A guerra é um baile

Flores se abrem no jardim como se saudassem o alvorecer, pássaros chilreiam em louvor a Hélios e Ana esfrega os olhos tentando acordar para só então se dar conta que dormiu completamente nua no chão. Instintivamente busca por Elsa, que denuncia sua presença ali perto com um ronco e ela está igualmente dormindo completamente nua no chão.

– Bom dia, Ana. Eu espero que tenha dormido bem. Eu tomei a liberdade de preparar o desjejum para você e Elsa, eu espero que não se importem.

– Você! Foi você! Nos embebedou e se aproveitou de nós, não é, mercenário?

– Oh, não, de forma alguma! Você e Elsa se embebedaram voluntariamente com a excelente cerveja da casa. Mais ou menos depois da quinta caneca, você e Elsa tiraram toda a roupa e começaram a transar. Vocês bem que tentaram me incluir em suas… brincadeiras e, admito, eu fiquei muito tentado, mas eu preferi me divertir assistindo à distância.

Os portões da sala de audiências faz um tremendo estrondo com a entrada repentina de Kristoferson, afoito em anunciar algo.

– Elsa! Ana! Nós esta… oh, pelos Deuses! Vocês estão nuas!

– Não perca o controle, senhor Primeiro Ministro. Eu sei que é difícil, afinal, uma das coisas mais belas deste mundo é a nudez feminina, mas eu creio que você tem algo importante a dizer.

– Não queira ensinar minha função… forasteiro! Elsa! Nós estamos sendo invadidos… tem um batalhão com a bandeira do Reino das Ilhas do Sul avançando na direção da capital de Arendelle!

– Hã? Invadidos?

– Argh! Deve ser os homens de Hans vindo resgatá-lo! Vamos, Elsa, vamos lutar!

– Se me permitirem, eu gostaria de cuidar desse… incomodo, se não for uma ofensa aos seus Homens das Neves.

– Oh, meus Deuses! Chá, bolo, bacon e ovos! De onde veio esse café da manhã?

– Elsa, agora não é momento de cuidar da larica pós-sexo. Nós estamos sendo invadidas, lembra?

– Of noffo nofo omugo pofe codor do todo.

– Agora é a minha vez de dizer… Elsa, olha seus modos! Não fale de boca cheia!

– Ah, delicada edelweiss… mesmo de boca cheia ainda mantêm a classe. Apenas acene, minha rainha, sim ou não, quer que eu cuide desse incômodo?

Elsa acena afirmativamente enquanto engole um enorme pedaço de bolo empurrado goela abaixo com uma xícara de chá, diante do espanto de Ana e Kristoferson.

– Nesse caso, eu vou me arrumar aqui mesmo. Sabe, Elsa, eu não espero que entenda ou aceite o que está para ver, mas para mim a guerra é um baile, então eu devo estar devidamente trajado.

Durak pega a maleta que carregava, a abre e, sem vergonha ou pudor, tira toda a roupa, expondo seu corpo talhado por músculos e cicatrizes.

– Elsa, o campo de batalha não é um lugar agradável. Eu ouso te solicitar que espere aqui.

Durak parecia compenetrado enquanto vestia algo como uma armadura, feita de algum tipo de couro, por sobre o qual afivelava um suporte com duas espadas.

– Eu… eu recuso sua recomendação. Eu sou a rainha de Arendelle e você está a meu serviço. Por Arendelle e por minha coroa, eu tenho que estar ciente e presente por seus atos.

– Como desejar, minha rainha. Eu compreenderei se ficar com medo.

Durak deu um sorriso maligno e seus olhos brilharam. Ele sacou suas espadas e iniciou sua preparação para o embate. Elsa percebeu que aumentou a pressão do ambiente enquanto Durak emitia uma aura que desprendia de seu corpo na forma de uma névoa escura.

– Alvo localizado. Inimigo detectado. Protocolos um a cinco ativados. Liberando cinco por cento do poder. Executar!

Com uma velocidade incrivelmente enorme, Durak parte na direção do batalhão inimigo. Elsa, Ana e Kristoferson taparam os ouvidos, pois houve uma onda de choque. Apreensiva, Elsa ficou na soleira de seu palácio, tentando acompanhar a ação, mas pouco podia ser visto, apenas ouvido. Ao longe era possível ouvir o som de gritos de pavor e de corpos sendo retalhados. Tiros, explosões e então um silêncio assustador. Elsa apertou suas mãos, sentiu seus lábios ressecarem, seu coração ficou acelerado e ela sentiu um aperto no peito.

– E… ele está bem, não está?

– Quem liga?

– Bom, eu acho que vou mandar Olaf para enfrentar o batalhão.

