Puta Ontológica

[Série Política Esquizotrans]

Havia de ter algum lugar onde se justificasse a existência desse ser para o sexo. Encontro Madalena em todo seu apedrejamento e seu perdão, encontro Pomba Gira em suas sete versões, suas sete saias e seus sete maridos, encontro Afrodite com sua belicosidade e sua sedução.

por: Hilan Bensusan , Fabiane Borges
Le Monde Diplomatique, 9 de janeiro de 2009.

Ela disse: “Eu sou puta, tu é só uma ameaça, um arremedo”.

“Tu quer reivindicar o nome puta só pra ti porque não admites outras nuances que fogem da tua experiência”, eu disse.

As vezes eu acho que ela sabe que sou melhor puta que ela, por isso me faz sofrer mais do que as outras, porque quer que eu tenha noção de companheirismo, sentimento de classe. Me acha individualista e extravagante. Uma puta inconsciente de toda humilhação histórica das mulheres e mais ainda das prostitutas.

“Eu vejo tudo isso, tu me subestima”, eu disse, “só que não sou autopiedosa, não tenho pena de ninguém, e associação pra mim funciona por sincronia e não pelo velho esquema de organização de classe. Sou puta cult. Eu quase parei de me chamar de puta pela tua histeria, tu quase me convenceu que não tenho talento, mas vou te dizer a verdade, tenho muito talento e nenhum princípio”.

Às vezes, bêbada, contavas-me histórias de solidão que me fizeram sofrer muito por ti. Abortos em banheiros de botecos vagabundos, cheios de homens gritando teu nome na porta de fora, rindo de ti, muitos sabendo que podia ser um deles o culpado. Isso era uma piada, acusavam-se entre si, é tu, é tu, enquanto tua barriga doía e tu não morria. Outra vez fostes encontrada quase morta na rua, bexiga arrebentada, hérnia, coluna, gastrite, úlcera, todos teus órgãos rebelaram-se contra tua forma de vida, só outra puta mesmo para te salvar, te levar pra casa, te alimentar, cuidar de ti como talvez tu nunca tenha cuidado de ninguém. Tu têm muitas histórias doídas, por isso te sentes heroína. Por isso pensas que és superior, por isso te negas aprender o que quer que seja. Tu é convencida, o sofrimento te fez vaidosa, tu te acha especial, uma sobrevivente como poucas.

Tu me humilhou naquele dia na frente de todas as outras putas, me dizendo que meu desejo de ser puta não passava de covardia diante do mundo. Que eu tinha outras oportunidades, mas não suportava dificuldades. Que todo esse movimento de quadris que eu tinha desenvolvido e acreditado que era talento não passava de uma fuga do mundo que estava preparado para mim: o mundo das negociações, dos discursos, das articulações políticas e financeiras, do colocar a cara a tapa para ver se eu era competente em outras áreas. Talvez seja uma mistura disso tudo e tu estejas certa. Foi por ser sexualmente livre, mas totalmente sem confiança que desenvolvi um ritmo sexual que enlouqueceu tantos homens, com os quais nunca tive filhos, quase nunca precisei cobrar nada para receber tudo o que eu queria e nunca fiquei mais tempo do que o necessário. Talvez seja porque sou cética, porque não acredito no amor ou melhor, porque acredito tanto no amor que sou capaz de amar tantos quantos eu tiver paciência.

Tu nunca entendeu a ontologia das putas. O desejo ontológico que foge da apreensão de classe, de exploração e mais valia.

Algo de talento e carisma de puta existe em mim, e fico tentando entender que imaginário é esse que se colou na minha nuca para eu achar que não quero saída. Seria uma vontade de ser subalterna, tratada como descartável? Para mim não existe outro caminho mais sedutor que eu poderia recorrer. A vontade de ser puta, de ser sustentada pelo prazer que eu possa ter e dar, dar, dar, de ser livre e nunca ter nenhum cafetão sempre foi alvo da tua inveja. Tu que passastes por tantos caminhos parecidos com os meus, no final te trouxeram desonra. Violência. Tu nunca entendeu a ontologia das putas. O desejo ontológico que foge da apreensão de classe, de exploração e mais valia. Tu nunca foi a fundo nos teus desejos escusos. Tua vontade de ser puta se reduzia a um paradoxo até simples que te excitava, que ficava entre tua formação cristã e tua rebelião contra essa formação. Carregava o signo do que para ti tinha de mais pecaminoso: a prostituição. Tu te utilizavas da prostituição para lutar contra tua culpa cristã que nunca te abandonou. Tu criou um círculo vicioso em torno de ti mesma e cada vez te afundou mais. Já eu, nunca precisei trabalhar com contradição nenhuma, porque não fui criada no pecado, não tive formação de culpa e sempre galopei solta pelos campos onde me exibia desde pequena aos peões, aos pescadores e aos touros bravos.

Tu teve um pai austero, eu não tive pai. Tu teve uma mãe religiosa, eu tive uma mãe louca. Tu teve irmãos mais velhos eu tive só eu e o mundo. Tu tenta me alimentar com tua sabedoria, mas na verdade queres me submeter a doses de culpa e vergonha às avessas para me sentir mais próxima da minha turma. Mas tua turma é a culpa e eu não quero culpa eu quero tu. Tu é a única que podes me entender. Me reconhecestes no bar desde o primeiro dia que me vistes, mesmo que eu estivesse disfarçada de óculos de grau, livro nas mãos, cigarrilha vermelha e pagando minha própria bebida. Tu mandou o garçom me entregar um uísque vagabundo com um bilhetinho dizendo: senta aqui. Como tu adivinhou que eu aceitaria? Tu uma velha feia com um batom vermelho que fugia dos teus lábios e escorriam pelas beiradinhas enrugadas da tua boca. Tu quase me deu pena, mas quando vi teus dedos amarelados de cigarro, os teus dentes escurecidos, te amei. Invejei cada um dos teus traços. Te fiz minha mestra. Te respeitei profundamente para que me ensinasses tudo o que eu não sabia. Te tornastes minha sorte, meu salto, minha mais profunda alegria. Me contavas dos gestos de sedução, cada um deles. Eras pedagógica.

Desenvolvestes um roteiro de olhares, de toques, de beijos, de maneiras de utilizar a língua. Pesquisastes a fundo os pontos de prazer do corpo. Os contos a serem contados no ouvido, os ruídos importantes para o coito. Eras a mestra mais deliciosa. Te enchi de presentes, de perfumes, de roupas de bom gosto, cortei teu cabelo eu mesma e te deixei fashion. Me contavas dos poderes de cada dedo, das cores das unhas e das cancões de ninar.

Nesse tempo, estávamos como apaixonadas, andávamos de mãos dadas no entardecer, atirávamos pedrinhas no mar, tu que colecionava pedras eu só as catava pra ti. A segunda fase foi mais densa. Contavas da violência. Dos tempos difíceis nas ruas das cidades grandes da América Latina. Das drogas pesadas que usavas, das bebedeiras sem fim, dos homens quaisquer que catavas nas ruas desesperada, daquele cafetão que te fodeu a vida, que te roubou, que te deu essa cicatriz na cara que eu gosto tanto, mas que te lembram épocas sofridas. Me contavas o quanto fostes valente ao baleá-lo no joelho, de o ter aleijado e de nunca mais ter voltado à Colômbia. Da paranóia que entrastes por achar que estavas sendo perseguida, que ele mandaria medir o teu caixão, dos dias insones depois de tantas caronas em caminhões, de carroças, do estupro feito por um índio que era da tua mesma longínqua etnia e que te fez entender que minoria não era só afeto e união como costumavas pensar. Das fugas por entre as ilhanas da Amazônia, da beleza de um boto com quem fizestes amor em Novo Airão. Do boto que te fez carinho, que te levou para nadar pelo Rio Negro, que te ensinou a acreditar de novo em mito, e em toda sorte de lenda, que te ativou a fantasia que te devolveu o brilho da pupila. O boto que dizes ser o peixe que ama as putas, ele próprio puta.

Naveguei nas tuas lágrimas vertidas pelo único filho que tivestes, que segundo tu mesma é filho do boto cinza, que deixastes escapar das mãos na inexplicável tempestade que vivestes em um rio cor de láudano. Dos cerca de 50 homens por dia que atendestes no garimpo, que te encheram de ouro, mas que por submergir a sua cultura, gastastes tudo quando chegastes à cidade. Depois teus contos do Porto de Manaus, dos estrangeiros que te pagaram bem, dos que te recuperaram a conta bancária, que te levaram por viagens pelo Atlântico, Mediterrâneo e Pacífico em barcos brancos e limpos. Alguns dos quais ainda te recordas às gargalhadas. Tua mala era cheia de pedras nesse tempo, já que não tiravas fotos. Tocas até hoje as pedras para lembrares que tens história.

