Seven Days Before King Comes

Men know our names. Once they remember who were the Witches of the North, East, South and West. They remember also Dorothy and the Wizard of Oz.

Men know our deeds. Once the Church and the Kings put hunters at our large, but they didn’t catch us, they take under arrest, tortured and killed many innocent women and men, accused of heresy and witchcraft. Well, Church doesn’t like concurrence, but we have a lot of fathers, priests and monks in our meetings.

At the days when we celebrate Saturnalia, boys and girls look after us, feeling the blood calling as Jack and Jill once did.

I remember quite well. I was the favorite toad of Miss Trude.

In the first day, comes Jack, we buy his goat and he took five beans. It wasn’t easy to settle back the Cloud Giant to his home. Not enough, he robbed the Golden Goose and Humpty Hump feel from the bridge to save the village. Trude don’t know, but I deliver Jack to Old Nick and we didn’t hear about him anymore.

Then, in the second day, Jill appeared, looking for her brother. Judge me not, dear audience, because Jill grew up and all I thought was to be between her legs.

– Mister Frog, have you see my brother?

– Milady, I can’t say that because I am under a vowel of sigil.

– My, oh, my! Are you in the door, Jill?

– Yes, Miss Trude, sorry to bothering.

– No bothering at all. See, we are in Saturnalia and we are setting to the Day King Comes. Would you please help us?

Jill can’t deny that, Miss Trude always help everyone in the village. It’s not wise say no to Miss Trude.

– I can try, Miss Trude, but I am no good in this Craft.

– Nonsense. You couldn’t avenge your fathers against a witch if you aren’t good in Craft.

Then I found myself between two beauties, making arrangements to the Tide of the Season. That was busy days and I took any opportunity to be between their legs. They also ride over me many times, but who am I to claim?

We were set and ready, at the King’s Road, full of magic creatures, nature spirits, wizards and witches, in a big train to celebrate the Day King Comes. Then I heard this dialogue that only trained eyes [and ears] can understand.

-I saw something that frightened me.

-What did you see?

-I saw a black man on your steps.

-That was a charcoal burner.

-Then I saw a green man.

-That was a huntsman.

-Then I saw a blood-red man.

-That was a butcher.

– Miss Trude, I am seeing a man with a crown made of fire.

– Fear not, dear sister. He is our Lord. He was dead but now He is rising again.

[loud voice]- Come, My Children! Come, because I Am the Life and the Death, I Am the Winter and the Summer.

Forgive if I cry, dear audience. Because between the Children of the Crooked Path, this humble teller, the Bard Toad, yes, me, I am the most persecuted, renegade and rejected of the People of the Darkness. I cry since the first day I met them. My Lord is with His arms wide open even to me.

– Kids? The dinner is ready!

I turn my head and I see the One I love more than life. She is with the moon as Her crown and She is scouted by stars. She smiles and laugh because She knows how much I love Her and my body shows it in explicit ways.

[loud voice]- It’s been sometime you haven’t seen the Queen, isn’t it, Bard Toad?

[shamed]- Y… yes, My Lord.

[loud voice]- What are you waiting for? Hurry up! She misses you too. Fill Her with your seed!

Forgive, dear audience, but this is the King’s order and I can’t resist to Her smile.

Happy Summer Solstice, Happy Sol Invictus Day, Happy Mithra’s Day.

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Teoria Geral da Suinidade

Squigley acordou com preguiça, esfomeado. Ele levanta para vasculhar a geladeira e ver o que tem pronto. Não tem café e os produtos derivados de cannabis só chegam semana que vem. Ele até poderia voar rapidinho para o Canadá, com qualquer receita médica conseguida pela internet e adquirir mais da “maconha medicinal”, mas nessa época do ano o Canadá está frio demais.

– Você está pensando nela, né?

Squigley se assusta, afinal mora sozinho no estúdio no Almond Glory Boulevard. A imagem no espelho de parede inteira parece zangada.

– Sarah? Mas… como? Eu não estou usando o vestido.

– Digamos que, depois de você me dar forma e voz eu achei outras formas de existir no seu mundo. Eu ainda estou vendo como eu passo desse mundo de duas dimensões para o mundo de três dimensões.

[pensativo]- Boa sorte com isso. Personagens de Cartoonland que passaram para o mundo tridimensional não voltaram.

[eureca]- É mesmo! A dimensão do espelho é a mesma dimensão de Cartoonland!

[engolindo o ultimo energético]- Eu não sei. Tente passar pelo espelho.

Sarah empurra, faz força, tenta achar uma brecha, mas sem sucesso.

– Eu estou presa aqui.

– Ótimo. Ficaria confuso se nós existíssemos no mesmo plano. Eu vou comprar comida, bebida e energéticos. Quer algo?

– Hã… traga pizza.

Squigley sai na rua sem pensar em como Sarah iria comer a pizza. Distante duas quadras de onde mora, Squigley é cliente diário da loja da Kwik E Mart da Plazza Milo Manara. O cestinho enche rápido, as compras são feitas mecanicamente, sempre das mesmas marcas.

– Senhor Squigley, bom dia.

– Bom dia, Horácio. Como vai Clarabela?

– Está bem. Trabalhando bastante no Núcleo de Princesas da Disney.

Só em Cartoonland personagens de estúdios e universos completamente diferentes interagem no cotidiano. Não é incomum heróis e vilões serem bons vizinhos. Amor, sexo e relacionamentos, então, nem é bom pensar.

– Senhor Squigley, uma pizza? Está com uma companhia feminina, né, safado?

– Mais ou menos. Pode-se dizer que eu não posso me livrar dela.

[melancólico]- Eu sei bem como é isso. Quando nós trabalhávamos para o Estúdio Disney, lá por 1930, nós nos apaixonamos na primeira cena. Oficialmente nós formamos o par romântico, mas o estúdio escondeu nossos filhos e aos poucos, nós ficamos fora dos roteiros. Não pegava bem para a empresa que seus atores/personagens/funcionários tivessem filhos.

– Olha, não está muito diferente nos dias de hoje. Com a paranoia em torno da pornografia, até as redes sociais estão começando a censurar tudo que é considerado conteúdo adulto.

– Felizmente sempre existem os estúdios alternativos, né, safadão? [piscadinha]

[desconversando]- Eu não sei do que você está falando.

De repente a loja fica cheia de clientes. Thanos escolhe cerveja com Hulk. Mulher Maravilha escolhe revistas femininas com a Viúva Negra. Horácio esquece o amigo e fica dando assistência [não solicitada] às famosas heroínas. Squigley confere o troco, ensaca as compras e faz o retorno ao estúdio, pois esse é apenas mais um dia comum em Cartoonland. Chegando na rua, o celular toca. Distraído, Squigley nem percebe a chegada e entrada do Batman.

– Você comprou a pizza?

– Sarah?

– Comprou ou não? Que sabor?

– Hã… sim… pizza de raízes, grãos e larvas sortidas.

– Aceitável.

– Como… como você entrou no celular?

– Eu não sei! Eu só vi uma janela enorme com algum tipo de painel de controle.

[mastigando]- Então há uma possibilidade.

[estomago roncando]- Hei… a pizza é minha!

[mastigando]- Eu sei. Eu estou comendo uma fogazza de presunto e queijo sintético. Eu sei exatamente onde nós podemos conseguir respostas para esse problema.

– Quem? Professor Pardal? Dexter?

– Eu vou no melhor. Doutor Reed Benjamin Richards.

Demonstrando incomum habilidade e disposição, Squigley percorre a incrível distância de dois quilômetros [parando para beber smoothies e energéticos] para chegar na casa simples demais para pertencer a um astro do Estúdio Marvel. Squigley ajeita o cabelo e aperta a campainha.

– Sim, quem é?

[pigarreando]- Este porquinho foi ao mercado. Este porquinho ficou em casa. Este porquinho tem um bife com purê. Este porquinho não tem nada.

– Um instante, por favor.

Algo estala, como fazem portas elétricas e um trecho do jardim abre como se fosse portão de garagem para então aparecer e subir um contêiner parecido com uma cabine de elevador. Squigley espera o mecanismo parar de mexer e a luz verde acender para então entrar. Automaticamente o mecanismo inicia o movimento inverso, descendo por três pisos, até onde a verdadeira casa do doutor Richards fica.

– Senhor Squigley, eu espero que o senhor não tenha vindo para ver minha filha.

– Claro que não, doutor. O que aconteceu entre eu e Val foi um lance de corpo, entende?

– Não, não entendo. Nossa família fica muito embaraçada por Valéria ser filha de Susan com Doom, então o relacionamento de vocês desagradou muito o lado judeu de nossa família.

– Olha, foi só um lance. Nós nem nos vemos mais.

– Então… você não veio para me pedir mais psicotrópicos sintéticos?

– Eu juro pelo Grande Presunto que eu estou reabilitado.

– Então o que te traz aqui?

– Isto… ou melhor dizendo… ela.