– Isso não será necessário, senhor Primeiro Ministro. Não sobrou ninguém vivo.

Saindo dentre as sobras das árvores, Durak aparece, completamente coberto por sangue e carregando algo nas mãos.

– Minha rainha… eu te ofereço… a cabeça do líder dos invasores.

Durak desembrulha o que parece ser o pedaço de uma capa empapada de sangue e expõe a cabeça do duque de Weselton.

– O… oh, meus Deuses!

– E… eu não me sinto muito bem… eu acho que vou… bluaaargh!

– Vo… você acabou com um batalhão inteiro… sozinho? Isso é impossível! Isso não é humano! Que Diabo você é?

– Sua pergunta é estranha, Ana… sua irmã controla o inverno, você controla o outono e acha que são as únicas metahumanas que existem?

– Vo… você está bem? Está ferido?

– Eu estou bem, Elsa, sem sequer um arranhão.

– Mas… tiros… explosões…

– Essas coisinhas? Ah! Nunca me incomodaram.

– Oquei, oquei, você conseguiu impressionar a garota. Mas ela é a minha garota, ouviu? Minha!

– Ana!

– Nada tema, princesa. Afinal, eu também estou jurando minha lealdade e oferecendo meu serviço a você. Então você aceita esta minha humilde oferenda?

– Irk! Jogue fora essa coisa nojenta. Kris, feche a boca e providencie para o senhor Durak um local adequado para seu descanso, onde ele deve aguardar até segunda ordem.

O lado debaixo do Equador

– Mas… quem te deixou entrar? Vocês, latinos, são todos assim, folgados?

– Absolutamente, senhor Primeiro Ministro. Eu creio que sua orientação foi bem clara. Eu devia esperar o senhor falar com a rainha e então entrar. O senhor falou com a rainha, eu entrei.

– Está tentando me fazer de bobo? Evidente que sua entrada depende de uma permissão expressa dada pela rainha!

– Permita discordar, senhor Primeiro Ministro. O senhor não disse que eu deveria aguardar uma permissão dada pela rainha. Isso me lembra de quando eu estive em Westeros. A rainha Cersei decapitou o coitado que embaraçou a minha entrada. Pobre coitado, perdeu a cabeça por causa de protocolo.

– Oh! Você conheceu o Reino de Westeros!

– Sim, vossa magnifica majestade. Eu posso me aproximar?

– Ah, que Diabo! Venha, sente-se ao meu lado. Eu quero saber de tudo do Reino de Westeros.

– A digníssima Princesa Ana se opõe?

– Por que não? Kristoferson interrompeu demais a minha… “audiência” com a rainha!

– Ei, o penetra aqui é esse mercenário!

– Basta! Os dois! Kris, seja mais assertivo quando der informações, especialmente aos emissários. Ana, foi você quem insistiu que nós devemos estabelecer bons relacionamentos com outros reinos, então receba este emissário com o respeito merecido. Vamos, venha, sente-se!

– Muito agradecido, vossa magni…

– Elsa. Chame-me de Elsa.

– Então, Elsa, pode me chamar de Durak. Eu vou tomar este assento.

– Você esteve mesmo no Reino de Westeros?

– Perfeitamente, digni…

– Ana. Se você vai tratar informalmente minha irmã, trate informalmente comigo, Durak.

– Ahem. Sim, Ana, eu estive no Reino de Westeros a serviço da rainha Cersei. Eu recebi das mãos dela este cajado da casa de Lannister.

– O que me garante que não tirou do corpo de um nobre que você mesmo matou?

– Ana! Olhe os modos!

– Está tudo bem, Elsa. Eu estou ciente de que latinos tem uma péssima reputação aqui no Velho Mundo e, para minha fortuna, eu venho de terras do além mar, do Novo Mundo, de Southerly, do Condado de Vera Cruz. Os Deuses devem saber dos boatos e fofocas que a corte diz de minha gente.

– Só me diga isso. Você tem algum vinculo com os ingleses ou franceses?

– Oh, não, Elsa. Parte de Southerly foi colonizada pelos espanhóis e outra parte por portugueses. Um tipo de latino, diferente dos italianos.

– Isso para mim é o suficiente. Eu não sou fútil a ponto de me deixar influenciar por boatos e fofocas. Eu quero saber tudo sobre Southerly e o seu condado.

– Não há muito a falar disso, Elsa, nós existimos há pouco mais de quinhentos anos e somos um povo miscigenado. Você teria que navegar muitos dias na direção oeste e mais outros na direção sul, abaixo da linha do Equador, para encontrar o Condado de Vera Cruz.

