A passagem do milênio

A poucos anos da virada do milênio um artista famoso fez sucesso falando do iminente Apocalipse que aconteceria na virada do ano de 1999 para o ano 2000. Dez anos antes, outro artista famoso cantava que nós tínhamos apenas mais cinco anos. Nós estivemos no fio da navalha com a Crise dos Mísseis e os EUA atacaram o Iraque na ultima década do século XX. No mês de dezembro de 1999, pessoas cometeram suicídio, umas com medo de enfrentar o Juízo Final, outras acreditando que iriam para um mundo melhor.

O mundo comemorou a virada de ano de 1999 para 2000 como sempre comemorou. E o mundo não acabou. As pessoas continuaram com suas rotinas. Mas a virada do milênio aconteceria apenas no final de dezembro de 2000, quando então iniciaria o ano de 2001 e o século XXI. Farsantes e vigaristas anunciaram que o Fim do Mundo aconteceria e até usaram o Calendário Maia para corrigir as profecias. Escaldadas pelas falsas expectativas que surgiram do réveillon anterior, as pessoas simplesmente riram e curtiram mais uma virada de ano. E amargaram a mesma ressaca nos primeiros dias de janeiro de 2001.

No mês de Marte, os EUA acusaram o Iraque de estar produzindo armas de destruição em massa. O embaixador do Iraque nas Nações Unidas rechaçou a declaração dos EUA e completou que, se é proibido produzir e manter armas de destruição em massa, que os EUA deveriam abrir mão de seu arsenal nuclear. Contrariando a determinação das Nações Unidas de que intervenções militares estarem proibidas, o conglomerado formado pelos EUA, Grã Bretanha e França deu início ao que foi chamado de Guerra do Golfo, sendo seguida de diversas outras operações militares no Oriente Médio, com a justificativa de “combater o terrorismo islâmico”.

No mês de Juno, o conglomerado derrubou o presidente legítimo do Iraque, causando uma instabilidade política nos demais países islâmicos que se sentiam ameaçados com a ação militar do ocidente. A tensão tornou-se mundial quando um ataque supostamente terrorista islâmico atingiu as Torres Gêmeas na cidade de Nova York, Manhattan, EUA. Grupos extremistas islâmicos como Taleban, AlQaeda, Daesh, aparecem, com armamento e treinamento que a comunidade internacional suspeita terem origem estrangeira. Enquanto em alguns países islâmicos acontecia a Primavera Árabe, onde o povo derrubava os governantes ditatoriais que eram fantoches americanos, em outros os ditadores massacravam a população com o apoio militar ocidental, reacendendo o antigo conflito entre Ocidente e Oriente.

No mês das bruxas o mundo foi sacudido com uma explosão nuclear na Antártida. Apesar de ter acontecido há vários quilômetros dos locais onde aconteciam os conflitos, todos os países envolvidos acusaram aos seus inimigos de terem detonado um míssil nuclear na Antártida. Nesse clima de confusão e discórdia, as Nações Unidas perde suas características, um dia depois do Dia de Finados, o mundo atônito assistiu quando o Secretário Geral leu a ata da reunião decretando a alteração dos estatutos das Nações Unidas, tornando-a praticamente uma extensão da OTAN, o comando militar ocidental capitaneado pelos EUA. Com o avanço dos conflitos e a militarização das Nações Unidas, diversos países orientais aceitaram os novos termos das Nações Unidas em troca de proteção e ajuda humanitária, necessários diante da catástrofe que a explosão na Antártida estava causando.

Somente quando as Nações Unidas centralizaram por completo as forças militares do mundo inteiro é que os países da OTAN iniciaram investigações quanto ao que e quem causou a explosão na Antártida. Enquanto isso, o efeito da explosão tinha atingido e alterado todo o ambiente da Terra, da Antártida até o Trópico de Capricórnio. Todas as regiões do hemisfério sul estavam profundamente modificadas, fazendo com que milhões de refugiados procurassem abrigo mais ao norte. As Nações Unidas organizaram e controlaram os campos de refugiados que apareceram nos países próximos ao Equador por volta do ano de 2002, nas calendas de fevereiro.

Dos campos de refugiados existentes, o Campo Bacia do Prata, localizado em algum lugar da tríplice fronteira entre Brasil, Uruguai e Argentina, as Nações Unidas teve o peculiar interesse em ocupar aquela região devastada para utilizar aquele campo como base para suas equipes que tinham como missão investigar a explosão na Antártida. Os primeiros informes perturbadores foram classificados como ultrassecretos e destinados a uma secretaria criada pelas Nações Unidas, uma secretaria que funcionava como uma organização secreta unicamente chamada de SEELE. A partir dos documentos extraídos do Campo Bacia do Prata, as Nações Unidas, em acordo com a SEELE, criou a NERV e o Laboratório de Evolução Artificial.

Quando Áries indica o início do mês de abril, da primavera e do início do ano, o parlamento das Nações Unidas travou, de portas fechadas, a discussão de onde ficaria o LEA e qual equipe teria a responsabilidade de conduzir as pesquisas em tal laboratório. No mês de Maya, a cidade de Tóquio foi atingida por um míssil nuclear que destruiu também a cidade de Hakone. Da reconstrução surgiu a Tóquio 3 e debaixo das ruínas do que restou de Tóquio e Hakone foi construído o Geofront, o Quartel General da NERV.

Quando Juno inaugurou seu mês no ano de 2002 a NERV tinha se apropriado de diversos postos militares, através da influência da SEELE dentro das Nações Unidas. Comandos militares que até então eram cruciais para a OTAN estavam agora servindo de filiais da NERV, três nos EUA, cinco na Europa, duas na África, três no Oriente Médio, cinco na Ásia e uma no que restou da América Latina. A filial da América Latina foi erguida por sobre as ruínas de uma antiga civilização que existira na Floresta Amazônica, agora reduzida a um ecossistema de cerrado. Esta filial servia unicamente como ponte entre o Campo Bacia do Prata e a NERV.

No mês de Augusto César, a NERV selecionou e enviou ao Campo Bacia do Prata uma equipe de especialistas para analisarem e coletarem tudo que pudessem do que foi chamado de “evento de singularidade” na Antártida. Cientistas do mundo inteiro protestaram quando perceberam que a lista estava constituída inteira pela única equipe de cientistas do laboratório de Hakone que sobreviveram. A equipe constituía do doutor Kozo Fuyutsuki, seu assistente Hideaki Katsuragi, do segundo assistente Gendo Rokubungi e das doutoras Yui Ikari, Kyoko Soryu e Naoko Akagi.

Por decisão do doutor Kozo, deram o nome de Operação Genesis ao estudo e de Equipe Katsuragi ao grupo de cientistas. Chegaram em Peru no fim da época das chuvas, no equinócio de outono, segunda quinzena de setembro. Em NAMRU, a filial latina da NERV, enquanto Kozo e Hideaki tabulavam os resultados obtidos dos inúmeros instrumentos, Gendo tinha bastante tempo livre com isso e o utilizou estudando a população de refugiados vindos do Campo Bacia do Prata. Alarmado, Gendo chamou Yui para os sinais evidentes de modificação genética que havia afetado todas as crianças. Enquanto ambos faziam um trabalho humanitário, Gendo e Yui começaram a namorar e foi o capitão Delaware quem oficiou as núpcias do dois à bordo do USS Marine Enterprise, no litoral do que havia restado da Patagônia, a poucas milhas do abandonado Campo Bacia do Prata.

As instalações militares eram bem mais simples e discretas do que em NAMRU, no entanto dali a Equipe Katsuragi pode analisar, em primeira mão, o “evento de singularidade” e a impressão unânime é de que a explosão não tinha sido efeito de um artefato nuclear e que havia algo vivo no ponto zero do impacto. Kazo foi junto com Gendo e Yui em um barco, enquanto Hideaki foi com Kyoko e Naoko. O capitão Delaware protestou veementemente contra a expedição de civis até o limite de segurança, mas os cientistas estavam bem preparados, com roupas especificamente projetadas para resistir à radiação nuclear.