O doutor Richards observa Sarah, acanhada, dando tchauzinho da tela do celular do Squigley.

– Simpática. Sua namorada?

– Não, doutor… ela sou eu… digo, meu outro eu.

– Isso é pegadinha?

– Não, doutor.

Reed coça a cabeça. Isso só era um modelo teórico. Algo possível por complicadas equações.

– Eu preciso fazer alguns testes. [belisca]

[dueto]-Ai!

– Fascinante. [alisa a tela do celular]

[gemido em dueto]

– Incrivelmente fascinante.

– Então… doutor… o que acha?

– A ciência trabalha com fatos e evidências, meu amigo, não com o que eu acho. Você e sua amiga são efetivamente desdobramentos da mesma existência. A psicologia teoriza que nós temos um reflexo de nosso eu, mas isso não é algo verificável. Evidentemente, falamos em modelos psicológicos, o que não é o mesmo que duplos em termos corporais. A sua amiga é um paradoxo que não é aplicável no modelo clássico da ciência, somente existe como possibilidade mediante complexas operações científicas.

– Bom… hã… então nós somos idênticos, é isso?

– Essa é a conclusão, embora seja uma definição imprecisa.

– Como Sarah pode se alimentar?

– O nome dela é Sarah? [afirmativo] Boa pergunta. Senhorita Sarah, pode me descrever o ambiente no qual você se encontra?

– Bom, doutor, pelo que eu vejo através da tela do celular, o lugar onde eu estou parece um reflexo cinzento.

– Fascinante. Definitivamente fascinante.

– Isso é bom ou ruim, doutor?

– Veja bem, meus amigos, seja qual for o motivo que causou a refração da mesma existência em duas está duplicando o ambiente original da mesma forma. Qual foi a comida que você preparou para ela, Squigley?

– Eu comprei essa pizza.

– Excelente. Fotografe com a câmera do seu celular ou exponha a pizza com videoconferência.

Squigley acionou o aplicativo de videoconferência e apontou a tela do celular na direção da pizza. Instantaneamente a “cópia” da pizza aparece ao lado da Sarah.

– Por favor, senhorita, coma essa pizza.

Com a fome que ela estava, Sarah atacou sem hesitação. Depois de alguns minutos ela tinha devorado a pizza inteira, estava satisfeita e soltou um arroto.

– Desculpem, meninos.

– Não por isso, senhorita. Agora, qual o gosto da pizza?

– Muito boa. O sabor é o mesmo que eu sentia indiretamente pelo meu outro eu.

– Fascinante, absolutamente fascinante.

– Hã… o que isso significa, doutor?

– Quando falamos da realidade, nós falamos do modelo clássico, copernicano e newtoniano. Para observações práticas e cotidianas, estes parâmetros são válidos. Mas em um aspecto mais amplo, na perspectiva cósmica, universal, esses são padrões muito limitados.

– Fale português, doutor.

– Muito bem, eu vou utilizar essa ocorrência que estamos testemunhando. Sarah está, digamos, dentro do celular, praticamente em uma realidade paralela a esta onde nós dois estamos. [vasculha trecos no laboratório] Pense nas localidades como caixas.

– Caixas?

– Sim, caixas. Eu poderia falar em unidades de existência tridimensionais, mas assim fica mais simples. Imagine que cada coisa e ser vivo que existe sejam compostos por pacotes de dados.

– Pacotes de dados?

– Eu poderia falar em partículas quânticas, se preferir.

– Continue, doutor.

– Os pacotes de dados são configurados conforme as condições intrínsecas de cada caixa. Em condições normais, indivíduos e coisas não tomam conhecimento das outras caixas, tampouco dos seus “duplos”, por assim dizer.

– No caso entre eu e Sarah, como fica a situação?

– Essa é a parte interessante desse evento. Nós interagimos com outras realidades, só não nos damos conta. Os meios de comunicação de massa são um bom exemplo. Sons e imagens transmitidas são projeções que reproduzem gravações de coisas e pessoas de outros lugares. Jogos de videogames são projeções de realidades construídas nos mesmos moldes que o universo cria as caixas e as configurações de dados.

– Por isso que eu tenho a impressão de que eu estou em outro mundo quando entro em um videogame ou vejo um filme?

– Precisamente, meu amigo. A arte em suas muitas formas só é possível graças a indivíduos excepcionais que possuem a capacidade de receber esses pacotes de dados. Todo artista é um vidente, um médium.

[animada]- Então existe um meio para que eu possa entrar no mundo de vocês?

[pensativo]- Existem possibilidades, mas isso seria muito complexo. Senhorita Sarah, onde a senhorita estava antes de existir dentro desse celular?

[zangada]- Na cabeça desse pervertido.

[curioso]- Algum processo ocorreu para que a ideia de seu outro eu pudesse ser codificado em pacotes de dados para então a senhorita pudesse tomar forma.

[zangada]- Esse pervertido se travestiu.

– Algo tão frugal foi suficiente para criar o canal que resultou nessa singularidade onde você existe fisicamente dentro do celular, Sarah, embora seu corpo seja somente um amontoado de impulsos elétricos.

[ofendida]- Como é?

– Não fique ofendida, senhorita Sarah. Tecnicamente falando, todos os objetos sólidos são compostos por impulsos elétricos. Mesmo o adamantium, considerado o metal mais duro e resistente conhecido, é composto por partículas quânticas que vibram em determinada frequência. Basta uma leve variação em uma partícula para que uma rocha de granito fique tão macia quanto isopor.

[intrigado]- Então, na prática, a Sarah pode vir para cá e nós podemos ir para outros mundos?

[franzindo a testa]- Isso é o que eu gostaria de descobrir, com a ajuda de vocês. Se eu conseguir criar um portal ou um canal entre vocês dois, os desdobramentos dessa descoberta são incalculáveis.

Squigley e Sarah estavam com medo, mas o entusiasmo de todos foi maior. Reed usou algumas sobras que ele pegou e ganhou dos estúdios da Paramount e do pessoal da séria Jornada nas Estrelas. Toda aquela movimentação atraiu a atenção de Tony Stark e foi contanto com Bruce Banner que os cientistas conseguiram chegar ao protótipo de portal interdimensional.

O experimento foi bem sucedido, Sarah e Squigley puderam coexistir no mesmo plano de realidade. Entretanto, isso abriu a percepção humana para as doze dimensões que compõe o universo, incluindo o Reino dos Deuses, para o embaraço de crentes e descrentes.

Eisbein com sarapatel

Squigley estava no seu camarim, decorando e treinando o roteiro do dia para o quadro Sinfest [Tatsuya Ishida] quando seu celular tocou.

– Alô?

– Senhor Squigley, bom dia. Aqui quem fala é a Hellen.

[animado]- Bom dia, senhorita Hellen.

– Como está se sentindo hoje, senhor Squigley?

– Eu estou muito melhor, senhorita Hellen, muito obrigado.

– As minhas amigas perguntaram de você. Ligue para elas, quando der, pode ser?

[duvidando]- Claro… eu ligo sim.

– Você está para entrar no estúdio, né?

– Sim. O senhor Ishida tem insistido nesses roteiros supostamente feministas que criminalizam a pornografia e a prostituição.

– Isso não deve perturba-lo, senhor Squigley. A sua profissão [seu trabalho] não deve influenciar sua vida ou sua opinião.

[aborrecido]- Eu acabei assimilando parte dessa doutrina. Deve ter sido isso que causou o meu descontrole emocional.

[séria]- Senhor Squigley, o senhor é plenamente capaz de ter sua própria ideia de julgamento sobre qualquer coisa.

[engole seco]- De… desculpe.

[risos]- Isso inclui sua ida até a clínica, senhor Squigley. O senhor nunca teria ido lá e nós não teríamos nos conhecido.

[pensativo]- Puxa, é verdade!

[risos]- Senhor Squigley, gostaria de realizar um experimento?

[curioso]- Um… hã… experimento?

– Sim. Ache um vestido do seu gosto e vista-o.

[receoso]- Quer que eu seja um cross-dresser, uma drag-queen?

[risos]- Você vai ver. Ative a função “chamada de vídeo” para que eu possa acompanhar.

Conformado, Squigley encontra uma arara com diversas roupas [afinal, ele estava nos bastidores] e encantou-se com um vestido comum de cores vibrantes e delicados detalhes. Sem pensar, simplesmente despiu-se ali mesmo [não tinha pessoa alguma
olhando] e ensacou o vestido por sobre seu corpo. Ali próximo um enorme espelho refletiu sua imagem e ele estranhou seu reflexo. Mas a sensação de estar usando aquele vestido trazia conforto e segurança. Olhando para sua imagem feminina, somado com a sensação de estar travestido causou uma ereção em Squigley.

[risos]- Ora, vejam só, senhor Squigley! Excitado por ver seu lado feminino? Ou excitado por ter desabrochado sua feminilidade?

[constrangido]- Isso… isso não é o que parece!