– Nossa… isso é… bem ao sul… mais ao sul do que Itália e Espanha. Seu condado deve ser superquente.

– Tem partes bem quentes e partes bem frias, Elsa. O Novo Mundo é exagerado em muitas coisas. Meu condado, por exemplo, é grande como cinco reinos do Velho Mundo.

– Mas isso é… grande demais! Como seu governo consegue administrar tudo isso?

– Ah, essa é a parte ruim. Nosso condado é reconhecido pelo seu tamanho, sua riqueza natural, seu imenso potencial, mas o governo é nosso “desastre natural”, se é que me entende.

– Isso é terrível. Eu sinto muito. Você deve ter raiva de governos e governantes.

– Absolutamente não, Elsa. Eu sou pragmático. Pessoas são pessoas, com ou sem cargo. Pessoas agem em busca de seus objetivos. Foi por essa minha… habilidade em tratar dessas peculiaridades da política que a rainha Cersei convidou-me para atende-la. As intrigas e entranhas da corte do Velho Mundo são entediantes, em comparação com os meandres das repúblicas existentes em Southerly.

– Eu devo dizer então que muitos dos boatos que eu ouvi são verdadeiros e você é realmente um mercenário.

– Ana! Modos!

– Tudo bem, ela está certa, Elsa. Quem nasce e convive com falsários, ladrões, bandidos, estupradores, assassinos e pervertidos acaba adquirindo essa… natureza. A rainha Cersei queria ter certeza de que tinha alguém confiável e leal o suficiente para… fazer o que deve ser feito, sem questionamentos, sem hesitações, sem dilemas ou dúvidas morais. Conhece alguém que pode ser tão virtuoso e tão perverso assim ao mesmo tempo?

– N… não… só em lendas…

– Pois é isso que eu te ofereço, Elsa. O meu serviço, a minha lealdade. Eu obedecerei ao seu menor capricho, seja ele qual for. Eu posso arrancar a cabeça de seu Primeiro Ministro Kristoferson, sem pestanejar. Eu sou capaz de levar aos pés de sua cama o coração de seu general Olaf, sem hesitar.

– A… ah… ahahaha… aah… está quente aqui não? Bebe algo, Durak? Chá? Vinho?

– Elsa, estamos a três graus celsius. Arendelle ainda não se recuperou por inteiro do inverno que você provocou…

– Ana! Não chateie o convidado com bobagens!

– Qual é? Será que eu vou ter que lembrar quem disse sobre ter tido o suficiente do mundo lá fora? Será que eu vou ter que te lembrar do Príncipe Hans?

– Eu devo concordar com Ana, Elsa. Como amostra de minhas… habilidades, eu estou ciente do que ocorreu entre você e Hans. Se for seu desejo, como prova de minha lealdade, eu posso… dar um jeito no “príncipe charmoso”.

– Espere um pouco. Você, forasteiro, está dizendo que pode nos livrar desse incomodo que é Hans, preso em nossos calabouços, sem que isso nos custe coisa alguma nem que nos incrimine?

– Sim, Ana. Mas somente se for o desejo de Elsa.

– Olha, eu estou começando a gostar de você. Você merece uma boa cerveja de nossa adega. Nós herdamos dos dinamarqueses e belgas a arte de fazer excelentes cervejas.

– Que bom que chegamos a alguma coisa! Copeiro real! Traga um barril com a nossa melhor cerveja!

– Só para constar, mercenário. Eu vou ficar de olho em você. Não pense que vai tirar vantagem da Elsa com a cerveja.

– Ana! Modos!

– Na minha ótica, Ana, considerando que é um contra duas e a cerveja é da casa, eu receio que seja eu quem está em risco de ser depenado…

Além de Arendelle

– Ufa… essa foi por pouco. Ana, quando você descobriu o plano do Príncipe Hans?

– Bom, eu desconfiei das… intenções dele no baile de sua coroação, quando ele flertou com metade da corte… começando comigo.

– Ainda bem que eu criei meu exército de Homens da Neve, cavaleiros leais e de boa estirpe, descendentes do nosso bom e velho rei Haroldo.

– Que não teriam ajudado em coisa alguma se não fosse a sua “skoldmo” aqui…

– Ah, não comece, Ana. Foi bastante… embaraçoso explicar as coisas depois que você me beijou.

– Hunf! Eu não lembro de ter ouvido você ter protestado… muito pelo contrário, você retribuiu o beijo e, apesar de ser chamada de Rainha do Gelo, você estava bem quente.

– Olha, se você vai insistir nisso, eu vou ter que chamar o Kristoferson.

