Em busca do Graal – X

Eu passei mal depois de tanto rir, ainda sinto os efeitos da hiperventilação e excesso de oxigenação. Meus parceiros de missão evidentemente ficaram amuados e emburrados, mal perceberam a tensão que ainda estava presente entre os soldados. A tensão somente dissipou-se quando chegamos em Kursk, na estrada em direção a Voronej. O que é inusitado, pois tecnicamente estamos na Rússia, o principal país da União Soviética, liderado pelo Fürher Soviético. Então eu considerei que, dentre os presentes, o capitão é praticamente o quarto integrante de quem nada sabemos.

– Senhores, eu devo lhes agradecer pela colaboração além das expectativas. Graças aos senhores, nós conseguimos algumas boas respostas.

– Capitão, de nós três o senhor é o único de quem nada sabemos, mas tem demonstrado algum conhecimento. Além do que tem a situação de que nós não estabelecemos um pacto entre nós. Eu não desejo te colocar em uma posição incômoda, mas é necessário. Afinal, capitão, quem é o senhor?

– Eu preferiria não apresentar-me e resguardar meus comandados de alguma forma, mas eu também considero inevitável. Eu sou capitão Leopold Kroenen, irmão do tenente Karl Kroenen e aluno de Herman Klempt. Eu admito que coloquei meus homens em risco ao aceitar essa missão unicamente para resgatar meu irmão, embora ele esteja irremediavelmente perdido nas mãos de Grigori Rasputin. Essa tal de Nova Ordem Mundial está envolvida com inúmeras sociedades secretas e tem recorrido a inomináveis artes negras, na Alemanha, na Rússia e nos EUA. Eu espero que os senhores queiram, como eu, acabar com essa insanidade e achar o Graal parece ser a única solução. Os meios e as ferramentas necessárias para realizar tal objetivo são irrelevantes. Se pode e tem algo a fazer, bruxo, faça-o e nós aceitaremos.

Eu dou uma boa olhada em meus parceiros, que parecem ter recobrado o ânimo. Não deve ter sido fácil para eles perderem a religião e eu me sinto mal por ter tripudiado da dor deles. Enquanto a crença é algo pessoal, uma experiência que é vivida e experimentada diariamente, a religião é apenas a sua forma estruturada. Mas quando a religião é uma estrutura imposta de fora para dentro, não há base, não há vivência, não há experiência. A religião se torna uma prisão onde uma organização religiosa se mantém pelo medo, ignorância e força. Nenhuma crença se sustenta dessa forma, fatos e circunstâncias vão minando e enferrujam as certezas, os dogmas, nos quais o frágil castelo da religião instituída é mantida. Quando isso acontece, o a pessoa segue livre e procura a Verdade, ou se apega à necessidade da certeza e adota outra religião instituída, onde eu incluo o ateísmo, onde a necessidade da certeza entrona a ciência a tal ponto a negar a existência do mundo espiritual.

– Seja o que venhamos a fazer em Voronej, capitão, é possível reservar uma hora? Eu precisarei desse tempo para compilar os elementos necessários para criar o vínculo necessário entre todos nós.

– Isso é perfeito. Na verdade, nossa operação em Voronej irá conciliar perfeitamente o pacto que temos que fazer. Senhores, se tudo der certo, nós iremos nos encontrar com a Mãe de todos nós.

Eu fiquei sem saber se o capitão falara isso de forma figurativa ou literalmente. Talvez o bom capitão esteja caminhando rumo à outra fratura nas suas convicções. A origem da humanidade, o Jardim Primordial, essas estórias fazem parte de inúmeras lendas e mitos antigos. Eu não tenho certeza até que ponto eu poderei expor tais segredos sem comprometer meus votos.

– Diga-nos, bruxo… você tem a intenção de nos colocar a todos em uma missa negra ou em algum ritual inventado por magos britânicos?

Corso e Van Helsing tinham motivos de sobra para serem céticos e desconfiados depois de tantas revelações. Eu sei bem como é isso, pois eu estive em um momento parecido, eu estive na borda de um círculo, eu fiz o juramento e fui traído por quem me jurava fraternitas diante dos Deuses Antigos. Qualquer outro no meu lugar teria desistido, cometido suicídio, homicídio ou coisa pior. Eu não vou dizer que não doeu, eu levei algum tempo para me recuperar, mas considerando que eu tinha sobrevivido à minha infância e adolescência, minha força e resistência tinham sido bem exercitadas e, graças aos Deuses Antigos, eu continuo andando.

– O que eu farei é algo bem simples, para ser exato, mas para vocês será um ponto de onde não é possível desfazer ou voltar atrás. Eu questionaria se estão preparados, mas isso é com cada um aqui presente. Assim funciona o Ofício, o Caminho, cabe-me apenas executar o que deve ser feito, cabe-lhes perceber e interpretar o que sentirão e experimentarão por conta própria.

Voronej é geográfica e tecnicamente considerada cidade da Rússia, mas incrustrada em uma região onde a Europa e a Ásia são fronteiriças, na prática é um caldeirão de diversas etnias. Desta vez, nosso local de desembarque aconteceu em uma igreja ortodoxa e, nessa altura dos fatos, eu não me surpreendo. Nós não vimos os indefectíveis oficiais da Sociedade Thule, mas o que vimos foi a Ordem Svobodnyye, a versão soviética da sociedade secreta responsável pela Nova Ordem Mundial. Nós não vimos soldados nem funcionários de laboratórios, mas aristocratas, acadêmicos e burgueses em geral. Eu me senti como se nós tivéssemos invadido um sarau cultural.

Mister Kronen! Que satisfação reencontrá-lo! Muitos de nós o considerava desaparecido, senão morto. Eu exulto em ver que está em boa saúde e trouxe-nos os “especialistas”.

Um janota britânico veio nos saudar com fraque, cartola e bengala. Ele provavelmente é nosso anfitrião.

– Sir Fraser, eu e meus homens conseguimos chegar até aqui. Considerando que nós não temos tempo para frugalidades sociais, poderia levar a mim e aos doutores aqui até o objeto de avaliação?

O almofadinha britânico torceu o rosto e nos conduziu até a câmara envolta em tecidos e, no centro daquilo tudo, uma mulher sentada nos olhava de volta intrigada. Ela tem baixa estatura e sua pele é negra, eu considerei impossível dizer sua idade.

Sires, eis diante de vós a Mãe de todos nós.

– Eva… esta é Eva?

– Sim, eu sou. Embora eu diga que o título de Mãe de Todos é exagerado. Houve outra, antes. E mesmo eu fui resultado de uma operação cirúrgica, por assim dizer.

– Então… existiu o Jardim do Éden e a humanidade foi criada por Deus?

– Essa é a versão oficial, senhores da Igreja. Mas a verdade é bem mais interessante. Nós todos somos produto de engenharia genética, efetuada em Edin, o laboratório dos Annunaki, um laboratório e uma fazenda de criação, eu diria.

– Eu… não entendo… Annunaki?

Eva rola os olhos e solta um suspiro de enfado.

– Sim, senhores, Annunaki, os Filhos de Anu, os Deuses das Estrelas, que aqui vieram para estabelecer uma colônia e gerou a humanidade por engenharia genética. Só falta vocês não saberem que o Homem Primordial era, na verdade, um hermafrodita, o que faz de mim e de Adão, seres humanos transgênero.

Eu estou prestes a explodir em risada e Eva está visivelmente irritada com a expressão embasbacada de meus parceiros.

– Bom… ao menos um de vocês sabe. Eu nem vou falar da “outra”, senão vocês vão ficar catatônicos.

Nossa conversa com Eva foi abruptamente interrompida por muita movimentação, tiros e explosões. O capitão sumiu da sala e certamente estava com seus homens. Com um leve maneio de sua mão, Eva aciona um cadafalso e some chão adentro. Aqueles homens empertigados começam a correr e entrar em pânico, os projéteis zunem e uma estranha dança de corpos e filetes de sangue vão enfeitando a sala.

– Por Deus! Nós vamos morrer!

Meus parceiros estão em choque, agarrados aos próprios joelhos, encolhidos em algum canto, esperando pela providência divina e eu ousaria dizer que se mijaram e se cagaram todo. Eu, acostumado a essas atividades, fui direto para fora e ver quem estava nos atacando.

Pelo noroeste, um destacamento de exército usando armas mágicas. O coitado do capitão não tinha chance alguma. Ao sudeste, outro destacamento, de outro exército, igualmente municiado com armas mágicas. Será um massacre. Nesse passo, não haverá sobreviventes. Uma pessoa normal entraria em pânico, mas eu não. O cheiro do solo queimado, o som dos corpos sendo espedaçados… meu sangue começa a ferver, minha massa muscular aumenta mil vezes e minha compleição transforma-se em outro ser.

