A Irmandade do Capuz – II

As equipes de emergência médica competiam o espaço com a equipe de prevenção de danos. Sim, eu exagerei e Kelsey também. Eu calculei mal ao achar que Kelsey era tão forte quando Riley e Kelsey deve ter me visto lutar com o valentão no Colégio Sweet Amoris.

Quando se assiste a um filme [ou uma animação] e tem uma cena de luta, pode ter certeza de que 80% é truque gráfico e coreografia. Eu creio ter decepcionado muito fã de Cavaleiros do Zodíaco quando eu dei uma surra no Seiya. Eu sei que Goku teve muita ajuda da computação gráfica para virar um super sayadin. Eu destruí um palco quando eu lutei com Ryuko e Satsuky. Eu estou toda enfaixada e dolorida, mas valeu a pena. Kelsey está toda enfaixada [e deve estar dolorida], mas consegue fazer um sinal de positivo com a mão. Emily faz o que pode para nos dar apoio e conforto.

– Uooou! Eu vi, mas ainda não consigo acreditar. Vocês duas lutando foi demais! Kelsey eu sabia, mas eu fiquei surpreendida com a sua força, agilidade, habilidade e flexibilidade [ela não conhece Riley]. Depois dessa demonstração, você vai, no mínimo, ser sargento.

– Isso compete ao Comando Superior decidir, capuz rosa.

– Ah! Tenente capuz lavanda! Atenção, sentido! Oficial na área!

– Dispensados. Tenente capuz branco estava arisca e intrigada demais com a nova recruta, então eu vim avaliar pessoalmente.

Uma mulher mediana envolta em um uniforme cor de lavanda veio em minha direção e eu senti que nós nos conhecíamos. Mas naquele momento, nenhuma de nós queria estragar o disfarce. Mas nos meus ossos eu sabia quem ela era: Rei Ayanami. Ela olhou para minha forma de Erzebeth como estava acostumada a olhar para meu Self, completamente indiferente.

– Esta é a recruta? Erzebeth… ela é alta, forte e tem uma aparência latina. Eu tenho autorização para confirmar de que ela foi aprovada e deve se apresentar no saguão principal para a primeira preleção. Em quantos dias você acha que estará recuperada?

– O médico disse três semanas.

– Eu tenho certeza de que você estará em pé em três dias. Vemo-nos lá, recruta.

– Tre… tre… três dias? Isso é impossível!

– Diga, Kelsey, acha pouco três dias? Eu estou sendo muito confiante de que ambas são capazes de estar em pé em três dias?

Kelsey fez um esforço para esboçar um sorriso e repetiu o sinal de positivo com a mão. Nós quase arrebentamos com o ginásio, mas a competição continua. Emily evidente estava com os olhos esbugalhados, mas eu também concordei.

– Excelente. Eu as estarei esperando.

Antes de sair, Rei [tenente capuz lavanda] dá aquele sorriso fatal e alisa minha coxa. Tanto meu lado feminino quanto o masculino ficam atiçados. Eu só espero que a audiência goste de cenas yuri.

Emily segue sua tenente e não para de tagarelar. Finalmente algum silêncio e tranquilidade. Seja lá o que for a “primeira preleção” não deve ser muito diferente da programação que passa no monitor. Coisa típica de uma organização paramilitar. Tem seu próprio jornal, rádio e emissora de televisão. Eu me sinto em um cenário da distopia de George Orwell, 1984. Gente comum facilmente é afetada por essa linguagem publicitária e subliminar. Eu estou vacinada. A melhor forma de entender seu inimigo é saber ler nas entrelinhas o que ele está realmente dizendo e a programação transmitida no monitor fornece um bom perfil do que eu vou enfrentar.

[apresentadora] – Comer carne é ruim, porque é prejudicial á sua saúde e ao meio ambiente e é antiético matar animais sencientes. Comer frutas, verduras e vegetais também causam problemas ao ambiente, pelo uso de agrotóxicos, devastação de vegetação nativa e danos secundários. Nós temos a solução. Nós somos os únicos que produzem uma nutrição 100% sintética e ecologicamente sustentável. Nós lutamos para expandir ao mundo todo este benefício. Adiante, Irmandade do Capuz!

Eu consigo pensar em milhares de problemas e omissões que existem nessa “nutrição 100% sintética”. Eu sinto um calafrio ao recordar um filme [falando de uma distopia futurista] onde a comida servida ao público era composta dos restos mortais de seres humanos.

[âncora de jornal] – A situação no Rio de Janeiro é gravíssima. Falta de pagamento tem afetado diversos serviços públicos e a PM está sem ação diante da falta de recursos para enfrentar o Tráfico de Drogas. Ainda prosseguem as negociações com os governantes locais para que a Irmandade do Capuz possa socorrer os brasileiros. Em paralelo, nossos representantes negociam com os políticos para a aprovação de leis que agilizem, facilitem e democratizem o acesso ao uso de armas de fogo. Os nossos irmãos brasileiros podem e devem adotar o mesmo sistema de nossos irmãos americanos. Somente com o cidadão de bem exercendo seu direito de se defender é que a criminalidade acabará.

O que nós menos precisamos agora é transformar o Brasil em um filme de western. Mesmo sem armas, a violência doméstica de homens contra mulheres [só por ser mulher, por ciúmes, ou “pela honra”] está em tal ponto que se pode falar em “feminicídio”. Mesmo com acesso restrito, o que não faltam são casos de discussões em trânsito que terminaram com homicídio por meio de arma de fogo. Imagine a tragédia que aconteceria em cada jogo de futebol, se duas torcidas organizadas portassem armas? Quem fala isso deve estar recebendo algum incentivo monetário da indústria bélica. O publico brasileiro simplesmente ignora os casos de tiroteio que aconteceram em escolas americanas. O mais triste é ver apresentador e âncora de jornais locais repercutindo esse mantra policialesco “bandido bom é bandido morto”.