– Que você, muito gentilmente, depois de uma noite de amor comigo, sua irmã, nomeou como Primeiro Ministro…

– Shushh! Ana! Não em voz alta! General Olaf pode acabar te escutando…

– O que? Será que ele é um cabeça de vento e não um Homem de Neve? Elsa, todo mundo em Arendelle sabe que nós estamos transando.

– Eu não estou te ouvindo, lalalala…

– Oquei, eu não vou te forçar a admitir, eu sou sua irmã, mas você ainda é a rainha daqui. E como tal, nós temos que pensar em como melhorar o nosso reino estabelecendo bons relacionamentos comerciais com outros reinos.

– Nem pensar. Eu tive o suficiente do mundo lá fora com o Príncipe Hans das Ilhas do Sul. Onde fica isso mesmo?

– Bom, nossos parentes dizem que se nós somos descendentes dos monarcas noruegueses e dinamarqueses, então o Reino das Ilhas do Sul é conhecido como Grã-Bretanha, um conjunto de ilhas colonizadas por outros de nossos antecessores, os Anglos e Saxões, parentes dos Germanos.

– Ah! Ingleses! Só podia ser! E o tal de duque de Weselton?

– Descendente dos Normandos, que colonizaram o litoral da Gália.

– Ah! Franceses! Só podia ser! Risquem esses reinos. O que sobra?

– A Europa é grande, “vossa majestade”…

– Está querendo me dar aulas de geografia, Ana? Eu lembro muito bem que você quem ficava de recuperação na escola…

– E eu lembro muito bem que foi você quem me atingiu na cabeça com uma bola de neve…

– Está bem, vamos parar. Senão vamos acabar brigando e eu não quero dormir sozinha. Eu gosto dos belgas, holandeses, austríacos e todos os reinos do leste europeu. Nós temos embaixadores suficientes?

– Eu acho que sim, mas… e mais ao sul? Tem os espanhóis e os italianos.

– Argh! Latinos! Quentes demais, pegajosos demais, orgulhosos demais, convencidos demais.

– E lá vem a Rainha do Gelo de novo. Sabe, Elsa, nós temos que trabalhar nessa imagem que nós somos um povo frio e insensível.

– Pois eu chamo isso de educação e etiqueta, Dama do Outono.

– Aha! Quem está usando apelidos de infância agora?

– Eu ficaria a tarde toda listando os seus apelidos que eu aprendi do Garoto da Rena…

– Kris… depois eu “converso” com ele. Mas voltando ao foco do assunto, se você tem tanta aversão por latinos, está fora de cogitação qualquer acordo com o Reino de Southerly?

– Mas… que Diabo é isso?

– Onde é a pergunta certa… reinos que surgiram em terras do outro lado do oceano. Reinos novinhos em folha, com um imenso potencial e riquezas inexploradas, reinos que estão ansiosos em receber reconhecimento da Europa, depois que se tornaram independentes. O problema é que anteriormente estes reinos eram colônias de ingleses, franceses e latinos.

– Puxa vida… e além de Constantinopla? Tem os reinos persas e asiáticos que ainda não consideramos.

– Destes, quem não gosta sou eu. Ali a mulher é muito oprimida e há muita restrições a outras formas de relacionamento amoroso.

– Que estranho… as notícias falam do oriente como uma terra de promiscuidade…

– E a senhora ficou toda animadinha né? Depois eu que sou a Dama do Outono hem?

– Ana! Você sempre consegue me deixar envergonhada! Você acaba sempre falando de sexo!

– Mmmm… e eu sei que você gosta que eu fale dessas coisas em seu ouvido, enquanto geme descontroladamente pela ação de meus “dedos mágicos”…

– Ah! Ana! Aqui não! Não na sala do trono! Alguém pode chegar e… mmmmm….

– Ora, ora… “vossa majestade”, você está toda molhada… e eu nem comecei…

– Cofcof… ahem… com licença, Rainha Elsa, Princesa Ana…

– Kris! Olaf! Graças aos Deuses vocês chagaram! Eu e Ana estávamos… eh… conversando sobre futuros tratados diplomáticos com outros reinos.

– Sem problema, Rainha Elsa. Eu aceitei e superei o fato que minha rainha e minha princesa estão transando, a despeito de serem irmãs. Olaf ainda está na terapia, mas ele é mais lento para essas coisas. Se vossas majestades me permitem, tem um emissário do Condado de Vera Cruz pedindo audiência.

– Condado de Vera Cruz? De qual reino?

– Ele vem de Southerly, majestade. Uma viagem longa para um emissário, mas eu desconfio de que ele seja um mercenário.

– Uma mera diferença semântica, meu caro Primeiro Ministro. Apenas uma pequena diferença semântica separa um emissário de um mercenário. Desculpem minha intromissão, vossa iluminada majestade. Diante de vossa magnifica presença encontra-se um mero escravo de vossa vontade, Sir Durak Llyffant.