Eu me transformo no Deus das Florestas e começo a regar o solo com os ossos, entranhas, miolos e sangue dos soldados inimigos. As armas mágicas são disparadas desesperadamente, mas isso sequer me faz cócegas. O capitão e seus soldados tiveram o bom senso de se esconderem e eu os vejo tremer quando eu os olho.

– Cessar fogo! Cessar fogo! Agente Cinza? Aqui é a Agente Pixie Zero Um!

– Cessar fogo! Cessar fogo! Durak? Sou eu, Gorgo e Mabel!

Um breve histórico passa por minha mente. Pensar em Gorgo não me diz muito. Mabel é uma lembrança melhor. A história é completamente diferente com Tanya, o “Agente Pixie Zero Um”. Nós lutamos juntos e estivemos em uma missão. Ela compartilhou comigo bem mais do que seu catre e isso é tudo o que eu irei falar. Pensar e lembrar de Tanya me acalma. Acontece um armistício e os soldados de ambos os lados confraternizam, pois são todos irmãos em armas.

– Durak, que inusitado encontra-lo nestas paragens!

– Saudações Gorgo e Mabel.

– Weinberg! Eu não esperava encontra-lo aqui.

– Tenente Degurechaff, eu me considero afortunado por reencontra-la.

Como se nós estivéssemos em outro tempo e dimensão, eu apresento Tanya a Gorgo e Mabel e ela a estes outros amigos. Por obra de Fortuna ou Destino, Tanya, Gorgo e Mabel oferecem-se para nos escoltar até chegarmos a Volgogrado. No meio do caminho eu saciei a fome de Tanya e ela aplacou a saudade que eu sentia dela.

– Corrija-me Tanya… mas você se casou com Victoria, sua tenente?

– Irrelevante, Rhum. Formalidades e convenções sociais não podem me prender. Mas Victoria ficará desapontada, se não lhe for fazer a mesma gentileza que me fez.

Batidas na porta do exíguo quarto de hotel. A porta se abre e Mabel não faz cerimônia alguma em entrar, completamente nua.

– Hei, essa festa cabe mais uma ou é particular?

Eu não penso em mais nada a não ser em me afundar nas dobras das duas.

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Em busca do Graal – IX

Conforme nós nos aproximávamos de Kiev, os soldados e o capitão ficavam visivelmente tensos e nervosos. A expressão no rosto do capitão estava bastante transtornada quando ele veio fazer a preleção conosco.

– Senhores, eu devo lhes agradecer pela colaboração e compreensão. Como de praxe, eu lhes peço que deixem a conversação comigo.

– Nós vamos nos encontrar com mais dessas ordens secretas da Nova Ordem?

– Eu não tenho autorização para confirmar, mas se tudo der certo, nós vamos ter um encontro com o Führer que vem pessoalmente nos explicar o real propósito de nossa missão.

O capitão retorna ao lugar dele e nós mergulhamos em um silêncio sepulcral. Meus parceiros de missão não compreendem, mas eu entendo o capitão, embora eu não seja capaz de nutrir simpatia com ele.

Tal como das demais vezes, o comboio estaciona, os soldados desembarcam, o equipamento é distribuído em volta do destacamento e só então o capitão abre a comporta da boleia e nos deixa sair da caçamba. Nós desembarcamos em um galpão enorme, com uma estrutura sendo montada, cilindros e muito tecido. Eu tinha ouvido falar desse veículo anteriormente, os chamados zepelins, usados para observação, espionagem e bombardeamento de tropas adversárias. São utilizados como parte da força armada e são preferidos para operações noturnas ou de escaramuça. Mas não tinha operário algum ali, apenas soldados e oficiais.

– General Heimler, aqui estão os especialistas enviados pelo duque.

– Que satisfação reencontrá-lo doctor Van Helsing.

– Eu o conheço, general?

– Eu fui aluno seu em Bruxelas, mas isso foi em outro tempo. Como o senhor vê, suas aulas me foram de muita serventia. Eu sou parte da mais alta patente do que virá a ser a Nova Ordem Mundial. Mas isso nós conversamos em outra ocasião. O senhor tem algo a falar de seus… colegas?

– Ah… bem… este mais moreno é Corso, mais conhecido como Caçador de Livros e este mais soturno é Weinberg, mais conhecido como Bruxo.

– Eu ouvi alguns boatos sobre o hispânico [tom de desprezo], mas o Bruxo é também outro assunto para ser discutido posteriormente. Muito bem, senhores, por desígnios superiores aos quais eu obedeço, hoje vocês terão a honra e satisfação de conhecer o Führer. Eu creio que não é necessário recomendar cautela em sequer comentar algo sobre o que os senhores testemunharão agora. Qualquer deslize pode ser… prejudicial para a incolumidade física dos senhores. [o general segura o cabo da pistola nos dando uma pista do que nos aguarda se deixarmos algo escapar]

Nós acenamos positivamente com a cabeça em sincronia com o capitão. O general soltou uma interjeição de enfado, afastou-se alguns passos, falou algo pela claraboia de uma pesada porta industrial e sons abafados, vozes que ganharam tons metálicos, responde algo do outro lado.

– Senhores, eu lhes apresento o Führer.

Entraram três homens, de disposições, características e compleições totalmente diferentes. Um estava com o mesmo uniforme do general, então eu deduzi que fosse alemão. O outro homem, mais alto, corpulento e olhos estreitos, usava um uniforme militar mais parecido com o usado pelos soviéticos. O terceiro é uma incógnita, ele tanto pode ser britânico quanto americano e não usa uniforme militar. Meus parceiros de missão ficaram indecisos com o que presenciaram.

– Perdoe-me general… mas… os três são o Führer?

– Perfeitamente, hispânico [tom de desprezo] e essa é a grande estratégia da Nova Ordem. Esses três homens ocupam os maiores cargos em governos poderosos. Cada qual é o Supremo Líder de uma organização e eles somente reportam ao Grande Irmão, tal como chamamos a central da Nova Ordem Mundial. Evidente, nós temos muitos de nossos agentes infiltrados em inúmeras outras empresas, instituições e governos. De uma forma ou outra, nós seremos os donos do mundo.

– Mas nesse caso… por que nós fomos trazidos aqui?

– Isso é evidente, lieber doctor. Como especialistas no assunto, vocês devem avaliar o Cristo que nós vamos entregar ao mundo… ou melhor falar em Anti-Cristo?

Meus parceiros ficaram mais pasmos ainda, sem saber o que falar ou fazer. Eu, infelizmente, acabei vendo mais do que devia. Aqueles homens não eram seres humanos. A ciência e a tecnologia ainda não tinha conhecimento suficiente para criar um ser humano artificial, então aquilo era um golem, um homúnculo… ou coisa pior, gerada por necromancia.

– Nesse caso… permita-me avaliar estes líderes, general. Senhores, eu sou Abraham Van Helsing. E os senhores… quem são?

– Eu sou Adolf Hitler, chanceler e presidente da Alemanha, Grande General do Terceiro Reich da Alemanha. [um sotaque austríaco]

– Eu sou Joseph Stalin, Secretário Geral do Partido Soviético, Primeiro Ministro da União Soviética e Primeiro Comissário da Defesa do Povo. [forte sotaque eslavo]

– Eu sou Douglas MacArthur, General da Frota das Filipinas dos EUA, mas eu tenho grandes planos para seguir carreira política e pretendo ser o presidente dos EUA. [sotaque definitivamente americano]

– Eu estou um pouco desatualizado, mas os senhores não são antagonistas um do outro?

O general Heimler solta uma forte e sonora risada que ecoa pelo enorme galpão.

Herr doctor, não me decepcione. Isso se chama estratégia. Nossos três bispos estão prontos e dispostos a servirem como bode expiatório, se for o caso. O ser humano não irá perceber nem será capaz de notar que eles somente cristalizam o zeitgest de nosso tempo. O populacho ignorante irá projetar toda a culpa do ódio, violência e rancor que existe no mundo nos ombros deles, para que jamais despertem para a sombra que existe na alma de todo ser humano. Sim, seus nomes serão malditos e suas memórias serão vilipendiadas, mas a fonte do verdadeiro mal continuará viva e nós usaremos essa fonte infinita de energia para os nossos propósitos. Das cinzas do mundo destruído pela continuação da Grande Guerra, nós ergueremos a Nova Ordem Mundial e nós dominaremos o mundo. Nós, não governos, instituições ou corporações.

Esse é outra coisa que o ser humano precisa superar. O ser humano nunca precisou de governos, de estruturas de poder. A sociedade consegue muito bem ser autônoma e autossuficiente. Pela própria organização de toda sociedade se direciona a comunidade e com a integração do indivíduo, a produção e distribuição de bens sempre seguirá um caminho de equilíbrio e igualdade entre todos.

– Eu… entendi bem? Vocês irão continuar a Grande Guerra?