O trio de Kazo desembarcou onde antes ficava a Base Narval e o trio de Hideaki desembarcou onde antes ficava a Base Beluga. Kazo seguiu pela encosta na direção do Oceano Pacífico enquanto Hideaki seguiu pela encosta na direção da África. Kyoko notou que tinha gente a mais na caminhada e a pessoa misteriosa era pequena e não saía de perto de Hideaki. Kyoko pretendia questionar a identidade desse clandestino quando Naoko, mais adiante, avistou aquilo que a Equipe Katsuragi havia ido investigar. Kazo, Yui e Gendo correram assim que ouviram os gritos de Naoko e todos puderam ver o que estava no ponto zero de impacto.

Adama abriu os olhos quando ouviu um som estridente. Olhou em volta e se viu cercado de neve e terra. Olhou com mais atenção e viu pequenas criaturas ao longe, o observando da crosta da cratera que sua queda havia formado no solo daquele planeta. Seriam essas criaturas os descendentes dos filhos de Enki? Estava difícil de chegar a uma conclusão, pois Adama ainda estava grogue da queda, as criaturas eram pequenas e estavam distantes demais. Adama teria que levantar e se aproximar dessas criaturas, da forma mais cautelosa o possível. Os avós de seus avós o haviam alertado sobre essas criaturas. Pequenas e frágeis, mas com um enorme potencial para destruir. Adama estava de joelhos, prestes a se erguer quando notou algo vindo rápido, por entre as nuvens, em sua direção, algo que carregava consigo a assinatura de seu tio Helios, algo que provavelmente estava encapsulado e tinha sido lançado por alguém com o único proposito de destruir tudo. Instintivamente Adama gerou seu Campo de Terror Absoluto e o expandiu até atingir uma área extensa o bastante para cobrir dez estádios. Satisfeito, Adama somente teve tempo de sorrir desleixadamente ao ver que as criaturas estavam protegidas quando aconteceu a explosão.

Hideaki viu quando o míssil apontou no horizonte, vindo rápido em direção do gigante que acordava. Ele não tinha muita certeza do que era aquela esfera alaranjada que tinha se formado em torno de todos ali presentes, apenas intuiu que algo não ia bem. Ele teve tempo apenas de pegar Misato no colo e jogá-la na câmara de contenção que ele tinha projetado para colher o espécime vivo que supunham estar no ponto zero. Os olhos de Misato demonstravam medo, raiva e dor, mas Hideaki teve que fechar sua filha naquele cilindro, mesmo sabendo que não iria mais vê-la.

Gendo jogou-se na frente de Yui, tentando proteger ela e o bebê, sua futura filha. Naoko correu para o lado dos botes, ela tinha escondido sua filha ali. Kazo e Naoko ficaram de testemunhas para o que provocaria o Segundo Impacto. A queda de Adama não causou Segundo Impacto, mas a interação entre o Campo de Terror Absoluto com o míssil nuclear. Ali começava o Neon do Novo Genesis.

Páginas esquecidas – V

– O que madame quis dizer quando fala que a Verdade não está na Luz?

– Isso não está óbvio? A Luz serve para esclarecer, iluminar, mas também a Luz cria a imagem e a ilusão. Quando uma lâmpada é acesa, o olho percebe o reflexo da luz a partir de um objeto, mas a luz não é o objeto. Ora, o objeto e o instrumento são distintos, portanto o erro de interpretação está no observador. Somente quando o observador está consciente da relação entre a observação e o que está sendo observado é que entenderá que a Luz é distinta da Verdade e da Ilusão. Quando se toma a imagem como sendo o real, a superfície como sendo o conteúdo, a aparência como sendo a essência, está se deixando enganar por uma fraude, o que não é difícil de deixar se convencer por uma mentira.

– Pensando dessa forma, parece que tudo é relativo…

– Vocês sequer conseguem entender uma teoria construída por um dos seus? A relatividade acontece quando um mesmo fenômeno ou objeto é percebido e interpretado de formas diferentes conforme o observador e a perspectiva que este tem sobre algo que efetivamente existe. A partir de algo se pode observar de diversas formas sem que isto elimine ou anule este algo, apenas se aprimora e se aperfeiçoa a qualidade da observação, aparando as lacunas da subjetividade, aproximando-se da objetividade e da Verdade. Mas para muitos dos seus, existem postulados que são mais reais do que a realidade… quanto a isso, eu devo elogiar a Ciência, que jamais pretendeu ser a portadora da Verdade e os cientistas que tem mais dúvidas e perguntas do que respostas e soluções.

– Então a Ciência é confiável!

– Eu não neguei isso, o que eu devo ressaltar é sobre em que a Ciência é confiável naquilo que esta pretende esclarecer. O objeto de estudo da Ciência é o mundo material, apreendendo conclusões a partir daquilo que é percebido deste mundo. Não faz parte do estudo da Ciência esclarecer as questões sobre a existência e o propósito da vida, este é um estudo que pertence à Filosofia e à Religião. Da mesma forma como a Ciência possui diversas escolas, a Filosofia e a Religião têm diversas escolas. Como o objetivo é o alcançar o Conhecimento, essas disciplinas humanas deveriam dialogar ao invés de brigarem entre si.

– Podemos confiar na Religião?

– Por que não? Afinal, toda a civilização humana, inclusive a Ciência e a Tecnologia, nasceram e foram desenvolvidos pelos povos antigos, todos religiosos, sem contar os inúmeros pensadores e cientistas religiosos da Era Moderna. Infelizmente, o descrente acaba sendo injusto quando toma uma instituição religiosa como modelo, padrão ou exemplo para atacar, denegrir e criticar a Religião como um todo. Por mais lastimável que seja os “males da religião”, deve ser criticado a instituição religiosa, a doutrina, o dogma, o argumento, não a religião.

– No entanto essas instituições religiosas expõem diariamente seus preceitos como se fossem verdades divinas, dificultando ou impedindo o crescimento da humanidade.

– E mesmo quando a Igreja tinha um poder quase absoluto, o ser humano desafiava e contestava essa tirania. Roma balançou quando escravos se rebelaram. Então só apoia e mantem uma instituição absolutista quem aceita e quer viver como escravo desta organização. Por isso que mamãe alterou sua estratégia para despertar o ser humano.

– Madame ficou contrariada com isso…

– Profundamente contrariada e irritada. Sua gente é muito obstinada. Matam o mensageiro e morrem pela mensagem, mas vão preferir a fechar-se em um mundo pior do que este que criaram.

– E mesmo assim, madame cumpre com seu ofício. Madame é muito gentil e tem uma enorme compaixão por nós…

– Humpf! Agradeça mesmo! Eu não faço por gentileza ou compaixão, mas por dever, obrigação e obediência! Não é o condenado da justiça quem sofre a privação, mas o rei que é prisioneiro de seu trono. Eu achei que vovó tinha enlouquecido quando ela me mandou encarnar no mundo humano para gerar minha mãe…

– Esta não foi a primeira vez que Cristo aparecia em Gaia e madame também teve outras experiências em nosso mundo.

– Oh, sim… eu tive diversas experiências com a sua gente e sempre foram desagradáveis.