Atores amadores

Uma imagem que eu vi na internet vai servir de base para refletirmos sobre este ultimo texto sobre Olimpíadas, abarcando o Brasil [e nosso complexo de vira-latas] e os EUA [o Grande Irmão bem-sucedido].

Eu creio que a imagem foi retirada de alguma reportagem estrangeira. Nela está o nosso presidente em exercício, Michel Temer, tendo “acting president of Brazil” como legenda. Em uma tradução menos literal, “acting” é “atual”, mas para nosso exercício de raciocínio, eu vou deliberadamente traduzir “acting” como “atuando”. Michel Temer está fazendo o papel de presidente. Ele está “encenando” e, convenhamos, ele é um ator canastrão.

Eu nunca vou esquecer quando uma drag queen disse em uma reportagem que todos nós nos montamos. Todos nós encenamos papéis, em nossa rotina, nós vestimos diversas máscaras, conforme a situação, nós desempenhamos conforme um roteiro, restando a dúvida se somos coautores. Curiosamente isso nos incomoda quando percebemos que uma pessoa pública [existe “pessoa privada”?] mostra outra faceta, como o jogador Neymar deixou escapar, ao tentar agredir torcedores após o jogo Brasil e Alemanha, apesar de sua pose com uma faixa evangélica. Neymar foi criticado porque deixou cair a máscara dele.

Para ser bem sincero, toda pessoa é pública, o conceito de pessoa existe somente dentro de uma sociedade, de um grupo. O que podemos distinguir é qual parte de nossa vida é de conhecimento público e qual parte de nossa vida nós preferimos manter reservada. A nuance entre vida pública e privada tem ficado mais borrado com as redes sociais. Nada nos estimula mais do que saber da vida de uma atriz e um ator. Paradoxalmente nós transformamos em um espetáculo a invasão da privacidade e nos deliciamos ao ver que os nossos ídolos e heróis não são muito diferentes de nós.

Nós vibramos tanto com uma novela, um filme e uma competição esportiva porque, no fundo, nós queremos e precisamos que exista um ídolo e um herói, alguém precisa ocupar o pedestal, o trono, o pódio. O sucesso, o clamor, o aplauso, o elogio, são uma comprovação de que aquele que se sobressai, aquele que é melhor, terá o seu mérito reconhecido. O ator, o atleta, o político, estão onde estão porque “merecem”, se prepararam para isso, foram habilitados para serem merecedores dos louros da vitória. Mas nós nos decepcionamos quando o político que devia nos representar é pego envolvido em um esquema de corrupção, como se nós não tivéssemos esse defeito, quando tentamos dar o famoso “jeitinho brasileiro”.

A vitória de um atleta, a despeito de suas condições sociais, é um alento necessário para um povo nascido e criado como pequenos burgueses. O atleta brasileiro é duplamente herói: pela falta de estrutura, investimento e apoio para formar futuros atletas; pela superação da segregação social que muitos atletas têm que enfrentar para sequer entrar em uma escola militar para ser atleta. Ali, no pódio, o atleta brasileiro é a prova da necessidade de termos programas sociais e de promovermos cada vez mais a justiça social, coisas que são impossíveis na economia de mercado livre, no neoliberalismo.

Para isso o Brasil e o brasileiro precisa reinventar sua identidade, nós precisamos criar essa identidade chamada de “brasileiro”, nós temos que ser os protagonistas e autores de nossa história se queremos ter um país chamado Brasil. Nós temos que achar um meio termo entre o complexo de vira-lata e o ufanismo, algo que ficou estampado nas colunas criticando ou elogiando o empenho do Brasil com e na Olimpíada. Por razões históricas, políticas, econômicas e sociais, nós não devemos nos comparar com os países ricos nem ficar lastimando nossa herança cultural como colônia.

Tal como a pessoa comum diante do ídolo, do herói, o Brasil só vai alcançar a plena soberania quando parar de adular e copiar o Grande Irmão. Vendilhões no Templo do Desenvolvimento apresentam como tudo que é americano como sendo necessariamente bom para os brasileiros, confirmando nosso complexo de vira-lata. Como bom vendedores de promessas vazias, os vendilhões omitem a história do Grande Irmão, onde o Estado, principal empreendedor, protegeu e investiu em suas indústrias até se tornarem autônomas e competitivas e, ainda assim, até na “Terra da Liberdade”, existem barreiras comerciais.