– Sim… este é o desejo que arde no coração dos homens.

– Vocês… estão dispostos a sacrificar as vidas de inúmeras pessoas?

– Por que não? Uma mudança não ocorre sem violência. O campo não floresce sem que se derrame sangue. Os padres não usam com orgulho a sigla INRI? Acham que aquela sigla significa Iēsus Nazarēnus, Rēx Iūdaeōrum, mas na verdade significa Ignis Natura Renovatur Integra. Esse é o real significado de Cristo, do Sacrifício e da Renovação. Por séculos o ocidente tem acreditado em uma fraude, uma imagem criada pelo Império Romano para submeter o populacho. Vocês, cães da Igreja, acreditam mesmo que este preso na cruz é Cristo? Ignorantes! Adoram um ídolo falso! Nunca existiu esse Jesus, um nome inventado a partir de Esus, um deus menor romano! Yeshua nem poderia ser considerado Cristo! Cristo é mais um titulo de algo muito anterior e mais antigo do que vossa Igreja ou o Sinédrio. Cristo é o Rei sacrificado, o Deus da Vegetação, que deve morrer para que a terra renasça, exatamente o que os povos antigos celebravam nos solstícios e sempre foi simbolizado pela “morte” e “ressureição” do sol. Esse momento de renovação recebia os símbolos do Aeon que acontecia, então o Touro foi sacrificado e substituído pelo Carneiro, o Carneiro foi sacrificado e substituído pelos Peixes, os Peixes serão sacrificados e serão substituídos pelo Aquário. Esta mudança de Aeons era sempre marcada pela formação da Crucis Axial, cujo centro e ponto de poder era marcado por Venus! Senhores, Cristo, ou seus seguidores, mestres iniciados, sempre disse ser a Estrela da Manhã! Sim, meus caros “especialistas”, que nada sabem! O verdadeiro Cristo é Lucifer!

Eu desando a rir. A duquesa tinha dito tudo isso, mas meus parceiros não entenderam ou não conseguiram processar a revelação. Eu disse o mesmo, de outra forma e ainda assim eles continuavam a dormir. Agora um dos generais da dita Nova Ordem Mundial, por meios que podem ser moralmente discutíveis, reitera aquilo que é dito por inúmeras ordens místicas e sociedades secretas. O ser humano pode até discutir, em sua pequenez, como Cristo pode querer tamanha destruição, coisas de um mundo dividido nesse maniqueísmo tosco propagandeado pelas Igrejas. Não é possível Luz sem que haja Treva. Quanto maior a Luz, maior a Treva. Na Treva espessa, a Luz refulge com mais vigor. Dor, medo, insegurança, sofrimento, são coisas próprias da existência material e tal Lei não está sujeita à dúbia e hipócrita moral humana. Tudo que existe e vive depende da consumação de outro ser vivo. Por estar vivo, se sofre e se sente dor, senão não há necessidade nem evolução. Tolo é o ser humano que quer e exige que exista moral na vida e na natureza, que são amorais. Quem tiver ouvidos ouça, quem tiver entendimento entenda.

Em busca do Graal – VIII

Assim como chegamos, nós fomos embora em direção de Kiev, sem que tivéssemos o que avaliar.

– Capitão, nós estamos confusos. O que viemos ver aqui?

– O que poderia ter sido o Cristianismo se não tivesse sido assimilado pelo Império Romano e se tornado a única religião oficial.

– Isso… é absurdo. O que nós vimos está mais próximo do que o bruxo pratica e acredita.

– Nossa próxima parada é Voronej e depois Volgogrado. Ainda temos que chegar em Dushanbe para só então rumarmos em direção Srinagar, nosso ponto final, onde esperamos encontrar os sinais dos Arianos e de Cristo. Eu não tenho muito detalhes, mas a Nova Ordem Mundial, o Führer, querem e precisam das respostas que nós vamos encontrar. Eu espero que o bruxo possa nos esclarecer até lá.

Eis-me novamente naquela incomoda posição de centro das atenções. Eu senti vergonha demais pelo que humanos tem feito com o Ofício e, especialmente no caso dos meus parceiros de missão, admitir tamanha decadência não cairia muito bem, considerando minha crítica à Igreja. Eu não tenho como escapar, o caminhão está no meio da estrada e algumas explicações são necessárias, sem que eu quebre os votos de sigilo. Explicar como essa bagunça começou e porque chegamos nesse ponto em poucas palavras, fáceis de entender, requer talento e arte. Eu tenho que resumir uma história que deve ser mantida oculta, algo que começou com o Grande Iskander, o grande rei que quebrou essa falsa noção de que há uma separação insuperável entre Ocidente e Oriente. Sim, ali pelas conquistas do Grande Iskander teve início a Grande Obra de unificar a humanidade.

– Senhores, eu espero que isso não os ofenda, mas não tem outra forma de começar a entender o Caminho se não se derem conta de que o deus que professam é uma criação abjeta forjada pelo Império Romano.

– Não venha com enrolação, bruxo.

– Não é enrolação. O Vaticano foi erguido em cima do Culto de Mithra e o Deus Cristão é um amalgama do Deus de Israel, do Deus dos Persas e de César. Eu digo que mesmo o Deus de Israel também é uma junção do Deus de Abraão e do Deus dos Acadianos, igualmente forjado pelos rabinos do Sinédrio, por volta da construção do Segundo Templo.

– Isso vai chegar a algum lugar? Eu estou começando a ficar com tédio.

– O caso é assim. Todas as organizações religiosas que existem e existiram foram combinações feitas por grupos com o único interesse em submeter o ser humano. Em sua formas originais as religiões sempre estiveram vinculadas às crenças populares, aos espíritos da natureza e à determinados Deuses patronos. Os antigos sábios e sacerdotes esconderam em simbologias, mitos e lendas os segredos disto que muitos conhecem apenas pelo nome de Caminho. Todo conhecimento antigo, esotérico, ocultista, alquímico e mágico estão contidos nestes sigilos que pertencem ao Caminho.

– Eu ainda não vejo o que isso tem a ver com Cristo e o que acabamos de presenciar.

– Senhores, no início os Cristãos Antigos não se chamavam de Cristãos, mas de Povo do Caminho. Nos primeiros séculos, os Cristãos Antigos constituíam uma vertente dos Essênios, um grupo de judeus helenizados que rejeitavam tanto os Saduceus quanto os Fariseus. Em muitos aspectos, suas origens se misturam com inúmeros outros grupos de sociedade secretas, cultos de mistério e também com o Gnosticismo. Os Cristãos Antigos tinham também o grupo de Gentios, gente como eu, pagã, por assim dizer, que compartilhavam o que eu chamo de o Conhecimento. Nisto consiste todo o segredo do Caminho, bem como o mistério de todo sistema mágico e religioso.

– Podemos ir direto ao assunto? Quem é Cristo?

Eu respiro fundo e tento disfarçar o nervosismo. Nunca é fácil descondicionar uma pessoa da crença em que foi ensinada. Quando a religião é parte de um sistema de opressão e repressão social, a dificuldade é maior.

– Os Cristãos Primitivos não acreditavam nesse mesmo Cristo de vocês. Na época em que Cristo apareceu, havia muitos que assim se autoproclamavam. Mesmo nos núcleos do Cristianismo Primitivo, Cristo era considerado mais uma ideia do que uma pessoa física. Para os judeus helenizados, era crucial que Cristo fosse o Messias, tal como se havia profetizado. Naquela época, Judá tinha um movimento nacionalista misturado com religião e os Judeus aguardavam a vinda do Ha-Massiah, que tinha que ser descendente de David e Jessé, ele seria tanto um rei quanto um sacerdote que restauraria o Reino de Israel e tornaria real o Reino de Deus. Os Nazarenos, tal como originalmente se chamavam os Cristãos Primitivos, tinham um rabino chamado Yeshua Ben Joseph a quem estes chamavam de Cristo, mas ele era um Iniciado, de uma sociedade secreta e de um culto de mistério. Ele não podia ser o Messias e sua mensagem não visava a redenção do povo de Israel, tanto que suas mensagens são contra o Sinédrio e contra o Deus de Israel. Yeshua, que os Gregos e Romanos traduziram por Jesus é o Messias que vocês adoram sem critério. Yeshua não era o Cristo, mas proclamava publicamente o Conhecimento do Caminho tal qual como ele o recebia de Cristo, a Suprema Sacerdotisa dos Antigos Ritos, mais conhecida como Myriam de Magdala.

– Então era disso que a duquesa estava falando. Se eu entendi bem, Cristo e os Ritos Antigos são parte do Caminho, do Conhecimento? Eu estou ficando com um nó, mas como e por que o Cristianismo se distanciou tanto de seu verdadeiro propósito?

– Mais importante… qual era o objetivo de Cristo? Ele… melhor, ela… se sacrificou por nós?