– Está tudo bem, senhor Squigley. Respire fundo. Não é um pequeno vestido que vai alterar sua sexualidade. Senão você não estaria excitado por ver sua imagem feminina.

[acanhado]- Mas… mas isso é normal?

– Perfeitamente normal, senhor Squigley. Eu tenho um lado masculino, sem ele eu não poderia apreciar a minha beleza nem me relacionar com outras mulheres. Nosso encontro na noite anterior foi propício para que eu te mostrasse que “gênero” é uma encenação social. Você sabe bem como é representar um papel conforme o roteiro.

– Eu entendo… mas é como se fosse outra pessoa!

[risos]- Nesse caso, ela precisa de um nome. Como vai chama-la?

[pigarro]- Sarah… Sarah Pigling.

– Excelente, senhor Squigley! Olhando para Sarah, o que você sente?

– Ela… ela é tão linda… inocente… atraente… eu quero agarra-la… rasgar suas roupas e UFFFF!

– Senhor Squigley! Algum problema?

– Ahmeudeus… eu ejaculei fantasiando em trepar com a Sarah!

[risos]- Foi um jorro e tanto. Eu quase sinto ciúmes da Sarah.

[desconcertado]- Não ria! Isso é grotesco! Não é assim que um homem [macho] deve tratar uma mulher [fêmea]!

– Uau, eu acho que nós estamos quase conseguindo algo. Quem disse isso foi o senhor Squigley ou foi a senhorita Sarah?

– Como é?

– Senhor Squigley, o senhor deu uma forma para Sarah. Ela precisa ter voz. Deixe-a falar.

[pigarro]- Senhorita Hellen, como você atura esse porco?

– Senhorita Sarah, eu devo te agradecer.

– Agradecer-me? Pelo quê?

– Se a senhorita não estivesse pulsando em algum lugar desse porco, eu não teria conseguido ajuda-lo.

– Bom… hã… a gratidão é mútua. A senhorita deve ter ideia de como eu sofri quando ele consumia pornô ou visitava os bordéis.

[risos]- Vamos ser sinceras? Papo de menina. No fundo você gostava.

[indignada]- Como é?

[risos]- Você não tinha nem forma nem voz, mas existia dentro do senhor Squigley. Então você se via no corpo e na voz dessas profissionais do sexo. Esse seu falso moralismo é a forma como você exprime seu ciúme do senhor Squigley. Você queria fazer com ele essas coisas que você convenientemente condena.

[escandalizada]- Mas quê? Como ousa? Eu sou uma donzela!

[risos]- Eu acho que terei que cobrar em dobro do senhor Squigley. Afinal, eu terei que te incluir no atendimento. Vamos, Sarah, aqui só tem eu e você. Seja sincera comigo e com você mesma. O que você sente quando olha para o senhor Squigley?

[acanhada]- O meu outro eu? Bom… Squigley até que é interessante.

[risos]- Interessante? Pode dizer então porque, ao pensar nele, fica excitada?

[roxa]- Eu não estou excitada!

– Lamento discordar, querida, mas dentro do corpo do senhor Squigley é difícil esconder sua excitação.

[lívida]- Ahmeudeus! Esse… pervertido! Com esse negócio…

– Será que a donzela está começando a ser sincera consigo mesma? Diga, Sarah, o que sente quando vê o senhor Squigley despertando o Poderoso Javali?

[envergonhada]- Isso é nojento… fica pulsando, cada vez mais duro… isso é repulsivo… [tremendo] minha mão… eu quero segurar… [gemendo] por que é tão bom sentir isso na minha mão? [contorcendo] Ahmeudeus… esse treco magnífico… eu quero tudo dentro de mim! UFFFF!

– Senhorita Sarah? Está tudo bem?

[arfando]- Eu… eu fiz de novo…

– Sim… foi divertido, não foi?

– Mas isso… isso não é imoral?

– Não, isso é sensacional. Sexo é normal, natural e saudável. Imoral é querer fixar regras, limites ou proibições. Isso só resulta em opressão e repressão sexual, a causa das frustrações e recalques, cujo resultado é violência física e sexual. Prostituição e pornografia só são ilegais e criminalizadas como parte da manutenção do sistema. Em culturas onde o sexo era sagrado, a pornografia e a prostituição eram legalizadas e regulamentadas. Sem recalque e frustração, não ocorriam tantas ações de violência física ou sexual.

– Mas… isso não é promiscuidade? E quanto aos riscos, como doenças sexualmente transmissíveis e gravidez?

– Esse é um assunto correlato interessante, Sarah. Sabe, estudos científicos indicam que a monogamia é rara na natureza. Espécies monogâmicas habitam apenas ambientes restritos e estão mais suscetíveis a doenças em geral. O normal na natureza é parceria múltipla. Espécies cujas fêmeas copulam com mais machos são mais adaptadas a vários ambientes e tornam-se resistentes a diversas doenças, incluindo as sexuais.

– Bom… mas isso… é entre animais. Nós não somos animais.

[anotação pessoal: tecnicamente os personagens são seres zoomórficos, mas para não estragar o texto, eu vou manter o raciocínio]

– Então você admite que a “diferença” é puramente cultural, social, não natural.

[chateada]- Do jeito que você fala, até parece que não existem restrições ou normas.

[risos]- Quais seriam as restrições e normas?

[emburrada]- Você está caçoando de mim.

– Absolutamente. Eu confio na sua capacidade. Você deve saber que somos nós quem criou tais restrições e normas, então nós podemos alterar, dobrar, moldar essas restrições e normas.

– Isso é… indecente, obsceno!

– Nisso você se engana, amiga. Seu outro eu passou por experiência interessante para aprender que “gênero” é uma encenação social. O modelo de relacionamento considerado “normal” também é um roteiro com papéis bem definidos. Não obstante, escondido dos olhos, ocultado entre cortinas, as pessoas possuem uma vida sexual muito mais colorida e variada.

[indignada]- Você está relativizando os sagrados laços do casamento!

[risos]- Nossa, você parece com a nossa bisavó. Acredita mesmo que um pedaço de papel, um contrato, é necessário para autorizar ou permitir algum relacionamento? Pois bem, nada nos impede de reescrever os termos, itens, cláusulas e condições desse contrato. Nada nos impede de nos associar a outros contratos.

– O casamento é fundamental para formar uma família!

– Ora, parece que temos uma confusão. Por vivermos em sociedade, o registro da união é necessário para fins legais e jurídicos, mas isso nada tem a ver com amor e sexo. O casamento não impede de que uma das partes abandone o lar e filhos. A família não impede que uma das partes desenvolva outro relacionamento. O casamento não é fundamental para que crianças surjam da conjugação carnal. Conjunções carnais continuam a acontecer, independentemente de casamento.

– A família é o núcleo da sociedade!

– Pelo visto estamos andando em círculos. Primeiro existem relacionamentos, que podem conter diversas formas, portanto, diversas associações chamadas família e destas se estrutura a sociedade. A estrutura social é indiferente aos tipos de relacionamentos que nela ocorrem, do contrário nossa sociedade teria sido extinta há muito tempo.

[enraivecida]- Então nós devemos ser devassas, libertinas, vadias?

[surpresa]- Por que não? O que nós conseguimos e conquistamos aceitando essas regras e limitações impostas à sexualidade? Nós não conseguiremos nem conquistaremos nosso lugar no mundo rejeitando nossa sexualidade, sensualidade e feminilidade. Nós temos, em nós mesmas, a maior e melhor ferramenta que, se soubermos usar, nós conquistaremos o mundo. Não se engane, amiga, o homem [macho] é o sexo frágil, senão não precisaria de leis, armas e exércitos.

[espaçando]- Ah… eu acho que Sarah não está mais conosco.

[sorrindo]- Isso foi um avanço, senhor Squigley. Traga a Sarah nas próximas sessões.

– Eu… vou me esforçar.

– Eu tenho certeza que consegue, senhor Squigley. Sarah precisa conhecer nossas amigas.

– Hã… certo… elas gostaram mesmo de me conhecer?

– Evidente que sim, senhor Squigley. O senhor não está pensando em ter uma recaída, está?

[confuso]- Bom… hã… não sei… eu vou poder continuar a te ver após a minha alta?

[risos]- Senhor Squigley, eu estou lisonjeada. Vamos focar no agora, no que se deve fazer. Até a próxima sessão.

Squigley não pode evitar em ficar melancólico. A voz de seu melhor amigo [para quem ele faz escada] faz com que ele volte sua atenção ao roteiro do dia. Slick, seu melhor amigo, tem um treco ao vê-lo como Sarah [não consegue admitir que
sentiu atração pelo lado feminino do porquinho] e Dominique pensa nisso como uma forma de se livrar de Slick para viver em paz com Abby. O que o roteirista [Tatsuya Ishida] não se dá conta é que, ao apoiar a visão do feminismo radical, ele defende o conservadorismo cristão que proíbe o amor de Dominique com Abby.

