Vergessen. Eu entrei nessa torre porque… bom… porque esse é o desafio, se eu quero ser reconhecido. Dizem que aqui tem um monstro, mas o que eu encontrei não foi a Fera, mas a Bela.

[enrubescendo]- E… então você ouviu falar de mim.

– Peraê! Parou tudo! Você é o monstro? [assovio] Mina, você ganha fácil da Alice, a “princesinha” do meu colégio [ela fica retraída e aperta os dedos contra a saia e eu não sei porque isso
me incomoda].

– O… obrigada… mas isso não responde porque você me vê na forma humana.

Essa é uma boa pergunta. Aberdeen, Utah, a cidade que oficialmente não existe, está livre de religião, mas tem muita espiritualidade. Minha cidade se tornou um santuário para inúmeras crenças alternativas. Eu posso dizer que eu fui “feito” pelos meus pais durante a reencenação de antigos rituais. Meus pais curtem e frequentam esses círculos onde supostamente comparecem bruxos e bruxas. Eu vou negar isso até o fim de meus dias, mas meus pais praticamente declaram publicamente que eu tenho sangue bruxo.

– Vai ver que é porque eu sou especial, ou você não tem tanto poder assim [uau, eu quase fiquei assustado com a expressão de raiva dela]. Ou pode ser a posição dos astros, sei lá.

– Pode ser. Faz muito tempo… muuuuito tempo que eu estou aqui. Eu não reconheço seu traje estranho. [oi?] Que tempo é este?

– Tempo? Tipo, dia, mês e ano? [aborrecida] Oquei, Rainha Monstro, hoje é 11 de julho de 2018.

– Tanto assim? Aquele tratante do Angara! Ele deveria ter voltado dentro de cinquenta anos! Eu não acredito que eu tenha permanecido aqui por mais de duzentos anos!

– Opa… parou tudo… você não parece ser mais velha do que minha irmãzinha, mas você está aqui há mais de duzentos anos? [expressão de brava] Oquei, oquei, eu acredito em você. Mas quem é esse tal de Angara?

– Os nativos americanos o chamavam de Homem Velho. Ele é o Deus local. Para que Aberdeen pudesse existir e seus trisavôs pudessem sobreviver eu troquei de lugar com ele.

– Oquei, mas porque ele ou você tem que ficar presos aqui?

– Aqui tem o vórtice que liga os mundos. Quando Angara saiu, seres de outras dimensões puderam tentar entrar nesse mundo e se isso acontecesse, seria o Fim do Mundo. Eu implorei para que Angara cedesse um pouco de seu poder, então eu tenho garantido que apenas almas, espíritos e entidades locais continuassem a conviver entre os humanos.

– Isso faz muito sentido. Basta olhar essa carinha bonita, esses longos e louros cachos, esses olhos de duas cores que os Filhos de Azathot fogem.

[muito brava]- Eu sou muito forte e poderosa! Angara cedeu uma pequena fagulha de seu incomensurável poder, mas eu acabei desenvolvendo o meu próprio poder!

– Hei… Abe… eu acabei de te elogiar, sabia? E você está amassando de novo minha camiseta caríssima.

Abigail então se dá conta que está muito perto de mim, do jeito que segurava meu colarinho. Ela fica lívida e roxa de vergonha. Larga minha camiseta e dá três passos para trás.

– De… desculpe… eueueu… não sei o que deu em mim.

– Bom, Angara não voltou talvez porque não tem que voltar. Talvez o vórtice fechou. Talvez esses seres de outras dimensões encontraram lugares e praias mais interessantes. Sendo assim, talvez você não precise ficar presa aqui.

– Isso… isso é possível? Eu posso… sair… ser livre?

– Nós podemos tentar? Sei lá, você fala com seu pessoal, pega informação no plano astral, algo assim.

– Eu… não sei… eu… faz tempo que eu não saio daqui. Eu não vou reconhecer nada, nem saberei onde eu estou.

– Não por isso, Rainha dos Monstros. Por uma módica quantia, eu posso ser seu guia.

– Vo… você? [envergonhada] Você… faria isso?

– Por uma módica quantia, Rainha.

– Bom… [suando] então eu acho que aceito… [ela estende a mão e eu sinto algo estranho, esquisito, mas bom, ao segurar a mão dela].

Descer todo santo ajuda. Isso ou o poder de Abigail. Mal passamos por uma divisória e nós estávamos no térreo. Abigail respirou fundo [tossiu com a poluição] e ficou embasbacada com o tamanho e a extensão que Aberdeen chegou desde que ela ficou enclausurada. Discretamente eu peguei e guardei no meu bolso um pouco de solo, assim ela, tecnicamente falando, vai manter seu vínculo com essa terra. Eu vou ter que ficar junto dela constantemente… não fique rindo… ou eu afundo esses seus dentes. Se não der certo e nós formos invadidos por seres de outras dimensões, será o Fim do Mundo… e daí? Por que não? Eu vou gostar de ver esse mundo acabar, desde que eu esteja ao lado dela.

Surpresas

Faz um bom tempo que eu fiquei “órfão”, o Rock “morreu” no mundo Ocidental e minha banda favorita [Jesus and Mary Chain] só voltou a gravar depois de 19 anos.

Foi dureza aguentar a década de 80 dominada pela música de discoteca, foi dureza aguentar a primeira década do século XXI dominada pela música pop dançante, boys band e congêneres. Bandas de Rock, no mundo ocidental, estavam cada vez mais escassas.

Por coincidência [não existem coincidências, Gafanhoto], eu usei o vídeo streaming mais conhecido e usado [Youtube – propaganda gratuita] para encontrar algo que me agrade e digitei “symphonic metal”, com resultados que eu conheço [Cradle
of Filth], mas também apareceu outros resultados que me levaram [virtualmente] para o outro lado do mundo. Por sugestão do Youtube, eu conheci bandas japonesas como Aldious e Band Maid. Se você ainda não ouviu, eu recomendo. Essas bandas me prepararam e me conduziram para a melhor surpresa [guardem esse nome]: Yousei Teikoku.

Yōsei Teikoku (lit. Império das Fadas,traduzido em alemão como “Das Feenreich”) é um grupo de cinco membros de rock gótico japonês composto pela vocalista Yui, pelo compositor e guitarrista Takaha Tachibana, pelo baixista Nanami, o baterista Gight e o guitarrista Shiren.

Eles iniciaram suas atividades em 1997, fazendo parte do Team Fairithm e produzindo músicas que vão do clássico ao electro. O grupo lançou diversos discos indies, e atualmente possuem seis full álbuns . Além disso, várias das suas músicas já foram utilizadas em séries de animações japonesas ou em jogos. Como por exemplo: Mirai Nikki, Katanagatari, Tokyo Esp, Venus Versus Virus, entre outros.

O grupo foi formado em 1997, com apenas dois integrantes (Yui e Tachibana) e um conceito: Reviver, através da música, o Império das Fadas, que existia entre o mundo humano e o reino espiritual.

Em abril de 2010, com o lançamento do single Baptize, outros dois integrantes se juntaram ao grupo: Nanami e Relu. Em 2013,Gight se juntou ao grupo.

Yui Itsuki é também uma seiyuu (dubladora), tendo trabalhado inclusive no animê Kuroshitsuji.

Membros:

Yui Itsuki – Vocalista e compositora. E também é vocalista da banda Denkare sendo que lá é conhecida como Karen (Alterego).

Takaha Tachibana – Guitarrista, tecladista e compositor. Trabalhou com a banda Kukui no passado.

Nanami – Baixista.

Shiren – Guitarrista.

Gight – Baterista.

[Fonte: Wikipédia]

As duas bandas japonesas que eu citei anteriormente são compostas apenas por mulheres e são melhores que muitas bandas de rock ocidental. Eu não sei se é por causa de meu apreço por anime, não sei se é por causa da influência do Cradle of Filth, mas eu estou colocando a Yousei Teikoku como minha banda favorita. Oquei, quem me conhece deve desconfiar com razão que isso acontece por causa de miss Yui e sua aparência de Lolita Gótica.

Olhe bem para ela e tente não se apaixonar. Eu capitulei. Miss Yui é minha Queen.

Runaway train

First of all, this is not a composition about this 1992 Soul Asylum’s song, we past the middle of the first decade of XXI century and USA is far from settle the bullying problems, especially after voting for Trump, a compulsory bully.

I rather use something that I like: anime. Then, second, I will take the anime “Youjo Senki” as a reference, please, serve yourself.

Quoting Wikipedia: “In Tokyo in 2013, a poor performing salaryman is fired, and later, pushes the heartless supervisor who fired him in front of a train. As the supervisor falls, time stands still and he hears the words of God coming from the people at the station”.

So here I am, at subway station, watching my watch [no pun intended], worrying about lack of time, worrying about my appointment when, suddenly, I feel my body floating after a hard push in my back. Fear and horror are stamped in many faces, only one is smiling, in victory and the voice of this man sounds like thin can, talking something about punishing the sinners and infidels.

Please, take note, reader, even you think is irrelevant: the man can be anyone who confesses a monotheistic religion, Abrahamic religions, with that sadistic, jealous and bloody bastard God. So, judge, here is my complain: I was pushed to face Death because some moron think I am a sinner [there is no such thing] and an infidel, even me being a good modern pagan and very devoted to my Lord and Lady. I haven’t chance to defend myself. I rest the case.

Fear not, reader, because I haven’t. In this seconds that last a day, I was wondering if this is just a way to meet Tanya again. Well, she was there, shouting to me something like: “don’t disappoint me, master Weinberg”. And then all gone, after some pain and the feeling of being dismembered.

Fade in, fade out, black in, black out. I can’t count how many times this skill is used in movies. This is something unbelievers don’t understand. As the music “Snakedriver” from JAMC says: “If I wake up dead I’ll wake up just like any other day”. I just wake up and open my eyes as if it was another day. I feel funny and I don’t recognize my surroundings.

Let me describe how I see my actual environment. Green lines everywhere, some making what seems a path, others making what seems a box. Very much like a computer default location. Then, from the very borders of this, crossing a white wall [light?] appears a lad, with hooded jacket, jeans trousers, t-shirt and snickers.

[Jake]- Folks? Reunion! We got new place to run!