O Estado Americano é o maior autor da grandeza americana, não apenas na economia, mas também nas Olimpíadas. O Estado Americano oferece subsídios para as universidades “privadas” poderem formar futuros profissionais e esses subsídios incluem bolsas de estudos para que atletas talentosos consigam entrar na universidade, algo parecido com o sistema de cotas no Brasil. O Estado é quem mais investe na construção de prédios e ginásios esportivos. Mas para o vendilhão do neoliberalismo, o Grande Irmão tem muitas medalhas porque o Estado não se intromete e ainda canta uma falsa vitória afirmando que o espírito olímpico é liberal, quando não é, pois as condições dos atletas e dos países participantes estão bem longe desse ideal utópico, como eu analisei em meu texto “Doping Social”.

Um contraponto necessário e importante é lembrar da vitória de Portugal na Eurocopa. Uma seleção feita de imigrantes, uma seleção miscigenada, venceu a Eurocopa para nos mostrar que nenhum país é, em absoluto, o único exclusivo merecedor de seu sucesso e riqueza. O Grande Irmão seria um país de Terceiro Mundo se tivesse aplicado a política econômica neoliberal que agora tentam nos vender. O Grande Irmão seria um país em desenvolvimento, se não tivessem migrado para lá a tecnologia e os profissionais de outros países. Quando o Grande Irmão aplicou o neoliberalismo [era Reagan] quase quebrou, da mesma forma como a Grã Bretanha quase quebrou [era Thatcher] com o neoliberalismo. O Grande Irmão está passando por uma crise, assim como a Europa e ambos sabem no fundo que somente conseguirão se manter no pódio se fizerem exatamente o inverso do que apregoam aos países em desenvolvimento.

Tal como nas Olimpíadas, somente quando mais gente, mais pessoas, puderem ser inseridas na sociedade, puderem ser treinadas e preparadas, é que haverá mais crescimento e desenvolvimento econômico. Somente com a diminuição ou erradicação da desigualdade social injusta é que poderemos, efetivamente, almejar subir no pódio e reclamar pelos louros de nossa vitória.

A realidade aumentada e a visibilidade social

A tecnologia criou todo um mundo paralelo, o mundo virtual, um mundo que desafia o conceito estrito do que pode ser considerado real, existente. Através da rede mundial de computadores, o ser humano está a um passo de tornar a humanidade um conceito metafísico. Diversos jogos online possibilitam que o usuário crie seu avatar, na cor, tamanho, sexo, gênero e função que desejar. Pesquisas com células-tronco e impressoras 3D estão tornando seres cibernéticos, androides, pós-humanos, praticamente viáveis. Tudo que era sólido está se desmanchando no ar, tudo que era mundano, carnal, corporal, está se tornando transcendente.

Pokemon Go chegou ao Brasil, os brasileiros aumentaram o numero de usuários na casa dos milhares. Este aplicativo é um de muitos disponíveis nos smartphones, que tem alterado o cotidiano das pessoas e das cidades.

Em algumas cidades, foram colocados sinais de trânsito no chão, para evitar que pedestres sejam atropelados enquanto atravessem a rua. Parece uma piada, mas isso é uma realidade, eu vejo gente andando pelas ruas, subindo e descendo de ônibus, dirigindo automóveis, mergulhados na tela de seus smartphones.

Se o leitor também não estiver distraído acessando redes sociais ou outro aplicativo, você poderá perceber uma grande maioria de pessoas acessando o mundo virtual pelos seus smartphones durante a viagem. Nós não precisamos mais do sistema para sermos alienados, nós estamos nos alienando voluntariamente.

Pokemon Go parece muito com o Vegetarianismo: um mundo utópico onde humanos e não-humanos [onde seres reais e virtuais] convivem harmoniosamente. Eu ainda não vi nenhuma manifestação dos militantes dos direitos dos animais contra a exploração dos bichos virtuais, mas eventualmente isso irá acontecer.

Mas vamos quebrar o encanto: Pokemon Go somente existe como parte de uma programação. A vida, um ser vivo, não segue uma programação específica. Este mundo fenomênico é resultado da ação de diversas forças e variáveis que estão além da capacidade tecnológica. Além do que, a despeito de todas as possibilidades que a tecnologia nos oferece, nós ainda convivemos em um sistema social restritivo, nós não conseguimos quebrar a nossa “programação”, nós ainda somos “prisioneiros da Matrix”.

O jogo funciona da seguinte forma: o programa que existe no Pokemon Go gera uma imagem eletrônica que é inserida virtualmente na câmera de seu smartphone e isto o torna capaz de “ver” o pokemon, captura-lo, treina-lo e colocar o “bicho” em rinhas. Por causa dessa capacidade, chamaram isto de “realidade aumentada”, que é a interface [ainda que virtual] entre o humano e a realidade.