[propaganda] – Cansado de ver e ouvir padres e pastores? Cansado de viver com medo e vergonha? Cure sua alma e a natureza. Conheça a Religião da Deusa. Nossos cursos, aulas e cerimônias estão abertos a todos. Descubra e desenvolva esse potencial que existe em você mesmo e viva em harmonia e comunhão com a natureza, que é o corpo da Deusa.

Eu sinto que terei que desagradar, decepcionar e enfurecer muitos pagãos e ditos sacerdotes wiccanos. Como toda religião, a Wicca está repleta de piedosas fraudes e em solo americano foi proficiente em produzir as “Religiões da Deusa”, com uma gama ainda maior de piedosas fraudes e lacunas irreparáveis. Como estudante dessa religião e historiador [falando como meu Self usual], para ser bem sincero, a falta de comprovação histórica complica bastante. Basta notar que existem furos na narrativa da dita “iniciação” de Gerald Gardner e pela dupla autoria atribuída, faz com que aumentem as suspeitas. Foi necessário que uma traidora vendesse os espólios do fundador da Wicca para uma editora esotérica fuleira [Editora Llewellin, uma versão americana da
Editora Madras] para que começassem a aparecer livros sobre e a respeito da religião [assim como inúmeros farsantes, vigaristas e estelionatários]. Em solo americano, em pleno período da Contracultura, foi uma questão de tempo para ser inventado o Dianismo e as inúmeras “Religiões da Deusa”, assim como centenas de “tradições” que se identificavam [e se apresentavam] como sendo wiccanas.

Os ateus costumam dizer que, se Cristo realmente existiu, seu ensinamento e crença morreram com ele. Vendo no que o Cristianismo se transformou ao longo dos anos, eu apenas só posso lamentar, pois se passaram sessenta anos e a Wicca está virando outra coisa, igualmente majoritária, igualmente assustadora e disforme, como as demais religiões de massa. O futuro da Wicca é o de ser mais uma fonte de ignorância e alienação.

Meu corpo fica pesado e eu com sono. O analgésico, o anti-inflamatório e o antibiótico batem forte. Adormeço e tenho sonhos com a Deusa que seriam censurados, por cristãos e por pagãos.

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A Irmandade do Capuz – I

Este pode ser considerado um desdobramento ou uma versão alternativa do conto “Dos males, o menor”. Eu estou com preguiça, então eu vou usar o cenário de Slugville. Não tem qualquer conexão com a presente peça, mas esta cidade fica a noroeste de Squaredom. Apenas para registrar um casuísmo.

Eu tinha acabado de detonar a “live action” do jogo Amor Doce, mas no multiverso [a Quinta Dimensão], nossa noção de tempo é ridícula. Incansável e enérgica como sempre, Riley aparece com uma intimação.

– Que bom que ainda não saiu de seu personagem como Erzebeth, escriba. Kate e Leila fizeram questão de que eu te trouxesse o novo roteiro. E para esta encenação, você deve encarnar em sua forma de Erzebeth.

– Por mim tudo bem. Eu só estou começando a desconfiar das verdadeiras intenções da Sociedade.

– Lembre-se de que é para um bem maior.

– Tanto faz. Pode dar uma sinopse?

– A estória é sobre cinco garotas que, com poderes mágicos, lutam pela justiça.

Eu arqueio minha sobrancelha delicadamente delineada enquanto Riley faz sua melhor expressão de paisagem.

– Que seja. Meu papel nessa encenação será a de mocinha ou de bandida?

– Nem uma, nem outra. Seja você mesmo… ops… você mesma.

Eu dou de ombros e sigo adiante. Cinco garotas que, por acaso do Destino ou da Fortuna, se conhecem e obtêm misteriosos poderes mágicos. Eu rebusco na minha memória e lembro que o anime Sailor Moon foi o primeiro que usou dessa premissa, seguida por Puella Madoka Magica e pela Glitter Force. Eu dou uma olhada para trás, mas Riley não estava mais por perto. Eu digo com frequência que não existem coincidências, então eu pressinto que irei rever as patrulheiras glitter.

Por tudo isso que eu estou aqui em Slugville e o problema de segurança pública como ponto de partida. Como em todo centro urbano, não faltava quem defendesse leis e penas mais severas, gente que pedia por mais policiamento, ou para que a população tivesse direito de porte de arma, quando não aparecia quem defendesse o linchamento. Slugville parecia muito com qualquer cidade brasileira.

– Alto! Quem vem lá?

De um posto de fronteira fortemente armado e blindado, um soldadinho interpelava a minha aproximação.

– Bom dia, guarda. Eu venho de Metrocity. Eu ouvi falar que vocês estão precisando de ajuda.

O soldadinho estava mais interessado em olhar meus seios do que me ouvir ou checar meus documentos.

– Você deve ser uma daquelas garotas estrangeiras que vieram para garantir a ordem e a segurança. Nosso governador [que se parece muito com Trump ou Bolsonaro] não gosta muito de estrangeiros ou imigrantes, mas ele abriu uma exceção diante da emergência. Você pode entrar.

Pois eu entrei rebolando fronteira adentro em Slugville. Eu dei uma olhada por cima dos ombros e o soldadinho estava mais preocupado em observar meus quadris e bumbum do que em checar as informações ou avisar seu comando. Para martirizar um pouco, eu joguei um beijinho para o guardinha para agradecer a gentileza dele.

Slugville aparentemente está quieta e segura. As pessoas sorriem e te cumprimentam gentilmente. Ninguém joga lixo no chão. Ninguém infringe qualquer regra de trânsito. Tudo parece em ordem… demais. Eu vejo pânico e medo nos olhos das pessoas, como se estivessem sendo constantemente sendo vigiadas… patrulhadas.

– Hei você! Quem é? De onde veio? Qual sua intenção aqui em Slugville?

Eu olhei bem a figura diante de mim e esta estava tão intrigada como eu com o que estava vendo. Eu me sinto velho em ficar usando essas referências, mas ela parecia um Changeman, um filme japonês de tokatsu que antecedeu os Power Rangers [mais americanizado]. Ela vestia um uniforme inteiro rosa [incluindo máscara], tão colado ao corpo que inevitavelmente faziam suas formas parecerem. Quando eu estive trabalhando para a NERV, eu conheci as plugsuits, mas esta estava perigosamente mais próxima das roupas de látex que são usadas no BDSM.