Quando o porco torce a língua

Nervoso, Squigley olha o relógio pela centésima vez, todo empetecado em um fraque e o impecável buquê de flores na mão. Alguns idiotas ficam dando risadinha, mas ele tinha adquirido autoconfiança e autoestima suficiente para ignora-los.

– Senhor Squigley! Boa noite!

A voz feminina, suave e harmônica provoca um sorriso no rosto de Squigley e suas bochechas ficam rosadas assim que o cheiro do suave perfume chega ao seu focinho.

– Senhorita Hellen! A senhorita veio!

Squigley virou e teve dificuldades em controlar a ereção assim que viu Hellen, a psiquiatra, psicóloga e terapeuta de Cartoonland. Compreensível, pois até o Homem na Lua ficou transtornado com tão bela visão.

– Evidente que eu vim, senhor Squigley. Considere isto como uma extensão do seu tratamento.

– Muito obrigado, senhorita Hellen. Por favor, aceite esse buquê de flores.

– Quanta gentileza, senhor Squigley. Muito obrigada. Eu apenas ressalto que eu estou aqui como profissional.

– Claro, claro! Profissional!

[risos]- Pela forma como você está arrumado, dando flores, vai ficar parecendo que nós estamos tendo um encontro.

– Hahahaha… que coisa… isso seria loucura, né?

– Eu prezo por minha ocupação, senhor Squigley. Nós combinamos continuar com o atendimento do seu caso fora da clínica com o intuito de investir em seu progresso.

– Eu jamais faltaria com o respeito com a senhorita.

[risos]- Eu sei, senhor Squigley. Foi pensando nos possíveis desdobramentos que esse atendimento incomum pode causar no meio social que eu decidi trazer comigo mais três amigas. Assim, curiosos e fiscais do alheio não poderão fofocar ou dizer que nós estamos tendo um encontro.

– Tre… três?

– Sim. Elas devem estar chegando.

Como uma coreografia milimetricamente ensaiada, chega um veículo trazendo três beldades que são de parar o trânsito.

– Ah, olá, garotas. Esse é o senhor Squigley.

[excitado]- Bo… boa noite.

– Boa noite, senhor Squigley. Eu sou Riley Marlow.

[com medo]- Bo… boa noite.

– Boa noite, senhor Squigley. Eu sou Alraune Prospoitheite.

[curioso]- Boa noite.

– Boa noite, senhor Squigley. Eu sou Astolfo de GrandRose

[intrigado]- Boa noite.

Squigley levou suas companhias a um badalado restaurante e lanchonete. Não teve um presente que não torceu o pescoço para observar. Alguns babacas torciam o rosto, inconformados por ver Squigley acompanhado de três beldades. Cavalheiro, educado e atencioso, Squigley puxa as cadeiras para que sentassem.

– Puxa… eu não lembro de ter estado antes em um lugar tão chique assim.

– Aqui é maior, mas eu estive em algo parecido com meu mes… digo, meu tio.

– Provavelmente ambas receberam o mesmo tratamento por parte do senhor Durak, que eu conheci na pessoa do senhor Ornellas.

[risos]- Sim, nós todas conhecemos de diversas formas o senhor escriba, seus muitos nomes e formas. Ele provavelmente está em algum lugar nos observando e anotando.

– Eu espero que sim. Eu estou com saudades. Eu estou precisando de uma injeção de testosterona.

[coro]- Eu também.

[risos]- Ânimo, pessoal. Pode ser que essa noite nós tenhamos boas surpresas. Certo, senhor Squigley?

[espaçando]- Quê? Ah! Sim, sim.

– Ótimo senhor Squigley. Hoje nós vamos trabalhar com os aspectos e distinções entre sexo, gênero, identidade, opção, preferência e orientação sexual.

– Hã… como é?

[risos gerais]- Deixe-me tentar, Hellen. Senhor Squigley, seja honesto, qual de nós é mais bonita?

O coitado fica pálido, agitado, sacudindo a cabeça de um lado a outro, sem conseguir escolher, mas certamente todas o deixavam excitado.

[risos]- Senhor Squigley, o senhor está feliz só de olhar para nós, certo?

– Eeeeh… sim?

[risos]- Eu percebi isso, senhor Squigley. Seu apreço à nossa beleza é extremamente visível. Mas nós somos diferentes tipos de mulher.

[confuso]- Eh?

– Assim você vai deixar o coitado confuso, Riley. Senhor Squigley, eu sou mulher em três quesitos. Eu tenho sexo feminino, gênero feminino e identidade feminina. Eu sou mulher e heterossexual e eu gosto de homens que sejam masculinos ao menos em dois itens.

[ainda confuso]- Eerrr…

– Deixe eu tentar. Senhor Squigley, embora nós pareçamos ser semelhantes e atraentes para você, uma de nós não é humana e uma de nós não é mulher.

[assustado]- Como que é?

– Vous compliquez. Senhor Squigley, apesar da minha aparência seja um aperitivo aos seus olhos, eu sou menino.

[chocado]- Quêêêêê?

[risos]- Deixem que eu continue, pessoal. Alraune é uma bela mulher, mas ela é um ser biotecnológico. Riley é uma bela mulher, mas ela é transgênero. Astolfo é muito belo e feminino, mas é menino.

Squigley trava e fica balbuciando e murmurando coisas sem nexo.

– Mais quelle chose. Vous casse le jouet.

[pensativa]- Talvez nós devamos recorrer a um método didático prático, físico e tangível. Senhor Squigley, o que o senhor acha de continuarmos seu atendimento em um ambiente mais propício? Eu sugiro um motel.

Squigley recupera a consciência rapidamente. Sinaliza ao garçom, paga a conta, aciona o Uber e leva suas companhias até o Flat Álibi Perfeito. Nem piscou quando o recepcionista cobrou mil reais por pernoite. As três [e o Astolfo] estavam tranquilos, deslumbradas em apreciar as instalações desse motel. Squigley escolheu a Suite Presidencial, o espaço é comparável a de um apartamento de três quartos, mais o serviço de quarto. Enquanto o quarteto se espalhava para desfrutar de cada detalhe da decoração, Squigley afrouxa a gravata e tira o paletó do fraque. Abre o frigobar e se considera sortudo por ter achado uma garrafa de Jack Daniels ainda inteira.

– Hei, vocês querem algo? Bebida, comida? O pernoite é tudo incluso.

– Hum… será que eles servem presunto?

– Fritas com bacon cai bem.

– An jarrete au baguette.

– Gente, assim vocês vão matar de medo nosso convidado.

Muitas gargalhadas e Squigley sorri amarelo. Muitas cervejas, salgadinhos e pedaços de pizza depois, Hellen continua sua apresentação.

– Muito bem, senhor Squigley, eu vou demonstrar de forma didática e prática a distinção entre sexo e gênero. Por favor, Astolfo?

– Pois não, mademoiselle.

Hellen despe Astolfo, que finge ficar acanhado e remove suas roupas.

– A diferença física entre nós é notável. Mas isso não te impediu de sentir-se atraído por Astolfo, não é, senhor Squigley?

[enfezado]

– Não fique chateado, senhor Squigley. Você não deve ter receio de demonstrar sua atração sexual. Você vai continuar sendo quem é, sua sexualidade não ficará alterada. Astolfo é atraente porque seus traços são femininos, em suma, seu gênero é feminino, mas seu sexo é masculino. Agora, senhor Squigley, seja sincero e me diga o que sente quando você vê esse traseiro?

Hellen vira Astolfo de costas. Em segundos Squigley esquece que Astolfo é menino. Aquela bunda redonda, perfeita, lisa e feminina faz o seu sangue ferver.

– Agora vamos a outra configuração. Alraune, pode vir aqui?

Delicadamente, com passadas de bailarina, Alraune fica ao lado de Hellen que a coloca de costas, ao lado de Astolfo. Tal como outrora, Hellen remove a roupa de Alraune e Squigley sofre para manter o controle.

– Olhe bem, senhor Squigley. Consegue distinguir? Qual dessas belas ancas é mais feminina?

[babando]

– Quando falamos em identidade sexual de uma pessoa, é necessário considerar o corpo como um todo, não olhar somente uma parte. Virem-se agora, minhas colaboradoras.

[assombrado]

– Sim, senhor Squigley, Astolfo e Alraune possuem pênis, mas somente Alraune possui seios. Agora, Alraune, mostre a ele seu tesouro.

Sem qualquer emoção, Alraune levanta o talo do pênis e, desavergonhadamente, exibe a entrada da vagina. O coitado do Squigley tem que crispar os dedos na poltrona para manter o controle.

– Alraune não é humana, ela mesma escolheu essa configuração. Para os padrões humanos, ela é um indivíduo intersexual. Agora, vamos comparar com a Riley.

Lançando olhares famintos, Riley se junta à trupe e, sem esperar, remove sua roupa. O coitado do Squigley fica ajoelhado, prestes a perder a consciência.