O programa torna “visível” a existência de um “bicho” transcendental, mas ainda não existe tecnologia ou aplicativo capaz de tornar visível a existência dos problemas sociais mais tangíveis, como a pobreza, a miséria, a fome, o desemprego. Nós conseguimos “ver” o pokemon, mas não conseguimos ver o mendigo. No mundo virtual, nós nos esforçamos para cumprir missões, nos superarmos, erguer reinos, mas nós ainda não fomos capazes de nos esforçarmos para construir uma sociedade mais justa, mais humana, mais inclusiva.

Com a mesma facilidade com que criamos o nosso avatar, nós podemos [re]criar a sociedade atual. Isto, que chamamos de sistema, a “programação” que existe em nossa sociedade, pode ser questionada, contestada, alterada, melhorada, ampliada, porque nós somos seus engenheiros, nós somos os criadores e mantenedores do sistema. Cabe a cada um de nós construirmos o mundo em que vivemos, formatarmos a convivência que queremos, definirmos a humanidade que somos.

O simbolismo político da mão

Este é mais um texto de uma série tendo as Olimpíadas como tema. Falar de Olimpíadas na Era Moderna é falar de política. Existem momentos que um gesto tem um significado maior do que seu uso costumeiro. Mesmo o simples gesto com uma mão pode ser um ato político.

Dois atos nas Olimpíadas do Rio 2016 chamaram a atenção do público e da Imprensa: o judoca egípcio que deixou a mão do judoca israelense no vácuo e os atletas brasileiros que bateram continência no pódio. O que estes gestos podem simbolizar é algo que interessa ao filósofo.

A mão é utilizada pelo ser humano como forma de linguagem, pode simbolizar um cumprimento, uma saudação ou uma opinião. Na Roma Antiga era obrigatório saudar César com o braço estendido e a mão espalmada, uma declaração de poder copiado pelo Terceiro Reich. Em diversas religiões a mão tem diversas posturas que são chamadas de mudras, cada qual com um significado diferente. Estátuas de Deuses, reis e heróis repousam nas mãos as figurações de seus atributos. Cenas históricas em pinturas tornam-se mais dramáticas pela forma como as mãos estão dispostas. Tentem imaginar o quadro representando alguma revolução sem que haja uma mão erguida com uma bandeira ou uma arma. A mão erguida com o punho fechado simboliza a luta popular desde a Revolução Russa e tornou-se o símbolo de enfrentamento e resistência, usado por grupos de oprimidos, por movimentos populares e de esquerda.

Ficou na história o gesto do atleta americano Thomas Smith, nas Olimpíadas do México, quando no pódio ele fez a saudação utilizada pelos Panteras Negras, grupo que lutava nos EUA pelo reconhecimento e respeito dos direitos civis aos americanos afrodescendentes, direitos que ainda são negados na “maior democracia do ocidente”.

Então um mero gesto com a mão, especialmente nas Olimpíadas, tem um significado político. Cabe ao filósofo perceber e interpretar qual é o simbolismo político detrás da recusa do judoca egípcio em apertar a mão do judoca israelense e qual é o simbolismo político do atleta brasileiro que fez continência no pódio.

O judoca egípcio representa não apenas o seu país, mas também os países muçulmanos do Oriente Médio. Desde que os países europeus “inventaram” o Estado de Israel depois da Segunda Guerra Mundial, o Oriente Médio tem sido uma constante área de tensão política. Israel tem ocupado territórios e tem entrado em diversos conflitos com os países vizinhos. Os países ocidentais tem apoiado Israel nessas guerras e na ocupação de territórios. O mesmo mundo ocidental que fica escandalizado com os atos de extremistas muçulmanos fica calado diante dos atos extremistas do Exército de Israel, na faixa de Gaza e na Palestina. O ato de recusar o aperto de mão pelo judoca egípcio simboliza a recusa dessa política internacional ocidental hipócrita.

O atleta brasileiro também representa seu país, um país que restaurou o Estado Democrático de Direito depois de vários anos de uma Ditadura Civil-Militar, então se interpretou que a continência de um atleta brasileiro no pódio estaria simbolizando um apoio ou uma declaração favorável à Intervenção Militar, como diversas vezes esta posição política foi expressa nas manifestações pró-impeachment. O brasileiro consolidou a ideia de que todo militar brasileiro é de direita e favorável ao regime de exceção, mas não é o caso, pois a história do Brasil demonstra que existiam e existem, ainda que minoria, militares de esquerda que lutaram pela causa popular e pela democracia. O que acontece é que o atleta brasileiro só consegue ter uma preparação nas escolas militares e, por hábito, obrigação e dever militar, ele tem que prestar continência diante da bandeira nacional. Nesse caso, é apenas isso o que simboliza quando um atleta brasileiro bate continência no pódio.