Slowly, other persons starting to show up, crossing through the white wall, from the “floor” or just appearing in middle of the “air”. I think I recognize them and I hope the reader too, but I will decline: they are characters of well know game called “Subway Surfers”.

[Tricky]- What will be our place to run, Jake?

[Jake]- Since we are at the World Cup, we will run in Moscow, Russia.

[Tricky]- That’s great! Hey, Alex, we will run in Moscow!

[Alex]- Velikolepnyy!

[Tricky]- What did she said?

[Jake]- That will be awesome!

[Lucy]- Hello. You must be the new character unlocked.

[Me]- I think so. What this is all about?

[Lucy, laughing]- Come with me, rookie. Jake will explain it all.

[Jake]- Hello, newcomer! What is your name?

[Me]- Do I have to choose a name?

[Lucy]- Of course! Otherwise, how we can call you?

[Me]- Then I choose Ubiratan.

[Tricky]- How exquisite!

[Jake]- Very peculiar.

[Lucy]- Very sexy…

[Jake]- Well, Ubi, all you have to do is to run as soon as the race starts.

[Me]- Run? To where? For what?

[Tricky, laughing]- Just run forward. Run away from the subway inspector.

[Lucky]- Speaking about the Devil, here he comes!

[Inspector]- I will get you, brat!

[Jake]- Run, folks! Don’t forget to jump, roll and dodge from the obstacles!

A man, big, fat and dumb, get closer and closer. Jake, Tricky and Lucy were far ahead, running. I stand still, regardless, facing him with a blank expression. When he get really close and spread his arms, I just use one of the hapkido techniques that I know. He screams in pain, starts to cry like a baby, while I hold his wrist in one hand and his face in the ground.

[Jake]- What are you doing, newcomer?

[Me]- I am giving him something to think about before hunting us.

[Jake]- This is not what we do. We run. Let’s try again, ok?

Tricky helps the inspector to stand up and she looks worry about him.

[Tricky]- He is part of the crew. Don’t do that again.

[Lucy]- That was impressive, though. You must meet my brother, Spike.

[Tricky]- Don’t support him, Lucy. We are not a fighting game.

[Lucy, rolling eyes]- Ay, ay, captain!

[Jake]- Ok, let’s start!

They start to run ahead, jumping, rolling and dashing. I follow behind, being avoided by the inspector. Suddenly, I see a barrier in my way. It comes to my head the simplest way to get over it, getting through it. I just break the barrier in two.

[Jake]- What are you doing, newcomer? You have to jump, roll or dodge it!

[Me]- Well, I break it. It seems easier that way.

[Tricky]- Don’t do this. We will have to pay for it. Barriers are property of our company.

[Lucy]- I wonder want more the newcomer knows to do.

[Jake]- Focus, folks! We are about fulfilling a mission!

[Me]- What was that?

[Tricky, rolling eyes]- We have missions to fulfill. Each time we realize that, we get prizes, like coins, head starts, score points multipliers and so on.

[Me]- I guess this is the payment we get.

[Lucy]- Right! You can also unlock another suit or board.

[Me]- This running never ends?

[Jake]- You are out of run if the inspector gets you. Like Tricky right now.

[Me]- Even he gets all of us. The run will start again and again. Do we have a spare time? To rest, to eat, to do something else?

[Jake, thinking]- I never think about that. We are out of game when inspector gets us. Then I think we have a spare time.

[Lucy, rolling eyes]- Don’t mind of Jake. He is the veteran, but he is not the most brilliant of us. Out of game we have a place to stay. We even have a city where we live. We call it Kiloocity.

Eventually the inspector gets us all. The game closed and we went to other dimension. A big dimension, where you can see a lot of cities that the characters have already runned. In the center of it, lies the Kiloocity, where the characters can eat, rest and do something else.

[Lucy]- Here it is, Ubi. Come with me! Let’s meet the other crew. Come with me and I will introduce you to my brother.

There are something in her eyes that makes me suspect about her intentions. But I was tired, thirsty and hunger.

[Lucy]- Hey, Spike, come to see the newcomer!

[Spike]- Newcomer? I will punch his face.

[Lucy]- I dare you.

[Spike]- What was that? Are you daring me? What is he? Your boyfriend?

[Lucy, drooling]- Maybe…

[Spike]- Oh, fuck. Good. Now I have a very good reason to kick your ass.

Spike gets out of their home and went straight to me, with his punk attitude. He looks very menacing in game, but looking at him now, he looks shorter than me. He throw his best punch at me [not even he hit would hurt me], but he ends in the floor, unconsciousness.

[Lucy]- Wonderful. Spike needed that. Come on. Let’s have lunch time in my home.

I walked inside the house, with walls surrounded with punk bands posters everywhere.

[Lucy]- We have pasta and pizza. I think that we have beer, too.

In a matter of minutes, she get back to the main hall, with two dishes, covered with pasta and pizza, holding two beers in teeth.

[Lucy]- Here is for you. This one is for me. Cheers.

The pasta and the pizza have an amazing taste. I drink four bottles of beer, nothing that I couldn’t take, but Lucy was already drunk.

[Lucy]- Hey, Ubi… you are from Brazil, aren’t you?

[Me]- Yes, I am. Why?

[Lucy]- Well… everyone knows about the Latino reputation. I want to check this out. Before the others girls have it.

Lucy jumps from the couch, get down in her knees in the floor and before my very own eyes, she unzipped my pants and take out my Little Friend.

[Lucy]- Mother of Gods! Look at it! It is not possible!

[Me]- Lucy, you are sure about this?

[Lucy]- Yes, my dear. I want it. I need it.

Needless to say that she play a lot with it, with her hands, lips, tongue and mouth. When she takes out her dress and panties, she was already wet.

[Lucy]- Ohboyohboyohboy… I never feel something like this. This thing will tear me apart, but I don’t care.

She come over me and start to ride me, making that love noises we know very well. I think she come trice before I blow away, inside her, my creamy load. She collapsed, passed away and lied in the floor, with a large smile in her face, with some of that white hot goose sprouting from her insides.

I have to find a way out of here. I know where it lends. Soon or later, the other girls will want to have the same. I don’t need more bad reputation.

Dois mil anos de trevas

Das catacumbas aos palácios.

Ficção com base em fatos históricos.

Ultimo Ato.

Respeitável público, sejam bem vindos ao ato final. Eu devo admitir que eu acabei adormecendo sobre os papéis desse roteiro, borrado com a tinta que eu derramei. Esta foi uma longa saga, descrever em poucos capítulos mais de trezentos anos de história. Todo escriba passa por esta fase. Toda estória começa e termina. Mas eu não sabia como arrematar esta encenação sem deixar a impressão que é algo que terminou. Nisso a Literatura e a História contrastam, pois o processo histórico contém diversos atores e ações que convergem para aquele momentum onde se convenciona o início de outra era.

Então não existem “culpados”, “inocentes” ou “vítimas”. Cada pessoa participou, consciente ou não, do processo histórico que culminou com a consagração do Cristianismo como a única religião oficial permitida no Mundo Conhecido. Nós podemos falar de dois agentes históricos que deram contribuição significativa: Flavio Valério Constantino [Imperador Constantino] e Flavio Teodósio Augusto [Imperador Romano]. Mas mesmo isso teria sido insuficiente, depois da Queda do Império Romano, mas essa é outra [hi/e]stória.

Eu despertei com estranha sensação nas minhas partes pudentas e despertei vendo uma garota, de longos cabelos cacheados loiros, olhos com heterocromia e pele curtida de sol, se refestelando com meu pobre companheiro. O rosto dela estava avermelhado, denunciando que ela estava excitada e gostando de me sugar, até que seus olhos arregalaram e suas bochechas incharam. Gotas de material líquido, gelatinoso, esbranquiçado, espirraram pelos vãos da boca e nariz. Aquilo ainda jorrou mais três vezes por cima de seu rosto, ombros e colo, enquanto ela tentava recuperar o fôlego, tossindo e cuspindo.

[engasgo, tosse]- Agh! Quer me matar, escriba?

– Ketar! O que você faz aqui?

– Eu pensei em reclamar da forma como você me aposentou e apagou a estória em que eu sou a atriz principal.

– Eu não apaguei. Meu livro “Hieródulo” ainda pode ser achado e lido na Bookess.

– Foi o que Alexis disse. Mas mesmo assim eu vim te ver, porque surgiram boatos que você está tendo dificuldades com seu… companheiro. Eu não te permito isso, escriba. Seu companheiro não é somente um belo espécime fornecedor de prazer, mas é também sua ponte, seu medianeiro, entre o Mundo dos Homens e a Quinta Dimensão. Eu fico aliviada que ele continua firme e forte.

– Ketar, eu não posso mentir [???], eu estou para completar 53 anos e a minha expectativa é de ficar no Mundo dos Homens no máximo por mais 35 anos. Eu estou ficando a cada dia mais cansado, mais dolorido, mais desanimado, mais fraco. Meu companheiro não é diferente, ele eventualmente vai “morrer”. Eu terei que me ocupar com outra coisa que não escrever.

– Isso é o que você diz, mas seu amigo diz outra coisa. Impressionante! Duro como rocha e grosso como tronco, mesmo depois de esvair tanta essência.

– Por favor, Ketar, eu tenho que encerrar essa apresentação e o público está começando a olhar atravessado para nossa encenação!

– Quer terminar o teatro, termine. O público não verá coisa alguma que não tenha visto antes nesse palco. Eu que não vou desperdiçar a chance de me divertir com o seu… talento.

Sem cerimônia, sem vergonha, sem prurido, Ketar pula do chão para meu colo e começa a me cavalgar. Gritos, correria. Eu estou imobilizado, eu não posso fazer coisa alguma, senão deixar que Ketar sacie sua fome. Eu, coitadinho, pobrezinho, faço minha ultima cena desmaiando depois de verter o que sobrou do “creme de Santo Irineu” dentro dela.

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Constantino era um governante de grande importância histórica e sempre foi uma figura controversa. As flutuações na reputação de Constantino refletem a natureza das fontes antigas de seu reinado. Estas são abundantes e detalhadas, mas foram fortemente influenciadas pela propaganda oficial do período, e são muitas vezes unilaterais. Não há histórias de sobreviventes ou biografias que lidaram com a vida de Constantino e do Estado.