– Beth? É você mesma? Sou eu! Emily!

– Ah, oi. Agora eu que quero saber o que você está fazendo aqui.

– Bom, eu e as demais meninas viemos aqui para encenar. No começo todas nós ficamos envergonhadas com os uniformes dos personagens, mas depois nós acostumamos. Você também vai tomar parte na peça?

– Eu acho que sim.

– Que legal! Vem comigo que eu te levo onde as outras estão. Eu tenho certeza de que você será bem recebida.

Eu fui me aguentando conforme caminhamos, pois a Emily é daquele tipo que, se ficar quieta, ou está doente, ou morreu. Conforme chegávamos ao Quartel General da Irmandade do Capuz, havia algo incomodamente familiar em sua aparência.

– Heeei! White chan! Kaori!

– Que gritaria é essa?

– Eu trouxe uma nova recruta. Eu posso leva-la ao nosso estande de testes?

Kaori, a White Falcon, fica me avaliando visualmente e eu tento não estragar meu… disfarce. Minha mente queimava com perguntas, mas não era ali nem agora que eu conseguiria respostas.

– Bom, nós não estamos em condições de escolher. Nós estamos precisando de pessoal. Emily, eu conto com você. Conduza a novata ao local de testes.

– Okidoki! Pode contra comigo, comandante!

Emily sai saltitando. Deve ser um hábito difícil de suprimir. Eu contei vários corredores e pelo menos uma centena de efetivos. Não havia engano, a despeito de algumas alterações, eu estava no que bem pode ser o resquício da White Light.

– Seja bem vinda ao nosso Campo de Testes, Beth! Fique à vontade! E não deixe que as veteranas te assustem.

Em um ginásio bem espaçoso, cheio de equipamentos e de soldados, eu notei diversas amigas espadachins que me reconheceram e, envergonhadas, viraram o rosto. Não era o momento adequado para confraternização. Então elas também tinham comparecido ao local depois que nós desbaratamos o projeto da White Light.

– O que gostaria de fazer primeiro? Corrida? Levantamento de peso? Habilidades de combate?

– Eu não sei. O que você recomenda?

Nós não tivemos muito tempo para pensar. Saída de não sei de onde, Kelsey me reconheceu e veio me saudar.

– Uooou! Gata! Que bom que você veio!

Eu sinto uma sensação esquisita, ao mesmo tempo boa e ruim, pois a Kelsey se parece com esses masculinistas que acham que a mulher tem a obrigação de aceitar o assédio masculino. Eu sinto nojo como mulher, mas meu lado masculino não tem reclamação alguma.

– Ai, Kelsey, a Beth acabou de chegar! Dá um tempo! Ela veio para fazer o teste de admissão, não para paquerar ou ser paquerada.

– Mesmo? Melhor ainda! Aqui está um tédio só. Eu aposto que a Beth é um desafio que merece uma prova melhorada. E eu sou a avaliadora! O que diz gata?

– Por mim, tudo bem. Eu só não me responsabilizo pelo que acontecer.

Não perca o próximo capítulo.

Tudo acaba em pizza

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Distinto público, amável plateia. Não fiquem assustados com a faixa de segurança ou a placa de “error 404” que vocês estão vendo. Os produtores, programadores e desenvolvedores do jogo Amor Doce tiveram a péssima ideia de rodar essa “live action” no Brasil. Nós afundamos o Orkut e estamos afundando o Facebook.

O Colégio Sweet Amoris “amanheceu” assim. As equipes de TI correndo de um lado a outro. Os produtores com problemas sérios com os patrocinadores que não paravam de ligar e reclamar. Os programadores e desenvolvedores estavam como o jogo: bugados.

Os personagens NPC, androides com inteligência artificial, parecem estar mais relaxados. Os atores, participantes e jogadores, estão espalhados pelo enorme espaço onde as filmagens [e transmissões] ocorriam.

Eu estou comendo pizza e tomando várias cervejas junto com Ken, entusiasmado pelo prêmio que ganhou pela cena em que ele “morreu”. Ken está muito bem de saúde. Quem achou que eu matei o Ken esquece que, para ser um bom escritor, tem que saber mentir.

Ao lado ele está Castiel. Sem ter que representar o personagem, sem ter um roteiro, ou ter que fingir uma personalidade fingida, Castiel deixou de lado aquela fachada de bad boy, saiu do armário e assumiu sua sexualidade. Ele e Ken agora são um feliz casal.

Por falar em casais, livres das amarras [e dos falsos laços “familiares”], Amber está radiante. Nat teve coragem e se propôs formalmente para ela. Sem os tabus e proibições, Amber e Nat poderão construir um relacionamento. Eu ouso dizer que Amber até deixou de ser a barraqueira da escola assim que resolveu sua frustração com seu irmãozinho gêmeo.

As “patrulheiras glitter” tiveram algumas aulas rápidas e básicas que as livraram do maniqueísmo. Conseguindo entender e controlar seus sentimentos e emoções, elas irão amadurecer em breve.

– Acho que está na hora de irmos. Os programadores e desenvolvedores não irão a lugar algum. Foi uma bela cena e atuação a que fizemos!

– Sim, foi, Ken. Mas não teria dado certo sem a colaboração do Castiel.

– Ai, amiga, bondade sua. Nós provavelmente continuaríamos presos nesse Inferno chamado Colégio Sweet Amoris se não fosse por sua ideia.

– Que só deu certo porque eu tive com quem conspirar.

– Mas falando sério… de quem foi a ideia de trazer ou convidar a Glitter Force?

– Eu não posso nem negar nem afirmar…

– Ah, entendi… segredo de Ofício.

Eu aceno com um enorme pedaço de pizza na boca e a outra mão ocupada com um caneco cheio de cerveja.

– Hei, ainda tem pizza?

– Sim e cerveja.

– Ótimo. Eu estou faminta.

– Pela cara do Nat, ele está esgotado e precisando repor as energias.