Eu respiro aliviado. Eles não ficaram ofendidos. Eles assimilaram e aceitaram com tranquilidade o que eu sabia. Melhor, queriam saber mais, queriam conhecer mais. Eu teria que ter cautela e continuar nesse passo. Eles ainda não estavam prontos para conhecer a verdadeira identidade de Cristo.

– Senhores, o Conhecimento, o Caminho, podem ser compreendidos e percorridos de diversas formas. O destino não é o que realmente importa, mas o caminhar. Cristo não queria seguidores, ela queria que a humanidade se tornasse Cristo. Nisto consiste todo sistema mágico e religioso – despertar e desenvolver o potencial inerente de cada ser humano, reconectá-lo com sua natureza divina e, pela maestria sobre si mesmo, adquirir a Chave Universal. Não há necessidade de Deuses, nem de Cristo, nem de Igrejas. Quando o ser humano despertar o seu potencial, nós seremos iguais aos Deuses, pois nossa existência será conduzida pela Vontade, manifestada pela Lei e consumada pelo Amor.

Silêncio e olhos arregalados. Não há contestação, protesto, reclamação, questionamento. A semente foi plantada. Assim funciona a Verdade. A Verdade não se impõe pelo uso da força, das armas, da riqueza, do prestígio ou hierarquia social. A Verdade É. Por si mesma.

– Ainda tem algo que eu quero saber. Cristo… ela se sacrificou por nós? Por que?

– Eu lhes peço que sejam pacientes. Por enquanto, mitiguem o que eu lhes falei. No momento oportuno, eu lhes falarei sobre Ela. E sobre a verdadeira origem da humanidade. E sobre a verdadeira identidade do Edin.

A plateia improvisada ficou amuada, mas calada. Eles teriam muito que caminhar e percorrer. Deram o primeiro passo. O que é muito, para quem adormecia.

– Isso… não pode ser dito publicamente, senhores. Nós ainda temos uma missão a cumprir, independentemente do que o bruxo nos revelou.

– Eu estou de acordo, capitão. Nós precisaremos fazer uma promessa. Todos aqui devem prometer guardar segredo do que foi dito. Eu só não sei como selar tal confiança entre nós. Alguma sugestão, capitão?

O capitão tem o descuido de olhar em minha direção e eis que me vejo novamente como o centro das atenções. Esta é outra situação que não é favorável em sistemas religiosos e mágicos, especialmente para sacerdotes e bruxos. Nós teríamos que estabelecer um pacto. Só sugerir isso é perigoso. Uma pessoa não pode se autoproclamar bruxo ou bruxa. Uma pessoa recebe essa maldição por duas vias – ou se nasce ou se recebe, em ambos os casos é algo que está no sangue e é indispensável que o bruxo e bruxa sejam apresentados ao espírito patrono da família e aos espíritos da natureza com os quais vai trabalhar.

Uma vez que eu os colocar dentro do meu círculo, nós estaremos vinculados perpetuamente. Minha alma estará ligada à deles e as almas deles estarão ligadas à minha. Eu estive no lugar deles e eu fui traído por quem me fez juras. Doeu muito. Nenhum ferimento, por corte, por tiro, por fogo, por corda, dói tanto quanto a ferida na alma. Eu não desejo essa dor para quem quer que seja. Eu sobrevivi por milagre. Ou por obra da Fortuna ou do Destino. Ou por desígnio da Deusa e do Deus. Essa é a parte mais difícil do Caminho – servir aos Deuses.

Em busca do Graal – VII

O segurança do doutor Bruttenholm me pegou e me jogou de volta na caçamba do caminhão e ali na boleia eu fiquei tal como eu estava, seminu e ainda melado.

– Bruxo… eu ouvi muitos boatos a seu respeito e vejo que são verdadeiros. Eu custo acreditar que você satisfez a encarnação da luxúria criada pelo Cristianismo.

– Isso não é justo. Você me conhece, mas eu não te conheço, embora eu reconheça sua natureza.

– Não vai me pegar com esse truque, bruxo. Se eu te disser meu nome, meu nome verdadeiro, você irá me controlar.

– Assim diz o cachorrinho na coleira…

– N… não é assim não. O doutor… me adotou quando eu vim parar nessa dimensão. Eu não teria sobrevivido.

– Scarlet não parece ter tido dificuldade alguma. Por que não admite que escolheu ser submisso?

– I… isso não vem ao caso e não é assunto teu! Suma!

Eu não tive tempo de dizer algo para o pobre Rei da Coroa de Fogo. Falar o nome dele era uma mera formalidade, afinal, ele sabia o meu. Nossa presença ali era desnecessária e importuna, mas a Nova Ordem Mundial deve ter grandes planos para Babalon. Nós temos que continuar a nossa busca, embora os encontros tenham se tornado mais perigosos.

– Capitão… eu te peço que não nos leve para Bucareste, Romênia.

– Nosso plano de missão não inclui a Romênia, Van Helsing. Eu creio estarmos longe o suficiente e em território neutro o suficiente para lhes dizer que nossa busca também consiste em encontrar os legítimos Arianos.

Van Helsing não acreditou muito e só respirou aliviado quando tomamos uma rota mais voltada para o leste, em direção a Kiev, Ucrânia. Estávamos em pleno solstício de inverno, os soldados cantavam cantigas natalinas de caserna, mas eu mal via qualquer sinal da presença do Cristianismo naquelas paragens. Enquanto estávamos em Budapeste, na Hungria, a presença dos antigos espíritos consistia em um leve aroma, na altura de Polgar eu conseguia presenciar suas formas físicas. Corso estava bastante conturbado, mas não era pela massiva e forte presença de entidades que, para a Igreja, não existia, eram meras lendas, ou demônios.

– Você… consegue vê-los, Corso?

– Hã? Que? Ah… “eles”. Bruxo, eu nasci em Saragoça e eu aviei o famigerado Manuscrito. Van Helsing deve estar perturbado com “eles”, pois só os conhecia por livros. Eu me esqueci de falar que uma das coisas que eu busquei no Protestantismo foi me livrar dessas presenças constantes de minha infância.

– Do que vocês estão falando? Não há nada lá fora. Nada.

Eu quase sinto pena de Van Helsing. Assim como o ateu, ele simplesmente se recusa a perceber qualquer evidência que contrarie sua concepção de mundo.

– Nesse caso, Corso, o que o perturba?

– Scarlet… ela é muito parecida com Alexandra. Mas ela não me reconheceu. Afinal, por onde eu andei? Eu estive no Vale das Sombras? Quem me guiou, quem eu conheci e qual foi a Revelação que eu tive?

Eu dou alguns tapas nos ombros de Corso, mas não responda. Ele tem que encontrar as respostas por conta própria. Nisso, nós três temos em comum: nós temos todo o material necessário para a Jornada, muito embora a percepção e a interpretação do Caminho sejam diferentes.

– Você… não irá me dizer…

– Não, Corso. Eu estou impedido. Além do que, eu passei por essa experiência de confiar minha alma e minha Jornada a terceiros. Isso eu não disse, Corso, mas mesmo no Ofício existem farsantes, vigaristas e estelionatários. Eu demorei muitos anos de pesquisas, experiências, tentativas e erros para aprender e filtrar. O que eu achei [um verdadeiro tesouro] é algo que somente vale para mim. Se te ajuda em algo, não desista, continue sua caminhada.

– Mas… o problema é esse… aonde eu vou chegar? Aonde Van Helsing vai chegar? Aonde você vai chegar?

– Isso… eu também estou impedido de declarar. Eu só posso dizer que nós vamos rir muito de tudo isso.

Van Helsing enfia o rosto ainda mais dentro do casaco, como que para criar um escudo de proteção. Corso fica perdido em suas lembranças com Babalon, mas sorri encabulado a cada entidade que nós flagramos na paisagem, nos encarando de volta. Os soldados que nos escoltam estão mais relaxados, assim como o capitão. Uma placa dizia em cirílico: Fronteira Transcarpátia. Saida de Nyregyaza. Entrada de Oblast. Nós estávamos oficialmente na União Soviética. Um bom gancho para tratar de política, mas eu irei poupar o leitor.

– Capitão… nós não estamos em território inimigo?

– Eu não tenho permissão para dar muitos detalhes, mas a Sociedade Thule é apenas uma de muitas organizações. Não é apenas na Alemanha, mas em toda a Europa existem organizações secretas, com objetivos aparentemente distintos, mas que costumam interagir para realizarem um Ideal Elevado. Achar o Graal, achar os Arianos… são objetivos que aparentam direções diferentes, mas é de Cristo que falamos, de tornar real o Reino de Deus nesse mundo. O que mais o mundo moderno idolatra senão o dinheiro, o capital? A fonte dos males que o homem fomenta é o dinheiro. A humanidade perdeu seu caminho para cumprir o propósito de sua criação. Eu espero que os senhores possam encontrar a resposta para esse enigma. Eu espero que meus netos possam ter um mundo efetivamente humano. Sem fronteiras. Sem guerras. Um único Povo, uma única Nação, um único Deus. Esse é o Ideal Elevado.