Nascido em Naísso, na Mésia Superior, filho de Constâncio Cloro e da filha de um casal de donos de uma albergaria na Bitínia, Helena de Constantinopla, Constantino teve uma boa educação — especialmente por ser filho de uma mulher de língua grega e haver vivido no Oriente grego, o que facilitou-lhe o acesso à cultura bilíngue própria da elite romana — e serviu no tribunal de Diocleciano depois do seu pai ter sido nomeado um dos dois césares, na altura um imperador júnior, na Tetrarquia em 293. Embora a sua condição junto de Diocleciano fosse em parte a de um refém, Constantino serviu nas campanhas do césar Galério e de Diocleciano contra os sassânidas e os sármatas. Quando da abdicação conjunta de Diocleciano e Maximiano em 305, Constâncio seria proclamado augusto, mas Constantino seria descartado como césar em proveito de Valério Severo (também conhecido modernamente como Severo II, título que jamais usou, para não ser confundido com o grande imperador do século anterior, Septímio Severo).

Pouco antes da morte do seu pai, em 25 de julho de 306, Constantino conseguiu a permissão de Galério para se reunir a ele no Ocidente, chegando a fazer uma campanha juntamente com Constâncio Cloro contra os pictos, estando junto do leito de morte do seu pai em Eburaco (atual Iorque) na Britânia, o que lhe permitiu impor o princípio da hereditariedade em seu proveito, proclamando-se “césar” e sendo reconhecido como tal por Galério, então feito “augusto” do Oriente. Desde o início de seu reinado, assim, Constantino tinha o controle da Britânia, Gália, Germânia e Hispânia, com sua capital em Augusta dos Tréveros, cidade que fez embelezar e fortificar.

Nos dezoito anos seguintes, combateu uma série de batalhas e guerras que o fizeram o governador supremo do Império Romano. Como Maximiano desejava retomar a sua posição de augusto, da qual se havia afastado a contragosto juntamente com Diocleciano, Constantino recebeu-o na sua corte e aliou-se a ele por um casamento em 307 com a filha de sete anos de Maximiano, Fausta, o que lhe permitiu ser reconhecido tacitamente como Augusto em 308 por Galério numa conferência tetrárquica em Carnunto (atual Petronell-Carnuntum na Áustria). Em 309, no entanto, Constantino enfrentaria o seu sogro, que tentava recuperar abertamente o poder, capturando-o em Marselha e mandando assassiná-lo. Em 310, Constantino seria formalmente reconhecido como Augusto por Galério. Severo havendo sido entrementes eliminado, em 307, por Magêncio, filho de Maximiano que se havia proclamado imperador em Roma, Constantino deveria acabar por enfrentar o seu cunhado para conseguir o domínio completo do Ocidente romano. Após uma série de mediações fracassadas e lutas confusas, Constantino, após apoiar o usurpador africano Lúcio Domício Alexandre, cortando o fornecimento de trigo de Roma, de 308 a 309, desceu em 312 até Itália para eliminar Magêncio.

Essas guerras civis constantes e prolongadas fizeram de Constantino, antes de mais nada, um reformador militar, que, para aumentar o número de tropas à sua disposição imediata, constituiu o cortejo militar do imperador (comitatus) num corpo de tropas de elite autossuficiente – um verdadeiro exército de campanha — principalmente pelo recrutamento de grande número de germanos que se apresentavam ao exército romano nos termos de diversos tratados de paz, a começar pelo rei alamano Croco II, que teve um papel decisivo na aclamação de Constantino como Augusto.

O facto de Constantino ser um imperador de legitimidade duvidosa foi algo que sempre influiu nas suas preocupações religiosas e ideológicas: enquanto esteve diretamente ligado a Maximiano, ele apresentou-se como o protegido de Hércules, deus que havia sido apresentado como padroeiro de Maximiano na primeira tetrarquia. Ao romper com o seu sogro e após o ter eliminado, Constantino passou a colocar-se sob a proteção da divindade padroeira dos imperadores-soldados do século anterior, Deus Sol Invicto, ao mesmo tempo que fez circular uma ficção genealógica (um panegírico da época. Para disfarçar a óbvia invenção, dizia, dirigindo-se retoricamente ao próprio Constantino, que se tratava dum facto “ignorado pela multidão, mas perfeitamente conhecido pelos que te amam”) pela qual ele seria o descendente do imperador Cláudio II — ou Cláudio Gótico — conhecido pelas suas grandes vitórias militares, por haver restabelecido a disciplina no exército romano, e por ter estimulado o culto ao Sol.

Constantino acabou, no entanto, por entrar na História como primeiro imperador romano a professar o cristianismo, na sequência da sua vitória sobre Magêncio na Batalha da Ponte Mílvia, em 28 de outubro de 312, perto de Roma, que ele mais tarde atribuiu ao Deus cristão. Segundo a tradição, na noite anterior à batalha sonhou com uma cruz, e nela estava escrito em latim: “In hoc signo vinces”.

De manhã, um pouco antes da batalha, mandou que pintassem uma cruz nos escudos dos soldados e conseguiu uma vitória esmagadora sobre o inimigo. Esta narrativa tradicional não é hoje considerada um facto histórico, tratando-se antes da fusão de duas narrativas de factos diversos encontrados na biografia de Constantino pelo bispo Eusébio de Cesareia.

No entanto, é certo que Constantino era atraído, enquanto homem de Estado, pela religiosidade e pelas práticas piedosas — ainda que se tratasse da piedade ritual do paganismo: o senado, ao erguer em honra a Constantino o seu arco do triunfo, o Arco de Constantino, fez inscrever sobre este que sua vitória se devia à “inspiração da divindade”(instinctu divinitatis mentis), o que certamente ia ao encontro das ideias do próprio imperador. Até um período muito tardio do seu reinado, no entanto, Constantino não abandonou claramente a sua adoração com relação ao deus imperial Sol, que manteve como símbolo principal nas suas moedas até 315.

Só após 317 é que ele passou a adotar clara e principalmente lemas e símbolos cristãos, como o “chi-ró”, emblema que combinava as duas primeiras letras gregas do nome de Cristo (“X” e “P” sobrepostos). No entanto, já quando da sua entrada solene em Roma em 312, Constantino se recusou a subir ao Capitólio para oferecer culto a Júpiter, atitude que repetiria nas suas duas outras visitas solenes à antiga capital para a comemoração dos jubileus do seu reinado, em 315 e 326.

A sua adoção do cristianismo pode também ser resultado de influência familiar. Helena, com grande probabilidade, havia nascido cristã e demonstrou grande piedade no fim da sua vida, quando realizou uma peregrinação à Terra Santa, localizou em Jerusalém uma cruz que foi tida como a Vera Cruz e ordenou a construção da Igreja do Santo Sepulcro, substituindo o templo a Afrodite que havia sido instalado no local — tido como o do sepultamento de Cristo — pelo imperador Adriano.

Mas apesar do seu batismo, há dúvidas se realmente ele se tornou cristão. A Enciclopédia Católica afirma: “Constantino favoreceu de modo igual ambas as religiões. Como sumo pontífice ele velou pela adoração pagã e protegeu seus direitos.” E a Enciclopédia Hídria observa: “Constantino nunca se tornou cristão”. No dia anterior ao da sua morte, Constantino fizera um sacrifício a Zeus, e até o último dia usou o título pagão de pontífice máximo (pontifex maximus). E, de facto, Constantino, até ao dia da sua morte, não havendo sido batizado, não participou de qualquer ato litúrgico, como a missa ou a eucaristia. No entanto, era uma prática comum na época retardar o batismo, que era suposto oferecer a absolvição a todos os pecados anteriores — e Constantino, por força do seu ofício de imperador, pode ter percebido que as suas oportunidades de pecar eram grandes e não desejou “desperdiçar” a eficácia absolutória do batismo antes de haver chegado ao fim da vida.

Qualquer que tenha sido a fé individual de Constantino, o facto é que ele educou os seus filhos no cristianismo, associou a sua dinastia a esta religião, e deu-lhe uma presença institucional no Estado romano (a partir de Constantino, o tribunal do bispo local, a episcopalis audientia, podia ser escolhida pelas partes de um processo como tribunal arbitral em lugar do tribunal da cidade. E quanto às suas profissões de fé pública, num édito do início de seu reinado, em que garantia liberdade religiosa, ele tratava os pagãos com desdém, declarando que lhes era concedido celebrar “os ritos de uma velha superstição”.

Esta clara associação da casa imperial ao cristianismo criou uma situação equívoca, já que o cristianismo se tornou a religião “pessoal” dos imperadores, que, no entanto, ainda deveriam regular o exercício do paganismo — o que, para um cristão, significava transigir com a idolatria. O paganismo retinha ainda grande força política — especialmente entre as elites educadas do Ocidente do império — situação que só seria resolvida por um imperador posterior, Graciano, que renunciaria ao cargo de pontífice máximo em 379 — sendo assassinado quatro anos depois por um usurpador, Magno Máximo. Somente após a eliminação de Máximo e de outro usurpador pagão, Flávio Eugénio, por Teodósio I é que o cristianismo tornar-se-ia a única religião legal (395).

O imperador romano Constantino influenciou em grande parte na inclusão na igreja cristã de dogmas baseados em tradições. Uma das mais conhecidas foi o Édito de Constantino, promulgado em 321, que determinou oficialmente o domingo como dia de repouso, com exceção dos lavradores — medida tomada por Constantino utilizando-se da sua prerrogativa de, como Pontífice máximo, de fixar o calendário das festas religiosas, dos dias fastos e nefastos (o trabalho sendo proibido durante estes últimos). Note-se que o domingo foi escolhido como dia de repouso, em função da tradição sabática judaico-cristã, o nome original em latim Dominicus, significa “dia do Senhor”.