– Sim, eu estou. Larica pós-sexo.

– Que bom que deu certo para vocês.

– Que bom que nós tivemos você como nossa “fada madrinha” para nos juntar.

– Bobagem. Eu só tirei o obstáculo. Vocês fizeram todo o trabalho.

– Ah sim, nós vamos ir embora também. Antes que nossos verdadeiros pais apareçam e nos mandem para algum convento.

A pizza acabou e a cerveja também. Mas eu consegui fazer a felicidade de mais esse casal. Os androides resolvem deixar o cenário e os atores parecem perceber, enfim, que ali acabou. O sol passa vagarosamente pelo portal do ocidente e eu espreguiço.

– Oi… Beth?

– Sim, April?

– Eu estou em dúvida… a Kelsey disse que você não é “menina”.

– Isso é complicado, April, mas nosso gênero e sexualidade não podem ser definidos pelo que portamos no meio das pernas.

– Isso é… revolucionário demais para eu entender e olha que eu achava que sabia tudo.

– A Emily está acenando e eu acho que é para você.

– Ah é… a Lily acha que nós temos que procurar outra companhia de teatro para encenarmos. Algo mais adulto, mais maduro, que reflita nossa nova etapa. Uma garota muito parecida com a Kelsey [deve ser a Riley] disse que você poderia nos indicar à Companhia de Teatro da Vila do Pìratininga.

– Hum… sei não. Dizem que ali tem um escritor que se acha profeta e vive transando com todas as garotas.

– Ah… é… pois é… mas essa coisa de nós cinco andarmos juntas tem causado muitos problemas com os pais de nosso público alvo. Tem gente que diz que nós fazemos propaganda da homossexualidade.

– Eu também achei que vocês “colavam velcro”.

– Na… na… não! Nós somos apenas boas amigas!

– Hum… que pena. Paciência. Ficaria esquisito, afinal, você não é “chegada na carne”.

– É… pois é… bem… isso também foi algo que eu adotei para caracterizar um personagem. Eu acho que nenhum ser humano sensato realmente acredita no vegetarianismo.

– Infelizmente existe gente assim. O ser humano é proficiente em acreditar em dogmas e doutrinas.

– É… pois é… por isso que eu entrei em um grupo para entender melhor a homossexualidade e outras questões de gênero e sexualidade. Kelsey está esfuziante com a “novidade”. Mas nós não podemos deixar ela “sair do armário” no estúdio onde estamos. Nem nós podemos sequer pensar em sexo, estando como personagens infanto-juvenis.

– Eu acho isso tudo muito bom e torço por vocês, mas disso a dar um passo em uma companhia de teatro com tal péssima reputação, não é exagerado?

– Bom… então… o caso é que nós não somos adolescentes, nós somos mulheres adultas. Sempre fomos, a despeito da idade que as pessoas nos discriminavam.

– Hum… então talvez a companhia desse velho tarado seja ideal. Olha, eu vou te dar o endereço da Sociedade Zvezda, mas não diga que fui eu que dei.

– Oh! Obrigada! Eu espero que possamos nos ver novamente e encenar juntas algum dia!

April sai saltitando. Ela ainda tem muito a aprender, mas está no caminho certo. Eu suspiro [ou arroto cerveja] enquanto as “patrulheiras glitter”, agora aposentadas de seu comando policial, acenam pelas janelas dos ônibus. Eu sinto meu rosto espichar um enorme sorriso irônico e sarcástico. Elas mal sabem que nós nos encontraremos em breve. Elas e meu Self masculino. Ou talvez eu encarne em minha forma de Alphonse Landlord. Outra fantasia de meninos e otakus: personagens femininos e monstros com tentáculos.

Sovando a massa

Como se não bastasse o brasileiro estar dividido após a conclusão da conspiração que ensejou o golpe que trouxe ao poder um governo usurpador, os grupos que amealharam exposição e popularidade [VemPraRua, RevoltadosOnline, MBL] estão deixando cair cada vez mais suas máscaras de seu moralismo hipócrita e mostrando o que realmente são: fascistas. Não é mera coincidência que esses grupos, junto com os bots da alt-right e a Mídia Oligarca tem tentado, a todo custo, disfarçar o mal-estar depois da “manifestação de supremacistas brancos” [cofcof neonazistas] em Charlottesville. Os americanos tem Donald Trump, nós temos Jair Bolsonaro [entre outras excrescências da direita conservadora, fascista e reacionária].

O prato que está sendo servido para o público [a massa] externar seus medos, inseguranças, ignorâncias, histerias e paranoias, foi a Exposição Queermuseu. Que a ideia da “manifestação em repúdio” nasceu das cabeças carolas [antiquadas e
obsoletas] mais típicas das Senhoras de Santana [ou do IPCO], é algo que se pode esperar de um país ainda predominantemente conservador e católico. O que não pegou bem foi que o “movimento” foi alavancado pelo MBL, não por questões técnicas, artísticas ou filosóficas, mas porque a exposição “ofendia os valores cristãos ocidentais”. Eu fico imaginando o que seria de Oswald de Andrade, o Oscar Wilde brasileiro, se ainda estivesse vivo. A frase tão atribuída a ele, que “a massa ainda comerá o biscoito fino que eu fabrico” viraria algo como com a massa sovando ele “para fazer dele um macho de verdade”.

Esse é um tipo de “assunto” que é simplesmente ignorado pelos programadores e produtores por detrás do Colégio Sweet Amoris. Agora que o jogo adotou a mesma linguagem dos “reality shows”, uma proposta assimilada pelas emissoras de televisão para tentar acompanhar [ou evitar] a concorrência da internet, ainda que não seja dito, a impressão é que os “participantes” seguem um roteiro. Para ser sincera, todo jogo online é baseado em um roteiro cujo transcurso consiste em cumprir missões predeterminadas. A vida é imensamente mais complexa e complicada.