Palavras e ideias que não dizem muita coisa sem estarem embrulhadas com um argumento. Infelizmente palavras e ideias podem mover um homem para uma ação, no ambiente certo, um grupo só precisa de palavras e ideias para cometer atrocidades. Corso tem um calafrio e eu não o condeno. Meu lado guerreiro sabe que a ação tem que ser pensada, consciente, do contrário é homicídio, não heroísmo.

– Senhores, chegamos. Nesta parada, os senhores não irão precisar de nossa escolta. Eu só lhes peço que se comportem. Esse é um achado raro nos dias de hoje.

Nós estamos em algum lugar entre Lviv e Rivne, noroeste de Kiev. Meus parceiros de missão estão apreensivos, ambos procurando pelas entidades que a Igreja deles lhes disseram que não existiam. Os soldados não estavam armados e seguiam o capitão para um ponto onde é possível ouvir vozes e a luz de uma fogueira. Eu não sinto perigo imediato, então eu sigo o cheiro bom e familiar. Bem ao longe, eu vejo um grupo de velespans [entidades da natureza locais] que observam o agrupamento humano com expressão horrorizada.

– Saudações, meus bons amigos.

– Saudações, Amado da Lua. Você está com esses humanos?

– Perdoem por minha péssima companhia, mas é necessário, o Caminho trouxe-me até aqui por algum propósito. Eu lhes garanto que eu me esforço em manter puros os ritos antigos.

– Nós sabemos, Amado da Lua. Fique conosco. Não se macule com esses humanos.

– O que eles estão fazendo que lhes causem tanto horror?

– Eles vieram da capital, trazendo gente de outra terra e outra língua. Disseram saber a verdadeira Religião Antiga e começaram a evocar o nome de outra Deusa da qual nunca havíamos ouvido falar. Fizeram muitos daqui se esquecerem de Perun! Fazem mais mal aos nossos do que os padres do deus forjado pelos Romanos. O que eles fazem ali nos causa asco, nos enoja e nos afasta. Eles promulgam uma religião completamente estranha a esta terra e a este povo. Conhece-os?

Eu respiro fundo e tento não passar vergonha diante daqueles olhares lamurientos. Enquanto Corso pisou em uma das orlas da Umbra, do Vale das Sombras, eu perambulei por todo o Submundo. Quando o mago inglês revelou Babalon, eu tinha passado pelos lençóis dela muito antes e ali não há mistério algum. Outro inglês, inspirado pelos Ritos Antigos, pelo Ofício, olhou para o mistério que existe dentro da caverna no centro do Bosque Sagrado e revelou um sistema religioso.

Sim, eu os conheço, eu queria dizer, mas também sei as falhas e a piedosa fraude que ali se esconde. O sistema voou pelo grande oceano e nas colônias inglesas do Novo Mundo adquiriu popularidade e influência, os maiores inimigos de todo e qualquer sistema religioso e mágico. Ali, nas mãos de farsantes, vigaristas e estelionatários, tem se tornado outra religião de massas. A humanidade nunca precisou de organizações religiosas e tem gente que está conduzindo o Ofício, os Ritos Antigos, nessa direção cujo destino só conduz à degradação.

– Meus amigos, paciência. O ser humano está tentando resgatar suas origens, suas raízes. Mesmo que por erro e equívoco, os Deuses Antigos estão retornando. Aqueles que falseiam vão pagar caro pelo ato que cometem. Serão esquecidos e seus nomes banidos. Apenas continuem a ignorá-los, em breve os seus irão perceber o logro e os abandonarão. Este é a sua terra, este é o seu povo, eles irão precisar de sua orientação e presença para seguir o Caminho. Eu tenho certeza de que esta terra voltará a ser de vocês e poderão viver em comunhão com o vosso povo. Acreditem.

– Bendito seja, Bruxo! Bendita seja Aquela cujo nome não ousamos pronunciar. Que nunca te falte comida, bebida, música e amor. Você é o orgulho de seu povo e de sua terra. Sim, a despeito de toda adversidade e perseguição, até por aqueles que alegam pertencer ao Ofício, você segue fiel ao Caminho, aos Ancestrais e aos Deuses Antigos. Agora nós entendemos e percebemos porque é chamado de Amado da Lua. Que bom Filho tem o Sol! Nós rogamos para que algum dia encontre o que procura.

Eu agradeço tamanha gentileza e compaixão dos espíritos da natureza. Mas no fundo eu fico melancólico, pois ainda hei de penar outras encarnações antes que eu ache o que procuro. Eu faço força para me convencer do que acabo de dizer. Mas eu vivo entre humanos e minha gente é proficiente em criar bagunça, confusão e desordem onde põe a mão, como um Midas invertido. O som fica mais alto, o cheiro fica convidativo. Meu Senhor, minha Senhora, fechem seus olhos, ouvidos, narizes e bocas. Eu prefiro que não testemunhem o que o ser humano está fazendo com os Ritos Antigos, com o Ofício. Eu, pobrezinho de mim, pouco posso fazer ou falar. Mas não vou recusar uma boa festa. Esta, ao menos, sempre se manteve pura e então, aceitem de bom grado. Pois toda vez que nós nos reunimos em celebração, sempre que estivermos comendo, bebendo, fazendo música e amor, ali estarão nossos Ancestrais e ali estarão os Deuses Antigos.

Em busca do Graal – VI

Quando se pensa em Europa, se acredita que o continente é composto por uma etnia. Isso é um engano, a Europa tem diversas regiões e etnias, cada qual não vê outro povo ou etnia como sendo seu irmão nem percebe que possuem ancestrais em comum. Definitivamente, um europeu que vive na região norte deve pensar do sul da Europa a mesma coisa que um norte-americano pensa do restante da América Latina. Nós mal tínhamos saído da Áustria e os mercenários soltavam comentários preconceituosos. Para eles, nós estávamos deixando a civilização e entrando em áreas inóspitas, selvagens e incultas. E nós estávamos na Hungria, próximos de Budapest. Essa parte da “Europa” que é chamada de “leste europeu” e começa a esmaecer a ideia de que a Europa é “ocidental”.

– Isso não é bom… capitão, para onde vamos?

– O que aconteceu, Van Helsing? Você parece nervoso e apreensivo.

– Você tem suas fobias, eu tenho as minhas.

– Será que isso tem algo a ver com o escritor inglês e o Drácula?

– Muito esperto. Hungria não é muito diferente nem muito longe da Romênia. Se continuarmos nessa direção, nosso caminho irá, inevitavelmente, ser interceptado.

Eu quase concordo com Van Helsing. Nós saímos duas vezes de circunstâncias arriscadas. Aqui no leste europeu existem outros exércitos, outras questões em conflito e a presença otomana é bem visível. Eles têm razões de sobra para ficarem ariscos, pois aqui quem manda é a Igreja Ortodoxa, o Catolicismo e o Protestantismo competem com o Bizantismo e ainda tem o Islamismo. Aqui nós não encontraremos quem nos guarde de uma ação impensada por soldados dos exércitos que estejam na região. O estranho silêncio do capitão apenas reforça nossas dúvidas.

– Senhores, eu não vou engana-los. Aqui nós temos o exército russo para nos preocupar e eu não tenho um interlocutor. Os senhores, como homens de Deus, façam suas preces, pois nós vamos precisar.

Corso perdeu todo o humor e ninguém estava rindo. Van Helsing tirou um rosário de suas traquitanas e começou a rezar as romarias. Eu mantenho uma postura indiferente, eu não vou tripudiar os coitados tão longe do Deus que acreditam e tão longe das Igrejas que representam. O leste europeu ainda é possível sentir o cheiro dos espíritos da natureza e a forte presença dos Deuses locais. Os sacerdotes das crenças invasoras tiveram o bom senso de não contrariar as antigas crenças folclóricas. Ah… pobres homens da Igreja… se vissem o que eu vejo, entrariam em colapso.

– Senhores, bem vindos em Cegled, Hungria. Nossos anfitriões nos aguardam.

Corso e Van Helsing aparentavam estar entrando no Inferno propriamente dito e criaram a expectativa que seriam recebidos pelo próprio Satan. O que eu vi foi surpreendente. Não estávamos em um castelo, tão pouco uma igreja, mas em uma mesquita e um mouro nos aguardava.

– Cavalheiros, sejam bem vindos. Eu espero que tenham tido uma agradável e tranquila viagem.

– Eu preferia nem ter levantado da cama, mas nós estamos aqui.

– Onde estão seus destacamentos militares?