– Riley é zoomórfica como muitos habitantes de Cartoonland. Ela é bem parecida com Alraune, embora seja totalmente orgânica. Consegue dizer qual a diferença entre minhas amigas, senhor Squigley?

[frases desconexas]

[risos]- Eu vou considerar isso um elogio. Alraune é perfeita, em vários aspectos. Ela é intersexual, eu sou transgênero por um pequeno e quase imperceptível sinal, uma cicatriz, resultante do procedimento cirúrgico que eu passei poucos minutos depois de nascer. O pediatra, o obstetra, o clinico geral e o cirurgião decidiram, depois de muitos exames e análises clínicas, remover um saco escrotal mal formado que pendia de minha púbis. Aquilo futuramente poderia ter se tornado um tumor. Quer ver?

Riley se aproxima de Squigley, todo trêmulo, doido para colocar as mãos e todo o resto dele naqueles corpos perfeitos. Eu conheço bem esse sinal. Parece uma risca de giz. Que só a deixa mais bela.

[risos]- Parece que você está começando a entender, senhor Squigley. Eu sou feminina em três aspectos e sou heterossexual. Astolfo é feminino em um aspecto e é homossexual. Alraune e Riley são tanto masculinas quanto femininas e, para nossa sorte, elas são bissexuais.

[séria]- Acabou a aula teórica? Então vamos partir para a aula prática.

Squigley é surpreendido por Riley, que inveja algo espetando uma seringa em seu pescoço.

– O… o que é isso, senhorita Riley?

– Extrato de frutafoda. Nós somos quatro. Você vai precisar de energia extra para brincar.

Por precaução e economia, eu não relatarei o que eu testemunhei. O Sindicato dos Personagens arcou com os danos causados pela intensa maratona. Nossas amigas e nossos amigos estão bem. Felizes e satisfeitos, é só o que importa.

Salto alto e o topo da montanha

“Nós temos um problema do cavalo alto emergindo no paganismo moderno. Ou pelo menos, está borbulhando para a superfície e se tornando mais notável graças aos poderes mágicos da internet. Quando me refiro ao problema do cavalo alto, estou falando de formas de elitismo.” – Melissa Smith.

Toda vez que eu leio alguém reclamando do elitismo em algum campo do conhecimento humano, eu vejo ciúme, inveja e anti-intelectualismo. Entre os americanos está acontecendo uma onda de novatos, jovens e adultos, inundando o Paganismo Moderno e querendo fazer dessa reconstrução cultural algo mais confortável, cômodo e conveniente para objetivos e agendas pessoais. No Brasil a coisa está pior ainda, com a Comunidade Pagã sendo envolvida [estagnada, asfixiada] por um culto à personalidade baseada em um sacerdote, dito legítimo iniciado.

Até parece que eu [ou algum bruxo/bruxa, sacerdote/sacerdotisa] tenho que sentir vergonha por ter chegado aonde cheguei e por saber o que sei. Eu acho que a experiência é semelhante, eu estou estudando e praticando Bruxaria há tanto tempo que eu esqueci onde, como e por que eu comecei a seguir o Caminho Torto, que eu chamo carinhosamente de Caminho Entre o Bosque Sagrado, mas para os curiosos eu falo que é o Caminho do Vale das Sombras.

Preguiçosos e espertalhões vão tentar achar atalhos e vão ficar choramingando em vão. A maestria vem da prática e experiência. Quer subir no cavalo alto? Você tem que achar um, para começar. Se [quando] você achar o cavalo alto, você vai ter que aprender a subir nele. Se [quando] você aprender a subir no cavalo alto, você vai ter que aprender a conduzi-lo. Se [quando] você adquirir essas coisas, você acha justo que alguém em um cavalo de pau querer ser igual a você? Eu creio que não.

Oquei, nós podemos descer do cavalo alto, mas ainda estaremos de salto alto. Quem se lembra do [filme] Mágico de Oz, os sapatos usados por Dorothy e a Bruxa do Oeste, deve ter entendido onde eu quero chegar. Quem tentar tocar nos meus saltos altos pode se considerar morto. Nesta analogia, o princípio permanece. Para ter um salto alto, nós temos que achar um sapateiro [artesão] confiável e habilidoso. Um sapateiro [artesão] assim só poderá nos fazer sapatos depois de árduo treinamento com o mestre sapateiro e ter a aprovação da guilda. Esse parâmetro tem muito a ver com a Bruxaria que, não coincidentemente, é chamada de Ofício. Inúmeras outras ocupações e profissões seguem o mesmo padrão de exigência. Em lugar algum um aluno de escola pode ser comparado a um professor universitário. Então por que só na Bruxaria tem que ser diferente?

Mesmo se você achar um sapateiro [artesão] confiável e habilidoso, não pense que é só ir e encomendar seu salto alto [ou outro símbolo de sua diplomação/graduação]. Sabe como é, guildas são exigentes e costumam conversarem, trocar informações e suporte mútuo. Certamente você terá que entregar um certificado [que nós chamamos de voucher] onde diz a qual guilda você pertence, qual foi o seu mestre e qual a sua vocação. O sapato será feito conforme o tamanho do seu pé, mas conterá as especificações bastante restritivas conforme a posição que você ocupa nesse ofício. Mesmo de posse do sapato, você vai ter que trabalhar muito antes de querer aumentar seu salto. Você acha justo alguém de chinelos querer ser igual a você? Eu acho que não. Quem quiser usufruir dos privilégios [chamado de elitismo pelos invejosos e ciumentos] de ser um profissional do Ofício deve passar pelo mesmo árduo treinamento, passar pelo crivo [rigoroso] da guilda e mostrar [com trabalho] de que é apto. Não existe atalho ou facilitação.

Eu não estou onde estou de graça. Eu tive que ler, aprender, praticar e passar pela experiência. Tal como na lenda da vila onde as pessoas acreditavam que os Deuses estavam no alto da montanha. Quem queria conhecer os Deuses teria que efetivamente subir até o topo da montanha [e isso requer vontade, treinamento e dedicação].

Imagine se um espertalhão, preguiçoso só vai ate uma pequena parte da montanha e volte falando que não encontrou coisa alguma. Imagine que mais pessoas assim façam o mesmo e digam a mesma coisa. Em algumas gerações, os jovens vão simplesmente deixar de acreditar nos Deuses por que “não há evidência de existência”. Esse é o descrente, o ateu, baseia sua visão de mundo por uma visão parcial.

Imagine que um jovem resolve desafiar a “ciência” e decide ir até o topo da montanha, para encontrar os Deuses, como dizem as lendas. Ele sofrerá com a resistência dos “monges da matéria” e com a condenação da Igreja Oficial. Apesar de tudo, ele prossegue e percebe que os espertalhões foram desonestos, relataram suas experiências [e certezas] de um local restrito da montanha, ignorando o entorno e a continuação mais acima. Com muita dificuldade ele consegue chegar até o topo [e pode comprovar
que o fez], muito embora seu relato seja ignorado porque foge do padrão vigente.

Imagine que a experiência dele encoraje outros jovens a empreender a mesma missão. Imagine que essas experiências finalmente são consistentes e assim voltam a fazer parte do conhecimento científico. Você acharia justo se alguém subisse em um morro e exigisse ter o mesmo reconhecimento? Eu acho que não. Se você quer chegar até o alto da montanha, você vai ter que caminhar.

Amor e crime – VI

Por algum motivo eu comecei a registrar esses dias intrigantes de minha vida. Eu não tive esse interesse nas ocorrências anteriores e sinceramente eu prefiro esquecer os eventos com meu pai verdadeiro e os que aconteceram com Shiou.

Eu fiquei sabendo que fizeram um anime baseado no que foi publicado nos tabloides sensacionalistas, o que me proporcionou muitas risadas. Mas perdeu toda a graça quando nós tivemos que mudar novamente e por coincidência [isso não existe] eu e minha mãe viemos parar nessa cidade cujo nome constantemente me lembra de meu relacionamento com Shiou.

Talvez venha a calhar para fazer sentido nessas memórias falar de Shiou e Shouko. Isso foi quando nós morávamos em Yukai. Mamãe estava com seu terceiro homem, meu quase futuro segundo padrasto. Foi ali, no Colégio Horonigai que eu conheci Shiou. Eu desenvolvi uma paixão doentia por ela, especialmente depois que eu descobri que ela era abusada pelo pai, meu quase futuro padrasto. Para protegê-la, eu provoquei um incêndio, coloquei em perigo a vida de minha tia, eu quase morri, mas acabei com a vida daquele lixo.

Os autores do anime até que fizeram uma boa trama, mas erraram ao acreditarem que eu morri. Realmente, eu pulei do telhado do cortiço [cinco andares] onde eu morava com minha tia, mas isso não me mataria. E definitivamente eu não mataria Shouko. Eu conheci Shouko [que estudava no Colégio Makikou] durante uma excursão escolar. Foi graças a ela que eu percebi que o que eu sentia por Shiou não era amor, era doença. Meus terapeutas [gente tão desarranjada quanto eu] disseram que isso foi uma forma de projeção, eu via em Shiou uma forma de resgatar minha infância e é aí que entra a minha história com meu pai verdadeiro.