Constantino legalizou e apoiou fortemente a cristandade por volta do tempo em que se tornou imperador, com o Édito de Milão, mas também não tornou o paganismo ilegal ou fez do cristianismo a religião estatal única. Na sua posição de pontífice máximo — cargo tradicionalmente ocupado por todos os imperadores romanos, e que tinha a ver com a regulação de toda e qualquer prática religiosa no império — estabeleceu as condições do seu exercício público e interferiu na organização da hierarquia quando convocado, seguindo uma prática, no que diz respeito aos cristãos, que já havia sido inaugurada por um imperador pagão, Aureliano, que fora chamado a arbitrar uma querela entre o bispado de Antioquia e o bispado de Roma, que excomungara Paulo de Samósata, bispo de Antioquia, por heresia. O imperador reafirmara o que já era do direito circunscricional da Igreja Romana — ou seja, que as igrejas cristãs locais, no que diz respeito a sua organização administrativa — inclusive quanto a eleição dos bispos — deveriam reportar-se à igreja de Roma, a capital.

A sua vitória em 312 sobre Magêncio resultou na ascensão ao título de augusto ocidental, ou soberano da totalidade da metade ocidental do império, reconhecida pelo pagão Licínio, único augusto do Oriente após a eliminação de Maximino Daia. A vitória de Constantino teve uma consequência militar imediata: Constantino aboliu definitivamente a guarda pretoriana, que havia sustentado Magêncio e, com ela, os interesses políticos da aristocracia italiana, substituindo-a por um corpo de tropas de elite ligadas à pessoa do imperador, as escolas palatinas, que, a partir daí, seriam o núcleo do sistema militar romano, enquanto os velhos corpos de tropa territoriais eram negligenciados. As escolas eram principalmente regimentos de cavalaria, que serviam como uma força-tarefa ligada à pessoa do imperador, e seu principal objetivo era garantir uma capacidade de ação imediata em caso de guerra civil ou externa; quanto às forças de defesa territorial, os limítanes, estas acabaram por se reduzir a uma mera força policial de fronteira, entrando em declínio imediato na sua capacidade combativa. O objetivo destas reformas militares era principalmente político, colocando a quase totalidade das forças militares móveis à disposição imediata do imperador — com a exceção de certas unidades territoriais que eram equiparadas às forças móveis e chamadas pseudocomitatenses — concentradas em áreas urbanas onde pudessem ser mantidas abastecidas pelos fornecimentos que eram agora a maior parte do soldo militar (os pagamentos em dinheiro, tornando-se recompensas esporádicas pagas aquando da ascensão ou dos jubileus de ascensão do imperador ao trono).

Quando Licínio expulsou os funcionários cristãos da sua corte, Constantino encontrou um pretexto para enfrentar o seu colega e, tendo negada permissão para entrar no Império do Oriente durante uma campanha contra os sármatas, fez disto a razão para derrotar e eliminar Licínio em 324, tornando-se imperador único.

Apesar da Igreja ter prosperado sob o auspício de Constantino, ela própria caiu no primeiro de muitos cismas públicos. Constantino, após ter unificado o mundo romano, convocou o Primeiro Concílio de Niceia, um grande centro urbano da parte oriental do império, em 325, um ano depois da queda de Licínio, a fim de unificar a Igreja cristã, pois com as divergências desta, o seu trono poderia estar ameaçado pela falta de unidade espiritual entre os romanos. Duas questões principais foram discutidas em Niceia (atual İznik): a questão da Heresia Ariana que dizia que Cristo não era divino, mas o mais perfeito das criaturas, e também a data da Páscoa, pois até então não havia um consenso sobre isto.

Constantino só foi batizado e cristianizado no final da vida. Ironicamente, Constantino poderá ter favorecido o lado perdedor da questão ariana, uma vez que ele foi batizado por um bispo ariano, Eusébio de Nicomédia (que não deve ser confundido com o biógrafo do imperador, Eusébio de Cesareia). A inclinação que Constantino e seu filho e sucessor na condição de augusto único, Constâncio II, demonstraram pelo arianismo, é bastante explicável, na medida em que ambos tentaram apresentar a figura do imperador como um análogo do Cristo ariano: uma emanação divina, reflexo terreno do Verbo. A tempestuosa relação de Constantino com a Igreja da época dá conta dos limites da sua atuação no estabelecimento da Ortodoxia: pouco antes de sua morte, em 335, ele mandou exilar, na capital imperial de Augusta dos Tréveros (Tréveris, o patriarca de Alexandria Atanásio, campeão da ortodoxia, por suas violentas atitudes antiarianas, e apesar do facto de que Atanásio continuou a ser perseguido pelos sucessores de Constantino, o abertamente ariano Constâncio II e o pagão Juliano, o Apóstata, foi a sua visão teológica que acabou por prevalecer.

Ao mesmo tempo em que velava pela unidade religiosa do império, Constantino quis resolver o problema da divisão da elite dirigente numa aristocracia senatorial com acesso exclusivo às “dignidades” (as velhas magistraturas republicanas, sem poderes ou responsabilidades, e transformadas numa mera hierarquia de status) e numa hierarquia burocrática de funcionários imperiais com funções administrativas efetivas e pertencentes à ordem equestre: após 326, os altos funcionários passam à pertencer à ordem senatorial (os clarissimi) e o número de senadores passa de 600 a 2.000, com os requisitos de entrada elevados (em Roma, os ex-questores deixam de ser senadores, e a entrada no senado passa a depender da pretura; na nova capital de Constantinopla, o acesso ao senado seria garantido aos ex-titulares do posto de tribuno da plebe, velha magistratura ressuscitada). Com a entrada do alto pessoal administrativo na ordem senatorial, quaisquer pretensões de independência política da velha aristocracia ficaram eliminadas; a escolha de todos os imperadores subsequentes seria feita exclusivamente na família do imperador ou através do exército. Em contrapartida, no entanto, Constantino parece haver cedido aos senadores no final do seu reinado o direito de elegerem, eles mesmos, questores e pretores e assim determinarem que pessoas queriam fazer ingressar na sua ordem, abandonando a prática da nomeação imperial de novos senadores, a adlectio. O senado, assim, se continuou sem o poder de fazer uma política própria, passou a ter o poder de estabelecer um “cadastro de reserva” da administração imperial. Por outro lado, paralelamente à carreira senatorial “padrão”, a qual se chegava pela eleição às magistraturas, forma-se uma carreira alternativa, pela qual indivíduos não oriundos da aristocracia tradicional se tornam automaticamente senadores ao serem nomeados pelo imperador para cargos de hierarquia senatorial. Por outras palavras: o título de senador passou a significar uma posição na hierarquia administrativa, e não uma função pública (excetuando-se, aí, o governo local de Roma). O que aconteceu com os senadores romanos foi apenas o exemplo mais notável do que aconteceu em todo o império com sua cristianização: as identidades culturais e políticas locais deixaram de contar diante da hierarquia burocrática central. [Wikipédia]

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Teodósio I, dito o Grande (nascido Flávio Teodósio, desde 19 de Janeiro de 379, em latim Dominus Noster Flavius Theodosius Augustus; à sua morte, Divus Theodosius (Coca, Hispânia, 11 de janeiro de 347 – Milão, 17 de janeiro de 395), foi um imperador romano desde 379 até à sua morte. Promovido à dignidade imperial após o Desastre de Adrianopolis, primeiro compartilhou o poder com Graciano e Valentiniano II. Em 392, Teodósio reuniu as porções oriental e ocidental do império, sendo o último imperador a governar todo o mundo romano. Após a sua morte, as duas partes do Império Romano cindiram-se, definitivamente, em Império Romano do Oriente e Império Romano do Ocidente.

No que diz respeito à política religiosa, tomou a transcendental decisão de fazer do cristianismo niceno ou catolicismo a religião oficial do Império mediante o Édito de Tessalónica de 380.

Teodósio promoveu o trinitarismo niceno dentro do cristianismo e o cristianismo dentro do Império Romano. A 27 de fevereiro de 380, declarou o cristianismo na sua versão ortodoxa a única religião imperial legitima, acabando com o apoio do Estado à religião romana tradicional e proibindo a ” adoração pública” dos antigos deuses.

No século IV, a igreja cristã estava dividida pela controvérsia sobre a divindade de Jesus Cristo, a sua relação com Deus Pai e a natureza da Trindade. Em 325, Constantino convocou o Primeiro Concílio de Niceia, que afirmou que Jesus, o Filho, era igual ao Pai, uno com o Pai, e da mesma matéria (homoousios em grego). O concílio condenou os ensinamentos do teólogo Ário: que o Filho foi criado inferior a Deus Pai, e que o Pai e o Filho eram de uma matéria similar, contudo não idêntica. Apesar da decisão do concílio, continuou a controvérsia. Na altura da ascensão de Teodósio, havia ainda algumas facções eclesiásticas que promoviam uma cristologia alternativa.

Embora nenhum dos principais clérigos do império tenham aderido explicitamente a Ário ou aos seus ensinamentos, ainda havia alguns que usavam a formula homoiousios, e outros que tentavam iludir o debate dizendo simplesmente que Jesus era como Deus Pai, sem falar de matéria. Todos estes não nicenos frequentemente eram denominados arianos pelos seus opositores, ainda que eles mesmos não se tenham identificado como tal.

O imperador Valente havia favorecido o grupo que usava a fórmula homoios; tratava-se da teologia predominante em grande parte do Oriente e, sob os filhos de Constantino, o Grande, introduziu-se no Ocidente. Teodósio, pela sua parte, seguia de perto o credo niceno que era a interpretação dominante no Ocidente e sustentada pela importante igreja de Alexandria.

A 26 de novembro de 380, dois dias após ter chegado a Constantinopla, Teodósio expulsou o bispo não niceno, Demófilo de Constantinopla, e nomeou a Melécio paratiarca de Antioquia, e Gregório Nacianceno, um dos padres capadócios de Antioquía, patriarca de Constantinopla.

Teodósio foi educado numa família cristã. Ele foi batizado em 380, durante uma doença severa, como era comum nos tempos dos primeiros cristãos. Em fevereiro desse mesmo ano, ele, Graciano e Valentiniano II fizeram publicar um édito deliberando que todos os seus súditos deveriam seguir a fé dos bispos de Roma e do patriarca de Alexandria (Código de Teodósio, XVI,I,2). A lei reconhecia quer a primazia daquelas duas instâncias quer a problemática teológica de muitos dos patriarcas de Constantinopla, que porque estavam sob a observação dos imperadores eram por vezes depostos e substituídos por sucessores teologicamente mais maleáveis. Em 380, o patriarca de Constantinopla era um ariano.