– Oh, eu espero que os senhores não tenham ficado assustados. No caminho para a Verdade não cabe violência, mas sabe como são os alemães.

– O senhor não teme uma invasão?

– De forma alguma. Veja bem, nós estamos na Hungria, outrora um império, que foi nosso um dia. Aqui tem exército católico, protestante ortodoxo e muçulmano. Ninguém quer que a Grande Guerra volte.

– Eu só não entendo porque o senhor, muçulmano, está ajudando essa missão.

– Senhores, nós adoramos ao mesmo Deus. Talvez com exceção o bruxo. Essa busca pelas relíquias sagradas pode acabar com essa animosidade entre nossos povos e religiões. Algo que o Grande Iskander sonhou, o fim da separação entre Ocidente e Oriente. Um só povo, uma só nação, um só Deus.

Eu acompanho os três, guardando comigo a incompatibilidade e incongruência de tal declaração. Existem tantas diferenças entre o Deus Cristão e o Deus Muçulmano que nem dá para listar, mas criou-se essa ilusão de que são o mesmo Deus de Abraão. Mesmo o conceito atual de Deus entre os descendentes das tribos de Israel é simplesmente fantasioso, uma piedosa fraude urdida por sacerdotes. Não que eu possa me gabar, pois mesmo no meu meio não faltam farsantes que divulgam uma teologia espúria com nítido interesse comercial, político e social.

– Doutor Butthole, eu trouxe nossos convidados.

– Hack! Eu disse, doutor Houssin, que meu sobrenome é Bruttenholm.

Não tinha exércitos, mas o doutor Bruttenholm tinha um segurança particular no mínimo suspeito. Eu notei que a mesquita estava descaracterizada e transformada em biblioteca pública de uma universidade cristã. Por mais voltas que se dê, até se pode encontrar sociedades secretas muçulmanas vinculadas a um ou mais círculos de inúmeras outras sociedades secretas cristãs.

– Senhores, eu soube que suas avaliações anteriores foram frustrantes. Mas eu lhes garanto, como acadêmico, cristão e especialista, de que nós temos “a coisa real” aqui.

Meus parceiros de missão não ficam curiosos nem aparentam ter expectativas. Nós seguimos os doutores, sendo acompanhados pelo “segurança” [que eu pressinto ser do Submundo] e entramos na parte mais interna do que agora é um anfiteatro para a projeção de filmes, uma sala de cinema, que nada mais é do que um teatro com uma enorme lona branca esticada para se fazer a projeção. Nada de funcionários, nada de instrumentos, só o palco, a lona e muitas pessoas sentadas nas poltronas. Aparentemente, todos estavam nos esperando para o espetáculo.

– Senhores, sentem-se e preparem-se para o que verão. Tudo pronto, doutor Butthole?

– Bruttenholm! Sim, ela está pronta e disposta.

Uma música brega e desagradável é tocada por algum equipamento, sobe a enorme lona e abrem-se as cortinas do pequeno palco e ali em cima nós vemos uma mulher parcamente vestida com uma expressão de tédio nos olha fixamente de sua poltrona.

– Muito bem, vocês podem examina-la à vontade.

Corso era o mais afobado e Van Helsing era o mais encabulado. A mulher é ruiva e voluptuosa, ignorava completamente os homens da Igreja e olhava ostensivamente em minha direção. Eu nem preciso de apresentações, eu sei quem ela é.

– Então? Coisa real, como prometido.

– E… ela é… a Grande Meretriz!

– Ma… mas… o evangelho de João fala de um personagem fictício criado unicamente para denunciar Roma e sua corrupção!

– Ah… meninos da Igreja… são todos iguais. Por favor, me chamem de Scarlet ou de Babalon. Eu sou bem real como vocês mesmos podem ver, sentir e babar por minhas formas generosas.

– Isso… não é possível.. a Grande Meretriz só apareceria no Apocalipse!

– Gato, acorda. O Apocalipse aconteceu. O mundo “acabou”. Foi o “fim do mundo” quando o Império Romano caiu. Desde então, eu tenho sido mantida escondida. Sua gente ainda não sabe o que fazer comigo.

– Ma… mas… você foi criada para denunciar a verdadeira Babilônia, a Igreja Católica!

– Ah! Que situação divertida! Dois meninos de duas vertentes do Cristianismo com suas interpretações sobre quem ou o que eu represente. Eu achei mais interessante o mago britânico que me “revelou” como Babalon. Eu prefiro que me vejam como uma face interditada e censurada da Grande Mãe. [Scarlet me olha de um jeito que me provoca arrepios]

– I… isso é irrelevante. Você sabe e conhece o Cristo e pode nos guiar para encontrar uma relíquia sagrada que prove, de uma vez por todas, que Cristo existiu e morreu por todos nós.

– Ah… sim… eu conheci Cristo… ela é uma delícia [Scarlet lambe os lábios provocativamente enquanto me olha]. Mas ela não se sacrificou para os salvar do pecado ou dar-lhes a vida eterna. Vocês não entenderam coisa alguma. Ainda se apegam literalmente ao que dizem os evangelhos, ignorando a Gnose, ignorando os Apócrifos, ignorando todos os sinais e indícios do Caminho Iniciático. Vocês ainda estão presos a esta piedosa fraude cometida pela organização religiosa que dizem representar.

– E… eu ouvi bem? Cristo era… mulher? E não veio para nos salvar do pecado e nos conduzir à vida eterna? Cristo não veio para instaurar o Reino de Deus no mundo?

Scarlet comprime os lados do nariz e solta um muchocho de decepção, visivelmente irritada.

– Não, seus palermas. Bom, ao menos um de vocês sabe. [Scarlet me olha com olhos cheios de luxúria]

– N… nesse caso… quem foi Cristo, qual foi sua missão e onde nós podemos encontrar a Verdade? Qual é o seu papel na Grande Obra de Cristo?

– Isso deveria ser óbvio, nessa altura da história. Eu, meninos, tenho a incumbência de acabar com a Igreja. Toda ela. Vocês nunca precisaram disso. Minha única função é de despertá-los para o Conhecimento, que está dentro de vocês mesmos, através do contato carnal. O mago britânico engraçado até criou um sistema mágico e uma sociedade secreta para me celebrar e nem isso era necessário. Por isso que a Igreja dos senhores tanto proíbe e condena o corpo, o desejo, o prazer e o sexo. Mas primeiro, eu devo conduzi-los a encontrar com Cristo. A verdadeira. Que ainda está bem viva, por sinal. E nós traremos de volta o tempo em que a humanidade convivia com os Deuses Antigos, onde Deus tinha a Deusa como consorte, onde os Antigos Ritos eram celebrados em nudez ritual sob a luz da lua.

– Até o momento eu achava que conhecia a Cristo, mas eu sou obrigado a perceber que acreditava no que a Igreja me dizia. Onde nós podemos encontrar Cristo?

– Eu diria dentro de vocês, mas antes, vocês precisam vê-la com seus próprios olhos. Vocês devem ir para Caxemira, em Srinagar. Ali encontrarão o verdadeiro túmulo de Cristo.

– Isso é alguma brincadeira? A senhorita disse que Cristo está vivo e nos manda ir ao túmulo?

– Eu devia perguntar isso aos senhores. Não acreditam que Cristo ressuscitou? Então Cristo vive, mas é necessário que vocês vejam o túmulo para que percam essa ilusão de que suas existências se restringem à forma material. Vão agora mesmo, antes que os alemães percebam que vocês estão sabendo demais.

Meus parceiros saem cambaleando sem saber muito bem o que tinham acabado de ouvir, passando por entre a plateia que aplaudia Scarlet. Estavam tão aturdidos e contentes por voltar ao caminhão que não perceberam que Scarlet me segurou.

– Estes estão perdidos. Eu não teria diversão com eles, mas você… seu caso é outro e eu ouvi muito a seu respeito.

Eu, coitadinho de mim, nada pude fazer ou falar. Ela me jogou no chão, tirou minhas roupas e não largou de mim enquanto eu não vertesse meu creme em seu ventre. Alguém perguntou se isso não era contra o feminismo e o empoderamento da mulher. Eu transcrevo a resposta dela:

– Empoderamento da mulher… a ideia é boa, mas como falam até parece que a mulher precisa que alguém lhe conceda algum poder. A mulher possui o poder. Ela apenas não o está utilizando. Minhas irmãs que me entendam, mas não está inteiramente correto falar que uma mulher não nasce. Isso é verdade se entendermos “mulher” como papel social. Mas nossa condição não se resume nem se limita ao que a convenção social determina. Em verdade, todas nós nascemos mulher, feminina. Todo ser vivo nasce com uma sexualidade. A forma como isso é percebido e exercido é variável muito além dos padrões impostos pela sociedade. Tudo o que nós precisamos fazer para dominar o mundo é fazer uso de nossa sensualidade e sexualidade natural. Quem tiver ouvidos ouça e quem tiver entendimento entenda.