Eu tive uma infância aparentemente normal, mas conforme eu amadurecia, meu pai também se transformava. Ou isso ou a maturidade me fez perceber sua identidade verdadeira. Para ser bem sutil, meu pai era o típico machão, beberrão, violento e abusado. Então o meu corpo amadureceu e a atenção dele começou a focar em mim. Até que, seja pela bebida, ou por causa da minha mãe e da sociedade constantemente fechar os olhos para seu caráter duvidoso e criminoso, meu pai abusou de mim.

Naquele dia, eu achei que era castigo, alguma coisa que eu tinha feito, que era culpa minha. Se fosse algo mutuo, consensual, eu mesma teria tido a inciativa, como muitos casos que depois eu fiquei conhecendo, mas como acontece com frequência, abuso sexual de menor ocorre com gente da família ou parente. Não é a melhor forma de começar a vida sexual de pessoa alguma. Eu senti dor, medo, vergonha, mas isso aparentemente apenas estimulou meu pai, que se revirava dentro de mim. Eu só via uma enorme escuridão em minha volta, Buda não parecia estar me ouvindo. Então eu ouvi uma voz… aquela voz.

– Satou chan… isso não está certo… isso não pode continuar… a justiça precisa ser feita.

[pensando]- Quem… quem está aí… quem está falando?

– Você pode me chamar de Tanathos, Satou chan.

– Tanathos Sama… o que eu posso fazer? Eu sou apenas uma garota…

– Não, Satou chan, você é mais do que apenas uma garota. Em você corre o mesmo sangue das Deusas, minhas esposas, mães, irmãs e filhas. Libere seu poder.

– Como… como eu posso fazer isso, Tanathos Sama?

– Você consegue, Satou chan. Sinta seu verdadeiro Espírito. Desencadeie sua alma divina.

Eu senti… em algum lugar no meio da escuridão… algo quente… luminoso… intenso… chamando por mim… era eu mesma. Quando eu recobrei minha consciência, o corpo de meu pai [o verdadeiro, original], agonizava em minhas mãos.

Entre isso e a família Asahina, muitas coisas, pessoas e circunstâncias aconteceram, eu conheci e passei por esses eventos que ajudaram a me conhecer, me fortalecer, me preparar para ser a assassina [que digam psicopata, eu não ligo] mais perfeita que eu conheço, depois de Ran Mao, diga-se de passagem.

Então eu me vejo envolvida com a família Asahina e esses homens peculiares que estão quebrando todos os padrões que eu julgava serem perpétuos. O funeral duplo foi, eu devo admitir, o evento que concluiu a transformação que estava acontecendo em mim e em minha vida.

Eu não sou a pessoa mais sociável do mundo, mas eu tive que me esforçar para não surtar. Como previsto, familiares e parentes compareceram, assim como conhecidos e sócios. Da família Asahina eu tive que decorar cerca de sessenta nomes, dos parentes, mais oitenta. Com conhecidos e sócios, eu devo ter decorado trezentos nomes. Eu era praticamente uma estranha, mas eu me senti mais bem vinda entre essas pessoas do que entre meus familiares e parentes, esses ilustres desconhecidos, com que eu apenas compartilho a linhagem sanguínea.

– Satou!

A voz inconfundível, a aparência e o cheiro de Shouko são um balsamo. Eu fico imaginando mil planos para ter alguns instantes de intimidade com ela.

– Oi Shouko. Que bom que você veio.

– Eu não poderia faltar, né? Meus pêsames.

– Obrigada. Mas eu ainda não sou oficialmente parte dessa família.

– É sim, é sim! Satou ne chan é minha one san!

Wataru me abraça de forma tão sincera e calorosa que eu acabo retribuindo. Eu estou amolecendo.

– Shouko ne chan veio também! Oba!

– Oi Wataru. Meus pêsames.

– Obrigado Shouko ne chan. Olha, Fuuto está cantando! Vamos dançar?

Shouko balança a cabeça enquanto Wataru a conduz para perto do palco no qual Fuuto canta e casais dançam. Nem parece funeral. Fuuto fica fazendo caras e bocas quando olha na minha direção, eu percebo que Kaname faz sinais para ele [coisa entre irmãos] e ele finge que seus trejeitos é para todas as mulheres [casadas ou solteiras] que estão na cerimônia.

– Seria um enorme desperdício não aproveitar a oportunidade. Satou ne chan, aceita dançar comigo?

– Subaru?

– Hai. Só uma dança. Depois Yusuke quer dançar também. Nós dois estamos lidando com a dor. Mas nós estamos felizes por você e Shouko.

– Yusuke te contou né?

– Sim. Por favor, me perdoe, mas eu contei para Azusa. Ele fez uma expressão de incrédulo, mas aceitou e apoiou sua opção.

[risadas]- Vocês são fofoqueiros hem?

[riso contido]- Está surpresa por nós termos aceitado e nos conformado?

[séria]- Subaru… eu não conheço vocês e tem muito que vocês não sabem sobre mim. Mas eu acho que ao conhecer Luiz e Hikaru fez com que eu me desarmasse.

[sério]- Isso não importa, Satou ne chan. Daqui há algumas semanas, você será nossa irmã e nós seremos seus irmãos. [abraçando] Nós teremos muitas oportunidades para nos conhecer.

O abraço de Subaru é quente, acolhedor. Que coisa esquisita. Eu me sinto confortável.

– Hei, chega, agora é a minha vez.

Subaru faz uma reverência e passa a vez para Yusuke. Eu estou me estranhando cada vez mais, pois eu não me sinto ofendida, mas elogiada.

– Desculpe, Satou ne chan, mas eu fiquei com ciúmes ao te ver dançando com Subaru.

[sorrindo]- Eu acho que é inevitável. Vocês me amam.

-Sim. Azusa pelo visto também foi flechado pelo Cupido com o seu nome. O linguarudo do Subaru falou para ele sobre você e Shouko.

– Eu devo dizer que fiquei feliz com a reação de vocês. Eu acho que eu devo agradecer ao Luis e ao Hikaru.

– Sim, talvez. Você não sente ciúme de Shouko dançando com Wataru?

– Só um pouco. Mas eu não sou possessiva.

– Talvez seja bom falar com Wataru sobre vocês.

[sorrindo]- Eu sei que Shouko irá falar com ele. E conhecendo vocês, mesmo que só um pouco, eu sei que Wataru também vai aceitar.

[surpreso]- Não vai ficar chateada se Shouko e Wataru namorarem?

[risos]- Se isso acontecer, eu vou ter que aceitar.

[risos]- Falando em falar… eu acho que ainda falta Masaomi, Ukio e Natsume.

[fingindo inocência]- E Kaname.

– Conhecendo Kaname, ele deve ter percebido ou aprendido que ele está fora do páreo diretamente de você.

[riso abafado]- Assim eu fico parecendo uma conquistadora irresistível.

[sério]- Não foi minha intenção, Satou ne chan. Eu devo admitir que nós somos predadores. Nós puxamos ao nosso pai.

[séria]- O pai de vocês… Rintarou… meu futuro padrasto.

[mais sério]- Sim… isso pode vir a ser um problema.

– Assim eu fico assustada, Yusuke ni san.

– Não se preocupe. Nós iremos te proteger. [música parou] Satou ne chan… por favor, eu posso te dar um beijo?

– Sim… eu acho que sim…

Yusuke deu um beijo, um selinho. Eu fiquei intrigada por ter sentido algo.

– Perdoe-me por isso, Satou ne chan. Eu quis te dar um beijo por que eu não pude aceitar que Subaru recebeu um beijo seu.

– Tudo bem, Yusuke. Está tudo bem. Eu gosto muito de vocês dois.

Os demais casais que dançavam aplaudem vigorosamente. No centro do salão, Shouko ainda está beijando Wataru. Isso me deixa alegre e animada. Wataru cai no chão, estonteado. Todos riem. Eu compreendo Wataru e percebo que ele tem bom gosto. O beijo de Shouko é uma bomba atômica.

– Hei, seu folgado! Levante daí! Não é assim que um homem faz quando recebe um beijo!

– Aaaah, Yusuke ni san! Shouko ne chan me beijou!

– Sim, eu sei, Wataru. Eu conheço essa sensação incrível de beijar a mulher que você ama. Mas isso que você fez é grosseiro. Levante, peça desculpas e agradeça a senhorita Hida pela dança.

– Poxa… como é complicado… Shouko ne chan, desculpe por meu comportamento e obrigado pela dança.

– Hai, hai! Eu é que te agradeço, Wataru.

– Isso quer dizer que nós somos namorados, Shouko ne chan?

– Wataruuuuu!

[risos]- Vamos dizer que você ganhou um ponto.

– Uaaau! Um ponto! Quantos pontos eu tenho que ter?

– Wataruuuuu!