Tu me dizias: puta não têm essência. Isso me frustrava. De algum modo grudei em ti para que me mostrasses a natureza da prostituição.

Hoje és uma cafetina consagrada, as putas do mundo te respeitam e querem ser que nem tu, eu quero ser que nem tu e vou ser, porque colei tuas manias no colar de pedras que escondi num lugar de guardar segredos, pedras que roubei de ti. Com esse colar imagino governar a casa especial que abristes que abriga tantas putas de tantas diversidades de cores e línguas. Te irritas comigo porque nunca quis ser uma das tuas putas. Não aceitei teu convite porque sou empresária do meu próprio corpo e não suporto chefes. Tu só podes ser minha mestre por minha escolha, mas a qualquer sinal de submissão às tuas ordens, te desobedeceria por pura impaciência de ser mandada. O melhor de ti está no copo, quando me falas taquílala, da coleção de toques que ensinas para tuas putas, das mulheres incríveis que tivestes como freguesas com as quais aprendestes a fazer amor lésbico com quem quer que seja. Tu me dizias: puta não têm essência. Isso me frustrava. De algum modo grudei em ti para que me mostrasses a natureza da prostituição. Havia de ter algum lugar onde se justificasse a existência desse ser para o sexo. Encontro Madalena em todo seu apedrejamento e seu perdão, encontro Pomba Gira em suas sete versões, suas sete saias e seus sete maridos, encontro Afrodite com sua belicosidade e sua sedução, mas daí não conseguia pensar a relação disso tudo com o capital. A barganha, a moeda de trocas.

Tu me confundia, me confundes. Tu costumavas me chamar de careta quando te perguntava como funcionava teu argumento pró-prostituição diante do movimento anti-capitalista, dizias: prostituta existe em qualquer sistema, comunista, capitalista e qualquer outro. Fizeste eu entender que as putas estão entre as coisas, os sistemas, os poderes. As putas não tem nacionalidade e tão pouco gostam de guerra, elas estão entre as coisas, entre os bares, entre os partidos políticos, entre as guerras. Não porque as putas não tem senso de política, mas porque não vêem sentido de demarcar de forma truculenta nem os corpos nem os territórios. Por isso a violência, o estupro e a violação a uma puta é sempre demonstração gratuita de um ódio a liberdade, porque se tens acesso ao corpo não precisas tomá-lo à força por pura idiossincrasia territorialista, é um dos outros terríveis paradoxos – território, posse, invasão, destruição, morte na cruza com o corpo.

A violação a uma puta é sempre menos inteligível apesar de se equivaler no horror a qualquer ser violado. A puta opera num entre a vontade de propriedade e poder e a vontade de nomadismo e liberdade, ela sustenta o paradoxo na sua prática diária sem defender nenhuma ideologia. É o ente do entre, doente de civilização, mas de modo nenhum sua doença. A entrada na prostituição é uma aclimatização e não uma escolha. Uma escola e não má educação.

Diante dessas descobertas sobre ti, sobre mim e todas as outras, me encheste a cara com tua baforada e me repetiste: careta! Como tu é careta!!! De novo em busca da essência e todas essas qualificações que grudam em mim. Tira essas idéias de cima de mim, parece discurso abolicionista ao contrário. Tirar a idéia de decadência, de doença da civilização, da sensação de morte que carrega a puta é tirar seu echarpe, seu óculos escuro, seu charme. Não há nada de problemático no flerte da puta com a imundície e devassidão, tu dizias. O que está errado é esse amor ao plástico e às plásticas, na cara ou no museu. É o horror à vida sem ideal, o medo de perder o grande sentido da riqueza, da idéia e da limpeza. Uma coisa tá atrelada à outra. Ninguém nasceu pra ser puta, nem bancária, nem empresária. Todas essas escolhas são alinhavos, aconchavos, suturas, repetições dentro de um contexto maior que não se restringe econômico mas está cheio dele. Não se restringe às territorializações, mas está cheia delas, não se reduz a sobrevivência da mulher ou do michê, mas tá cheio disso também. Não vais encontrar essências, vais encontrar linhas de contato, algumas que fazem gozar. Sim, eu entendia, mas faltava dados.

Chegamos a conclusão que ser puta é um clima, um jogo de palavras, uma necessidade, um estado passível de ser acionado, atualizado, upload, devir, uma radicalidade.

A ontologia que eu falava era sem cabimento, você não captou minha busca pela ontologia da puta, eu disse, e me coloca essas ataduras todas para me atazanar a vida, sua puta! Porque tu é puta? Como tu é puta? Para que? Eu perguntei a ela, já frustrada com minha própria insistência e com a sensação de ineficiência por não conseguir garantir um lugar para mim na mitologia, na ancestralidade. Gueixas, me ajudem! Quem as fez gueixas? Foram os homens sedentos de mulheres fáceis e sem moral? Foram vocês que se mostraram sedentas? Há uma dose de enlouquecimento nessas aclimatizações, eu dizia a essa puta velha na minha frente que achava minhas histórias ingênuas e de pouca relevância.

Perto das suas experiências, todas minhas dúvidas e experiências eram por demais infantis, burguesas e até saudáveis. A aclimatização primeiro eu dizia, seguida de profunda imersão, depois as conseqüências, as marcas, e por vezes completo afogamento, quando perdes a vez da saída, ou quando te faltam senhas para a fuga. Mas é sempre o outro que te diz o que tu significa, seja com gestos, palavras, acolhimentos ou rejeições.

Em última instância, puta é só palavra eu dizia. Ela dizia, puta é palavra abusada de sentido, que escarifica o corpo, mas também é reconhecimento. Sim, porque quando te tornas puta, estás num rio lotado de putas, e nem todas têm tempo para essa elaboração toda. Eu sei, eu disse, às vezes me sinto mal por não ser suficientemente prostituída, e fico com essa imagem de puta mito. É como se eu não tivesse mundo. Mas aí tocas num ponto muito interessante, dissestes: a puta é alguém que cola no mundo alheio, é uma parasita, uma sanguessuga, uma chupa cabra, ela se alimenta da diversidade de mundos, estar antenada no corpo do outro para viver suas fantasias, é trabalho árduo, trabalho de feiticeira, tem que estar atenta ao desejo alheio com o fim de sustentar essa fantasia, e tem mais, de garantir liberdade para o cliente para não construir um ambiente de repressão, se fazes isso muitas vezes por dia, isso se torna muito fácil, essa leitura do corpo.

Então trata-se sempre de aclimatização, eu repeti, ela disse sim, e de muita paciência. Chegamos a conclusão que ser puta é um clima, um jogo de palavras, uma necessidade, um estado passível de ser acionado, atualizado, upload, devir, uma radicalidade. Esse clima, no entanto, é sempre cercado de preconceito, o olhar sobre a puta é o que mantém esse isolamento ideológico tantas vezes atrelado a violência.

Sorris quando falas que por mais arriscado que seja trabalhar nas ruas, existe uma relação que se estabelece com o espaço urbano, com os bares, hotéis, polícia, traficantes, turistas que é riquíssimo, cheio de relações e vizinhanças, enquanto dentro de uma casa de prostituição evidencia-se mais fortemente as hierarquias, os horários, as funções são mais prescritas. Liberdade ou segurança? Uma certa loucura da puta na rua. Eu tenho medo das drogas, dissestes. Depois de quatro vezes no pronto socorro com princípio de overdose por excesso de cocaína, fiquei ressabiada. Muita droga, muita bebida, muita inconsciência, muita destruição. Sonho com uma prostituição mais limpa agora, apesar de ter certeza que isso é um desserviço para a base experimental do ser humano que se dedica as práticas do sexo profissional. Ahahah, eu gargalhei, tu realmente acredita que prostituta é uma profissional? Ela disse que sim porque tudo que existia dizia respeito a especialização, e se as putas não exigissem esse direito, alguém o reivindicaria, como as travestis prostitutas.

Daí tocamos num assunto caro para ela, as marcas que trazia nos braços e nas costas em função das brigas por território urbano entre elas putas e as travestis em quase todas as grandes cidades que morou. Aquelas travecas unem-se e nos expulsam aos pontapés das ruas que tradicionalmente sempre foram nossas. Essas brigas já colocaram muita gente no hospital, ela disse. Mas eu sou faca na bota, eu remexo minha bolsa que sempre carrega uma pedra aguda, sabes bem, comigo não tem dessa de repressão gratuita. Se bem que uma das minhas melhores amigas é travesti, e eu já ensinei muitas dessas bixonas a mexerem bem o rabo, do jeitinho que eu gosto, porque afinal peito junto com pau é uma conjunção cósmica, para isso sim tu vai achar bastante mitologia, peitos são sagrados! E terminou o assunto por aí mesmo.