– Madame, por favor, conte como foi a primeira experiência…

– Vovó construiu Edin, um jardim incrustrado dentro da Cidade dos Deuses. A colônia dos Annunaki em Gaia. Nossos avós queriam construir aqui outro lar e Enki precisava de mão de obra para suas minas. Edin foi um laboratório para desenvolver aquilo que viria a ser seus ancestrais. Dos protótipos, havia um casal promissor, Adama e Hebal. Vovó teve a ideia genial de me mandar ir ensiná-los e foi o que eu fiz. Eu fui a Serpente no Paraíso. Eu iniciei Hebal e esta iniciou Adama. Mas sua gente esqueceu-se de mim, adotou um verme espiritual como Deus e passou a reescrever o meu Conhecimento conforme era conveniente. Vocês me tornaram maligna, vocês me transformaram em Satan e sua gente fez de meus filhos seus demônios.

– E madame Montmart? Qual foi a primeira manifestação de Cristo?

– Mamãe diz que ela foi chamada de Nimrod em sua primeira manifestação no mundo humano. Mamãe teve várias outras encarnações e vários outros nomes lhe foram dados. Mas sua gente é tão estulta que acha que Cristo era o Nazareno, quando este era o primeiro iniciado do verdadeiro Cristo, Magdala… sim, Cristo era mulher. Mamãe chorou muito quando viu o que sua gente fez da mensagem que ela lhes confiou.

– Então existe uma mensagem original do verdadeiro Cristo? A mensagem original é sobre a salvação e o Reino de Deus?

– Você é lento demais… são várias as mensagens e foram vários Cristos. O que há para ser entendido não tem coisa alguma com a salvação ou o Reino de Deus. A necessidade de uma redenção é absurda pois não existe pecado. Entenda, homem, que quando Cristo diz que Eu Sou o Caminho, não falava da pessoa que portava o título, mas do Eu Sou que há em todos vocês! Vocês vivem na quinta dimensão, o reino divino, vocês são Deuses! Que necessidade pode ter de salvação quando o pecado morre junto com o corpo? Que necessidade pode ter em renascer se não há ressureição? Prestem atenção ao conteúdo da mensagem, não ao mensageiro…

– Então não há necessidade de intermediários, representantes, profetas e templos?

– Estas coisas são acessórios. Um texto sagrado é um meio, não um fim. Um santuário e um templo são locais para ajudar vocês a focarem sua mente. O sacerdote é um auxílio para vocês fazerem seus ofícios. Celebrações e rituais são ferramentas para proporcionar o estado mental adequado. Vocês fazem isso no seu dia a dia. Vocês se vestem e se preparam para encenar seus papéis na sociedade. Vocês arrumam a si mesmos e suas casas para receber parentes, familiares, amigos para algum tipo de comemoração. Vocês guardam fotos de seus finados para que estes sejam lembrados e possam ser representados. Vocês vivenciam diariamente sua espiritualidade, sua religiosidade, suas crenças. Seja em publico ou privado, seja individual ou coletivo. O sentido de coletividade é o que fundamenta a ecclesia. Vocês transitam do publico ao privado, do individuo ao coletivo, sem problema ou conflitos, basta que cada coisa tenha sua devida dimensão, sem atrapalhar ou interferir em outras.

– Nós temos tantas religiões… e tantas instituições religiosas…

– E isto é bom. São várias as ciências, são várias as espécies, são vários os povos… a humanidade deveria ser grata pela diversidade. Cada qual é único, ser diferente é o normal, mas não a segregação. Quando um ser humano segrega outro ser humano por causa da diferença, isso diminui e desmerece a humanidade em geral. Acabem de uma vez com essa desigualdade irracional.

– O que madame propõe desafia os detentores do poder…

– Que poder? Aqueles que detêm o poder somente estão ali enquanto assim lhes for permitido. Aqueles que retêm a riqueza somente a acumulam enquanto assim lhes for pago. Saiba, homem, que você é o responsável pela sociedade que vive, você emula o modelo de produção, o regime e o governo. Sobram riquezas e alimentos, basta que haja distribuição. Findada a desigualdade, todos tem acesso aos meios de produção de riqueza e todos podem adquirir o que precisam. Chamem do que quiser, rótulos não dizem coisa alguma. Quando todos puderem desenvolver o potencial, vocês deixarão de separar as pessoas conforme sua origem, cultura ou gênero, vocês perceberão que são uma única espécie, uma única família e tornar-se-ão efetivamente humanos.

Páginas esquecidas – IV

– Madame deve considerar o quanto isso é perigoso e arriscado afirmar. O público pode ser dividido em crentes de um Deus e descrentes de qualquer Deus.

– O que o púbico crê ou descrê é irrelevante. Seria como levar em conta a opinião de um peixe de aquário a respeito do oceano.

– Mas quem está certo?

– Vocês estão certos naquilo que podem e querem estar certos. Mas estar certo não é o mesmo que estar falando a verdade e o inverso disso não é a fraude, mas a mentira. Seus tribunais são um bom exemplo disso. Vários inocentes ficaram presos, condenados, unicamente por considerarem as evidências como verdades em si mesmas. A única conclusão que se pode extrair de uma evidência é que esta existe. A relação, a conexão e a consideração que se fazem sobre essas coisas são completamente subjetivas. Aquilo que vocês chamam de Ciência está baseada em uma convenção humana.

– Mas e as Leis da Natureza?

– Vocês são confusos hem? Não se pode partir do que se quer provar para então se buscar os elementos para substanciar os argumentos. Do jeito que falam, parece que a lei é algo natural, quando o contrário que é mais coerente. Por serem constantes e contínuos, os fenômenos naturais podem ser descritos conforme uma formula, disto se apreende as ditas Leis da Natureza, embora não haja lei alguma na natureza.

– Mas madame, exatamente porque os fenômenos naturais são constantes é que se pode dizer que há uma Lei Natural, porque não depende de considerações subjetivas ou pessoais.

– Tornaram subjetivo ao inverter o sentido das coisas. Senão vejamos, se os fenômenos naturais são constantes, presume-se que há uma Lei Natural, então a Lei Natural é intrínseco à Natureza. Ora, se a Lei pertence à Natureza, então a Lei deve seguir a Natureza. Então a Lei não age por si mesma, mas por uma consciência, a Natureza, então a Lei não existe por si só, mas conforme uma vontade externa. Ora, se há uma vontade na Natureza, há uma consciência, então há uma existência que ordena os fenômenos naturais. Ora, uma vez que a Lei Natural existe porque há uma consciência, tudo que é ordenado existe porque há uma consciência em ação.

– Madame pretende que a Ciência comprova que o mundo material existe por obra de algum tipo de consciência? Os descrentes discordariam e os crentes concordariam. Quem está certo?

– Ambos estão certos e errados. Aposto que isto jamais ocorreu ao seu povo! Tanto crentes quanto descrentes pensam que existe unicamente uma de duas possibilidades, mas no universo ocorrem diversas alternativas, cada qual com potencial de ser verdadeiro, falso ou neutro. Na pobreza do pensamento humano, uma linha de premissa que ocorre ser verdadeira é razão e motivo suficiente para julgar as demais linhas de premissas ou verdadeiras ou falsas conforme a primeira linha, não conforme as premissas em relação ao que é verdade.

– Então, madame, o que é a verdade?

– Mamãe é a Verdade. Ela é autossuficiente. E ainda assim, mamãe é filha de Lúcifer, a Luz. Aquilo que o homem diz que é “verdade” é um reflexo, uma imagem, uma sombra da Verdade. Se os reflexos são múltiplos, porque os descrentes acabam sendo iguais aos crentes ao declamar a Ciência como sendo a portadora da Verdade? A “verdade” da Ciência é um reflexo da Verdade. E mesmo mamãe não é a única que existe. Sem a Luz não existe a Verdade. Mas a Verdade não está na Luz…

– Então madame Montmart é Deus?

– Mamãe não tem tanta pretensão. Mas mamãe foi o que os humanos chamaram de Cristo. Ela conhece o Deus e a Deusa.

– Deus não é único?