Muçulmanas e freiras

a8487722bae9620bbc5822314ac09e94Eu li no blog do Murilo o texto de João Pereira Coutinho intitulado “Estado de Direito não deve permitir a exibição pública de mulheres-múmias“. Não é de estranhar que um colunista conservador de direita seja incapaz de definir corretamente o que é um Estado de Direito a ponto de afirmar que este não pode permitir mulheres múmias. Deve ser algum tipo de pensamento padrão entre os conservadores de direita, especialmente entre reacionários, fazer suposições tão esdrúxulas. Tal como eu vejo no pinterest postagens reacionárias comparando freiras e muçulmanas. Desonestidade e preguiça intelectual.

Uma freira cobre sua cabeça como parte de sua devoção católica. Nem toda mulher católica cobre a cabeça. Apenas as mais tradicionais e as mais velhas ainda se cobrem com um véu, durante a missa ou em uma novena. Não necessariamente uma mulher que cobre a cabeça é muçulmana. Mulheres, que são ou não parte de ordens religiosas, também cobrem suas cabeças como parte de suas culturas. Mesmo uma mulher ocidental cosmopolita cobre sua cabeça eventualmente, então por que o prurido? O homem ocidental cristão se sente ofendido ao ver uma mulher muçulmana. Bom, se o corpo da mulher só é livre quando está exposto, então o homem ocidental cristão deveria ser a favor da nudez feminina e não considerar a exposição da nudez como pornografia.

Uma muçulmana cobre sua cabeça como parte de sua devoção islâmica. Toda mulher muçulmana cobre sua cabeça, mas nem toda mulher muçulmana utiliza a burca, existem diversos tipos de assessórios femininos utilizados pela mulher muçulmana. Observe uma mulher turca e uma mulher iraniana, elas não usarão o mesmo tipo de véu, nem cobrirão a mesma extensão corporal. Apenas em regiões dominadas por fanáticos fundamentalistas islâmicos é que houve a imposição da burca, mas vamos lá, os fanáticos fundamentalistas cristãos não são muito diferentes, até mesmo dentro de regimes supostamente democráticos e cristãos, como os EUA, então porque o prurido? O homem cristão ocidental desaprova a mulher muçulmana porque a considera uma estrangeira, uma invasora, uma ameaça à “sua” sociedade. Bom, então o homem branco ocidental e cristão bem que poderia devolver as terras aos legítimos donos, os nativos.

O reacionário, o conservador [de direita ou liberal] deve protestar: “- ah, português, mas como o Estado de Direito pode permitir a presença de terroristas?”. Não é de hoje que eu percebo que o conservador, o liberal, o direitista e o reacionário têm dificuldades em entender o que é um Estado de Direito e frequentemente criam uma opinião crítica contra a democracia porque, pelo visto, o regime ideal para eles é a Ditadura. A reação deles é dúbia diante de um atentado. Quando o suspeito é muçulmano, prova que todo muçulmano é terrorista e o Islamismo é uma religião violenta. Quando o suspeito é cristão, foi um caso isolado. Curiosamente nada protestam quando a violência é cometida por cristãos nos países islâmicos. Mas paciência, afinal, dificilmente essa gente conseguirá superar seus preconceitos, intolerâncias e ignorâncias.

Um Estado de Direito de fato é democrático, é regido por leis, por uma Constituição, tem a divisão tripartite de poder e tem instituições livres e soberanas. Entenda-se como democracia a concepção contemporânea, onde todos os habitantes dentro do território de um país são cidadãos com direitos definidos pela Constituição. Pouco importa se é nativo ou imigrante, turista ou morador, a Constituição prevê leis, deveres e direitos para cada um. Pouco importa se é negro, branco, pardo, cristão, muçulmano, budista, ateu, pagão. Não importa sua origem, seu gênero, seu sexo, sua religião, o Estado de Direito é a garantia de que tanto o indivíduo quanto o coletivo terão resguardados suas garantias constitucionais.

Seria um tremendo escândalo no mundo ocidental se um governador proibisse que as freiras usarem seu hábito, então também deveria ser um escândalo que um país proibisse as muçulmanas de usarem seu hábito. Um Estado de Direito tem que garantir que a mulher muçulmana use o hábito, se assim quiser, da mesma forma que a freira, a monge budista e a sacerdotisa pagã tem o direito de usar publicamente suas vestes sacerdotais. Um Estado de Direito tem que garantir igualmente que haja liberdade religiosa, incentivando o diálogo inter-religioso e a coexistência.