Sempre há saída, seja pelo riso, seja pelo esquecimento. Dissestes.

Eu disse: afinal se puta não tem ontologia, pelo menos deve ter alguma ética. Ética pra mim, dissestes é meter o braço no cú do marido das outras, mas se se meterem com macho meu, bolsa-de-pedra na cabeça. Dei um sorriso assustado e falei, mas que ética é essa? Não existe nenhuma concessão à coerência? Coerência é papo de político fia, é conversa dos defensores do trabalho, família e propriedade, com a gente não tem nada dessas coisas não. Defender coerência é defender o indefensável. Essa busca de ética sua é de novo busca de essência, puta não tem essência, já te disse. Mas existe uma coisa que não é bem prostituição e nem tão pouco coerência com o desejo sexual. É um entregar-se aleatório para qualquer figura que se encontra na noite, na boate, um vício de trepar e como isso é insustentável, exige gastos com bebidas e drogas, acaba-se de algum modo cobrando-se para isso, nem que seja o direito à consumação. Essa é uma das entradas possíveis, dissestes, têm muitas outras. Muitas. De qualquer jeito não é possível separar essas entradas em categorias de classes sociais ou culturais.

O lance é muito mais sujo e bastante óbvio. Quando a mulher reclama que foi tratada como prostituta, o que ela quer dizer? Suponho que quer dizer que se sentiu usada e que homem trata puta desse jeito. Mas pelo menos elas tem alguém a incorrer, alguma explicação, alguma comparação, algum subsídio subjetivo e cultural que dê conta do sentimento; mas o que falar da puta que se sente assim? Ela vai dizer que o homem tratou ela como puta, ou seja, como ela mesma? E isso por acaso lhe daria algum tipo de conforto? Sempre há saída, seja pelo riso, seja pelo esquecimento. Dissestes.

A flor e o florete – III

Pessoas comuns, para conseguir algo, tem que juntar uma papelada enorme e pagar pelas tarifas dos serviços públicos. Pessoas públicas, investidas de um poder institucional, só precisam verbalizar sua vontade que as moscas voam em volta para providenciar tudo. Tudo mesmo, minha mala estava pronta e arrumada, um coche me aguardava para levar imediatamente ao porto de Santos e lá teria uma fragata britânica à minha disposição para me conduzir a Westeros.

Mas mesmo reis não podem burlar as leis da natureza e da física. Levou um dia para que chegar a Santos e mais oito para eu chegar a Porto Real, Westeros. Ali, na Fortaleza Vermelha, o Senhor das Terras da Tempestade, Robert Baratheon, recebia a coroa dos Sete Reinos e era aclamado rei dos Ândalos, Roinares e Primeiros Homens. Ao seu lado, com o sorriso mais falso do mundo, estava Cersei Baratheon e os três “incidentes”, todos bem crescidos. Isso não me espantou ou me ofendeu, eu conheço bem a natureza humana para cometer tal tolice. Como se fosse a coisa mais frugal do mundo, o novo senhor absoluto de Westeros interrompe a coroação para me saudar.

– Ora, mas que grata aparição! Eu não esperava que o Reino da Ibéria teria a gentileza de enviar um emissário para minha coroação.

– Eu quem devo estar lisonjeado por estar em vossa presença, majestade. Muito embora minha presença aqui não seja uma cortesia oficial de Don Vasques, Imperador da Ibéria. Eu sequer posso considerar-me um emissário do bom rei de Portugal, Dom João Terceiro.

– Pois que seja por suas pernas mesmo, se não viestes por convite do rei da Espanha. Senhor Ornellas, nós que somos de nascimento nobre temos que nos reconhecer mutuamente. Seja como meu bom amigo Eddard Stark aqui presente e pode me chamar de Bob.

– Senhor Ornellas, seja bem vindo à Westeros. Eu tenho conta de que o senhor é um exímio espadachim. Eu gostaria de marcar uma tenta com o senhor, com espadas de madeira, evidente.

– Eu atenderei sua solicitação, senhor Stark, assim que for possível. No momento, os senhores tem uma coroação a concluir.

– Bah, eu estou cansado dessa ladainha. A coroa está em minha cabeça e o cetro em minha mão. Vamos pular para a parte da festa, por favor?

– Ora, ora meu marido e senhor, o que nossos filhos vão pensar? O que nossos parentes, familiares e todos da corte vão pensar? Que somos selvagens?! Oh, não, isso não. Aguente mais um pouco pois este tempo é necessário para os preparativos da festa, querido.

– Oh… meu amor… ah, senhor Ornellas, esta é Cersei. Eu sou o senhor de Westeros, mas ela é a senhora do meu coração.

– Eu estou encantada, senhor Ornellas. Estes são meus filhos: Joffrey, Myrcella e Tommen.

– Eu percebo que serão grandes regentes. Eu sinto o poder fluindo nestas veias.

– Sem dúvida! Mas creia-me, senhor Ornellas, mesmo agora, em meio a tantos convidados que celebram minha coroação, eu sei que muitos secretamente ensejam minha destruição. Assim que esse teatro farsesco terminar, eu gostaria de ter uma prosa contigo.

– Eu tentarei mantê-lo ocupado, Bob, até que se conclua a coroação.

– Heh? Cuidado, senhor Ornellas, pois Eddard pode muito bem querer te empurrar suas filhas para um casamento.

Eu dei meu melhor sorriso amarelo enquanto Robert era arrastado por Cersei de volta ao altar, até diante do sacerdote da Velha Religião. Eddard conduziu-me para junto de seus familiares, apresentou-me para sua esposa Catelyn e seus filhos Robb, Sansa, Arya, Bran e Rickon.

Robert estava perigosamente certo, pois ao lado dos Stark eu podia sentir sombras em conspiração. Eu não era o único mercenário contratado para “resolver” o problema da usurpação do trono, haviam outros iguais a mim, contratados por outras famílias, o que era evidente, pois se Robert chegou ao trono pela força, ele deu espaço para que os outros senhores tentassem o mesmo.

– Você está sentindo também, não é? Parece que mil adagas estão direcionadas ao nosso rei. Eu mesmo posso ser alvo desses mensageiros da morte. Tendo a vida que eu tive, eu sei o final que me aguarda e não tenho medo, mas receio o futuro de meus filhos. Robb está quase como eu, pode muito bem se garantir, mas Bran e Rickon… ainda precisam de amas de leite. Eu nem quero pensar no que pode acontecer com minhas meninas. Então seja sincero, senhor Ornellas… sua presença aqui é para tratar de assuntos… profissionais. Por acaso meu nome ou o de Robert estão em sua lista?

Dizem que um homem condenado e com poucos dias de vida consegue ver tudo com clareza. Eddard Stark não era tolo, fútil ou ingênuo como seu amigo e rei. Ele sente como eu o cheiro de sangue e morte. Outro no lugar dele teria feito um escândalo e tentaria duelar comigo. Mas não Eddard Stark. Ele sabe e aceita sua morte. Ele me acolhe pelos princípios universais da hospitalidade, mesmo suspeitando que eu esteja ali para mata-lo.

– Heh… eu o estou aborrecendo com minhas queixas. Por sua reputação, eu sei que coisa alguma irá te deter. Eu sou capaz de apostar que seus irmãos aqui presentes terão o mesmo destino que o meu. Eu não vou negociar minha vida contigo, senhor Ornellas. Nem do Robert. O que quer que nos aconteça, foi merecido. Mas se ainda há algo de humano no senhor, poupe meus filhos. Ou melhor, olhe por eles, ou pelo menos olhe por minhas meninas.

Eddard teve o vislumbre do panorama, mas não deve ter visto que Bran tem a proteção de um espírito animal. Rickon tem uma coroa em seu futuro, o que confirma o destino selado de Eddard. Eu olho as meninas. Sansa é o centro das atenções dos homens no saguão e eu não os posso censurar, Sansa transparece que atingiu a idade núbil. Arya é quem capta minha atenção. Ela carrega dentro dela uma alma antiga e terá uma longa jornada até que atinja sua maturidade física. Sansa não me agrada nem um pouco. Seu físico é maravilhoso para as mentes comuns, mas ali eu não vejo conteúdo algum. Arya é seu exato oposto. Os homens a temem por que ela é guerreira, mas seu interior é macio e suculento como uma fruta pronta para ser colhida.