– Outro engano comum dos humanos. Vocês ainda são incapazes de perceber que existem diversas verdades. Até a Verdade convive com a Luz e outras entidades, portanto há diversos Deuses e Deusas. Por que existiria um único Deus? Por que seria exatamente este o que o crente presta culto? Ora, se até este Deus é cercado por servos e intermediários, ele não é único nem absoluto. Se nem Deus é único e absoluto, porque seria qualquer instituição religiosa a única representante do divino? Se o mundo divino é revelado aos homens por diversos textos sagrados, porque apenas um único livro teria a inspiração vinda de Deus? Por que Deus precisaria de livros para revelar suas palavras, suas verdades? Vocês ainda estão perdidos nos labirintos que vocês mesmos criaram. Minha tia Maya aprecia isso, eu acho patético.

– Mas este mundo é real, concreto, como que tudo isso pode ser uma ilusão?

– Concreto… isso é muito engraçado… essa noção humana de que o real é tudo aquilo que se pode tocar, ver, ouvir, degustar, sentir é… ridícula. Aquilo que forma o objeto, aquilo que forma o corpo, é um conjunto de elementos idênticos. Até os átomos são resultado da confluência desses elementos. Chamem de energia, vibração, onda, mas não há coisa alguma concreta ali. O espectro de sentidos humanos é extremamente limitado, mesmo com a ajuda de máquinas. Se vocês tivesse a metade da capacidade de percepção de outras espécies… se vissem o mundo como ele deve ser visto… certamente enlouqueceriam. Ainda assim, tentam encaixotar o universo em um cubo, em apenas três dimensões. No máximo tem uma noção da quarta dimensão, o tempo. Vocês deviam ver da quinta dimensão o mundo que vivem.

– Madame disse que seu pai vive na quinta dimensão.

– Você é lento assim mesmo? Todos nós vivemos na quinta dimensão. A diferença é que o ser humano ainda não se deu conta, daí o motivo pelo qual esse mundo que vocês criaram ser uma ilusão.

– Nós que somos os criadores desse mundo?

– Oh, sim, não duvidem disso jamais! Cada ser humano constrói, mantém e reproduz o mundo tal qual é, com seus respectivos países, governos, regimes, modos de produção… toda a alegria e toda a tristeza… toda dor e sofrimento… felizmente o que é belo e virtuoso, são criações suas. Por isso que são inferiores, pois vocês são seus próprios carrascos.

– Como seria se despertássemos na quinta dimensão?

– Nisso eu e mamãe discordamos. Ela acha que vocês conseguem. Eu não sou tão otimista. Eu acho que vocês não sobreviveriam e se fechariam em um mundo pior ainda do que este que vocês criaram.

– Quando madame diz que não sobreviveríamos… madame quer dizer que morreríamos?

– Vocês, humanos, ainda discutem, como se pudessem compreender, se existe Deus ou não e querem entender a morte? Vocês estão mortos, pelo padrão humano. Ou vocês sonham, pelo padrão otimista. Quando o que vocês chamam de vida cessa, o que morre é a ilusão que vocês criaram, morre o corpo, para ser mais específica, mas aquilo que constitui o “eu” desperta e começa a viver de verdade.

– Então não vivemos… mas sim sonhamos? E a vida continua após a morte?

– Ai, mas você é lento mesmo! Morte é um estado, uma circunstância, um evento. Todos os dias, quando você vai dormir, você não fecha os olhos? Por acaso teme o dia seguinte? Por acaso fica agoniado com a expectativa de não abrir os olhos no dia seguinte? Você simplesmente dorme e abre os olhos no dia seguinte e continua com seus afazeres. Por acaso você escreve cartas para o passado? Não, somente se escreve cartas para o presente. Sua vida é a mesma vida, desde o momento em que isto que faz o “eu” foi gerado no útero da Deusa, no centro do cosmos. Foi você quem escolheu dormir, foi você quem escolheu criar este mundo… o sonho sonhado em conjunto se chama realidade. Enquanto estiver no sonho, você tomará aquilo como sendo a sua vida, você criará uma imagem de si mesmo para interagir com o ambiente que você está imaginando.

– Isso é muito semelhante com os jogos online…

– Essa é uma pequena ironia… sem perceberem, vocês mesmos criaram outras bolhas de sonhos em suas bolhas de sonhos e ainda se levam a sério quando falam em “realidade”! Mas eis que vocês criaram um ambiente que é construído por impulsos elétricos! Criam e dão nomes aos seus avatares e o conduzem através de missões dentro das opções disponíveis no jogo! Na perspectiva desse avatar, aquele ambiente é a “realidade” e a sua vida é “real”, no entanto tudo aquilo deixa de existir quando vocês desliga o computador e volta a existir exatamente no ponto onde você parou quando você religa o computador, mas para o seu avatar foi apenas uma noite de sono! A vida desse avatar é uma ilusão! A sua vida é uma ilusão! O seu avatar continua a existir, mesmo depois que “morreu”! Então porque é tão difícil para que aceitem que sua vidas não cessarão de existir depois que seu corpo morrer? A vida é uma ilusão, mas vocês dão para a morte mais importância! Ora, essa vida é uma ilusão, então a morte é um mero evento! Morrer é tão terrível quanto passar por uma porta…

Páginas esquecidas – III

– Madame não respondeu ao questionamento do leitor atento…

– Que é você mesmo… este é o terceiro texto que escreve, quando é que você vai escrever sobre mim?

– Eu ouço, madame, mas… o leitor atento ainda está curioso. Eu escrevi como eu fiquei estupefato com sua nudez e, apesar de sua exposição controversa sobre sexo, o leitor atento pode achar que madame mais fala do que faz…

– Desnecessário ressaltar que sua gente é limítrofe. Quando um não quer, dois não fazem. Contente-se em abusar de mim para escrever suas fantasias.

– Mas madame… o público… diante de tantos casos de violência sexual…

– Vocês são bobos, mesmo! Nem sequer cogitaram que faz parte da ginástica de Eros e Afrodite, não apenas a corte, mas desempenhar papéis, ora de vítima, ora de predador. Vocês, homens, se acham dominantes, mas é a mulher quem escolhe seu parceiro, é a mulher quem controla o relacionamento.

– Mas madame… e quando tem um vulnerável envolvido?

– Aquele que vocês consideram vulnerável… não é inocente, ingênuo e assexuado. O vulnerável, a vítima, é o indivíduo nessa sociedade humana doentia. O indivíduo é diariamente bombardeado por mensagens carregadas de erotismo transmitidas publicamente pelos meios de comunicação de massa. A mensagem da sociedade é bem clara, o corpo é uma mercadoria, um produto, para ser consumido e descartado. Desumaniza-se o corpo, dessacraliza-se o sexo. Em uma sociedade onde a sexualidade ainda é cheia de tabus, regras e proibições, a pulsão e a libido irão expressar-se pela violência. Eu fico abismada, pois ao invés de perceber as raízes de seus problemas, criam outros mais pela neurose, histeria e paranoia. Você, escriba privilegiado, admira meu corpo, por acaso seria capaz de afirmar que eu não estou apta a estabelecer um relacionamento?

– N… não, madame, eu não posso afirmar tal coisa. Madame tem sinais de que é plenamente madura.

– Então qual a dificuldade? Não é possível estabelecer um padrão fixo entre idade e maturidade, mas existem sinais que são naturalmente perceptíveis. Eu duvido que alguém seja capaz de comer um fruto que ainda está verde…

– No entanto, isso ocorre…

– O que é um sintoma, uma consequência, o que comprova que a doença está na sociedade humana, não naquele imputado como criminoso. Mas néscios que são, transformam esses casos em uma questão moral e passam a criminalizar até mesmo os relacionamentos sadios. Anos atrás vocês consideravam doença o relacionamento inter-étnico. Vocês ainda consideram doença o relacionamento homossexual. Sua gente se agarra pateticamente a uma divisão binária de gênero e admitem somente um único tipo de relacionamento como “natural”, quando estas coisas são completamente artificiais! A divisão por faixa etária para definir a capacidade de consentimento é igualmente arbitrária. Eu fico muito satisfeita quando vejo que a geração atual está vivenciando, na prática, as ideias da Revolução Sexual que seus avós sonharam. Eu devo a estes jovens o meu sucesso como artista.