Historicamente, durante o período de Teodósio alguns eventos humilhantes evidenciaram a ascensão cada vez maior da Igreja Católica. Após vencer a guerra contra Máximo e ordenar o Massacre de Tessalônica, Teodósio pretendia, como era costume se sentar ao presbítero da igreja de Milão, mas foi proibido pelo bispo Ambrósio de entrar sem que antes fizesse uma confissão pública.

Ambrósio excluiu o imperador da comunhão e durante oito meses a tensão se manteve, até que Teodósio, durante o Natal, vestido com um saco de penitência, foi perdoado. Teodósio afirmaria mais tarde: “sem dúvida, Ambrósio me fez compreender pela primeira vez o que deve ser um bispo”. Desde então o poder eclesiástico de julgar os poderes públicos, não só em questões dogmáticas, mas também por seus erros públicos, prevaleceu até a Idade Moderna.

Em 388, a população cristã incendiou a sinagoga de Calínico, pequena cidade na Mesopotâmia. As autoridades civis informaram Teodósio, que instruiu o bispo a reconstruir a sinagoga com os próprios recursos e a punir os incendiários. Ambrósio, bispo de Milão, ouvindo disso, fez representação a Teodósio ao longo das linhas de que queimar sinagogas era agradar a Deus, e de que o príncipe cristão não teria direito de intervir. A história é complexa e, para abreviar, basta dizer que Teodósio estava sendo forçado a submeter-se a Ambrósio e revogar as suas instruções para a restituição da sinagoga.

Esse episódio é significante, porque exemplifica a mudança do império pluralista para o Estado cristão. Teodósio começou a sua resposta à queima da sinagoga em Calínico se comportando como um imperador pagão o teria feito, ansioso de manter lei e ordem, respeitando os direitos aceitos dos judeus. Ambrósio desafiou o auto-entendimento da sua qualidade de imperador, encarregando-o a comportar-se como imperador cristão, que não deveria mostrar boa vontade aos judeus, ou até equidade simples. Isso era, segundo Ambrósio, inconsistente com a Cristandade. O dever do imperador cristão, segundo Ambrósio, era garantir o triunfo da verdade (na sua visão, o cristianismo) sobre o erro (na sua visão, o judaísmo). Teodósio capitulou, e a Igreja tinha a última palavra. A separação entre o cristianismo e o judaísmo, efetivada teologicamente em 325 no Primeiro Concílio de Niceia, era agora lei sob os imperadores romanos, que tomaram os seus conselhos da Igreja. O incidente de Calínico é o símbolo da conquista do antissemitismo eclesial. A Igreja podia agora manejar, e manejou, para influenciar a legislação imperial num modo danoso para os judeus.

Mas foi justamente em virtude do crescimento do poder do catolicismo que ocorreu a sobrevida ao Império Romano do Oriente, já que o do Ocidente passaria a ser dirigido a partir do ano de 476 por povos então chamados de bárbaros.

Durante a primeira parte de seu governo, Teodósio parece ter esquecido o prestigio semi-oficial dos bispos cristãos; de facto, havia verbalizado o seu apoio à conservação de templos e estátuas pagãs como edifícios púbicos úteis. No princípio de seu reinado, Teodósio era bastante tolerante com os pagãos, pois necessitava do apoio da influente classe dirigente pagã. No entanto, com o tempo, erradicaria os últimos vestígios do paganismo com grande severidade. A sua primeira tentativa de dificultar o paganismo foi em 381 quando reiterou a proibição de Constantino do sacrifício.

Em 388 enviou um prefeito à Síria, Egipto, e Ásia Menor com o propósito de dissolver associações pagãs e destruir os seus templos. O Serapeu de Alexandria foi destruído nesta campanha. Numa série de decretos chamados os «decretos teodosianos» progressivamente declarou que aquelas festas pagãs que não se haviam convertido em festas cristãs seriam então días de trabalho (em 389).

Em 391, reiterou a proibição de sacrifícios de sangue e decretou, segundo Router, 1997, que «ninguém irá aos santuários, passeará pelos templos, ou elevará seus olhos a estátuas criadas por obra do homem». Os templos que assim fecharam foram declarados «abandonados», e o bispo Teófilo de Alexandria imediatamente destacou um pedido de licença para demolir um lugar e cobrir-lo com uma igreja cristã, um acto que deve ter recebido aprovação geral, como o mitraísmo formando criptas de igrejas, e templos formando os alicerces de igrejas do século V aparecem por todo o Império Romano.

Teodósio participou em ações dos cristãos contra os principais lugares pagãos: a destruição do gigantesco Serapeu de Alexandria por soldados e cidadãos cristãos locais em 392, de acordo com as fontes cristãs autorizadas por Teodósio (extirpium malum),para ser vista em contraste com um complicado fundo de violência menos espectacular na cidade: Eusébio menciona lutas de rua em Alexandria entre cristãos e não cristãos já no ano de 249, e os não cristãos haviam participado nas lutas a favor e contra de Atanásio em 341 e 356. «Em 363 matarão o bispo Jorge por actos repetidos de manifesto escândalo, insulto e pilhagem dos tesouros mais sagrados da cidade». Que a destruição do Serapeu significara a destruição ou saque da biblioteca, que a biblioteca houvera deixado de existir antes, ou que os fundos foram conservados noutro lugar, é um assunto que ainda não está claro.

Por decreto de 391, Teodósio acabou também com os subsídios que ainda escorriam em alguns restos de paganismo civil greco-romano. O fogo eterno do Templo de Vesta, no Forum Romano, foi extinguido e as virgens vestais foral dissolvidas. As pessoas que celebravam algum auspicio e/ou praticavam os rituais pagão seriam castigados. Membros pagãos do senado em Roma apelaram a Teodósio para restaurar o Altar da Vitória na sede do senado, mas este negou-se. Depois dos últimos Jogos Olímpicos de 393, Teodósio cancelou os jogos, rotulando-os de pagãos. Acabou-se assim com o cálculo das datas pelas Olimpíadas. Agora Teodósio representa-se a si mesmo nas moedas segurando o lábaro.

A aparente mudança de política que se observa nos «decretos teodosianos» tem sido atribuída frequentemente à crescente influência de Ambrósio, bispo de Milão. Merece a pena destacar que em 390, Ambrósio havia excomungado Teodósio, que recentemente havia ordenado o massacre de 7 000 habitantes de Salonica, em resposta ao assassinato do seu governador militar estabelecido na cidade, e que Teodósio levou a cabo vários meses de penitência pública. A excomunhão foi temporária e Ambrósio não o readmitiu até que Teodósio mostrasse público arrependimento, demonstrando assim a sua autoridade frente ao imperador. [Wikipédia]

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– Parece que chegou a nossa vez, Apolônio.

– O escriba é cruel ao nos largar na mão a incumbência de arrematar essa farsa.

– Distinto e respeitável público, nós somos meros coaduvantes, sombras, de pessoas possivelmente existentes, bispos da Igreja de Cristo, Patriarcas, que por capricho da Fortuna ou deliberação do Destino, fomos chamados para Niceia pelo Imperador Constantino.

– Isso não me consola diante do fato que, dos 1500 bispos, nossos irmãos, que foram convocados, somente 250 estiveram presentes. Os mais espertos ou cautelosos se recusaram a comparecer. Os mais ingênuos, metade sequer chegou na cidade [morream ou foram mortos] e a outra metade nunca retornou [morreram ou foram mortos]. Nós estamos caminhando para a nossa morte.

– Isso foi engraçado de sua parte dizer, Apolônio, visto que nós deixamos o Mundo dos Homens e estes corpos são meras sombras, mas sim, nós encontraremos o fim de nossas existências, circunstância que todo moral está sujeito.

– Não que isso me incomode ou me preocupe, afinal, nós não temos um corpo físico, salvo o dos atores de quem emprestamos as figuras. O que me amofina é que nós seremos mortos, assassinados, por gente que se diz nosso irmão.

– Lastimável, Apolônio e não faltará vigaristas, farsantes, falsários e estelionatários travestidos de padres e pastores a ludibriar o público lembrando da Lenda de Caim e Abel. O fato é que por muitos séculos o Mundo Humano conhecerá mais mortes, guerras, ódio e violência por conta da Doutrina da Igreja do que em toda a Antiguidade.

– Isso é o que mais me decepciona e me deprime. O que Cristo diria? Quanto tempo durará essa provação? Nós nunca poderemos descansar em paz?

– Não fique assim, Apolônio. Nós fizemos o nosso melhor, com as melhores intenções. No tempo em que esse público vive, informações e recursos não faltam para que cada qual se liberte dessa tirania. Nós podemos passar pelo Ultimo Portal e entrar na Terra dos Ancestrais. Nossos sucessores, nossos descendentes, terão até o fim desse Aeon [cerca de 21 séculos] para o inevitável início do Aeon de Aquário.

– Hei, meninos, acabaram? Cristo os aguarda para celebrarmos o Antigo e a Deusa.

Porfírio e Apolônio sorriem e acenam. Da fresta da cortina, Sulamita os chama com um aceno sugestivo com o dedo. Seguranças do teatro passam por dificuldades para segurar o público, homens e mulheres querem entrar na festa. Mas essa passagem só é acessível a quem merece. Quando procurados, ninguém mais é achado no tablado.

Os apuros de Domitila

Das catacumbas aos palácios.

Ficção baseada em fatos reais.

Incluindo piedosas fraudes.

Milagres de Santo Nereu e Santo Aquileu.

Leôntio, Hipácio e Teódulo estavam cobertos de poeira. Chegavam em Antioquia depois de terem despachado mais suspeitos judaizantes, cidadãos romanos, para serem julgados em Roma. Os que não fossem romanos, mas que pertencesse a alguma província romana, eram degradados para sua terra natal, onde seriam julgados conforme a justiça [capricho] do governador. Os que sobravam, eram separados em dois grupos: Hebreus e Nazarenos. Os menos afortunados eram acrescentados aos crucificados. Essa era a ordem geral dos quarteis e postos de patrulha romanos em todo o Império Romano depois do fim da Revolta Judaica.