– Senhor Stark, por razões do ofício eu não posso negar ou afirmar qual é minha missão aqui, nem indicar meus contratantes. Assim como o senhor, eu sou prisioneiro do Destino e da Fortuna, assim como o senhor eu sigo o fluxo do melhor jeito possível. Mas o senhor está correto quanto a conspirações e sombras que se movem traiçoeiramente. Eu corro tanto risco quanto o senhor. Eu diria até mais, pois eu sou estrangeiro e muitos devem estar com as mãos formigando para me desafiarem, em busca de recompensa ou de notoriedade. Eu não posso fazer coisa alguma a respeito dos eventos que se fecharão, mas seus filhos não estão em risco. Suas meninas também não, embora tenham uma longa estrada para percorrerem, cheia de sofrimento e obstáculos. Minha intervenção não se faz necessária, mas eu me agradei de sua filha Arya.

– Arya? O senhor está certo disso? Não prefere Sansa?

– Eu tenho um gosto mais… exigente, senhor Stark.

Eddard piscou duas vezes, incrédulo e superficial como todo homem comum, apesar de seu sangue nobre. Deixou seus filhos brincando com seus lobos, deixou Sansa com seus futuros pretendentes e, com uma formalidade inconveniente, me apresenta para Arya, a única que estava sozinha no meio de tanta gente.

– Ahem… Arya, meu anjo, eu quero te apresentar…

– Ornellas! Senhor Nestor Ornellas! O maior espadachim, bruxo e assassino do mundo! Eu… eu… eu não sei o que dizer… eu sou sua fã!

O pobre Eddard não sabia o que dizer ou fazer. Não é todo dia que sua filha diz na cara de seu convidado o que todo mundo sabe, mas não tem coragem de dizer. Não é todo dia que um pai vê sua filha, desenganada por ser masculina demais, sorrir e abraçar um completo estranho. Que se dane Cersei e meu contrato. Meu objetivo será cuidar de Arya Stark.

– Vamos lá fora! Agora mesmo! O senhor é o único que tem arte e técnica o suficiente para me ensinar algo. E eu estou cansada de bater em meu péssimo professor de esgrima!

Ela me leva pelas mãos, pelo brilho no olhar e pelo sorriso. Meu coração bate acelerado enquanto ela desembainha seu florete e assume a posição de combate.

– Há! Em posição!

Ela tem a leveza e a força certa no pulso e conduz habilmente o florete. Eu deixo ela se mostrar para mim e fico extasiado com seus volteios, seus cabelos curtos acompanhando suas estocadas e seus quadris me enlouquecendo com o espetáculo de suas pernas torneadas por músculos e um bumbum definido.

– Há! Huff! Hiai! Hei! Como eu estou indo, senhor Ornellas?

– Magnífica, senhorita Stark.

– Há! Puff… puff… eu estou fazendo todo o esforço aqui… o senhor vai ficar só na defensiva?

– Senhorita Stark… quer que eu ataque?

– Sim, pelos Deuses Antigos! Deixe-me ver um pouco de sua famigerada técnica! Se conseguir me desarmar, eu te dou um beijo!

Ela mal vê meu manejo, mas seu florete gira furiosamente pelo céu antes de fincar inerte no chão de grama. Eu vejo seu olhar, um olhar que eu vi milhares de vezes, o olhar da alma que antecipa a dor e a morte. Mas minha estocada final não é com o sabre, mas com meus lábios. Eu a envolvo em meus braços e a sinto tremer. Primeiro de medo, depois de prazer.

– A… ah… senhor Ornellas… eu sou uma dama… o que vão pensar? O senhor está colocando em risco minha virtude…

– Que os padres carreguem consigo a virtude. Nós vivemos pela espada, senhorita Stark. O aço é impossível de ser maculado. A senhorita sempre será uma dama.

– Oh, bem… eu fui chamada tantas vezes de dama de ferro… de repente, eu estou gostando da ideia. Eu quero ser a sua dama de ferro, senhor Ornellas.

A flor e o florete – II

Feitas as apresentações, Brás Esteves Leme demonstrou saber mais de mim do que Manuel Borba Gato. Um encontro providencial que não foi mera coincidência, pois Brás Leme era parente de Fernando Leme, sogro de Manuel Borba. Estes contatos serviriam para espalhar meu nome entre seus familiares na Ibéria e outros reinos da Europa.

– Homem, depois desta caminhada, deve estar com sede e fome. Faça-me a gentileza de me acompanhar até meu humilde lar.

O casarão dos Leme imitava com exagero as casas tradicionais, nada convenientes para o clima mais quente e tropical do condado de Vera Cruz, mas adequado para viver na Vila de Piratininga e suas estações confusas. Ao redor, muitas casas com taipa e tijolos perfazia o arraial do que depois seria conhecido como o bairro de Pinheiros.

– Ornellas, o capitão disse… de que parte da Ibéria?

– Saragoça.

– Eh? Contam que lá vivem muitos bruxos e feiticeiros.

– Engraçado… contaram-me a mesma coisa desse condado inteiro.

– Ah, deixemos essas bobagens aos padrecos. O senhor tem algum parente ou familiar habitando nesse condado?

– Eu não creio.

– Isto não convém a um fidalgo. Nós não somos pagãos. Eu faço questão que o senhor seja meu convidado, até estabelecer sua residência.

– Espero não ser inconveniente.

– Bobagens. Nós, patrícios e brasileiros, temos que nos ajudar. Nós estamos cercados de selvagens e eu não estou apenas me referindo aos aborígenes. O capitão contou-me que encontraram com… franceses! Que Deus nos ajude!

– Bom, com estes, não precisará mais ficar preocupado.

– Heh… o capitão contou-me que viu algo sobrenatural.

– O senhor Borba exagerou.

– Mas é verdade que deu cabo de vinte deles só com esta sua bengala?

– Eh… isso eu não posso negar.

– Isso há de ser bom uso pelo capitão governador de São Vicente. Cá estamos em disputa com a Capitania do Rio de Janeiro. O nosso capitão-mor, Rodrigo de Meneses, está em briga com o capitão-mor Martin Afonso de Sousa. Nós até desconfiamos que os cariocas estejam se mancomunando com os aborígenes e os franceses para aumentar seus territórios.

– Eu deixo a política aos políticos, senhor Brás. Eu sou um homem de ação. [eu menti descaradamente]

– Ora, mas certamente é um homem de valor que merece ser reconhecido. O mínimo que posso te oferecer é compartilhar de meu teto. Eu te garanto, nós somos civilizados. Nós ganhamos nosso sustento com lavradores assalariados e a venda de um grão chamado café. Nós não somos como os senhores de engenho do norte, que empregam escravos e vivem da cana de açúcar.

– Algo me diz que estas terras serão em breve mais ricas e mais civilizadas do que todo o condado.

– Pois eu digo mais, senhor Ornellas. Em breve o senhor estará entre os novos ricos e os nobres de papel passado.

Eu fui deixado em uma parte do casarão cujo espaço é mais do que suficiente para duas pessoas, todo mobiliado e com farto suprimento de comida na mesa, constantemente atendida por mulatas que o preocupado Brás teve o cuidado de explicar que eram serviçais pagas. Bom, pagas ou não, eu era constantemente acompanhado e servido também na cama.

O dia seguinte estava agitado e meu anfitrião apareceu afogueado diante da minha porta, como se portasse uma noticia ou um anúncio muito grave.

– Homem, se vista! Tem ideia de quem veio nos visitar?

– O digníssimo senhor capitão-mor de São Vicente?

– Nem chegou perto. Eu mal me aguento nas pernas. Eu avistei uma vez o grão príncipe do condado de Vera Cruz, o rei de Portugal e isto foi um feito que eu irei contar a meus netos. Eu tenho em mora que o senhor conhece a duquesa de Varennes. Pois cá te digo que eu estou com alguém ainda maior e mais importante bem diante de meus pórticos e exige conversar contigo.

– Senhor Brás, eu não sou bom em enigmas. E eu não conheço majestade maior do que a duquesa de Varennes.

– Ora, pois, que isto é teu coração que fala. Venha, homem, sem demora.

As mulheres se levantam e saem pelos fundos, para evitar serem flagradas em pouca roupa e saindo da casa de um homem estrangeiro. Eu faço o que posso para aprumar minhas roupas enquanto meu anfitrião apressa meu passo até o saguão central de seu casarão. Assim que eu entrei no local, eu senti o clima pesado, soldados em armaduras guarneciam todas as portas daquela sala e não eram amistosos. No centro de tudo, refestelada em uma poltrona ricamente decorada, uma mulher de origem anglo-saxônica transparecia em sua expressão sua impaciência.

– Com licença, vossa majestade… eu vos trouxe o fidalgo que vossa alteza deseja travar um concílio.

– Até que enfim. Podeis vos aproximar.

– Vossa majestade, eu vos apresento…

– Nestor Ornellas. Nascido de Saragoça, filho da nobre família de Ornellas, primos da Casa Real da Espanha, Aragão e Castela.