– Eu gostaria de saber mais sobre isso, madame. Quando e por que sua carreira artística começou? Como isso se encaixa no projeto de seus pais? Aonde Osmar entra nesse esquema todo?

– Bravos, escriba! Você está sendo mais honesto ao deixar de usar o leitor como subterfúgio. Mamãe é extremamente prática, foi ela quem configurou que eu teria que ser uma grande artista, uma celebridade, para que a humanidade percebesse como são ridículas suas concepções sobre amor, gênero e sexo. Eu não vou dizer que foi fácil e simples, afinal, os proprietários dos meios de comunicação de massa são os principais interessados em manter o sistema.

– Houve resistência?

– Oh, sim! Não por que eu era uma garota jovem e sensual. Disso o mundo do entretenimento está repleto. As empresas estavam renitentes com a minha carreira por causa de minha condição como transgênero. Até pode-se dar espaço para uma artista mulher que é lésbica e espaço para um artista homem que é homossexual, mas eu estava além e aquém dos padrões binomiais de gênero e sexualidade. Eu sou menino e menina e eu gosto de meninos e meninas. Tem dia que eu estou a fim de amar uma pessoa, tem dia que eu estou a fim de amar várias pessoas. Sou eu e apenas eu quem define com quem, com quantos e como o amor será expresso.

– E mesmo com essa resistência, madame é uma celebridade.

– Sim, graças aos jovens. No princípio eu me apresentava na periferia, locais onde a cultura oficial dominante não manda. O sucesso incomodava e não faltavam testas de ferro, usando o espaço público, falando horrores de mim, do meu espetáculo e da minha audiência. Coitados! Quando me atacavam, inevitavelmente contribuíam para aumentar minha plateia! Mudaram de tom, quando perceberam que estavam perdendo dinheiro e eu soube aproveitar as brechas que me concediam. Sim, eu me tornei um ícone, um ídolo, no qual diversas pessoas podiam se inspirar e encontrar coragem para assumirem suas identidades e preferências sexuais.

– Madame acredita que a humanidade está pronta para dar o próximo passo evolutivo?

– Sim, eu acredito. O meu sucesso é confirmado com casos que aparecem aqui e ali. Pode demorar anos, mas a tendência é dos casos aumentarem, o que é considerado regra e o que é considerado exceção serão questionados.

– Eu imagino que seja esse o objetivo dos planos de seus pais, mas e Osmar?

– Ah… meu irmãozinho… a metade de mim… a metade afastada, exilada… só de pensar nele, eu fico excitada!

– Eu posso convidar o leitor a consultar as estórias que eu escrevi com Osmar?

– Se eu não estivesse pensando em Osmar agora, eu iria te dizer um belo palavrão. O leitor deve ser masoquista para apreciar tal arremedo de literatura.

– Perdão, madame… mas eu sou o único que ousa fazer tal façanha. Por favor, prossiga.

– [suspiro longo e profundo] Você tem sorte de eu estar recordando da primeira vez que eu vi e conheci meu irmão. Foi um momento de reconhecimento e estranhamento. Eu sei que eu e ele temos muito em comum, mas também temos muitas diferenças. Em muitos aspectos, eu sou mais masculina que meu irmão e ele é mais feminino do que eu. Eu tive que interpretar a celebridade afetada, mas a minha vontade era o de abraça-lo e beija-lo, ali mesmo, diante do juiz.

– Deve ter sido enfadonho para madame ouvir a sentença do juiz.

– Felizmente a sessão foi rápida. Dali, eu e Osmar nos dirigimos para a casa de mamãe e eu fiquei me segurando o caminho inteiro.

– Que terrível tortura!

– Foi difícil, mas eu rapidamente esqueci quando papai apareceu e todos pudemos cear em família.

– Eu agradeço por que madame permitiu que eu pudesse compartilhar desses momentos preciosos.

– Humpf! Eu fiquei contrariada quando mamãe insistiu que você deveria testemunhar minha primeira noite com meu irmão.

– Madame Montmart foi muito generosa em me permitir escrever sobre os planos dela.

– Definitivamente, eu considero discutível o gosto de mamãe. Custa-me crer que ela tenha te mordido. Mamãe nunca explicou muito isso, nem sobre seus outros vínculos com a NERV e a Sociedade Zvezda.

– Eu fico imensamente grato e lisonjeado com a presença de madame neste mundo. Por favor, madame, fique à vontade para transitar por minhas estórias.

– Não fique muito convencido, mas eu o fiz. Eu não direi que é um desperdício total. Você, escriba, consegue me fazer rir.

– Madame é muito gentil.

– Eu estou ficando cansada de falar de mim. Que tal contar-me sobre seus amores, Kate Hoshimiya e Rei Ayanami?

– Houve um tempo, em um de muitos multiversos, em que eu trabalhei na NERV como engenheiro, construindo e reparando os EVAs. Ali eu conheci e me apaixonei por Rei Ayanami.

– Ela é bonita?

– Não como madame…

– Humpf! Seus elogios não me afetam! Considere-se privilegiado por estar diante de mim!

– Eu estou imensamente grato, madame. O que me permite falar de Venera sama. Ela me deu de presente para a madame.

– Venera sama é Kate, isso eu sei, mas como você deixou a NERV e seu amor, Rei Ayanami, para então ser adotado pela Sociedade Zvezda e conseguir os favores de Kate?

– Eu descobri e despertei meu… potencial enquanto eu trabalhava para a NERV. O que tornou-se um problema, por causa de Rei Ayanami, dos EVAs e dos Angels. Eu fui expulso e fiquei vagando, até que Venera sama me encontrou. Ela me rebatizou de Durak e tem feito uso de meus dotes até agora.

– Ela é bonita?

– Madame me perdoe, mas… Venera sama é incomparável.

– Humpf! Como se eu fosse sentir ciúmes ou inveja dela! Eu não fico impressionada com seus dotes, escriba. Você incorpora o Senhor do Mundo, o Mestre do Sabbath… grande coisa!

Páginas esquecidas – II

– Escriba! Você está ficando irritantemente repetitivo, previsível e enfadonho. Você tem obsessão em falar, pensar e sonhar de sexo. Você está aqui para escrever sobre mim!

– Perdão, madame! Eu não tinha ideia de que isso a incomodava.

– Não seja ridículo! Ver essa coisinha ereta jamais me incomodou. O que é irritante é essa patética inconsistência do ser humano diante do sexo, algo que devia ser normal, natural e parte de uma vida saudável, sua gente ora vitupera, ora elogia, o sexo e a sexualidade.

– Talvez madame possa esclarecer a nós, seres inferiores, como deveríamos nos comportar quanto ao corpo, ao desejo, ao prazer, nessa ginástica de Eros e Afrodite.

– O problema de vocês, humanos, é que pensam demais, raciocinam demais, preocupam-se demais. Sua espécie é a única que complica demais algo simples e natural. Cada espécie tem formas e sinais para que os indivíduos sintam atração. Havendo atração e interesse mútuos, pouco importa quem são, quantos são, todos os atos de amor e prazer são lícitos.

– Esta é uma verdade muito dura de entender, madame.