Nereu e Aquileu faziam piadas e troçavam de seus colegas, enquanto comiam e bebiam, devidamente banhados e descansados da missão em Laodiceia, fazendo o mesmo.

– Mas quê! Soem o alarme! Nós estamos sendo invadidos por seres de lama!

– Pois eu diria que são homens-damascos!

– Não façam piadas! A cada dia está ficando mais difícil encontrar e prender revoltosos judaizantes. Em Sidon e Tiro têm surgido relatórios sobre os Crestanos ou Cristãos. Eles não se encaixam nas ordens que recebemos e nossos comandantes ficam incertos do que fazer com eles.

– Qual a dificuldade? Ou são Hebreus ou são Gentios.

– Vocês são recrutas? As coisas não são simples assim. Não te ensinaram que são quatro regiões? Não te ensinaram que tem helenizados e romanos? Esses Crestanos são de origens diversas, são pessoas simples, servos, escravos, homens livres, servidores públicos, ricos comerciantes. Eu não duvido nada que tenham alguns deles entre nós. Imagine o furdunço se tratarmos mal um Crestano que tenha ligações ou parentesco com aristocratas romanos?

– Eh? Essa gente não estava restrita em regiões periféricas da Judeia?

– Por César, não. Espalharam-se mais rápido e por mais cidades do que os Hebreus e Nazarenos. São piores do que praga.

– Nós não podemos solicitar a ajuda de algum especialista?

– O comandante pensou nisso e voltou mais confuso do que foi. Nem os pensadores helênicos conseguem decifrar esse enigma.

Nereu e Aquileu cessaram a conversa, ficaram sisudos e continuaram a comer e beber. Legionários são homens de ação, não de raciocínio. Mas ficaram curiosos, queriam ver um desses Crestanos de perto.

Aparte e alheio a isso tudo, o senador e general Quinto Petílio Cerial Césio Rufo estava com sua esposa Flavia Domitila Menor [assim chamada por ser filha de Flávia Domitila Maior, esposa do Imperador Tito Flávio Vespasiano] e sua filha chamada de [Flávia] Domitila. Ele resolveu tirar alguns dias de férias com a família em Antioquia e não podia deixar de dar uma passada para visitar seu companheiro de armas, Lúcio Septímio Severo, outrora cônsul, general, agora governador da província da Síria, com quem divide lembranças de batalhas na Judeia e na Britânia.

– Ave, Severo!

– Por Jove! Césio, que alegria vê-lo aqui!

– Alegria maior é a minha ao revê-lo, bom e antigo amigo. Perdoe esse humilde legionário por não avisa-lo com antecedência.

– Nem precisava, bom general, sua reputação o antecede. Mas entre, mea domus sua est. Vejo que está muito bem acompanhado. A vida foi boa para ti, bom amigo.

– Ah, me lisongeias com mentiras, bom amigo. Nós dois sabemos bem por onde tivemos que passar para chegar onde estamos e, pelo que eu vejo, Fortuna também lhe sorriu. Ah, que educação a minha! Estas são meus dois amores: minha amada esposa, Flávia Domitila e nossa filha, [Flávia] Domitila [Neptem].

– Enorme satisfação em ver tais formosas damas romanas. Como devem ter observado, nós vivemos em meio aos bárbaros. Aqui torcem o nariz quando damos as costas. Nós somos o Novo Mundo e aqui é o Velho Mundo. Aqui velhas e novas superstições surgem a cada esquina. Mas não lighuem para as reclamações desse velho legionário. Copeiro! Cozinheiro! Tragam o nosso melhor!

Leôntio, Hipácio e Teódulo voltavam do lavatório comunitário, em direção ao refeitório, quando viram os servos carregando as baixelas com comida e odres com bebida em direção à tenda do comandante. Encontraram com Nereu e Aquileu, igualmente com água na boca.

– Ao vencedor, os louros. A nós, as batatas.

– Cala-te, Aquileu. Nós podemos parar na solitária por isso.

– Pois eu acho injusto.

– Pois nós ouvimos dos Crestanos que Crestos veio para corrigir essa injustiça.

– Que novidade interessante e perigosa é essa? Vocês sabem ou conhecem mais desses Crestanos do que querem exibir. Vamos, não vão guardar o que sabem por mágoa, vão?

Fácil demais. Leôntio, Hipácio e Teódulo iriam levar Nereu e Aquileu ao Crestano que eles tinham trazido daquele deserto infernal, escapado e escondido, dentro de uma ordem de abadessas.

A cem passos dali, Severo e Césio soltam a língua, relaxada com beberagens locais, falando de batalhas e soltando inúmeros impropérios e piadas de duplo sentido. Flávia Domitila ri e acha graça, mas a “pequena” Domitila não, essas coisas não são apropriadas para serem ditas em encontros formais. Alegando estar quente e abafado, ela pede escusa, ela precisa sair desse calabouço de imoralidade. Não há muito para se ver em um quartel romano e uma donzela passeando no meio de tantos homens não é algo recomendável, mas curiosamente Domitila perambulava por entre as tendas, praticamente invisível. Ou melhor, quase invisível, os legionários abaixavam a cabeça e a voz, possivelmente por respeito a ela. Por forças desconhecidas e invisíveis [anjo? demônio?] ela acaba achando a prisão e algo parece estar acontecendo ali e parece ser divertido, pelas risadas que ressoam de dentro.

– Hahaha! Eu digo a vocês, Leôntio, Hipácio e Teódulo, o que trouxeram convosco é um bom e belo loroteiro, satírico!

– Hehehe! Eu estou chorando de rir. Conte novamente, Crestano, como Crestos veio a mundo, nascendo de uma virgem que concebeu sem contato carnal!

– Pois esta é a Verdade. Tal como os Profetas de Deus prometeram, Cristo nasceu como um de nós para nos redimir.

[risos abafados]- Ah! Mas então isso é sério! [risos abafados] Vocês ouviram? Os Profetas de Deus assim prometeram. [risos abafados]

[risos abafados]- Nós vemos diariamente áugures, videntes e adivinhos, das mais diversas origens, mas nós nunca ouvimos falar dos Profetas de Deus.

[risos abafados]- Eu ouço as damas de Vênus ao menos uma vez por semana e nada ouço sobre redenção, só gemidos.

– Ah sim, em Roma se fala das Sibilinas, mas o que convém é saber de qual Deus estes Profetas são porta-vozes.

– Deus. O Único. O Verdadeiro. Deus que não é feito pela mão dos homens.

[risos abafados] – Ah! Claro! Devia ter sido mais preciso. Os Profetas falam de César. Afinal, todos sabem que César é divino.

– E mesmo assim, César presta homenagem aos Deuses de Roma.

– Evidente [eco], César presta homenagens aos seus iguais, tal como nós damos presentes. [sons de aprovação]

– Eu falo do Deus Supremo, que está acima de todos os Deuses.

– Então diga, espertinho, porque Deus, sendo Supremo, precisaria enviar Cristo para nos redimir? Quem acredita nisso?

– Eu acredito!

Os legionários na penumbra da prisão veem a figura de Domitila que, por sua túnica de tecido fino, cabelos caprichosamente trançados e assessórios, parecia com uma manifestação divina, pela forma como o sol refletia sua beleza para dentro das sombras.

– Domina [palavra formal para se dirigir a mulheres importantes], não é bom que tu estejas nesse antro feito apenas para bandidos.

– Legionários, façam o que é certo e justo! Libertem esse pobre homem que nada fez de errado! Ele, em verdade, veio nos trazer a Boa Nova!

– Domina, tu sabes algo sobre esse tal de Crestos?

– Eu pouco sei, meus irmãos em Cristo, então deixemos que o Apóstolo de Cristo nos instrua sobre o Caminho.

Vinte minutos depois e todos os cinco mais a dama romana são convertidos e recebem o batismo, alguns dizem que por São Pedro, outros dizem que por Santo Irineu. Não obstante, Domitila é chamada pelos pais ao mesmo tempo em que o suspeito de sedição, revolta e traição contra Roma é trazido para o pátio e decapitado.

– Domitila, minha filha, nós temos boas notícias para você. Nós, com a ajuda de Severo, encontramos um bom dote para você casar-se. Conforme o costume romano, você será esposa de nosso parente, nosso sobrinho, Titus Flavius Clemente.

– Eu não posso aceitar, meus queridos pais, pois eu acabo de confessar Cristo como meu redentor, o que faz de mim noiva e esposa de Cristo.

– O que significa isso, Severo? Que tipo de quartel está governando que veio a perder minha filha, sua sobrinha, da religião de nosso povo, de nossos antepassados e ancestrais?

– Minha querida Domitila, minha sobrinha, eu te conheci hoje, não me faça prendê-la por ser judaizante, por revolta, sedição e traição contra Roma! Diga-me quem cometeu crime tão nefasto contra uma criança!

– Teus legionários o decapitaram, mesmo sendo inocente.

– Pois então abjura agora mesmo dessa farsa! Como pode crer em um homem que morreu e nada fez para suprimir seu representante da morte certa?

– Meu tio, meus pais queridos, nós que aceitamos e fomos batizados em nome de Cristo não tememos morrer, pois assim Cristo deu exemplo, sujeitando-se ao arbítrio dos homens, porque morre o corpo, mas não o espírito. O Mundo do Homem está repleto de violência e morte, mas Cristo veio para nos dar a paz e a vida.

-Basta! Césio, a despeito de nosso tempo, de nossa fraternitas e de nossos laços familiares, eu tenho que dar o exemplo. Legionários, prendam [Flávia] Domitila [Neptem]!

Dez legionários cercaram a pobre Domitila, mas Leôntio, Hipácio e Teódulo se interpuseram.

– Rápido, Domina! Fuja!

Domitila chorou muito, mas foi arrastada para fora do cerco, para fora do quartel, levada por meio de força, por Nereu e Anquileu. Ela tentou resistir e protestar, mas resignou ao ver seus três pobres defensores serem decapitados enquanto ela saía em disparada através do portão, dentro de uma biga, conduzida por Nereu e Anquileu.

– Cristo os abençoe e os receba no Paraíso, meus irmãos! Meus tutores, poderiam dizer os nomes desses mártires?