O prompter vibra e pisca. Eu recebo a “atividade” do dia. Engraçado que nenhuma das “atividades” envolvam assistir aulas ou aprender. Nenhuma interação com professores, pouca interação com outras personagens femininas. Eu fico intrigada ao saber que tem mulheres na equipe de programadores, desenvolvedores e produtores. Como mulheres podem achar normal um jogo onde meninas fiquem disputando pela atenção [paquera] dos homens? Onde fica a sororidade? E a paquera com meninas? Ou paquera com professores [ou professoras]?

Alternativa A: voltar ao Diretório dos Estudantes e pegar mais um serviço com Lily. Alternativa B: voltar ao Estúdio de Arte para recolher o material com a April. Alternativa C: voltar para a classe e relatar para o Nat que “cumpriu” com as “atividades disciplinares”. Alternativa D: vagabundear pela escola e ficar encarando os meninos na quadra. Quem montou isso deve ter uma ideia brilhante de como deve ser o futuro de uma garota. Duas alternativas são complementares [mas isso também é ignorado
pelos programadores]. Eu estou de bobeira depois de dar um toco no Cast e matar o fantasma do meu passado. Eu quero deixar Nat por ultimo, então pela lógica eu volto para April, que parece estar ensinando algo para seus alunos.

– Por isso, alunos, que vocês devem ser veganos, como eu.

– Hei, April, a diretora sabe que você está fazendo proselitismo religioso?

– O que é isso Beth? Eu estou explicando aos alunos sobre o vegetarianismo.

– Então você não sabe que o vegetarianismo surgiu na América e seus fundadores tinham ligação com a Igreja Adventista?

– Ai que bobagem, Beth, vegetarianismo não tem nada a ver com religião, mas com saúde, ecologia e ética. O ser humano é herbívoro.

– O que caracteriza um animal herbívoro é a presença do diastema, coisa que o ser humano não possui. Os molares de um herbívoro são específicos para a mastigação de vegetais, os molares humanos não são tão específicos assim. Portanto o ser humano não é herbívoro, mas onívoro. A história, a antropologia e a biologia demonstram que nossa espécie se distinguiu, desenvolveu um cérebro, por que nossos antepassados comiam carne e tutano. Comer não tem coisa alguma com moral, mas com a ingestão de nutrientes. Foi comprovado que no organismo humano a “proteína” vegetal tem menor absorção do que a proteína vegetal. Se vamos falar no “sofrimento”, então deixemos de comer vegetais, verduras e frutas, afinal plantas também sente dor. Animais morrem e são mortos na produção agrícola.

– Não fale bobagens, Beth. Comer carne faz mal ao homem e ao ambiente. Matar outro ser vivo senciente é eticamente questionável.

– Se nós vamos falar em “moral” ou “ética”, ficaríamos estarrecidos em ver como é produzido o alimento “saudável” na Farm Ville. A Farm Ville, para ter solo para plantar, mata toda a plantação nativa e os animais que ali vivem acabam morrendo por fome ou por eliminação.
A Farm Ville, para ter boa produção, usa agrotóxicos e fetilizantes quimicos que ao cairem nos rios atingem uma região maior e matam mais plantas, animais e pessoas. A Farm Ville, para coletar sua produção, acaba matando animais de porte médio que sobreviveram ao agrotóxico e à exposição ao fertilizante químico. A Farm Ville, para garantir uma produção comercialmente competitiva, altera genéticamente as sementes, incluindo produtos nocivos ao organismo humano. A Farm Ville ainda lava e embala seus produtos com isopor e plástico, sustentando duas indústrias notoriamente prejudiciais ao ambiente.

Nosso debate [ou pelo menos uma tentativa] foi interrompido por uma enorme agitação, correria e grios do lado de fora. Nós [eu, April eos alunos da aula de arte] saímos da classe. Eu pude ver Nat atravessando na nossa frente, cambaleante e lívido. Devem ter achado a minha “obra prima”. Eu caprichei na minha cara de paisagem enquanto a patrulheira glitter foi fazer aqui que ela abe fazer bem – ser uma boçal adocicada.

– Nossa, Nat, o que aconteceu?

– Foi horrivel… acharam o corpo do Ken aqui perto.

– Mataram o Kenny? [eu fiz referência ao South Park]

– Sim. Isso nunca aconteceu no Colégio Sweet Amoris. Quem poderia ter feito isso?

– Quem sabe? Quando o jogo era apenas uma plataforma virtual, os jogadores não interagiam diretamente como nessa versão “live action”. A realidade virtual tem um filtro, mas quando se junta tanta gente em um local, não há filtro que segure o ser humano. [eu falei, fingindo indiferença]

– A diretora me mandou chamar todos os “alunos”. Eu acho que ela vai acusar o Castiel. Afinal, todos sabem que ele é o líder da gangue.

– Oh, coitadinho! Vai ser feito de bode expiatório! Seria tão bom se existissem aqueles heróis que lutam pela justiça… [eu insinuei, para provocar a patrulheira glitter]

– Bem pensando… eehh… quer dizer… eu acho que sei onde nós podemos encontrar ajuda.

Eu sinto que vou desapontar os leitores por dizer que eu assisti a série Glitter Force [existem inúmeros animes mahou shojo e a melhor parte é a transformação] e fiquei decepcionado com a [inexplicavelmente longa] sequência com a transformação, sem graça e anatomicamente impreciso. Isso não era algo que os “alunos”, programadores e produtores do jogo nessa fase “live action” esperavam. O Colégio Sweet Amoris se tornou um crossover com Glitter Force.

– As cinco luzes que nos guiam ao futuro! Brilhe! Smile Precure!

Eu devo concordar. Elas são bem chamativas. Impossivel não notá-las. Cores berrantes e brilho excessivo. Sem falar nas roupas. Elas precisam urgente ir ao Esquadrão da Moda. O espanto deu lugar ao riso bem rápido, porque… bem, elas estão vestidas como palhaças.

– Ahm… Glitter Verde… porque nos chamou? Onde está o Bufão?

– Ele deve estar aqui! Nós só temos que encontrá-lo!

– Com licença, senhoritas, mas quem são vocês e o que vieram fazer aqui?

– Está tudo sob controle, “civil”, a Glitter Force chegou para trazer a paz, o amor e a justiça.