Em busca do Graal – V

Pelo cansaço e pelo estresse, nós apagamos [nem o desânimo conseguiu nos manter acordados] e nem percebemos passar as dez horas de viagem. Passamos por Dresden e Praga, acordamos em Stockerau, mas não faz muita diferença. Nós estamos em “outro país” somente por uma divisão geográfica que foi definida politicamente com o Tratado de Versalhes. Nós ainda estamos no que foi o Império Alemão e o Império Austro-Húngaro. Mas as pessoas e o cenário são os mesmos.

– Sabe, senhores… esse clima beligerante está começando a me preocupar.

– Sério, Van Helsing? E o que acha que devemos fazer? Mandar uma carta de protesto ao Papa?

– Eu não creio que o Vaticano nos ouça…

– Eu que sou o paranoico, mas nós estamos encrencados, não há dúvida. Quem eram aquelas pessoas?

– Pois é exatamente isso o que me incomoda, Corso. Durante minhas missões eu encontrei diversos grupos e associações secretas, algumas delas se dizem cristãs e incomoda muito quando eu encontro ligações com a Igreja, mas isso não é novidade. Sociedades místicas existem e se infiltram em todas as religiões e vice-versa. Eu não me incomodo em ter contato com esse resquício pagão ou gnóstico, mas eu temo ter sido contagiado com sua paranoia, Corso, quando eu vejo a religião associada à algum grupo militar.

– Sei… como se os Cavaleiros Templários fosse um fenômeno atípico do Cristianismo Romano. Eu devo lembrar que Roma, ou melhor dizendo, o Vaticano, foi um grupo de padres que conquistaram o poder usando a Guarda Pretoriana? Sim, todo o Papado é calcado em cima dos Mistérios Mitraicos.

– Eu gostaria de protestar… mas nós não temos como. Nós confessamos nossos pequenos pecados e como nossas Igrejas estão maculadas com práticas que, segundo nossas doutrinas, são proibidas. Igrejas construídas por Pedreiros Livres e ritos consumados por bruxas. Eu não me esqueci de nada. Então o que realmente buscamos? Algum tipo de Revelação que vai purificar o Cristianismo? O que nos diz, bruxo?

Minha vida pode se resumir em duas situações. Ou eu sou maldito, perseguido, até por quem se diz bruxo, ou eu sou o especialista, cuja opinião repentinamente é importante. Em ambas as situações, eu sou o centro das atenções e, para meu Ofício, isso nunca é bom.

– Senhores, eu não tenho elementos suficientes para dar uma análise. No entanto eu tenho duas evidências interessantes. A primeira foi o dístico que eu vi no frontispício do castelo de Schloss. A segunda é o termo Führer utilizado pelo tenente. Eu acredito que o símbolo tem uma ligação tanto com a Sociedade Thule quanto com a organização que tem o “Führer” como líder máximo. Eu só não vejo como isso tudo se encaixa em nossa missão em busca de relíquias sagradas.

– Senhores, eu lhes peço que deixem suas digressões para outro momento. Assim como os senhores, eu pretendo manter meu couro intacto. Enquanto estivermos nas estradas, em meio a estes mercenários, não há problema em conversarem. Mas assim como em Berlim, eu lhes peço que deixem comigo as conversações quando chegarmos ao nosso destino em Viena.

Van Helsing deu de ombros e Corso tentou desviar o assunto falando de cerveja e mulher. O capitão estava visivelmente mais apreensivo do que antes. Se ele quer nossa “colaboração”, eu tenho que trazê-lo para nosso pequeno grupo de “civis”.

– Capitão, eu notei certo cuidado ao lidar com o capitão da outra divisão. Eu estou certo em presumir que existe um diferencial entre vocês?

– Eu temo dizer isto, considerando que seus colegas de missão não são “iniciados”, mas minha posição no exército é bem restrita, enquanto a do outro capitão pertença a uma divisão de elite. O senhor deve ter notado o emblema que ele portava no uniforme. O capitão e o tenente são membros da Schutzstaffel e da Ahnenerbe. A Sociedade Thule é uma pequena secretaria desse imenso aparato. Você viu o símbolo no frontispício do castelo e o emblema do capitão e do tenente. O senhor é capaz de decifrar o significado por si. Mas não o diga a ninguém.

O que o oficial diz e não diz é mais revelador, embora não seja inteligível aos demais. Minha tentativa de trazer o capitão ao nosso meio fracassou, mas eu pressinto que ele tenha me atraído ao círculo dele. Eu só sei e posso declarar que Corso terá muitos motivos para seus acessos de paranoia. Viena é a boca do Leviathan. Seja o que o tenente tenha realmente dito sobre Nova Ordem Mundial, isto está sendo cozido no caldeirão austríaco. O efetivo militar que nos aguarda é visivelmente maior e mais equipado. Nota efêmera – o local é chamado Mozarthaus. Uma loja maçônica. Onde supostamente cresceu e se educou Wolfang Amadeus Mozart. Cujo frontispício estava igualmente decorado com o mesmo dístico do castelo Schloss e inevitavelmente eu começo a ver similaridades com inúmeros pantáculos usados em magia cerimonial.

– Está tudo em ordem. Está tudo preparado. Os senhores podem desembarcar.

– Capitão, o que nós viemos avaliar aqui?

– O que não… quem. A divisão local acredita ter encontrado Lazaro. O morto-vivo criado por Cristo.

Eu tento não começar a rir desenfreadamente. O leitor que for cristão não fique ofendido, mas a Bíblia também é cheia de mortos-vivos. Jeová, o Deus do Antigo Testamento, conduziu o Profeta Ezequiel ao Vale dos Ossos e deu vida aos ossos, transformando-os em mortos-vivos. Outra feita, Jeová fez com que o rei Saul fosse até a cidade de Endor e, por meio de consulta com uma “bruxa” [certamente uma sacerdotisa dos cultos antigos], fez com que o profeta Samuel [mortinho da silva] aparecesse [apesar da Lei proibir a necromancia ou a comunicação com espíritos] e desde então Samuel tem existido como morto-vivo. Lazaro foi uma criação de Cristo e é só isso o que eu declararei.

Seguimos o capitão, calados, atentos e céticos [o máximo que cabia, considerando que dois são crentes da Igreja]. Novamente, o mesmo ambiente de laboratório, os mesmos funcionários de uniforme completo, parafernália e o indefectível vidro hermético. Van Helsing aproximou-se cautelosamente, procurando pelo tenente com os olhos. Corso só olhava para mim. Eu olhava o pobre coitado dentro do vidro e sua situação era grave em termos clínicos. Um homem velho, indubitavelmente, mas é improvável que seja Lazaro.

– Sir, zer da zure izena?

– Lazaro naiz, nire izena Lazaro da.

– Non zaude?

– Bilbora etorri naiz.

– Zenbat urte dituzu?

– 99 urte izan behar ditut, gazteak.

Corso insere uma conversação em basco com a “relíquia sagrada” viva e recebe resposta em basco. Nem foi necessário maiores investigações. Intrigado, eu cutuquei Corso.

– Como sabia que ele era basco?

– Basta ver a pele, o cabelo, a forma dos pés e mãos. Eu vivi muitos anos na região, isso foi evidente.

O capitão nos escoltou de volta para o camburão e nós voltamos aos nossos lugares na boleia. Sem muitas explicações, eis que nos pusemos de volta à estrada, sem saber o destino ou o objeto de análise. Nossa missão tem todos os elementos para o completo fracasso.

Em busca do Graal – IV

As duas divisões – a leve e a pesada – se reencontram em Potsdam, a poucos quilômetros de Berlim. Apesar de nosso comboio ser grande e barulhento, fica perdido e invisível em meio de tantos comboios militares. A sensação é de tensão. Teoricamente a Grande Guerra acabou, mas as marcas estão bem visíveis em todo canto. Nisso a percepção de todos concordam, era possível ainda ver colunas de fumaça subindo de cidades destruídas pela guerra, incontáveis veículos e corpos enfeitam as estradas. Teoricamente estamos em tempos de paz, mas o que está perceptível é que a Grande Guerra possui brasas bem vívidas prontas a incendiar o mundo novamente.

Potsdam e Berlim dão uma boa ideia do que é a Alemanha. Esqueça tudo o que se ouve sobre cultura, arte, tecnologia e filosofia alemã. Em muitos termos, a Alemanha é bem a expressão da Europa. Uma mistura de inúmeros povos, mas que orgulhosamente se recusam a admitir que são mestiços, agarrando-se a um passado dourado mítico que nunca existiu. A forma como eles se referem a si próprios é uma ilusão – Germânicos. Poderiam se dizer Anglos, Saxões, Eslavos, menos Germânicos. Há que se entender, considerando que a palavra Eslavo e Escravo tem a mesma origem linguística. Evitam também Anglos e Saxões para não se misturarem com Franceses e Ingleses. Muito embora tenham origens semelhantes e sejam descendentes dos povos Celtas, quiçá Indo-Europeus, alemães, franceses e ingleses não se veem como irmãos da mesma gens [caucasianos].