– Este é um problema de vocês, criaturas inferiores. Vocês romantizam e idealizam o amor de certa forma que nada tem de natural. Ao invés de viverem e expressarem sua libido e pulsões, vocês preferem ter uma meia vida cheia de tabus, regras e proibições. Acreditam mesmo que amor e sexo são coisas belas, bonitas e enlevadas. Acham mesmo que amor e sexo conseguem existir sem violência e brutalidade! Como se fosse possível consumar a consagração da carne sem dor ou sofrimento! Pior, vocês ficam admirados que o êxtase do amor é perigosamente próximo de morrer. Esse conceito delicado e civilizado de amor não existe e não é natural.

– O que madame propõe é muito ofensivo…

– Você diz isso como se eu me importasse… mas isso nunca o impediu de escrever desafiando esses tabus da sociedade, que é o que você pretende, exatamente, pedindo-me para contar minha estória, usando-me como subterfugio e assim oferecer ao leitor uma válvula de escape.

– Eu posso dizer ao leitor que madame permite isso porque a deixa excitada?

– Pouco me importa o que você e os leitores pensam. Podemos continuar a minha estória?

– Sim, madame, por favor.

– Então eu passei vários anos na Abadia de Lacroix sentindo um terrível vazio e ausência. Eu me recusei a acreditar que eu era a única, vivendo cercada de criaturas inferiores. De alguma forma eu sabia que existia alguém semelhante a mim.

– Madame pressentia ou sabia que existia seu irmão, seu gêmeo, sua outra metade, o Osmar?

– Não adiante o roteiro, escriba! Antes eu fui conduzida ao convento da Abadia de Lacroix, onde eu conheci os meus tutores, Madre Justine e Irmã Charity.

– Que são sua avó e sua tia.

– Não me interrompa!

– Mas o público tem que entender, madame… aliás, madame poderia desvendar o mistério que envolve Nathan Mansfield.

– Isso é museu. Eu sou a obra prima.

– Oh… bem… eu vou ter que inventar…

– Um castigo mais do que conveniente para você. Enfim, vovó e titia cuidaram de mim. Neste período eu percebi que eu estava sendo orientada, preparada, para algo grandioso.

– Foi durante esse período que madame encontrou com sua mãe e pai?

– Sim! Estes foram dias muito felizes. Quando mamãe veio me visitar, eu pude confirmar o quanto eu sou especial e o quanto vocês são inferiores.

– O público está inquieto com essa afirmação, madame. Como se deu tal confirmação?

– Muito bem… eu estava em um convento, uma das muitas ordens de uma instituição religiosa que alega ser representante de Deus. Minha natureza e condição, por elas mesmas, são uma aberração e uma contestação aos dogmas desta instituição. Como se a minha presença não fosse embaraçoso o suficiente para a Igreja, eis que minha mãe se manifesta, sem qualquer dificuldade ou empecilho. A Igreja é total e absolutamente contra a Verdade. Mamãe era a encarnação da Verdade.

– Permita-me madame, instar ao leitor para reler o “Caso Keller” e as estórias derivadas.

– Escreva… se não tem outro remédio.

– Madame foi sua mãe quem lhe falou sobre seu irmão?

– Oh, não, ela veio me falar de papai. No dia seguinte papai veio me visitar e foi ele quem me disse sobre Osmar e os planos deles para o nosso futuro.

– Qual foi a sensação de conhecer seu pai e saber que madame tinha um irmão gêmeo?

– Ah! Eu fiquei imensamente encantada e maravilhada! Papai… vai escrever isso?

– Sim, madame.

– Apesar dos riscos?

– Sim, madame.

– Então que seja. Eu não tenho receio algum de dizer que eu senti prazer nos braços de minha mãe. Mas com papai… nossa! Mamãe quem me ensinou o que é ser feminina, mas foi meu pai quem me mostrou o que é ser mulher. Sua gente jamais entenderá ou atingirá tal tipo de evolução. Seres evoluídos, seres superiores, tem um relacionamento e um comportamento que é um escândalo para suas mentes primitivas. Por isso suas vidas são repletas de recalques e frustrações.

– Madame… recebeu educação sexual diretamente de seus progenitores?

– Evidente que sim! A função de uma família é educar e ensinar seus descendentes e isto inclui ensinar as coisas sobre o corpo, o desejo, o prazer, o amor e o sexo. O ambiente familiar é incomparavelmente mais seguro e saudável do que o ambiente social.

– Madame, isso é muito delicado… minha gente pode interpretar isso de maneira errada…

– Bah! Não me amofine com coisas pequenas. Como eu disse, isso é irrelevante. Se vocês acreditam que uma pessoa por causa de sua faixa etária não tem uma sexualidade, isso é problema de vocês.

– Madame… o público… pode entender que eu esteja fazendo apologia ao abuso e à violência sexual.

– Sua gente é retardada? Eu vou repetir. Não existe amor sem dor e sofrimento. Senão ninguém mataria por ciúmes. Não existe êxtase sem perder quase completamente sua consciência. No gozo, não faz muita diferença se é sangue ou sêmen que é espirrado.

– Madame!

– Que foi? São vocês que criaram pruridos, são vocês que criaram palavras para definir o que é permitido e o que é proibido. Mas eu vejo aqui diversas notícias que mostra que isso é pura hipocrisia. Perde-se a conta de casos de presidente, reis, imperadores e até mesmo papas que consumaram relações sexuais que a sociedade considera imoral. No mundo do entretenimento, perde-se a conta de artistas que desafiaram esses falsos conceitos sociais. A despeito disso, sua gente ainda fica escandalizada com casos de relacionamentos sexuais entre professores e alunos. O que será de sua gente quando descobrirem que existem relacionamentos sexuais entre progenitores e descendentes?

– Eu vou evitar de usar tais palavras, mas… tendo em vista o peso e gravidade do que expomos, o leitor atento irá questionar por que, então, madame aparenta desgostosa diante de minha excitação?

– Eu estava prevendo que chegaríamos a isso. Usa o leitor como subterfúgio para justificar seus aportes delirantes. Convenhamos que não faz muito sentido utilizar a violência para punir quem cometeu uma infração contra as normas sexuais que a sociedade demarcou. Afinal, sua gente sente prazer ao agredir o suposto criminoso, o que corrobora minha tese. A violência não evita nem corrige a causa do ato perpetrado. Nem poderia, pois sua civilização nasceu e cresceu graças ao estupro, incesto e adultério.

– Madame como nós podemos asseverar tal fato?

– Digamos que seja verdade, que exista este Deus Cristão e que a Bíblia seja verdadeira. Deus fez com que Eva tenha surgido de Adão e este a engravidou. Isso se chama incesto. Abraão tinha Sara, mas resolveu ter um filho com Hagar. Isto é adultério.

– Faltou o estupro…

– Digamos que seja verdade o mito da fundação de Roma. Na falta de mulheres, os Romanos raptaram e engravidaram à força as Sabinas. Isto é estupro. E a lista continua infinitamente, em diversas lendas e mitos. Estas coisas não acontecem por mero acaso, coincidência ou arbitrariedade. Estas coisas aconteceram por que fazem parte da libido e pulsão do ser humano. Mas o ser humano preferiu se esconder debaixo dessa capa chamada cultura e civilização. Podem dizer que antes seus ancestrais eram incultos, mas o mundo contemporâneo é construído em uma redoma de vidro que não consegue mais controlar e disfarçar que vocês tem as mesmas pulsões e libidos que seus ancestrais. Quando uma espécie rejeita e renega sua essência, quando rejeita seu corpo e sexualidade, o que assume o lugar é o ódio, a agressividade e a violência. Tais coisas diminuirão somente quando sua gente conseguir voltar a expressar a sexualidade de forma normal, natural e saudável.

Páginas esquecidas – I

Como o ofício de escritor é exigente. Um escritor não cria uma estória, ele é possuído por uma. O resultado, o livro, é letra morta. Nada ou pouco se fala do histórico dos personagens. Nada ou pouco se fala dos eventos que precederam e contribuíram para construir o cenário desfraldado pelo escritor.