O ato falho revela aquilo que eu sempre soube. Debaixo de toda aquela fachada de “boas moças” e toda aquela conversinha sobre amizade, união e companheirismo se escondia uma mentalidade militarista, reacionária e fascista. Evidente que na animação isso não é facilmente percebido porque o público projeta sua própria sombra, o seu lado maligno, nos personagens vilões.

Não percam o ultimo episódio.

Quer mostarda ou quer ketchup?

A cena pareceu ficar suspensa na parte recente, mas o jogo é assim, como eu havia dito, todo ele é ambientado no colégio e não há qualquer outra parte encenada em outros ambientes. Novamente, eu não tenho alternativa nas ações ou eventos, eu tenho que ir ao Diretório dos Estudantes para fazer as “atividades escolares” que me forem passadas a título de “correção de disciplina”.

– Com licença? Eu vim aqui para cumprir minha penitência.

– Oi, você deve ser a Beth. Prazer, eu sou a Lily. Não fale em penitência, mas atividades disciplinares. Só Deus pode nos julgar.

Eu dou uma olhada no tipo. Mediana em tudo e cabelos louros. Parece uma versão menor da Amber, mas irritantemente gentil e humorada. Eu acrescento esta à “patrulha glitter” que resolveu aparecer nessa “live action”. O jogo Amor Doce é incompreensível no mundo contemporâneo, eu duvido que alguma garota goste da Série Precure [como é chamado no original]. Compreensível se pensarmos no gênero bishojo ou mahou shojo, mas a franquia tem um desagradável maniqueísmo mais típico do Cristianismo ao enquadrar os sentimentos e emoções em apenas duas categorias [bom/bem vs ruim/mal]. Todos os nossos sentimentos e emoções são igualmente importantes e somos nós, em nosso moralismo dúbio e hipócrita, que os tornamos bons ou ruins. Quando nós damos preferência aos “sentimentos bons” em detrimento aos “sentimentos ruins”, o resultado é isso que eu vejo na minha frente: uma garota [um ser humano] imatura e infantilizada.

– Como queira. Qual é a minha atividade disciplinar?

– Hoje nós vamos precisar que você nos ajude a carregar os materiais para a aula de artes. Vai ser sensacional!

Nada demais. Quatro caixas que parecem grandes e pesadas. Lily deixa o queixo cair quando eu levando e empilho as quatro caixas, sem dificuldades, em cima da plataforma móvel. No caminho eu ouço algumas risadas, coisa típica de colégio de adolescentes e eu sei que a zoação está sendo liderada pela Amber. Felizmente eu estou vacinada pelas experiências com meu outro Self. A melhor estratégia é não dar audiência. Aos poucos fica sem graça e a galerinha fica sem jeito de continuar a tripudiar. Evidente que essa parte é convenientemente ignorada pelos produtores desse “reality show”. O cenário da classe da aula de arte parece vinda de algum livro do prezinho. Essa deve ser a concepção mais usual das pessoas comuns sobre o que é uma aula de arte. Eu não estranho a polêmica e celeuma criada em cima da Exposição Queermuseu. As pessoas comuns acham que fazer arte é rabiscos de crianças de cinco anos.

– Com licença? Professora? Eu trouxe as caixas com o material da aula.

– Ah, oi! Você deve ser a Beth. A Lily avisou que você vinha.

Eu dei uma boa olhada no tipo. Alta e sem curvas, cabelo com um tom esverdeado. Anotada como parte da “patrulha glitter”. Ela quase fez questão de pegar as caixas, mas eu me adiantei, peguei as caixas e coloquei no centro da sala, para espanto geral.

– Puxa você é bem forte. Deve ser tão forte quanto a Kelsey.

Eu sei bem aonde isso vai acabar. Na concepção machista e sexista da sociedade ocidental, uma garota [mulher] que é forte [ou musculosa] só pode ser masculinizada [senão lésbica]. Elas não devem conhecer Riley. Eu dou de ombros e saio, porque a minha “participação” [nessa parte] acaba nesse ponto. O prompter que nós todos somos obrigadas a carregar pisca, vibra e sinaliza que eu tenho uma tela de opções para escolher. Eu estou concentrada nas “alternativas”, tentando pensar em como eu posso quebrar essa limitação, quando uma voz abafada, quase um murmúrio, parecia me chamar.

– Be…Beth? Sou eu, o Ken.

– Ken?

– S… sim… nós somos… amigos de infância…

Eu dou uma boa olhada no tipo. Um garoto com roupas inadequadas, amarrotadas, cabelo de tigela, óculos fundo de garrafa e uma pilha de livros debaixo do braço. O estereótipo do nerd. Eu dou uma boa olhada no prompter, mas esta cena não está na programação. Seria um ensaio? Enfim, eu de certa forma me enxergo espelhado nesse tipo. Meu Self costumeiro passou esse perrengue que muito adolescente deve passar na escola e colégio. Eu quase entendi porque meus colegas me desprezavam e ignoravam. Mas eu sabia de meu lugar e condição, ao contrário do Ken. Ele parece inofensivo, mas no fundo ele é um masculinista em desenvolvimento. A maioria dos masculinistas foram como Ken em sua juventude e tomaram um toco das garotas e se tornaram misóginos ao ponto de defender “estupro corretivo” para as lésbicas.

Não há um monitor, os “alunos” mais próximos parecem estar concentrados em outras coisas, eventos e pessoas. Eu tinha que fazer isso. Eu tinha que fazer algo com o Ken para matar o meu passado e as minhas mágoas. Ken parece confuso e aturdido. Ele tenta desesperadamente respirar, manter o equilíbrio, mas o sangue espirra profusamente de sua carótida, perfurada pela ponta da minha caneta. Algo bem simples e rápido. Eu só preciso dar alguns passos para trás para evitar ficar manchada de sangue, que se espalha pelo chão e forma uma moldura ao redor do corpo inerte e sem vida do Ken.