– Definitivamente, o senhor corresponde com a reputação que lhe precede, senhor Ornellas. Senhor Brás, nós temos assuntos de ordem real, ordens de segurança do Reino de Westeros a tratar com esse nobre senhor. Por favor, nos deixe a sós.

– Claro… vossa majestade… eu estou às vossas ordens.

Meu pobre anfitrião, acostumado demais com os nobres de papel, destoa completamente do protocolo adequado com verdadeiros aristocratas. Os soldados saem juntamente com ele e fazem questão de trancar as portas.

– Senhor Ornellas, sem muitas delongas, eu sou Cersei Baratheon, rainha das Terras da Tempestade. Eu tenho muitos conhecidos meus e parentes que falaram muito bem de sua pessoa, embora eu achasse estranho como eles sussurravam seu nome em meus ouvidos, como se temessem algum castigo divino.

– Eu agradeço vossas palavras, vossa majestade, eu me sinto lisonjeado e honrado por vós saber de minha pequena existência.

– Oh, por favor, Nestor! Nós dois somos nobres de direito e nascença, forjados pelo fogo e pelo aço. Cersei, apenas.

– Ainda assim é um elogio ter meu nome sendo proferido por estes lábios, Cersei.

– Também me avisaram de sua língua de mel, Nestor. Mas eu sou uma rainha justa. Se me ajudar em meu plano, eu posso lhe providenciar ricos presentes que superam em sabor este corpo envelhecido.

– Pois eu sou um bom apreciador de vinho, Cersei e você sabe que o melhor vinho é o que tem um corpo envelhecido.

– Oh, por favor, pare! Eu estou bastante encrencada exatamente por ser uma mulher sexualmente ativa, então não me provoque.

– Eu imagino que minha ajuda seja para remover quaisquer acidentes que possam revelar que você andou coroando outras cabeças.

– Precisamente, meu justiceiro. No momento, meu marido cornudo está em campanha contra os Targaryen, levando consigo seus cães, os Stark. Nesse momento, nesse exato e precioso momento, eu fiquei sabendo estar grávida… de meu próprio irmão.

– Cersei, eu não conheço os meandres da corte de Westeros, mas este tipo de “deslize” nunca constituiu um problema muito sério nas cortes européias.

– E eu não teria a satisfação de conhecê-lo. Mas Robert Baratheon tem andado na companhia de monges que o tem açodado com ideias de pecado e castidade. Eu te digo que eu gargalhei muito quando eu vi aqueles semblantes sérios, porém hipócritas, falando em moral e bons costumes.

– O que eu posso fazer por ti, além de preencher mais teu ventre?

– Oh… meus futuros herdeiros compreenderão a necessidade de sua futura mãe. Para que eles sejam reis e rainhas, eu terei que remover dois obstáculos: Robert Baratheon e Eddard Stark.

A flor e o florete – I

O leitor não deve tentar ler ou entender minhas narrativas de forma linear. Por limitações dessa plataforma, eu ainda tenho que utilizar palavras comuns e apenas o básico de uma redação, o que é frustrante. Mas eu deixei várias pistas de que a existência transcorre em uma espiral, então em termos cósmicos é ridículo falar em ontem, hoje, amanhã, em encarnações passadas ou futuras. Na visão do todo, do pleno, essa realidade é apenas uma de muitas bolhas.

Os cinco primeiros minutos do desencarne são desagradáveis e seguem um processo inverso ao encarne. Quando o seu verdadeiro eu toma uma forma física, ou melhor dizendo, quando sua alma é envasada em seu corpo, a sensação é de nojo, mas isso pode ser facilmente superado. Quando o corpo sucumbe e a alma ainda está presa a essa falsa noção e imagem de personalidade que formamos para sermos funcionais no mundo material, o ego, a sensação do desencarne é a mesma quando esfolamos o nosso couro.

A última imagem que eu tenho é de ver Rei Ayanami, absolutamente bela e sorridente, em sua forma de Lilith, abraçada com Shinji Ikari, em sua forma de Adama. A dor que eu sentia no coração não foi nada comparada com a dor do desencarne, a Deusa tinha outros planos para minha existência e o único propósito do meu ser é servir aos Deuses, mesmo que isso seja dolorido, confuso e ingrato.

Quando eu dei por mim novamente, eu me encontrei em outro evento, em outro tempo, em outra dimensão. Algo que eu fui aprendendo e descobrindo aos poucos é que nós renascemos diversas vezes e a alma sempre leva algum tempo até se acostumar com outro corpo e ter consciência de si mesma. Então por prática, eu primeiro reconheço as condições do corpo em que eu me encontro e percebo que sua condição física é desfavorável, idade estimada de vinte anos. Segundo: reconhecer o local onde esta encarnação está ocorrendo. O corpo hospedeiro está preso a uma pesada canga que fecha meus pulsos e pescoço, meus pés estão acorrentados em pesadas correntes, fixadas em um chão de madeira. O ambiente circundante confirma que meu hospedeiro está em uma prisão que, por ser inteiramente feita de madeira, indica o fato de que eu estou prisioneiro em um navio. O problema no despertar é que geralmente se ignora completamente o histórico anterior de seu hospedeiro e, pelo cenário ao meu redor, eu imagino que “eu” devo ter feito algo muito grave e o prognóstico é que meu hospedeiro deve estar em risco de vida.

O terceiro passo não é muito agradável para ser visto, pois é quando a alma toma conta do corpo e o inflama com a energia do espírito que é meu verdadeiro eu. O corpo frágil, magro e fraco toma a forma que a alma, o espírito lhe concede. A pesada canga se parte em pedaços assim que eu retomo minha musculatura e envergadura. Eu parto as correntes que prende meus pés com meus dentes. Essa é a parte fácil. Este deve ser um navio militar de onde o país proprietário deve enviar seus presos ou para o desgredo, ou para a execução. Eu devo medir corretamente minha força para não estourar o navio e deixar ao menos sobreviventes para que eu chegue a algum porto. Três por cento devem ser o suficiente.

– Alerta! Alerta! Prisioneiro está tentando escapar! Alerta!

Dois soldados na porta caem primeiro. Eu não reconheço os uniformes, mas parece pertencer ao período da monarquia, algo entre 1500 ou 1600. Sinos trovejam e não demora muito para que o corredor apertado fique cheio de mais soldados. Eu conto vinte, até o momento. As armas confirmam que eu estou em algum momento no período medieval tardio, quando começou a colonização do “Novo Mundo”. Pobres coitados, não tem chance, com armaduras pesadas e espadas que mais servem como machado. Minha mão atravessa a carapaça de aço e a malha de ferro como se fossem feitas de papel.

– Alerta! Prisioneiro armado e perigoso! Tragam os trabucos!

Eu reconheço os trabucos, rifles primitivos, um pedaço de madeira fixado porcamente em um canil de ferro batido, municiado com um pelote de chumbo que é projetado por pólvora, mal feita e mal colocada em uma câmera feita também de ferro batido, pólvora que é disparada por um cordame de algodão ou um disparador. Não é nem um pouco eficiente para uma guerra entre humanos, muito menos para me combater.

– Cessar fogo! Chamem o capitão! Vamos nos render!

Os tripulantes do navio são espertos, sua capitulação custou apenas a vida de trinta deles. Do meio dos soldados apareceu o capitão.

– Gentil senhor, por que ataca meus homens?

– No meu ponto de vista, eu estava me defendendo.

– Oh, que tragédia. Por um mal entendido, trinta vidas foram ceifadas. Meu bom homem, eu estou confuso e aturdido. O senhor é evidente um fidalgo, não deveria sequer estar à bordo deste navio funesto. Nossas instalações são para prisioneiros condenados por El Rei de Espanha e Portugal do Reino de Ibéria.

– Qual o destino final desta nau?

– Nós vamos para Southerly, uma larga porção de território situado a sudoeste, além do oceano, onde o Reino da Ibéria tem colônias.

Neste mundo, Espanha e Portugal fazem parte do mesmo Reino, que está em competição com os demais reinos europeus, nos quais Westeros está incluído. Pelo capricho da Deusa, eu reencarnei dentro do universo da obra de George Martin.

– Eu posso contar com a colaboração dos senhores para que eu chegue até o porto mais próximo?

– Eu faço questão que o senhor desfrute de nossa hospedagem em minha cabine pessoal. Nós podemos desembarcar o senhor no porto de santos, antes de nossa parada na Guanabara.

Eu desembarquei junto com alguns degredados em um cais até que bem construído, mas menor do que o porto principal na enseada da Guanabara e mesmo este porto era o segundo depois da Baía de Todos os Santos. O porto tinha muita gente e muitos fardos de mercadorias e os donos de estaleiros sempre precisavam de braços extras, onde muitos degredados encerram sua sina. Eu segui até o armazém central, onde comerciantes e aradores discutem o preço das mercadorias, em meio a cidadãos comuns, nobres e aborígenes aculturados. Ali eu encontrei com tropeiros que se diziam bandeirantes que iriam até a Vila do Piratininga, no Condado de Vera Cruz.