[risos]- Cem pontos, Wataru. Mas saber disso vai te custar um ponto.

– Quêêê? Cem pontos? E eu voltei ao zero? Isso não é justo!

– Wataruuuuu!

Eu e Shouko caímos na risada enquanto Yusuke chamava a atenção de Wataru. Shouko dá uma piscadinha na minha direção enquanto mostra a língua. Eu sei, pode ser ou não sério, isso não me incomoda. Eu sei que no “Sistema Shouko” eu tenho um milhão de pontos.

A cerimônia acabou e o salão vai esvaziando aos poucos. Eu respiro fundo e solto o ar. Talvez não seja o momento certo, mas eu tenho que “sair do armário” como dizem por aí.

Luiz e Hikaru foram fáceis. Eles sabiam. Do jeito deles, sabiam. Dificil foi Kaname e Natsume. Eles ficaram em choque. Masaomi e Ukio ficaram surpresos, mas ao sorrirem, eu vi que isso era irrelevante. Só faltava Wataru. Mas o choro dele mostrou que Shouko disse quem era o amor dela. Ele é um bom garoto. No ritmo que minha vida tem mudado, eu realmente cogito em dividir a Shouko com Wataru. E isso é o que me assusta.

Poderia ter acabado aqui. Isso seria perfeito. Seria o final feliz que as pessoas tanto aguardam quando leem estórias. Mas a história da minha vida tem que ter drama e suspense. Duas da manhã, barulho na cozinha, todos dormindo pesado, meus instintos tinindo. Alguém estava invadindo a casa. Meu sangue começou a ferver. Sabe-se lá por que eu queria defender os meus irmãos.

– Parado! Eu chamei a polícia! Você não vai conseguir roubar ou fazer mal a meus irmãos!

[gargalhadas]- Você deve ser Satou chan, a adorável filha da minha Zetsubo. Como eu posso roubar algo que me pertence, minha enteada?

Foi a primeira vez que eu vi aquele que estava para ser meu padrasto e ele me parecia incomodamente familiar.

– Algum problema, Satou? Viu um fantasma? Ah, verdade, nós ainda não fomos formalmente apresentados. Eu sou Rintaro, seu futuro padrasto. Você não deve se lembrar de mim, mas eu te conheci antes.

– Você me conheceu antes… quando? Como?

[sorriso maníaco]- Ah, Satou chan… eu quase fico magoado por você não se lembrar de mim. Eu sou irmão de seu pai, Yopparai.

Aquele era meu tio Shitsugyo. Isso explica tudo. A sensação de nojo. A fúria. De algum jeito ele trocou de nome, mudou a aparência, mas sua essência era igual a de meu finado pai original. Bêbado, violento, abusado, machista.

– Isso não faz sentido.

– O que não faz sentido? Eu ter uma família maravilhosa? Família que você poderia ter mas jogou fora? Meus filhos devem estar te tratando bem, aproveite, pois em breve eu contarei a eles a verdade.

– Qual verdade? Que seu irmão me estuprou e, quando eu lutei por minha vida, aconteceu um acidente e ele morreu?

– Essa é a mentira que você conta e convence, Satou chan? Então o trabalho que eu tive para mudar de nome, mudar de aparência e criar meus filhos valeu a pena. Isso praticamente me deixou falido, mas a pensão que eu irei ganhar após o trágico acidente com a minha futura esposa será o suficiente para recomeçar. Eu pretendia te deixar por ultimo, depois de estupra-la, mas eu posso adiantar a sua parte.

Soltando a gargalhada insana que é igual a de meu finado pai [original], Rintaro/Shitsugyo avança para me atacar, certamente com intenção de me matar. Os movimentos dele não seguia um padrão, algo que pode surpreender lutadores, mas este tipo de técnica eu conheço bem. Eu deixo ele brincar como quer, deixo que a falsa sensação de superioridade faça com que ele me subestime e abaixe a guarda.

– Qual o problema Satou chan? Não consegue me acertar? Eu sei tudo que você sabe. Eu conheço todos os seus truques. Você não tem como vencer.

Isso eu posso deixar de conselho. Nunca, jamais, diga a um psicopata ou assassino que vai fracassar. Gente como eu tem vontade e força sobre-humanas, não precisa de mais estímulo. Não deve ser novidade para qualquer assassino, psicopata, soldado ou guerreiro que toda luta é um xadrez, o que conta é a técnica e a estratégia, não a força, tamanho ou velocidade. Deliberadamente eu o deixo rasgar partes da minha roupa, só esperando o momento certo.

– Hehe. Meus filhos devem estar tendo ótimos momentos com você. Vai ser um desperdício, mas paciência. Está no momento de sua vida ter fim, Satou chan.

Nossa luta acirrada dá início a um incêndio que se espalha rapidamente. Inexplicavelmente eu fico preocupada com meus irmãos. Isso tem que parar. Não é muito bonito e agradável de ver ou descrever, mas o resultado, quando eu levo a sério, é sempre o mesmo. Rintaro/Shitsugyo está semiconsciente no chão e é uma questão de tempo até sua vida esvair. Meu foco passa para salvar meus irmãos e isso é surpreendente, vindo de mim.

No caminho, subindo pelas escadas, eu encontrei os mais velhos, despertados pelo barulho, calor e fumaça. Os mais dorminhocos são sacudidos e sou eu quem colhe Wataru, desacordado, provavelmente intoxicado pela fumaça. Pela primeira vez em minha vida eu senti dor no coração e saí correndo com ele, para fora, torcendo para não ser tarde demais. Meus olhos lacrimejam e eu tusso. Do lado de fora, bombeiros e equipes de resgate estão à postos. Eu mal vejo Wataru sendo levado. Mais dois minutos e nós dois teríamos morrido. Então eu perdi a consciência.

– Senhorita Matsuzaka? Está conosco?

Com dificuldade, eu sinalizo que sim.

– Ótimo, senhorita Matsuzaka. Continue conosco. Respire lentamente.

– Wa… Wataru… meu irmão…

– Ele está bem. Tem uma leve intoxicação com fumaça, mas está estável.

Eu sorrio e a porta da ambulância abre repentinamente.

– Satou ne chan?

Barulhentos, Yusuke e Subaru disputam o curto espaço no interior da ambulância, legitimamente preocupados mais com o meu bem estar.

– Oi pessoal [tosse]. Eu estou bem [tosse]. Como estão os outros? [tosse]

[dueto]- Todos estão bem, mas estão preocupados, perguntando de você.

No fim da tarde, após o rescaldo, os bombeiros confirmaram a identidade do corpo encontrado na mansão como o do proprietário. O delegado tentou falar comigo, mas o médico que me atendia não liberou. Eu acho que ele ficaria contrariado se soubesse que o doutor abriu exceção para Shouko que veio, afogueada, arfando e chorando.

– Satoooou!

Choradeira atrás de choradeira. Eu fui liberada pelo médico três dias depois, quando ficou programado o funeral de Rintaro. Estavam todos lá e meus quase irmãos ficaram ao meu lado todo tempo. Evidente, mamãe não casou e vai ficar de molho por algumas semanas. Isso aparentemente não importava, eles ainda me tratavam como irmã deles.

No fim da cerimônia, quando sobravam só os Asahina, mamãe, eu e Shouko, alguém [provavelmente Wataru] jogou a ideia de que deveria acontecer um casamento. Mas dessa vez entre eu e Shouko. Shouko começou a chorar copiosamente e eu fiquei lá, pasma, passada, empacada. Kaname nos casou e abençoou nossa união. Wataru fez questão de ser o padrinho e levar as alianças. Os demais fizeram uma coleta e nós recebemos de presente uma casa inteiramente mobiliada.

Então, tia, eu e Shouko estamos oficialmente casadas e temos nossa própria casa. Mesmo sem que mamãe tenha se casado, eu e Shouko fomos adotadas pela família Asahina. Que fique entre nós, mas eu tive que deixar todos no verde, fora da lista. Como eu te disse antes, algo mudou. Eu acho que, agora sim, eu posso dizer que eu tive meu final feliz.

Amor e crime – V

Com a precisão de um relógio suíço eu acordo e vejo que Luiz e Hikaru roncam em dueto. Se a intenção deles é de serem meus guarda-costas, falharam. Se bem que eu não precise. Eu desenvolvi e descobri uma força sobre humana em mim desde aquela conversa que eu tive com meu pai… bom, o verdadeiro, o original.

Três dos meus irmãos estavam na cozinha, outros estavam trabalhando ou providenciando os arranjos do funeral de Tsubaki. Eles estavam mais sérios e graves do que antes.

[encenando]- Gente… isso aconteceu mesmo?

– Infelizmente sim, Satou.

– Eu… eu estou arrasada. Eu perdi mais um irmão.

[chorando]- Satou one san promete que você não vai sumir?

[sorrindo]- Não se preocupe, Wataru, eu não vou sumir.

[fungando]- Promete?

[sorrindo]- Eu prometo. Agora, pare de chorar. O que Shouko diria se te visse assim?