– Leôntio, Hipácio e Teódulo. Eu sou Nereu e este é Aquileu. Nós te levaremos para Tarso, na província da Cilícia. De lá, tu poderás ir a Chipre, Creta, Pergamo ou Éfeso.

– Eu irei orar até o fim dos meus dias em intenção aos seus nomes.

– Nossa vida foi vivida pela espada, matar ou morrer nos é natural, Domina, mas se o nosso sacrifício puder preservar sua preciosa vida, nós a damos para que você faça uso.

– Suas vidas são tão importantes quanto a minha! Nós todos somos iguais e somos irmãos em Cristo. Eu peço a Deus e a Cristo que permaneçam como meus servos e que nos coloquemos ao serviço da Igreja de Cristo, para ensinar a Palavra.

– Domina, sua compaixão e misericórdia santificam sua pessoa, mas nós carregamos muitos crimes. Nós só sabemos tirar vidas, não em dá-las.

– Pois eu vos digo, por Cristo, vós estais perdoados, assim que confessaram cristo como vosso redentor e receberam o batismo. Aquilo que vocês fizeram e viveram está perdoado e esquecido. Vós sois novas criaturas, renascidas pelo batismo de Cristo. Assim, agora que nós somos todos irmãos em Cristo, nós podemos realizar o ágape.

– Domina, nós não somos ensinados. O que é o ágape?

– Eu vos peço, meus irmãos, deixai de lado a formalidade, não me trateis como Domina, mas simplesmente Domitila, irmã vossa. Meus queridos, eu aprendi pouco, mas ágape é o amor perfeito, a união perfeita, feita em Cristo. Eu vos peço, antes que a morte nos colha, que nos unamos no ágape ao menos uma vez.

O trio remove as roupas e consumam aquilo que os Gentios chamam de Hiero Gamos. Ali em Tarso, Nereu e Anquileu providenciaram, a custo de suas cabeças, que Domitila seguisse viagem. Misturada entre servos e escravos, Domitila costeou a região da Ásia, passando por Anemurium, Side, Patara, Knidos, Mileto, Éfeso, Esmirna, Pergamo, Antigoneia, Parium até chegar em Nicomedia.

Ali ela encontrou Clemente, alguns dizem que era o cônsul romano a quem ela estava prometida, outros dizem que era Santo Clemente. O primeiro viria a ser Imperador Romano, o segundo viria a ser o primeiro Papa. Incerto são os relatos que Domitila teve dez filhos, mantendo a graça de permanecer virgem.

Divina confusão

Das catacumbas aos palácios.

Ficção com base em fatos históricos.

No primeiro século da Era Comum, existiam inúmeras seitas e heresias cristãs, que oscilavam entre Judaísmo, Cristianismo e Gnosticismo. Essa é a pergunta que nenhum padre ou pastor consegue responder. Considerando que Cristo foi uma pessoa e ensinou diretamente ao público, porque tantas formas e versões de Cristianismo?

Para uma extensa lista dos grupos considerados seitas e heresias pela Igreja, visitem a página [em inglês] da Wikipédia, neste link.

Ebionismo

Os ebionitas (pobres), judeus-cristaos que seguiam a lei de Moisés, mas acreditavam que Jesus Cristo era o Messias, porém achavam que Ele não era o Filho de Deus (apenas um profeta anunciado por Moisés), Os ebionitas subsistiram até o século V, nesse período, dividiu-se em numerosas seitas. O apóstolo João escreveu seu evangelho, refutando essas heresias.

Elcasaísmo

Fundador Elxai, recebeu revelação por meio de um livro dado por um anjo, lembrando Maomé (Alcorão) e Joseph Smith (Livro de Mórmon). Aceitavam apenas partes do A.T.

Nicolaísmo

Fundador Nicolau (Balaão), era diácono da igreja, seita gnostico-libertina que apareceu em Éfeso e Pérgamo (Ásia Menor), condenava o Deus da criação.

Cerintianismo

Fundador Cerinto, acreditava que Cristo não nasceu Deus, mas tornou-se Deus no batismo, quando morreu Deus o abandonou, para recebê-lo na sua 2ª vinda, no final dos tempos.

Gnosticismo:

Heresia complexa, de elementos filosófico-religiosos orientais e cristãos. O Gnosticismo era composto por vários movimentos sincréticos de tradições religiosas da sua época: o helenismo, o dualismo, cultos de mistério, judaísmo e o cristianismo; enquanto as heresias judaicas estavam apegadas às tradições mosaicas, os gnósticos, pagãos que aceitaram a fé cristã, tentavam introduzir nela, concepções pessoais e teorias filosóficas.

O Montanismo

Apareceu na Frígia (Ásia Menor), de 150 a 157, movimento intelectualista, organizou-se em comunidades; na Ásia Menor, em Roma e na África do Norte, fundador Montano (sacerdote de Cibele), converteu-se ao cristianismo, julgava-se o instrumento do Espírito Santo prometido por Cristo e precursor de uma nova era, Prisca e Maximila suas profetizas. Chamavam a si mesmos de pneumáticos (inspirados pelo sopro do Espírito). Esta seita, anti-romana, se constituía numa ameaça para a paz entre a cristandade e o estado, foi excomungada pela Igreja, mas subsistiu no Oriente até o século VIII.

Os Antitrinitários

Teófilo de Antioquia, escritor cristão, em 180 a.C., começa aparecer em seus escritos a palavra “tríade” ou “trindade” (um só Deus em três pessoas), que serviu para explicar o dogma cristão da Santíssima Trindade.

Logo surgem os opositores, como o adocionismo, de Teodoto de Bizâncio (rejeitava a Trindade, negava a divindade de Cristo e a encarnação do Verbo), foi condenado pelo papa Vítor I (189-199); em 190 d.C. surgiu outra heresia, iniciada por Noet, que Praxéias e Sabélio, desenvolveram, recebendo o nome de sabelianismo ou monarquismo ou modalistas (para eles o Pai, o Filho e o Espírito Santo, eram apenas três títulos diferentes e não pessoas); assim sendo, o Pai se encarnou na virgem, nascido tomou o nome de Filho, sem deixar de ser o Pai, logo foi o Pai quem morreu na cruz.

O Maniqueísmo

Tipo de gnosticismo que começou na Pérsia, na 1ª metade do século III, fundador; Manés (Manion Maniqueu – 215/276), da Babilônia, morreu esfolado porque não curou um filho do rei Behram.

Para Manés, que seguia os ensinos de Zoroastro (Zaratustra), há dois reinos eternos : o da luz, em que domina Deus (Ormuzde ou Ahura Mazda), e o das trevas, domínio de Satã (Ahrimã ou Anrô Mainiu). O homem preso por Satã, luta para se libertar das trevas e ir para a luz, liberdade que se alcança por meio de uma vida austera, compreendendo três selos, (mortificações) : o selo da boca (jejum), o selo da mão (abstenção do trabalho) e o selo do ventre (castidade).

O Priscilianismo

Na Espanha, Prisciliano, bispo de Ávila, divulga os ensinos gnósticos e maniqueus, introduzidos pelo monge egípcio Marcos. Em 380, Prisciliano e os seus, foram expulsos e executados pelo imperador Máximo. Porém somente no Concílio de Braga, em 565, é que essa heresia foi condenada.

O Pelagianismo

Em reação aos gnósticos e maniqueus, surge o pelagianismo que se tornou uma grave heresia, divulgador Pelágio nasceu em 354 na Inglaterra, moralista e intransigente, dizia que não se precisava da graça para salvação, bastando somente a vontade individual, não existia o pecado original, era contra a remissão dos pecados, acreditava que se não há pecado original, não há necessidade de redenção, logo Jesus Cristo é inútil. [CACP]

Simonianismo

Os Simonianos, seita gnóstica do século II dC, tiraram seu nome de Simão Mago (ou Simão, o mágico), que faz uma aparição nos Atos 8:9-24, onde é repreendido pelo apóstolo Pedro por tentar comprar o ofício apostólico (daí o termo “simonia” para a prática de venda de favores divinos, bênçãos, cargos eclesiásticos, bens espirituais, coisas sagradas, etc). De acordo com o bispo Irineu de Lyon, Simão é o pai de todos os hereges.

Simão contou uma história na qual o primeiro pensamento feminino de Deus (ou a “metade feminina de Deus”), chamada Enóia, foi para os mundos inferiores para criar anjos. Infelizmente, os anjos se rebelaram contra ela, que ficou presa no corpo de uma mulher. Ela habitou tal corpo através de sucessivas reencarnações, uma das quais foi Helena de Tróia. Deus finalmente desceu à Terra como Simão Mago a fim de resgatá-la. Simão encontrou sua mais recente encarnação, também chamada Helena, trabalhando como prostituta na cidade de Tiro.

Em forma humana, Deus/Simão pregou contra os anjos rebeldes que criaram o mundo. Há indícios nos escritos de Simão que ele também identificou-se como o Cristo, que sofreu na Judéia. Ele ensinou que as pessoas que se voltavam para ele e Helena (que foi identificada como o Espírito Santo) eram salvas pela graça, não pelas obras. Os apócrifos “Atos de Pedro” relatam que, em uma “competição” com o apóstolo Pedro para provar quem estava dizendo a verdade, Simão levitou acima do Fórum Romano. Pedro, então, rezou a Deus para derrubar Simão, e o herege foi parado em pleno ar e caiu ao chão. Exposto como um vigarista, ele foi apedrejado pelo povo e morreu por conta de seus ferimentos.

Marcionismo

Os Marcionitas eram seguidores de Marcião do Ponto (ou Marcião de Sínope), considerado um dos cristãos mais influentes entre o tempo de São Paulo e Orígenes. Ele teria sido expulso da Igreja por “seduzir uma virgem”, mas essa acusação pode ter sido incitada por seus inimigos.