Berlim, que foi construída em um pântano [daí a origem de seu nome] ganhou seu atual estado e influência por ter sido escolhida como capital, tanto do extinto Império Austro-Húngaro, como do Reino da Prússia e, após a unificação conduzida por Otto Von Bismark, inevitavelmente foi a capital do Império Alemão até a Grande Guerra. Acusam-se diversos motivos pelos quais irrompeu a Grande Guerra, os historiadores que me perdoem, mas a triste verdade é que foi por dinheiro e lucro fácil que nós nos matamos. O resultado é o que se configurou no Tratado de Versalhes, algo que ninguém engoliu e, para sorte ou azar, a Alemanha recaiu uma pesada tributação, perda de território, perda de colônias. Igualmente arrasada, igualmente em luto por seus filhos mortos na guerra, a Alemanha tinha que se reconstruir e se reerguer, algo complicado, quando faltam mãos, comida e indústrias. O rancor e o ressentimento estavam palpáveis e é uma questão de quando e como a Grande Guerra vai reacender a pira para mais mortos.

– Senhores, eu não desejo desrespeita-los, mas daqui em diante, deixem-me tratar com os oficiais.

A expressão do oficial, debaixo do quepe militar era de apreensão. Nós ouvimos os soldados descerem primeiro e a divisão pesada transitar ao nosso redor, como se fossemos um exército em manobra de sítio.

– Está tudo em ordem. Está tudo preparado. Os senhores podem desembarcar.

Depois de oito horas de estrada, há tempos o sol dobrara a esquina do Portal Oeste e uma rala neve de outono prenunciava a aproximação do inverno. Nós estamos na nona hora, nós estamos em uma extensa quadra cimentada, cercada por enormes postes iluminados e cercas de arame. Ressabiado, Corso começa a tremer, acreditando que nosso desembarque aconteceu em uma instalação militar.

– Ora vejam só… nós estamos diante do Castelo Schloss. Por que estamos aqui, capitão?

Van Helsing reconhece o local, mas não o motivo para tanto cenário. Havia um símbolo encobrindo o brasão no frontispício, mas não era algo discernível.

– Nós estamos em uma “loja” da Sociedade Thule, senhor Van Helsing. Mas, por gentileza, permitam-me que eu conduza a conversação. Esse pessoal… é nervoso e agitado. Assim como os senhores, eles possuem um destacamento militar a serviço deles, então para que todos nós possamos voltar às pernas de nossas mulheres, eu lhes peço que deixem a conversação comigo.

Fácil falar, difícil fazer. Corso estava a beira de um ataque de nervos. Nós três éramos os únicos “civis” entre dois destacamentos militares. Eu quase sou contaminado com essa paranoia, pois eu me vejo reparando na diferença entre os uniformes. Se estivéssemos em área de conflito, isso é normal, mas nós estamos, supostamente, na Alemanha pacificada e, teoricamente, são soldados a serviço da mesma pátria. O capitão está visivelmente nervoso e não é mera questão de patente, seu interlocutor é outro capitão, o que os diferencia é um minúsculo símbolo bordado no uniforme, como se aquele capitão pertencesse a algum tipo de elite.

– Está tudo certo. Nós podemos entrar. Mas em caso de dúvida ou pergunta, façam para mim.

Eu praticamente tive que arrastar Corso para passarmos pela coluna de soldados com fuzis e metralhadoras em punho, com expressões pouco amigáveis. Dentro do saguão principal do castelo, mais gente uniformizada, portando uma patente que indica alguma divisão especial, aparentemente burocrática e igualmente científica, uma condição esquisita para o meio militar.

– Tenente Haushofer, eu trouxe os especialistas indicados pelo duque.

O oficial tinha uma aparência mais envelhecida do que Van Helsing e seu comportamento era similar ao duque, medindo dos pés à cabeça seu subordinado como se fosse uma criatura inferior e dispensou um olhar com maior desprezo ainda para nós.

– Civis. Acadêmicos. Nós devemos estar desesperados. Senhores, eu vou dispensar o menor tempo possível da presença nefasta dos senhores. Agradeçam aos meus superiores por eu ter lhes concedido o meu precioso tempo. Eu vou até lhes dispensar do questionário de praxe. Apenas me sigam e avaliem o artefato. Depois sumam.

Corso passou de lívido a raivoso, Van Helsing fez aquela expressão submissa que lhe é típico como serviçal da Igreja. Eu sigo com a farsa. Há tempos que eu decidi que a única opinião que importa sobre mim, é a minha mesma. Passamos do saguão a um largo corredor e deste a uma bela sala repleta de livros, mesas, equipamentos e o restante do pessoal da Sociedade Thule, vestidos com uniformes de laboratório completo, com luvas, máscaras, respiradores. No centro deles, hermeticamente fechada em um vidro, o que nossos anfitriões acreditam ser a lança Longinus.

– Oh! Isso é… incrível!

Van Helsing estava visivelmente empolgado e estava perigosamente próximo do artefato. Corso ficava pouco atrás, mais cético. Eu nem precisei olhar de perto. A lança era muito bem feita, certamente é antiga, mas não é Longinus, no máximo é uma lança do tempo carolíngio. O tenente estava com uma pistola pronta para disparar contra Van Helsing, enquanto ambos os capitães tentavam evitar o pior. Um tiro ali seria um massacre e isso não cairia muito bem, nem para a aristocracia decadente, nem para os republicanos em ascensão. Felizmente o bom senso prevaleceu e Van Helsing teve que se contentar em olhar de longe.

– Senhores, eu esperava mais profissionalismo. Se não fosse parte do plano do Führer, eu pessoalmente os mataria a todos. Vamos ao que interessa. O quanto mais cedo eu limpar o ambiente de suas pestilentas presenças, melhor. Esta é a Longinus?

Van Helsing balbuciava algo ininteligível enquanto balançava a cabeça e babava pela boca. Corso olhou o mais perto que nos permitia e nem cogitou em pedir para examinar mais detalhadamente. Corso olhou para mim, como se quisesse meu apoio sobre suas suspeitas, mas a minha expressão estava bem evidente para o tenente.

– Francamente… eu não esperava muita coisa dos lacaios da Igreja, seja esta a Católica ou a Protestante. Diga, bruxo, sem delongas, enigmas ou eufemismos. Qual o seu parecer?

– Tenente, esta lança é evidentemente antiga, mas eu a colocaria na época do reino carolíngio.

– Como eu suspeitava. Capitão, pode retirar esses lixos civis e acadêmicos de minha nobre loja. Leve seus soldados também. Ah, sim! Eu gostaria de alguns minutos com o bruxo. Assunto particular.

Meus parceiros de missão ensaiam um protesto, mas diante de tantos soldados, armas e clima beligerante, desistiram rapidamente e seguiram escoltados para fora do castelo, de volta à boleia do caminhão. Os demais presentes dispersaram rapidamente assim que o tenente estalou seus dedos.

– Meu caro bruxo, eu quase nutro simpatia por você. Sua reputação o precede, em muitos termos e eu quase sinto um pingo de inveja e ciúme. Ao menos, o senhor tem um conhecimento razoavelmente abrangente e deve ter percebido que essa busca pelos artefatos tenha algum outro proposito. Eu posso te responder, se me responder, se é monarquista ou republicano.

– Contanto que não use sua pistola…

– Francamente, bruxo… faz pouco de minha pessoa.

– Tenente, por hábito e por circunstâncias, eu sou obrigado a reconhecer sua patente e posição. Assim como a do capitão, a do duque e a do atual presidente. Dentro das atuais circunstâncias, vocês estão imbuídos com algum poder. Mas o poder que vocês portam não lhes pertence, nem é permanente. Eu, tenente, somente obedeço a Fonte, o Poder.

– Exatamente o que eu ouvi falar. Eu não espero que compreenda ou aceite, bruxo, mas nós estamos a alguns passos de conceder à humanidade o Poder. Nós vamos instaurar uma Nova Ordem Mundial e nós daremos início à Era do Super-Homem. Eu sei que posso contar com sua discrição, bruxo. Nós vamos tornar o ser humano em ser divino. Agora vá. Eu sei que você irá encontrar o que queremos e precisamos.

O capitão suspirou aliviado ao me ver de volta e até me ajudou a embarcar no camburão. Meus parceiros de missão estavam emburrados e cabisbaixos. Abafado pela pesada lona que nos separava da cabine, o capitão nos comunicou que nossa próxima parada é Viena. Excelente. Mais dez horas de viagem. Eu não creio que cantorias irão melhorar os ânimos.