– Então, fidalgo, acha que consegue nos acompanhar serra acima? São quatro dias de caminhada em mata fechada, com muitos bichos e aborígenes nem um pouco amistosos.

– Senhor Borba, se o senhor me permite a pouca modéstia, os senhores subirão com mais sossego comigo neste comboio.

– Com a breca! Eu estou espantado. Raro é o fidalgo que mostra tamanha coragem e disposição. Vasques! Ceda um de nossos gibões de couro ao fidalgo. O senhor tem um facão ou espada?

– Creia-me, senhor Borba, esta bengala em minhas mãos é mais mortal do que uma espada ou facão.

– Ora, pois, vamos! As carroças estão cheias e os habitantes da Vila do Piratininga carecem receber suas mercadorias.

Eu pude ver nesta encarnação a beleza natural da Mata Atlântica, quando esta ainda dominava o cenário. Os animais e homens selvagens não causaram problemas, mas tivemos o desprazer de encontrar com colonos franceses, vindo da Guanabara, em busca de expandir seus domínios. Os bandeirantes emudeceram pelo resto da jornada, depois que eu demonstrei minha técnica fatal com a bengala.

– Eh, isto é algo que eu jamais vi e olha que eu estive em guerras, fidalgo. Onde aprendeu essa feitiçaria?

– Aqui e ali, senhor Borba. Mas eu te confesso um segredo. Esta bengala é feita de aço reforçado.

– Ainda assim é espantoso. Tal arte será muito cobiçada pelos barões que vivem na Vila do Piratininga.

– Eu posso contar com o senhor para apresentar-me a tais barões?

– Creia-me, senhor, quando chegarmos sua reputação irá lhe preceder.

Efetivamente, assim que chegamos nas bordas da vila, nós fomos recebidos pelos jesuítas que entoavam algo como se fosse um exorcismo diante de minha chegada. Muitos curiosos olhavam de soslaio, os homens debaixo de seus chapéus de palha e as mulheres atrás de seus leques, desviavam o olhar. De trás da população surgiu um homem abastado que tratou de desfazer tal pobre encenação.

– Mas por Deus! Não é assim que se recebe um fidalgo. O que nossos patrícios vão pensar de nós? Nós não somos incultos, meu caro senhor.

– Saudações, fidalgo Brás Esteves Leme. Que o bom Deus o guarde e o abençoe. Poupou-nos de constrangimento diante desses padrecos. Eu quero lhe apresentar outro fidalgo. Este é Nestor Ornellas.

No universo de George Martin eu tenho o mesmo nome de meu pseudônimo, ou personagem, de minhas aventuras com a duquesa de Varenne.

Gênero e sexo são construções sociais

Original: Azmina.

Autora: Nana Queiroz.

[A Nana é autora do livro “Presos que Menstruam” e roteirista do filme de mesmo
nome que está em produção (e querendo virar série). Ela também é criadora do
protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. Entrou nas listas de mulheres mais
destacadas de 2014 do UOL, Brasil Post e do think tank feminista Think Olga.
Como jornalista, trabalhou nas revistas Época, Galileu, Criativa e Veja, além
dos jornais Correio Braziliense e Metro. No ativismo, foi media campaigner da
Avaaz. É bacharel em jornalismo pela USP e especialista em Relações
Internacionais pela UnB.]

O pensamento da bióloga americana Anne Fausto-Sterlling, autora do polêmico e celebrado artigo “Os cinco sexos”, está na vanguarda absoluta tanto da medicina quanto das ciências sociais. Mas como seria possível uma coisa dessas? É que Anne sugere que antiga divisão absoluta que fazíamos de gênero (uma construção social sobre o que significa ser mulher ou homem) e sexo (características biológicas do corpo) está ultrapassada. E que as ciências biológicas e sociais têm que começar a trabalhar juntas para pensar o conceito sexo/gênero, como duas coisas inseparáveis, faces da mesma moeda.

Essa ideia é principalmente inspirada na análise que Anne faz das pessoas intersexo (antigamente chamadas hermafroditas) e como os médicos têm pressa em adequar seus corpos cirurgicamente, ainda bebês, às identidades de gênero consideradas aceitáveis em uma determinada cultura, mesmo que essas pessoas sejam perfeitamente saudáveis como a natureza os fez. Não seria esse um indício de que até a biologia se curva a um conceito artificialmente criado de que só existem dois sexos na natureza, um masculino e um feminino?

Conheça mais sobre o ponto de vista de Anne no bate-papo que ela teve com AzMina.

Em seus livros você argumenta que também existe muito de construção social na atribuição do sexo biológico, assim como há no gênero. Devíamos, então, em sua opinião, abolir de vez a divisão e dizer que o que existe é apenas o sexo e o sexo já imbute conceitos socialmente construídos?

Essa é uma pergunta difícil. Eu tendo a mesclar os conceitos, mas não da maneira que você sugeriu. Em meu livro mais recente (Sex/Gender: Biology in a Social World – Sexo/Gênero: Biologia em um Mundo Social), eu combinei os termos para criar o conceito sexo/gênero. Cada um deles é um dos lados de uma mesma moeda. Não conseguiremos separar uma coisa da outra, elas estão interligadas. Em qual devemos focar nossas atenções? Depende do contexto.

Deveríamos deixar de falar de gênero e de sexo para que eles deixem de importar na hora de criar desigualdades?

Não. Criei o conceito dos cincos sexos (para se referir aos genótipos XX, XY, XXY, XXX e XYY) de maneira irônica, para que nós paremos de pensar de maneira binária (como se só existissem homens e mulheres), mas não acho que devamos deixar de buscar palavras para falar de sexos. Não podemos fazer os gêneros desaparecerem simplesmente fingindo que eles não existem.

Então, como a linguagem pode se adaptar para ser mais inclusiva?

Não há uma solução única, é preciso considerar cada contexto individualmente. Acredito que se estivermos falando sobre diferenças de salários, por exemplo, podemos até tentar igualar o discurso, mas precisaremos de categorias para medir a desigualdade. O mesmo problema se passa com a raça. Vemos que existe injustiça racial, mas para medir o tamanho dessa desigualdade, temos falar dela, encontrar onde está concentrada, mesmo que isso signifique usar categorias que não existem, na realidade, na biologia, e sejam apenas construções sociais.

A linguagem que usamos tem que ser específica ao conteúdo de que estamos falando. Em alguns casos fará sentido falar de gênero (ou raça), em outros, esses conceitos devem ser evitados.

Como podemos falar de pessoas intersexo sem cair na “abordagem do bizarro” que se dá ao tema, com respeito e aceitação?

Temos que falar da frequência em que isso ocorre e relacionar a outras coisas que as pessoas vêem, já que andamos com nossas genitais cobertas.

Todo mundo lembra de já ter visto um albino, por exemplo, e albinos são menos comuns do que intersexuais. A gente não nota porque essas coisas ficam escondidas, mas estão aí.

Se adaptarmos nossa linguagem para incluir mais e mais sexos e mais e mais identidades de gênero, você acredita que, um dia, as categorias serão tantas que, simplesmente, deixarão de fazer sentido?

Pode caminhar para este lado, mas acho que a questão reprodutiva sempre será importante na definição do vocabulário e da discussão.

Em sua opinião, as descobertas recentes da medicina vão nos ajudar a sermos mais tolerantes com a maneira como as pessoas expressam seu gênero socialmente?

Não sei, mas tendo a acreditar no oposto: quanto mais celebrarmos, culturalmente, a diversidade sexual humana, mais o mundo médico e biológico vai reconhecer essas diferenças e tratar delas.

Argumentos biológicos têm sido usados como um artifício da intolerância. Movimentos sociais, por sua vez, tem sido grandes propagadores da aceitação.

É possível ser uma bióloga e uma feminista ao mesmo tempo?

Eu sou. (risos)

Muitas pessoas, talvez a maioria delas, nunca sequer ouviram falar de pessoas intersexo, mesmo que isso seja perfeitamente natural. E nem sequer demos nomes a esses diversos tipos de identidades sexuais contidos dentro desse conceito. Não deveríamos fazer isso?

Na literatura médica, esse debate já vem se desenvolvendo há um século e meio mais ou menos! Há uma história complexa sobre como decidimos quem pertence a cada categoria, quem é um verdadeiro hermafrodita, e etc. Não é como se tivéssemos de repente, do nada, decidido falar sobre isso. A questão é como devemos usar essas categorias hoje.