O que se sabe é que ele chegou a Roma e começou a ensinar suas doutrinas lá, atraindo um grande número de seguidores e ameaçando a própria existência da Igreja Romana, ainda no seu início. O bispo Policarpo de Esmirna chamou-o de “primogênito de Satanás”.
Marcião rejeitava o Deus judeu Javé como uma divindade tirânica, ensinando que o Deus de que fala as Escrituras Hebraicas não era o Pai de Jesus Cristo. Obviamente, ele rejeitou os escritos judaicos (que viriam a ser o Antigo Testamento), bem como compilou um novo cânone de livros sagrados. Para este fim, ele produziu um “Evangelho do Senhor” (uma versão inicial do Evangelho de Lucas) e recolheu as epístolas de Paulo, introduzindo assim a ideia de um “Novo” Testamento.

Marcião avaliou Paulo como o único apóstolo a entender verdadeiramente a mensagem de Jesus. Ele considerava os 12 originais, incluindo Pedro, idiotas. Marcião também proibiu o casamento e pediu o celibato entre seus seguidores (mesmo os já casados), uma vez que trazer mais crianças para o mundo significava trazer mais pessoas para o “cativeiro do despótico Javé”. Marcião foi também um docetista – ele acreditava que Jesus nunca tinha sido um ser humano de carne e sangue, apenas fingiu ser um.

Carpocracianismo

Enquanto os Marcionitas praticavam um celibato extremo, a seita liderada por Carpócrates foi acusada do exato oposto – pura libertinagem. Os Carpocracianos acreditavam na reencarnação, e o bispo Ireneu de Lyon disse que os membros do grupo eram encorajados a experimentar tudo o que há na vida para que não tivessem que reencarnar e fazer o que ainda não tivessem feito, o que inclui a imoralidade.

Irineu podia estar exagerando, mas Carpocracianos de fato se orgulhavam de ser acima de todas as leis morais, e transcender convenções humanas. A notoriedade da seita reacendeu no século 20 com a descoberta do Evangelho Secreto de Marcos, uma versão mais espiritual do Evangelho canônico de Marcos. Clemente de Alexandria acusou os Carpocracianos de falsificá-lo para apoiar a sua libertinagem. O Evangelho Secreto incluía uma cena em que um Jesus nu dava instruções a outro homem nu, e esta sugestão de um encontro homossexual foi usada pelos Carpocracianos para justificar um estilo de vida gay em uma sociedade muito menos tolerante do que a nossa é.

Marcosianismo

A seita marcosiana, liderada pelo professor Marcos (ou Marcus), é conhecida por sua fascinação com a teoria da numerologia e das letras, derivada dos pitagóricos.

Marcosianos encontravam significado nos equivalentes numéricos de palavras (em grego, cada letra tem um valor numérico). Por exemplo, o nome “Jesus” em grego – Iesous – corresponde ao equivalente numérico “888”, um número considerado como sagrado e mágico pelos antigos. Uma razão para isso é que os números associados a todas as 24 letras gregas, quando somados, dão 888.

Valentianismo

Valentino era um professor muito popular e influente, por pouco não sendo eleito Bispo de Roma (o cara que chamamos de “Papa” hoje). Depois de perder (ou recusar) a eleição, ele montou seu próprio grupo.

Valentino acreditava em um andrógino Ser Primal, cujo aspecto masculino se chamava Profundidade, e o feminino Silêncio, a partir do qual pares de outros seres emanavam. Quinze pares acabaram sendo formados, totalizando 30 – os Aeons descritos por Marcos, discípulo de Valentino.

O último Aeon, Sophia, sucumbiu a ignorância e foi separada de seu grupo, o que resultou na criação de todos os males. Ela foi dividida em duas: sua parte superior retornou ao seu grupo, enquanto sua parte inferior ficou presa neste mundo físico. O conceito Valentiniano da salvação estava no resgate de Sophia pelo seu Filho, ou Salvador, em quem todos os Aeons são integrados. Sophia havia criado sementes espirituais em sua imagem, mas elas também estavam na ignorância. Para despertar e amadurecer as sementes, a Sophia inferior e o Salvador influenciaram o Demiurgo (artesão, ou Criador), uma divindade também inferior, a criar o mundo material e os seres humanos. Este Demiurgo não é outro senão o Deus bíblico dos judeus.

Basilidianismo

Irineu chamou os seguidores de Basilides de Alexandria de dualistas e emanacionistas. Ou seja, eles viam a matéria e o espírito como forças hostis opostas, e acreditavam no mito gnóstico dos Aeons emanando em sucessão a partir de um “Pai” não gerado. Os cinco principais Aeons eram Nous (Mente), Logos (Palavra), Phronesis (Inteligência ou Prudência), Sophia (Sabedoria) e Dynamis (Poder). De Sophia e Dynamis emanaram 365 céus em ordem decrescente, coletivamente chamados Abrasax.

O Deus dos hebreus governou o céu mais baixo, e criou um mundo ilusório – o nosso. O verdadeiro Deus viu o sofrimento da humanidade neste reino ilusório e enviou Nous (ou Cristo) para trazer o conhecimento que iria libertá-los. Nous nasceu como Jesus, cujo nome secreto entre os Basilidianos era Kavlakav (ou Caulacau).

Cristo, sendo um ser totalmente divino, não tinha corpo físico real. Basilides é talvez mais conhecido por sua interpretação da crucificação de Cristo que, sendo incorpóreo, não podia morrer. No caminho para o local da sua crucificação, ele “fez uma troca” com Simão de Cirene, que estava ajudando a carregar a cruz. Os romanos, enganados, começaram a crucificar o pobre Simão.

Ofitismo

Os ofitas são nomeados após a palavra “serpente” – como você deve ter adivinhado, eram cristãos adoradores de cobras. A fascinação com serpentes decorria da leitura sobre a “queda” no Gênesis. Para eles, a serpente que tentou Eva não é a vilã da história, mas a heroína. Eles chamaram o Deus Criador do Gênesis de Ialdabaoth (Filho do Caos), que queria governar Adão e Eva escondendo deles a “árvore do conhecimento do bem e do mal”, a fonte da sabedoria.

Ialdabaoth era o filho de Sophia. Ele desconhecia o fato de que havia um reino divino mais elevado acima dele – era ignorante -, e assim arrogantemente se proclamou o único Deus. A serpente foi usada por sua mãe Sophia para frustrar suas ilusões de grandeza, convidando Eva a comer do fruto proibido. Assim, o próprio Moisés exaltou a serpente no deserto, e Jesus se comparou a essa serpente.

Setianismo

Os Setianos eram assim chamados porque reverenciavam Seth (também grafado Sete ou Set em português), o terceiro filho de Adão e Eva, como o revelador do conhecimento. Eles se consideravam a “semente de Seth”, a parte da humanidade que tinha atingido Gnosis (conhecimento) e que, portanto, seria salva, ao contrário do resto da humanidade, os descendentes de Caim e Abel. Cristo e Seth eram a mesma pessoa.

Setianos são mais conhecidos por seu trabalho “Apócrifo de João” ou “Evangelho Secreto de João”. É a obra com a mais completa visão de mundo gnóstica. Ela começa com o inefável e incognoscível Pai Primal, a partir do qual o primeiro poder, Pensamento (também chamado de “Barbelo”) emanou. Esta figura feminina desempenhou um papel tão importante no mito Setiano que os seguidores da seita também eram conhecidos como Barbeloites.

Um outro processo de emanação de Barbelo produziu Autogenes (Autogerado) e os anjos, incluindo Adamas, o Homem Perfeito. A emanação caçula, Sophia, queria criar uma imagem de si mesma sem o consentimento do Espírito invisível. Ela acabou produzindo um ser deformado, Yaldabaoth, que se tornou Demiurgo – o Deus Criador da Bíblia. Yaldabaoth, por sua vez, produziu os Arcontes, que criaram o primeiro homem, Adão. Os Arcontes viram que Adão era superior que eles em inteligência, de modo que resolveram esconder dele a Árvore do Conhecimento no Jardim do Éden. Quando Adão e Eva desobedeceram os Arcontes, foram expulsos do Paraíso. Yaldabaoth então seduziu Eva, e ela deu à luz a Caim e Abel.

Borborismo ou Fibiorismo

O único relato que temos das práticas Fibionitas (também chamadas de Borboritas) vem dos escritos de Epifânio, grande defensor da ortodoxia cristã. É preciso estar consciente dos possíveis exageros e calúnias do relato tendencioso desse “caçador de hereges”. No entanto, verdadeiro ou falso, sua descrição é muito intrigante, para não dizer escandalosa.

Epifânio afirma que, quando era jovem, no Egito, duas meninas Fibionitas tentaram convertê-lo (“seduzi-lo”) e fazê-lo se juntar a sua seita. Ele rejeitou a prática, mas passou a familiarizar-se com seus escritos.

Epifânio dá detalhes das festas Fibionitas, que começavam com homens cumprimentando as mulheres, enquanto secretamente faziam cócegas nas palmas de suas mãos por baixo. Este podia ser um código secreto para alertar aos membros da presença de estranhos, ou um gesto erótico. Depois de jantar, os casais começavam a ter relações sexuais, com qualquer outro membro da seita. O homem, no entanto, tinha que se retirar antes do clímax, de modo que ele e sua parceira pudessem coletar o sêmen e ingeri-lo junto, dizendo: “Este é o corpo de Cristo”. Os líderes da seita que já haviam atingido a perfeição podiam realizar o rito com um membro do mesmo sexo. Havia também a masturbação sagrada, na qual se podia tomar o corpo de Cristo na privacidade de seu quarto.

E qual a razão deste ritual sexual? Os Fibionitas acreditavam que este mundo estava separado do reino divino por 365 céus. Então, para chegar ao mais alto mundo, um Fibionita redimido deveria passar por todos os 365 céus – duas vezes. Mas a crença dita que cada céu é guardado por um Arconte, e para passar por ele, é preciso chamar o nome secreto de um dos Arcontes durante o ato sexual. Essa crença garante que cada homem faça sexo com uma mulher pelo menos 730 vezes.

A liturgia do sexo também foi fundada na ideia de que os seres humanos têm uma semente divina presa dentro do corpo físico, e deve ser liberada para que possam voltar para os reinos mais elevados. Esta semente é transmitida através do sêmen masculino e do sangue feminino. Permitir que a semente se desenvolva em outro ser humano no útero da mulher é perpetuar o ciclo de aprisionamento. Assim, o ritual de coleta de sêmen e de sangue de menstruação e sua ingestão representa a libertação da semente divina. [hypescience]