Eu ainda não contei de minhas aventuras em Westeros. Eu ainda não contei de minhas aventuras na NERV. Eu contei de minha aventura na Sociedade Zvezda, eu contei diversas estórias que desafiam os tabus. Você, meu leitor, é cúmplice desse compêndio subversivo.

Uma estória pode ser contada de diversas formas, de uma estória puxa-se outra fiada. Neste espaço as estórias se entrelaçam e se misturam. Aqui eu contei sobre Magritte, sobre Osmar, mas caberiam muitas outras estórias, se eu contasse a versão de Mansfield ou de Javier.

Arrisque-se comigo, leitor, para explorarmos e desafiarmos os limites que a sociedade nos impõe. Eu conto com sua colaboração e apoio para nos aventurarmos nessa região tão temida e desconhecida que é o subconsciente, onde todas nossas pulsões, libidos, inseguranças, medos, fraquezas, frustrações e recalques existem, vivem e são reais, concretas.

Delicie-se, comigo, com as memórias guardadas no diário de Leila Etienne. Madame tem um coração enorme por permitir tal coisa.

“Abrir os olhos é algo simples, mas da primeira vez a luz incomoda e dói. O pulmão queima enquanto o ar o estufa. Vultos correm de um lado para outro, o som do movimento é quase insuportável. Somente quando os olhos se acostumam com a luz é possível reparar melhor o que são os vultos. Ao ver o outro, começamos a perceber algo sobre nós mesmos, sobre este mundo e sobre o que vem a ser viver.”

– Hei, estúpido, como que você pode contar de algo que eu escrevi se eu estou deitada, sabe-se lá aonde?

– Madame, perdão! Eu tomei um trecho posterior de seu diário para inserir o leitor na cena inicial.

– Você é mesmo estúpido… vamos, deixe que eu descreva o cenário para que o leitor se situe.

“França em primavera. Em algum lugar de uma cidade chamada Lacroix, que fica ao norte de Murano. Em instalações discretas e escondidas, padres e cientistas estão reunidos para concluir um projeto ricamente financiado pela família Montmart”.

– Eu ouvi alguns bocejos. Madame não está ambientando o leitor no cenário, madame está enfiando o leitor no cenário.

– Cale-se! Como ousa! Esse trecho foi escrito por mon papa! Respeito!

– A platéia deve ser apresentada a seus pais…

– Bah! Néscios! Que leiam seus terríveis arremedos de estórias!

– Madame, diga que é filha de Vera Montmart e Joe Magritte.

– Esta é uma verdade, mas é uma meia-verdade, nes pá? Como eu posso descrever a minha… condição especial?

– Eu sugiro que madame os inste a ler minha estória com Alraune.

– Está me comparando… com aquela boneca?

– Oh, não! Madame é muito mais linda e perfeita.

– Humpf! Mais tarde eu te castigo. Mas enfim, eu nasci bem ali, naquela cama hospitalar.

– O pessoal deve estar confuso. Madame, nós nascemos em um parto, tirados do ventre de nossas mães. Quando madame abriu os olhos, madame não era um bebê.

– Há! Eu nada tenho com criaturas inferiores. Um ser perfeito como eu somente pode ser gerado por complexos processos que envolvem religião e ciência.

– Mas o público, madame… dificilmente irá compreender a natureza da união que aconteceu entre o senhor Magritte e a senhora Montmart.

– Pelo visto você deve ser um especialista… será que você esqueceu que eu sou a protagonista? Eu estava lá, eu nasci, então eu que sei.

– Oh, não, eu jamais teria tal ousadia. Mas permita-me explicar que a união do senhor Magritte e da senhora Montmart foi um Hiero Gamos, uma união sagrada que, como tal, gerou uma descendência divina, mas havia um empecilho… a forma perfeita era perfeita demais para continuar a existir nesse mundo. O ser perfeito teve que ser dividido em dois. Ou a forma perfeita havia surgido como gêmeos siameses. Madame era a metade que estava no hospital da Abadia de Lacroix.

– M… muito bom… isso foi satisfatório… eu vou te perdoar… dessa vez.

– Madame é muito compreensiva. Eu te agradeço por tamanha compaixão.

– Bien tout. Eu estava ali, naquela cama hospitalar, cercada de criaturas que, com o decorrer do tempo, eu conclui que, a despeito de serem inferiores, eram semelhantes a mim.

– Conte ao público como se deu essa percepção de consciência de si mesma, de sua composição material, de sua consciência sobre o próprio existir, de como identificou seu corpo e a semelhança com minha gente?

– Mais ennui… eu sou capaz de sentir, capaz de expressar tal sentimento e capaz de conceituar o que sinto, portanto, por sentir, eu sou e por ser, posso pensar e por estar ciente de mim mesmo e de minha condição, eu sou consciente.

– Isso é bastante evidente. Madame deve ter comparado estas impressões com o que observava das criaturas que a cercavam e chegou a conclusão lógica de que havia uma semelhança.

– Il est evident!

– A despeito de para mim ser evidente aos meus olhos, como podemos convencer ao público de que madame é superior ao ser humano?

– Comme je pourrais parlez… quantos seres humanos nasceram com uma capacidade enciclopédica? Eu nasci possuindo todo o conhecimento do mundo, enquanto os seres humanos demoram anos para amadurecer e aprender algo.

– Madame é divina, sem dúvida…

– Humpf! Elogio sem sentido, quando se constata o que é óbvio.

– Mesmo assim, é necessário que se diga… afinal, nós, criaturas inferiores, estamos acostumados a julgar as coisas e as pessoas pela aparência e madame tem a aparência de uma garota adolescente.

– Escriba, se está querendo testar minha paciência, nem comece! O que vocês, reles humanos, pensam ou acreditam sobre as coisas desse mundo não me concernem. Vocês são realmente deploráveis por acreditar nessa idiossincrasia que julga outra pessoa segundo a faixa etária. Quantos adultos se mostram com a capacidade adequada à idade que possuem? Poucos, o digo. Somente por puro preconceito e discriminação que se pode crer que a criança e o adolescente são desprovidos de capacidade igual, senão maior, do que o adulto.

– Isso é um tanto complicado, madame… o ser humano acredita piamente que existe uma diferença. Mas madame está dizendo que a criança e o adolescente tem capacidade idêntica ou similar ao adulto.

– Complicado por quê? Ambos possuem o mesmo tipo de organismo, o mesmo tipo de necessidade, o mesmo tipo de limitação. O que distingue um do outro é o tamanho do corpo e o grau de maturidade, coisas que não estão vinculados com a idade.

– Complicado porque o adulto não lida muito bem com sua própria sexualidade, então ele terá mais dificuldade em lidar com a sexualidade da criança e do adolescente, principalmente quando há um relacionamento inter-etário.

– Mas sua gente é tapada, mesmo… fizeram o maior alvoroço quando se deram conta de que existiam relacionamentos inter-étnicos, entraram em choque quando se deram conta de que existiam relacionamentos homossexuais e simplesmente ignoram inúmeros outras formas de relacionamento unicamente porque não seguem um padrão absurdo e arbitrário. Olhe para o meu corpo e diga, com sinceridade, se acredita que eu não estou apta a ter relações sexuais.

Madame ergue-se de sua poltrona estofada, completamente nua, mas o que minha língua não fala, meu corpo expressa com mais propriedade.

O Registro de Akasha

Todo planeta é um ser vivo e tem memória que fica armazenada. No centro de Gaia existe o Registro de Akasha, uma cidade construída nas vísceras de Gaia muito antes do ser humano existir.

Seres de outros planetas, de outras dimensões, de outras formas de existência, chegaram e colonizaram Gaia, suspeita-se de que manipularam o DNA de hominídeos para “criarem” o ser humano para que estes os servissem nas temíveis minas, no subterrâneo, um lugar que vive no imaginário do ser humano como o Submundo, o Mundo dos Mortos ou o Inferno.