Satisfeita com a morte do Ken, do meu passado, de minhas mágoas, eu opto pela “alternativa” mais improvável, que é uma parte com Castiel, o bad boy de plantão e o pior estereótipo do jovem “rebelde”. Enquanto eu vou ao “ponto” previsto, eu percebo movimentação da equipe de apoio. Os produtores não esperavam essa opção. Eu tenho que segurar minha risada, pois vai seu muito mais engraçado quando encontrarem a minha “obra prima”. Eu sinto meus olhos queimarem de satisfação quando eu penso no chilique que o Nat vai ter.

– Aham… você é a Beth?

A equipe de maquiagem sai de fininho para não ser enquadrada pelas câmeras e o Castiel segue o roteiro e a “personalidade” de seu perfil.

– Quem quer saber?

– Aham… Eu fiquei sabendo de sua luta na piscina contra o Pedrão. Eu queria entender como você pode aceitar ficar fazendo essas atividades estudantis impostas pelo Conselho de Disciplina?

– Não é gentil não se apresentar.

– Eu sou Castiel.

– Então, Cast, ao contrário de você, eu não tenho necessidade alguma de ficar me afirmando. Eu não preciso provar coisa alguma a quem quer que seja. E você não me engana nem me assusta com essa pose de bad boy. Aposto que você é um filhinho mimado da mamãe.

– Ah… ummm… errr… então… olha, você é novata aqui, então eu vou deixar por isso mesmo, só por hoje.

– Puxa, obrigada. Quando quiser encarar é só avisar.

Tal como seu “parceiro” Pedrão, Castiel sai de fininho. Como todo valentão, é covarde. Não está acostumado a ser contestado nem desafiado. E não tem autoconfiança suficiente para “pagar para ver” se eu estou blefando. Coitado do Castiel. Ele é um amador, eu sou profissional. Eu vou adorar espremer essa sementinha para fazer creme de mostarda.

Quanto mais apimentado, melhor

Sim, o jogo é extremamente limitado e eu não estou falando da caracterização superficial dos tipos. O cenário é perturbadoramente alinhado e limpo demais, não há qualquer cena ou ambientação dos personagens fora do colégio. São duas mancadas dos desenvolvedores. Primeiro, por embasar o jogo na “necessidade” das meninas paquerarem os meninos. Segundo, por achar que o colégio resume o universo adolescente. Terceira mancada: respostas pré-fabricadas. Qualquer um que conheça ou tenha convivido com adolescentes sabe que isso é ridículo. Eu me sinto em um exame do ENEM [ou FUVEST] diante das “alternativas” de respostas. Eu forço um pouco a minha situação [praticamente uma pessoa transgênero em um jogo machista, sexista e patriarcal] e procuro agir e responder “fora do roteiro”. Felizmente cenas fora do colégio não são prioridades, então eu não tenho que me preocupar em encenar comerciais de margarina.

Eu sequer tenho que me preocupar com cenas em que eu acordo, desgrenhada, nem cenas no banheiro ou no trânsito. As cenas começam e terminam no cenário do colégio. Os alunos chegam e vão aos locais designados [como se fossem robôs – ou tivessem
sofrido lavagem cerebral], não há zoeira, barulho, baderna. Eu acho que surtaria se todos andassem em filas traçadas com esquadro. No “quadro de atividades” eu vejo qual a minha primeira “aula”: educação física. Eu sinto um frio na espinha, mas não há outra atividade. Eu explico: a despeito de minha forma e aparência ser feminina [eu estou no meu corpo de Erzebeth adolescente], meu gênero e sexo continuam sendo masculinos… uma sensação vivida todos os dias por pessoas transgênero.

– Bom dia, meninas! Todas para o vestiário. Hoje nossa aula será na piscina!

Oquei, eu não vou fingir que não gostei. Eu ainda gosto de mulher, mesmo em um corpo feminino. Eu sei que estar dentro do vestiário feminino é a fantasia de 99% dos meninos. Eu tenho que usar meu autocontrole e manter minha cara de paisagem, mesmo com dezenas de corpos femininos completamente nus. Eu bem que notei que eu não era a única apreciadora do espetáculo. Algo que é pouco falado, especialmente quando se fala em adolescentes, é que lésbicas existem e algumas nascem assim. Como bom otaku eu sei que o gênero yuri é especialmente apreciado por meninos e meninas.

– Todas prontas? Ótimo! Em fila, para começarmos a aula com a instrutora Kelsey.

Eu dou uma boa olhada no tipo. Uma garota grande, musculosa, atlética. Só um tantinho menor do que a Riley. Em comum, ambas tem a mesma cabeleira alaranjada. Eu fico imaginando mais quantas personagens da série Glitter Force vieram parar nessa “live action”.

– Muito bem, meninas! Vamos dar alguma forma e músculos nesse monte de gelatina! Mas antes de cair na água, vamos começar com aquecimento e alongamento.

Oquei, eu vi todas elas trocarem de roupa e estão em maiôs escolares, mas não é fácil manter a concentração diante do balé dos seios cadenciando no aquecimento, nem as posições sugestivas no alongamento. Felizmente meu aparato intimo é igual às demais, então eu só tenho que manter a cara de paisagem, pois mesmo se eu tiver uma ereção, não vai ficar muito evidente.

– Excelente! Todas para a água!

Eu acho que vi um filme retrô, ao ver aquelas garotas entrando na piscina como se fosse uma coreografia típica dos musicais de Hollywood. Ao comando da “instrutora” Kelsey, nós executamos diferentes técnicas de natação. Molezinha para meu verdadeiro Self, o difícil era ver as garotas saírem todas molhadas da piscina, outra fantasia de 99% dos meninos.

– Hei, onde você pensa que vai? Aqui não é permitida a entrada de meninos!

Uma confusão começou na entrada da piscina. A representante de classe [Emily] estava com dificuldades com um garoto bem maior e mais forte que todas nós. Atrás dele, outros delinquentes forçavam a entrada para fazer besteira, no mínimo.

– Não vem não, feminazi. Vocês não vivem dizendo que querem igualdade? Então não podem nos segregar. A piscina é nossa, também.