Isso é parte de uma disputa política acirrada entre usar o termo intersexual ou nomes de síndromes específicas que foram aceitas no linguajar médico até hoje, os chamados “distúrbios do desenvolvimento sexual”. Eu uso o nome intersexo, como muitas pessoas a quem a ideia de distúrbios desagrada muito. As pessoas intersexo que defendem essa posição querem ser capazes de se posicionar em uma categoria que garanta direitos políticos específicos (como registrar-se sem ter que se enquadrar entre homem ou mulher ao nascer).

Por outro lado, os conceitos de distúrbios servem para pessoas que querem receber determinados tratamentos médicos e, para isso, é necessário saber qual o tipo específico de sexo desta pessoa. Intersexual é uma categoria ampla que inclui diversos tipos de pessoas, as síndromes não.

Não deveríamos, de fato, deixar de falar em “distúrbios” para nos referir a pessoas perfeitamente saudáveis que apenas têm constituições físicas pouco comuns?

Não acho que devemos resumir a “isso é um distúrbio”, é apenas uma variação biológica.

No ponto de vista de quem considera que existem tipos “normais” de corpos a que aspirar, isso será uma desordem. Mas essa visão é problemática porque nos faz questionar uma série de outras características sexuais, por exemplo, existe um tamanho “normal” de seios e outros tamanhos não-naturais? Quem decide se pessoas que não têm nenhum seio ou seios enormes sofrem de alguma síndrome? Há muitas variáveis para as características sexuais dos indivíduos. E a ideia de distúrbio não nos ajuda muito, em minha opinião, a não ser na hora de pensar tratamentos médicos, para quem escolher fazê-los. Mas aí trata-se de uma escolha tática.

O termo hermafrodita é ofensivo?

O Movimento Intersexo acha que sim, porque é um termo antiquado e estereotípico, e o rejeitou. E eu acredito que temos que respeitar a posição de movimentos políticos, o que eles devem ser chamados é escolha deles.

Algumas mulheres transexuais no Brasil têm optado por não fazer a cirurgia genital de mudança de sexo pois não querem perder a sensibilidade e a capacidade de atingir um orgasmo. No caso das pessoas intersexo, se passa o mesmo? Existe algum tipo de regra médica para quando as pessoas devem ou não fazer cirurgias de “adequação”?

Toda vez que você faz uma cirurgia genital, há algum tipo de perda de sensação. Mas, em alguns casos, as genitálias são tão atrofiadas que tornam impossível urinar sem intoxicar o corpo. Nesses casos é preciso intervenção médica para que a pessoa consiga sobreviver. Mas a maioria das pessoas não se encaixam nesses casos. Para mim e para a maioria dos membros do movimento intersexo, não devemos fazer cirurgias em crianças pequenas a não ser que seja medicamente necessário.

A questão de como seu corpo deveria ser para expressar como você se sente por dentro pode ser adiada até a adolescência ou a vida adulta, quando a pessoa pode decidir por si mesma.

Por diversas razões: 1) você ainda não sabe qual o gênero desta criança será e pode cometer um grave erro; 2) essa devia ser uma escolha do indivíduo.

Sobre a certidão de nascimento, em sua opinião, a solução encontrada pela Alemanha, de incluir um terceiro sexo para registro, é positiva?

Essa é uma solução possível. Mas é preciso que a criança possa modificá-la se sentir a necessidade mais adiante. Os pais, com a ajuda de especialistas, têm que aceitar que seu filho ou filha não teve o sexo determinado ao nascer e tomar decisões condizentes de como criá-la, ouvindo à criança o tempo todo. Não estou dizendo que é uma decisão fácil, mas outros pais enfrentam situações similares com crianças que nasceram com outras características incomuns.

Todo o argumento conservador contra gays gira em torno de ser um comportamento “não-natural”. Já no caso das pessoas intersexo, trata-se de uma condição inegavelmente natural, já que a natureza os fez assim e a maioria deles é saudável. Porque, historicamente, não criamos categorias socialmente aceitas para essas pessoas como criamos para homens e mulheres?

Eu nem saberia responder a isso. Mas alguns países têm categorias históricas, sim, curiosamente, a maioria deles fica na Ásia. Há também comunidades indígenas nos Estados Unidos que também têm um terceiro sexo. Mas a nossa tradição europeia-ocidental, não.

No ano passado, a maior Parada LGBT do Brasil adotou o lema “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim: respeitem-me!”. Há a sensação de que o argumento do “nasci assim” é usado para naturalizar orientações sexuais, fazendo que pessoas que usam argumentos biológicos as aceitem, já que é mais fácil aceitar uma condição natural do que uma escolha. Como se “nascer assim” fosse mais digno do que “escolher ser feliz assim”. Mas isso não é negativo no longo prazo? A escolha sexual não deveria ser tão respeitada quanto as inclinações naturais que temos?

O debate não pode se estruturar em torno da escolha, há uma diferença entre escolha e orientação sexual. Quando falamos de escolha, nos remete a ideia de entrarmos em um restaurante e decidirmos se queremos salada ou batata frita com nosso hambúrguer. A sexualidade humana não é assim. As pessoas não entendem o desenvolvimento de sua sexualidade dessa maneira. Não é como se acordassem um dia e dissessem “Ah! Hoje decidi que serei heterossexual!”.

Entendemos que a sexualidade, na maioria das pessoas, é bem estável, ela não sofre alterações ao longo da vida. Mudá-la é muito improvável e aí já entramos na polêmica discussão em torno da “cura gay”.

Não se trata apenas de escolha, mas de uma formação extremamente complexa e estável de nossa psique.

E não estou falando apenas de gays, mas todos os espectros da sexualidade humana, inclusive a heterossexual, eles também não optam por isso.

Mas a fluidez também faz parte da sexualidade humana, não? Existem muitas pessoas que se consideraram heterossexuais sua vida toda e, de repente, amam e desejam uma pessoa do mesmo sexo.

Isso é verdade. Há fluidez durante o ciclo de vida das pessoas, mas algumas são mais fluidas que outras. Isso é algo que ainda precisamos entender, já percebemos isso no mundo, mas ainda não entendemos como se dá. De onde isso vem? Não sabemos. Só sabemos que a palavra “escolha” não serve à grandiosidade deste debate intelectual.

Que direitos ainda precisamos oferecer às pessoas intersexo para que vivam uma vida plena?

Algo no estilo do terceiro sexo deveria estar disponível em todos os documentos existentes, para que ninguém tenha que se forçar a ser homem ou mulher. A educação sexual também é importante. Devíamos falar disso logo na infância, na primeira vez em que tratamos o tema sexo, mas com um nível de maturidade apropriado para cada faixa etária. Não precisamos falar de camisinha com crianças de cinco anos, mas podemos explicar como homens, mulheres e pessoas intersexo são diferentes umas das outras.

A natureza tem muita diversidade e temos que reconhecer isso.

[Anne Fausto-Sterling é uma das mais destacadas biólogas e especialistas em gênero do
mundo, professora emérita da Universidade Brown e pesquisadora da Associação
Americana para o Avanço Científico. Ela é autora de cinco livros no tema, publicados
em diversos idiomas.]

O Feminismo precisa aceitar as prostitutas

Original: Azmina.

Autora: Amara Moira

[Amara Moira é travesti pan puta, feminista antes de mais
nada, e escritora dessas de batom na boca e sem papas na língua. Militante dos
direitos de LGBTs e de profissionais do sexo, no tempo que sobra ainda faz
doutorado em teoria literária pela Unicamp, para o desespero do patriarcado.]

Amanhã tem debate quente no Rio de Janeiro, debate que me custou a perda do meu perfil no Facebook. No meio duma série de posts acalorados em que disputavam a opinião pública, feministas contrárias à prostituição (aquelas ditas radicais ou materialistas) e feministas que respeitam as pautas do movimento de prostitutas (as putafeministas, nós), acabou que tive meu perfil denunciado por eu não usar meu nome “verdadeiro” e o Facebook acatou, impedindo acesso ao perfil que eu construía há dois anos, com todos os textos e contatos que havia lá.

Vejam que muitas vezes, pra fazer imperar seu ponto de vista, algumas pessoas acham que não importa o quão baixos são os meios usados: basta conseguir calar a outra parte e poder continuar seu monólogo em paz. Bem o que houve. Não à toa transfobia (preconceito contra trans) e putafobia (preconceitos contra putas) costumam andar sempre de mãos dadas, inclusive dentro do feminismo.

Prostituição é um assunto muito delicado pras travestis. Ela é o ofício que nos permite existir quando a sociedade fecha suas outras tantas portas e, ao mesmo tempo, aquele onde mais nos matam, violentam… Percebem que não é coisa fácil discutir a questão?