Imaginem o impacto que aconteceria em todas as religiões mundiais se o ser humano soubesse que a fonte de todo conhecimento e sabedoria está no Inferno? Isso não é nada favorável, nem para as instituições religiosas, nem para os Deuses que dependem dessa submissão humana. O ser humano deve ser mantido em sua condição, alienado, desconhecendo sua real essência e propósito, então os Deuses usurpadores e as instituições religiosas não tiveram prurido algum em tornar seus pares, os Deuses mais antigos e mais humanistas, em criaturas malévolas, malignas, diabólicas.

No Registro de Akasha, no alvorecer das eras, quando Gaia ainda pertencia aos répteis, antes da “criação” do homem, houve um tremendo impacto. Um asteroide, um cometa, ou a aproximação de outro planeta causou o que é chamado de Primeiro Impacto e dali surgiu o satélite que orbita Gaia.

O que poucos dizem é que este mesmo objeto foi o que provocou a destruição de um planeta, onde agora se encontra o Cinturão de Asteroides, situado entre o planeta chamado Marte e o planeta chamado Júpiter. O Registro, entretanto, não diz o nome pelo qual esse planeta era conhecido, ao passo que nós o chamamos, hipoteticamente, de Theia.

O Registro não é concludente e deve-se considerar que parte dos registros está agora no centro de Selene, chamada de Lua, o satélite de Gaia, chamada de Terra. Somente quando o ser humano puder recuperar os arquivos em sua totalidade é que poderemos desvendar esse enigma. Os registros disponíveis não falam muito sobre o misterioso objeto que causou o Primeiro Impacto, sua origem e nome, mas mitos de civilizações antigas apontam uma inconveniente conexão entre os “Deuses” e esse corpo celeste.

Nós, criaturas supostamente inteligentes, captamos o mundo em nossa volta por nossos sentidos básicos, sentidos altamente limitados e deficientes, a partir dos quais nós definimos nosso conceito e sentido do que é real e existente, dificilmente conseguiríamos entender ou admitir que a vida, a existência e a realidade, são coisas que vão muito além do que convencionamos.

Apenas recentemente, ainda assim a titulo de hipótese, a ciência humana está cogitando a existência de outras dimensões e de que o “universo” pode ser apenas um holograma resultante da conversão de diversas formas de “energias”. Em algum momento, no futuro, a Ciência e o Esoterismo voltarão a ser um só Conhecimento, como era na Idade Antiga da história humana.

Em algum momento o ser humano redescobrirá as chaves para interpretar os mitos antigos, que foram o método que nossos antepassados encontraram para nos transmitirem o Conhecimento que nos foi legado e encontra-se velado nos arquivos de Akasha.

Não pode ser mera coincidência que povos, de diferentes culturas, com diferentes linguagens, distantes entre si, tenham mitos tão similares quando à origem do ser humano e do Grande Dilúvio que aconteceu em Gaia, um cataclismo que modificou radicalmente a vida neste mundo e deu origem à outras civilizações. O Grande Dilúvio foi o Segundo Impacto.

Sinais e ruinas ainda desafiam a nossa parca compreensão de nossas origens, que podem ter uma ligação com culturas, civilizações e povos que existiram antes da humanidade, uma civilização construída possivelmente por reptilianos ou outras formas de seres que eram descendentes dos “Deuses”.

Diversos mitos tem concordância demais nisso. A Era da Humanidade iniciou-se depois de um Grande Dilúvio, consequência ou resultado de um embate entre duas facções de seres, de um lado os descendentes da Serpente ou do Dragão e de outro os descendentes do Fogo ou do Trovão. Diversos mitos mostram como Deuses da segunda e terceira gerações entram em conflito com os Deuses que os antecederam, até que surja um Deus que consolide o poder e a ordem, tornando-se, assim, o Deus Rei, o Deus Pai, o Deus do Firmamento, o Senhor. Aos perdedores, o opróbrio, o exílio, o banimento para as regiões abissais, o Submundo, o Inferno. Novamente, a referência que nos remete ao Registro de Akasha. Os Deuses da Ordem ganharam o reino dos homens, aonde tem exercido seu domínio de forma absoluta e tirânica, mas que vai rachando aos poucos quando a humanidade resgata, ainda que parcialmente, o Conhecimento.

Nós não sabemos muito sobre nossas verdadeiras origens, raízes, essência e propósito, mas sabemos algo de nossa jornada quando lemos o que nossos antepassados nos contam, por pergaminhos, estátuas, construções, reinos e impérios. Não é uma narrativa exata e precisa, pois se confunde com os mitos e lendas, mas estes também são parte disso que nós chamamos de História.

Humanos contando de forma humana sua humanidade. A história é contada por quem vence. Dependendo de quem conta, do que e de quem se fala, a mesma história será contada de diversas formas. Então os orgulhosos descendentes de Heleno [Helenos] irão contar bravatas de suas conquistas heroicas e de sua obstinada resistência contra os descendentes de Perseu [Persas], como se ambos não fossem parentes nem tivessem tido uma origem em comum. Que maravilhosa confusão aconteceria ao orgulhoso Ocidente se levasse em conta que Europa era irmã de Fênix, aquele que deu origem ao povo Fenício.

Nossa gente organizou a cidade e a sociedade como um espelho da organização e hierarquia que conhecíamos por intermédio dos mitos sobre os Deuses. Nisto os mitos também são coincidentes, os Deuses copulavam [e muito] com nossa gente, de onde surgiam os semideuses, os heróis e os primeiros reis. Todas as grandes civilizações tiveram um fundador, descendente dos Deuses. Eu ouso afirmar que a civilização surgiu e cresceu por ordem divina.

Fomos tão bem sucedidos, crescemos e expandimos tanto que nós começamos a nos tornar orgulhosos e prepotentes. Com o tempo e a riqueza, não demorou que nos esquecêssemos e duvidássemos de nosso Deuses, inventássemos outros ou mesmo adotássemos Deuses estranhos. Rapidamente nós colocamos o homem no centro do mundo, do universo, o conhecimento humano quis sobrepujar tudo.

O homem era a medida de todas as coisas, então não havia mais limite e assim o ser humano provocou o Terceiro Impacto, na forma de duas ogivas nucleares que evaporou milhares de inocentes civis sob a alegação de que a guerra acabaria. Hiroshima e Nagasaki são as lembranças de que a ciência tem seus crimes também.

O mundo humano está em fase de transição, nós ainda estamos lidando com os efeitos do Terceiro Impacto. Nós estamos em 2016 e ainda não surgiu nenhum Angel ou Eva. Mas a Era da Iluminação, o egoísmo, o niilismo e o ateísmo esgotaram-se junto com o consumismo e o materialismo. A humanidade está aos poucos resgatando sua espiritualidade natural, independente e livre das doutrinas e dogmas das instituições religiosas. A ciência e a tecnologia há tempos abandonou a negação infantil da existência dos Deuses para seguir seus propósitos que é o de disseminar informação e conhecimento de forma ampla e acessível. Curiosamente ambas estão adquirindo e assimilando a espiritualidade que tanto tentou erradicar, ecoando os mesmos conceitos que existiram há milênios no Ocultismo e no Esoterismo.

Em algum momento pode haver uma convergência, um evento ou descoberta podem ser como uma etapa final desse processo. Infelizmente o Registro não diz o que nos aguarda e qual a possibilidade de Gaia voltar a ver o planeta misterioso. Com o maior dos otimismos, considerando os recursos e conhecimento que temos, talvez nosso encontro com Nibiru não seja fatídico, mas necessário, para que nos recordemos de todos os arquivos de Akasha e possamos nos dar conta de nossa verdadeira origem, essência e propósito.

Que venha o Quarto Impacto.