[enxugando o rosto]- É mesmo! Eu prometi para Shouko chan que eu seria um homem honesto, decente e honrado.

[sorrindo]- Isso mesmo. Quem sabe você tenha chance de ser namorado dela?

[animado]- Sim! Sim! Eu vou conseguir!

– Claro que vai, Wataru. Satou, poderia ir com Azusa para buscar Subaru no ginásio? Ele era mais apegado ao Iori do que nós e recebeu a notícia depois do jogo oficial do time da Universidade de Meiji.

Eu aceitei pensando em formas de analisar Azusa. Eu também quero conhecer a Universidade de Meiji, onde pretendo ingressar.

– Satou ne chan, aconteceu algo entre você e Yusuke?

– Não que eu saiba, Azusa ni san.

– Que bom. Yusuke é esquisito, até para nosso tipo de família. Mas ficou mais esquisito nos últimos dias. Eu acho que eu o ouvi falar o seu nome depois de vários suspiros.

– Ah, isso. Yusuke é um doce. Ele se confessou para mim. Como se vocês não fossem meus irmãos.

– Satou ne chan, eu me sinto à vontade para conversar com você porque você é direta, lógica e inteligente como eu. Então eu confio em seu bom senso, pois eu sei bem o que Yusuke sente. Eu nunca senti algo assim antes. Eu tenho certeza de que meus outros irmãos também foram impactados por sua beleza. Yusuke não fala como costumava, então permita-me perguntar se tem alguém de quem você gosta.

– Que é isso, Azusa! Do jeito que fala até parece que eu sou uma miss universo. Eu sou uma garota comum.

– Permita-me discordar, Satou ne chan. Você exala uma aura de enorme poder. Eu quase desejo que nossos pais não se casem, para que eu possa lutar pelo seu amor.

– Eu fico lisonjeada, Azusa, mas meu coração está preenchido.

– Entendo. Isso faz sentido. Isso explica a melancolia de Yusuke. Nesse caso, eu te peço que seja gentil e fale isso para Subaru. Ele é mais fechado e tímido de nós, mas ele deve estar apaixonado por você.

– Eu não sei, Azusa… falar disso, sem mais nem menos… não é cruel?

– Sim, especialmente se tratando de Subaru. Eu vou sutilmente dar uma deixa com a qual você ou ele podem começar a conversar. Na pior das hipóteses, ele vai ficar melancólico como Yusuke.

– Obrigada, Azusa. Mas… e você?

– Eu estou bem. Coração apertado e doído, mas eu estou bem.

Nós entramos pelo ginásio de basquete da Universidade de Meiji e inevitavelmente o treino parou, todos os presentes esqueceram-se do treino e ficaram me olhando. Subaru era o mais avermelhado do time.

– Oi Subaru ni san. Eu vim te buscar.

Assovios, aplausos e uivos. O coitado ficou mais roxo que berinjela quando eu o abracei. Azusa ficou evidentemente contrariado.

– Que é isso, pessoal? Essa é minha irmãzinha, Satou.

– Irmãzinha, né?

– Bem que eu gostaria de ouvi-la falar oni san no meu ouvido.

– Pois eu dispensaria todas as minhas namoradas para ficar cinco minutos com ela.

Muitos risos, piadas, bobagens. Depois os homens não sabem por que é tão difícil achar uma namorada. Homem que se preza tem elegância e discrição. Nós três saímos daquele Clube do Bolinha e Azusa deu uma desculpa bem fraquinha para deixar eu e Subaru à sós. Eu respirei fundo e exalei.

– Eles… eles te chatearam, Satou ne chan?

– Tudo bem, Subaru, eu estou acostumada. Palavras não podem me atingir.

– Mas palavras escondem intenções que podem virar ação. Eu não quero que você se machuque.

– Awww… meu irmãozão está preocupado comigo…

– Sa… Satou! Não fique me abraçando desse jeito!

– Abraço de irmãos! Awww…. não fique assim, Subaru. Eu sei que você gosta de mim, como todos os outros.

– Pode ter certeza disso… muito embora eu só conheça um que sente o mesmo que eu… Yusuke… ele certamente te ama… mas não mais do que eu.

– Su… Subaru… essa é a coisa mais linda que eu ouvi hoje…

Não deve ser surpresa ou novidade para quem quer que seja que a mulher em geral diz aquilo que o outro quer ouvir. Eu dei um beijo, um selinho no Subaru, suas orelhas pareciam chaminés, ele tremia inteiro, suava bastante e algo aumentou entre suas pernas. Eu devo ter dado o primeiro beijo da vida dele.

– Subaru, eu gosto muito de você. Você é gentil, atencioso, educado. Mas nós somos irmãos e eu tenho um amor. Então eu não posso corresponder ao amor que você tem por mim.

Em seus dois metros de altura, Subaru despenca como se fosse um vaso trincado. Chorou, chorou, mais do que Yusuke. Eu só não sei por que isso acabou me incomodando. Eu devo estar amolecendo.

[resfolegando]- Eu… eu sabia… não tem como uma mulher linda como você não ter alguém no coração. [enxugando as lágrimas] Satou ne chan, você precisa falar isso para Yusuke.

– Oh… bem… desculpe sua irmãzinha, mas eu e Yusuke nos acertamos antes.

[surpreso]- Yusuke… se declarou? [sinal positivo] Heh… bem a cara do Yusuke. Bom, lágrimas não vão resolver coisa alguma. Vamos irmãzinha, vamos voltar para casa.

– Ahn… Subaru… tem algo que você precisa saber.

[sério]- Tudo bem, Satou ne chan. Eu aguento. Pode falar.

– Iori ni san morreu.

Subaru baqueou mas não caiu. Ele sentiu mais a minha “perda” do que a morte do Iori. Eu vou considerar isso um elogio. Talvez eu deixe Subaru fora da minha lista, definitivamente, tal como Yusuke.

Miraculosamente Azusa reaparece e cogitam em me deixar no colégio, mas perfeita como sempre, Shouko me liga e avisa que o colégio me dispensou para que eu cuidasse do funeral. Isso quase me faz gostar de verdade da família Asahina. Esperta, Shouko se ofereceu de levar para mim as matérias e lições todos os dias que eu precisar ficar afastada. Ao menos eu não ficarei entediada.

– Nesse caso, nós devemos voltar para casa. Agora nós teremos um funeral duplo para realizar. Será o dobro de preparativos e planejamentos.

Alguém liga para Azusa. Kaname pede carona para casa. Ele quer trazer seus colegas de templo para o funeral, mas precisa acertar os detalhes com a família. Foi dessa forma que eu me vi no banco de trás com o monge, voltando para a mansão Asahina.

– Bom dia irmãzinha. Você não devia estar no colégio?

– O colégio dispensou-a, para cuidar do funeral.

– Entendo. Eu dedicarei uma oração de agradecimento ao colégio por liberar nossa irmãzinha. Satou ne chan, você pode desabafar comigo sua tristeza pela perda de seus irmãos.

Kaname envolveu-me em seu braço com aquela intimidade e intenção sexual que, provavelmente, está acostumado a ter com as mulheres que frequentam o templo onde ele trabalha. Eu só precisei dar uma encarada pala ele recuar, assustado. Ele e Fuuto estão no amarelo. Eu não decidi sobre Masaomi e Ukio. Eu ainda me recuso a fichar o Wataru. Realmente, eu estou amolecendo.

Quando chegamos em casa, tinha vários veículos e muitas pessoas indo e vindo apressadamente. Luis e Hikaru coordenavam as equipes de profissionais e fornecedores, deixando Ukio e Masaomi para decidir nos momentos que a coisa empacava. Sabe se lá saindo de onde, eu fiquei animada e me pus a, voluntariamente, ajudar naquilo que eu podia. Quando eu ficava canada ou desanimada, bastava eu olhar para Wataru para recobrar o animo. Pouco depois chegaram Yusuke e Natsume, juntamente com Kaname e seus colegas de monastério. Tudo acertado, conseguimos fechar a lista com duzentas pessoas. Eu estava esgotada, mas foi só Shouko chegar [deixando Wataru muito feliz] que o cansaço sumiu.

– Shouko ne chan! Olha só! Eu fiz um monte de coisa para o funeral!

– Nossa, Wataru! [beijo na testa] Olha, se você continuar assim, eu sou capaz de me apaixonar por você!

[animado]- Uaaaau! Shouko ne chan me deu um beijo!

Eu fico me estranhando por não sentir ciúme de Wataru. Eu deixo escapar uma risadinha abafada. Wataru tem toda razão, o beijo de Shouko é uma delícia. Yusuke parece cochichar algo para Subaru. Ele arregala os olhos por alguns segundos em nossa direção, mas assim como Yusuke, aceitou e se conformou. Ele fez positivo na minha direção. Com isso são dois de meus irmãos que sabem e apoiam o meu amor com Shouko. Será que eu estou indo em direção a um final feliz?