Mas certo feminismo, cegado pelos seus dogmas, não consegue sequer permitir que o debate ocorra, lançando mão de linguagem sensacionalista que só serve pra estimular pânico, “querem legalizar a cafetinagem”, “prostituição é estupro pago”, “feminismo a serviço da objetificação da mulher”, “vender o corpo”, “tráfico de pessoas”, “prostituição infantil”, “prostitutas se drogam pra conseguir trabalhar”, “pegam AIDS”. Nunca param pra discutir a natureza exata dessa suposta cafetinagem que o PL Gabriela Leite quer regulamentar, nem os discursos racistas e xenófobos que orientam o debate sobre tráfico de pessoas, nem a noção exata de estupro que estão mobilizando pra afirmar que nosso trabalho não envolve sexo mas violência sexual.

E se houver quem viva a prostituição em termos que fujam a esse vitimismo todo, a pessoa é prontamente catalogada como “fetichista a serviço da supremacia masculinista” e já não é necessário mais considerar nada do que ela diga.

Percebam que essa argumentação cega não vai impedir que continuemos dando a cara a tapa e forçando a sociedade a encarar o debate que querem jogar pra debaixo do tapete. Prostitutas estão se organizando politicamente desde o boom da AIDS, desde o fim da ditadura, conseguindo conquistas notáveis como, por exemplo, o reconhecimento oficial da prostituição na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO, 2002), do Ministério do Trabalho.

Agora vai surgindo o tempo de um novo desafio, disputar o feminismo, desafiá-lo, para que ele aprenda a respeitar nossa autonomia e nossa luta por melhores condições de trabalho, melhor remuneração e fim do estigma.

As portas estão abertas para todas as feministas que quiserem, de fato, ouvir o que as prostitutas têm a dizer sobre seu trabalho.

Liber de Occulta Confusionis

Oh, por quantos caminhos eu trilhei, por quantos sistemas religiosos e esotéricos eu perambulei, só minha sombra sabe.

Imitação, tudo é imitação, não há um único original.

Eu mesmo formei meu próprio grimório, meu próprio livro da lei e meu próprio texto sagrado.

Agora no alto de minha experiência e maturidade, o que eu vejo em volta são conflitos de egos, títulos vazios e cultos de personalidade, arrebanhando crianças em sua volta e fazendo do Conhecimento Antigo uma ridícula farsa comercial.

Em algo eu devo reconhecer no descrente: eles são criativos e fizeram várias sátiras religiosas, como o Pastafarianismo, a Igreja do Subgênio, a Igreja do Unicórnio Rosado Invisível. Pena que algumas sátiras de religião acabaram se tomaram a sério, como o Jediísmo e o Satanismo.

Mas eu estou adiantando a narrativa. Vamos começar do começo.

Eu comecei minha jornada no colegial, depois que o conhecimento secular finalmente atingiu uma espinha. Ao contrário de muitos cristãos [seja qual for sua vertente] eu li a bíblia para entender a diferença entre o conhecimento secular e o conhecimento bíblico. Ao contrario de muitos cristãos [seja qual for a vertente] os fatos estavam contra a bíblia e este livro sagrado foi descartado como fonte de conhecimento confiável e por um bom tempo eu fui ateu.

No entanto, ao contrário dos descrentes, eu não aceitava simplesmente as soluções ou explicações científicas. Quando eu era pequeno eu desenvolvi um interesse e curiosidade sobre o mundo espiritual, praticamente depois que meus primos e meu irmão tentaram me apavorar contando histórias de fantasmas ou me deixando de fora da “brincadeira do copo”. O que eu mais gostava eram histórias de terror e eu queria saber mais da história dos monstros, de preferência contada por eles.

Ainda que de forma velada, a bíblia conta de práticas e crenças que são definidas por bruxaria. Isso me levou a pesquisar sobre as crenças e religiões dos povos antigos. Ali começou minha jornada, em busca de minhas origens, de minhas raízes, de minha identidade.

Eu também estava em busca de aceitação, reconhecimento ou de pessoas que pensassem como eu, pois o que mais se tem nessa sociedade cristã é violência, segregação, preconceito, intolerância, ódio. Por um bom tempo eu estudei a história do Cristianismo para me livrar de vez dessa crença imposta.

Quando eu estive no fundo do poço, quem esteve do meu lado foram entidades que, para a concepção cristã, eram demônios e o Diabo. Então eu também fui satanista, por um bom tempo, até perceber que isto estava mais para uma paródia do que um sistema coerente ou original.

Sim, a internet. Eu comecei a “navegar” em 2001, nos quiosques do correio, no espaço que existia [gratuito] no Banco do Brasil [centro de SP] ou nos espaços cedidos pela Prefeitura. Ali eu consegui organizar e publicar meus escritos. Ali eu comecei a organizar e construir minhas páginas virtuais. Ali eu tive os primeiros contatos com grupos de todo o tipo: ateus, bruxos, satanistas. Tudo e qualquer coisa que desafiasse, que contestasse a Igreja, eu estava interessado.

Em 2002 e 2003 eu comecei a me interessar pelo Satanismo [La Vey] simplesmente porque muitas coisas que ele escreveu combinavam com o que eu havia escrito dos 18 aos meus 21 anos, uma obra que eu defino como minha catarse, o início de minha cura interior.

Esses trechos, tirados de outros textos meus, de meu outro blog, resumem a minha jornada, o meu caminho, até hoje. Os leitores que estiverem interessados na minha jornada espiritual dos 21 aos 51 anos, podem acessar o blog “Terra em Transe”, de minha autoria, o assunto aqui é outro.

Eu não devo estar dizendo coisa alguma de novidade quando eu digo que Satanismo é uma sátira religiosa que se levou a sério demais, o Satanismo é uma mera válvula de escape, uma armadilha pueril, que serve apenas para mentalidades imaturas. Assim como inúmeros outros fundadores de um sistema religioso, Anton Szandor Lavey foi um enorme charlatão que plagiou porcamente diversos sistemas mágicos, esotéricos e ocultistas. Em termos ritualísticos e filosóficos, o Satanismo não sustenta a si mesmo.

Eu vou me arriscar e dizer que a Wicca também tem mais furos e lapsos que, somente por um “salto de fé” [frase que o ateu usa muito] para levar a sério diversas de suas afirmações. Ainda causa muito incômodo entre os estudiosos e praticantes wiccanos a forte presença de Aleister Crowley, praticamente o “tio” da Wicca. Gerald Gardner, o fundador da Wicca, tinha mais vínculos com a franco-maçonaria do que com a Bruxaria Tradicional e a narrativa de sua “iniciação” tem tantas contradições que tornam os wiccanos tão crédulos quanto os cristãos são crédulos quanto ao “nascimento” de Cristo. Pouco se fala publicamente que o termo “gardneriano” foi cunhado por Robert Cochrane como um título pejorativo, em meio a uma disputa entre a Wicca e a Bruxaria Tradicional Moderna. Pouco se fala que Doreen Valiente, a “mãe” da Wicca, rompeu com Gardner por que ele não seguia as próprias “regras” que ele dizia pertencer ao Ofício. Pouco se fala que a “tradição alexandrina” começou quando uma pregressa de 1* de algum coven gardneriano “iniciou” Alex Sanders, quando apenas alguém de 3* pode fazê-lo. Pouco se fala das “iniciações” por telefone, por guardanapo de papel e os inomináveis “diplomas” que eram expedidos para “provar” a linhagem de pessoas sem bona fides a troco de dinheiro. Como se isso não bastasse, a Wicca “americanizou” e se tornou uma verdadeira “loja de conveniência”, de tal forma que é impossível sustentar mais a linhagem e a tradição, diante de tantas “tradições” de fundo de quintal e de tantos “sacerdotes” autoproclamados. Se a Wicca é a única religião legitimamente britânica, as “religiões da Deusa” e o Dianismo são religiões legitimamente americanas, no pior sentido possível.

Depois que o [autoproclamado] sacerdote diânico Claudiney Prieto, apesar de seus inúmeros textos atacando os princípios da Wicca Tradicional, foi aceito, treinado e iniciado em um coven com uma legitima linhagem Gardneriana, eu desisti de procurar e pleitear pelo meu treinamento e iniciação. Depois que eu fui feito de palhaço e fantoche por uma pessoa que se diz bruxa legítima, uma pessoa que traiu minha amizade, confiança e dedicação, eu parei de escrever minha jornada espiritual. Eu não estou afirmando que eu sou inocente, só minha sombra sabe o quanto eu contribui para minha péssima reputação e situação dentro do Ofício. Felizmente o Conhecimento Antigo está disponível na internet, o Caminho está diante de nossos olhos, os meus ancestrais continuam comigo e os Deuses Antigos estão ao alcance de todos.