Apesar dos esforços da Emily e da Kelsey, os delinquentes invadem a piscina e começam a barbarizar, fazendo aquilo que masculinista sabe fazer melhor, que é humilhar e desprezar a mulher. Bom, se a professora não pode ou não vai fazer algo, eu faço.

– Ô búfalo! Você mesmo, sua besta, seu cornudo. Sai fora daqui.

As meninas congelam, não acreditando na minha ousadia. Os meninos parecem aguardar as ordens do “chefão”. Típico dessa gente. Só se garante em grupo, por que são covardes e medrosos.

– Olha só… a coisinha mirrada, a novata, querendo botar banca em cima de nós!

Os delinquentes esquecem as outras alunas e começam a rir, sendo puxados pelo “chefão”. Exatamente o que eu queria. Kelsey percebeu a chance e tirou todas do perigo, só ficando eu, ela e a Emily.

– Seguinte, bolo de carne. Se você conseguir me pegar, você e seus amigos vão poder entrar em todas as nossas aulas na piscina.

– Como que é? Eu acho que eu ouvi uma abelhinha zunir. Acha mesmo que eu preciso de alguma permissão, “irmãzinha”?

– Haha. Então você não pode me vencer ou está com medo de perder. Melhor sair agora antes que eu os expulse.

– Essa sua boca enorme deve ser ótima para fazer boquete. Por que não vem me expulsar, “irmãzinha”?

Os meninos da gangue engoliram seco e ficaram quietos assim que eles perceberam o brilho em meu olhar. Eu não hesitei nem me segurei. Agarrei o cabo do rodo da piscina e varei o valentão em várias regiões sensíveis. Coisa simples, se souber manejar uma katana, algo que eu sou mestre. Quando o “chefão” caiu no chão da piscina, não tinha mais nenhum de seus seguidores para ampara-lo.

Eu fiz algo que prestava, mas é inaceitável nesse “mundo perfeito”. O grandalhão foi rapidamente atendido e removido pela equipe de enfermagem, sendo seguida pelo Nat e outra garota, de cabelos longos e azuis, com uma expressão indiferente, fria e rigorosa. Nat não entraria na piscina [afinal, ele é o “senhor perfeito” que segue as regras], mas a Frigida não demorou a anunciar seu propósito e função no jogo.

– Quem é a responsável? Emily? Kelsey?

– Eu sou a responsável. Eu dei ao monstro o que ele merecia. Eu duvido que ele ou sua gangue volte a incomodar nesse colégio.

– Seus motivos são nobres, mas são contra as regras. Como Comissária de Disciplina, eu, Chloe, não posso aceitar esse comportamento.

– E onde a “princesa” ou seu “departamento” estavam que nada fizeram para expulsar os delinquentes?

– I… isso não vem ao caso! Nós não podemos permitir violência!

– Mas, Chloe, ela nos defendeu! A Nós todas!

– Se ela não tivesse intervindo, o colégio poderia acabar com um escândalo!

– Isso mesmo! Pode imaginar? Como ficaria o Colégio Sweet Amoris se tivesse acontecido um estupro ou coisa pior?

– Me… mesmo assim! Se permitirmos esse tipo de violência, esse colégio vai virar um ringue de lutas!

Eu juro que se Kelsey não me lembrasse tanto a Riley, eu partia a cabeça dessa garota cooptada pelo machismo sistêmico. Nat não podia entrar, mas ele podia falar.

– Na verdade, Beth está me devendo uma. Então ela pode fazer serviços para o Diretório dos Estudantes em troca de nossa… compreensão.

Seja pela intervenção de Nat ou pela insistência das patrulheiras “glitter”, a Chloe acabou aceitando. Eu só quero ver se aguentam. Eu sou do tipo, quanto mais apimentado, melhor.

Uma pitada de sal para temperar

Até meus sonhos recorrentes em sala de aula e escola são melhores do que as aulas no Colégio Sweet Amoris. Eu não podia esperar um conteúdo mais verossímel, considerando que o objetivo do jogo é paquera. Outro ponto negativo é a completa falta de caráter e personalidade dos professores. Eu continuo cismada com o alinhamento milimetricamente exato das carteiras, a completa ausência de sujeira [ou de grafites] ou da bagunça que acontece normalmente quando se junta muita gente.

Os idealizadores do jogo não se esforçaram sequer na caracterização dos personagens interativos. Eu me sinto em um filme americano ambientado no colégio, tantos são os clichês e estereótipos. O típico garoto rico e mimado pelos pais. Sua contraparte feminina, fútil, superficial, vazia, mas invejada por outras garotas porque é popular. O valentão, capitão do time, que as garotas vivem babando, mas socialmente é um perfeito imbecil. O nerd, que é o CDF e o alvo da zoação da turma, que inexplicavelmente tem um crush por você. O conteúdo das aulas é completamente irrelevante para a vida prática e isso acontece também no mundo humano. Outro ponto em comum é que eu não pretendo interagir com os personagens, então eu fico quieta, na minha, comendo meu lanche.

– Oi? Você deve ser a aluna nova transferida, certo?

Eu dou uma boa olhada no tipo. Alto, loiro, magro. Eu faço cara de paisagem, mas eu queria vomitar. Eu odeio mauricinho.

– O pessoal do Diretório de Estudantes me passou sua ficha. Prazer, eu sou Nathaniel, o Representante de Classe… hã… senhorita… Tekubinochi?

– O pessoal me chama de Beth.

O mauricinho me olha intrigado, provavelmente por que o sobrenome [asiático] não combina com minha aparência latina.

– Certo, Beth, desculpe eu interromper seu lanche, mas o Diretório de Estudantes esqueceu-se de te pedir o formulário de inscrição assinado e fotos. Você poderia fazer o favor de assinar o formulário e entregar duas fotos?

Eu mantenho minha cara de paisagem, mordo o ultimo pedaço do sanduíche e sorvo o resto do suco, sem pressa.

– Onde eu assino?

– Aqui.

– Eu só posso trazer duas fotos semana que vem.

– Certo… então… tem uma papelaria aqui na escola onde você pode tirar as fotos.

– Oh, puxa, que coisa… eu não vim com dinheiro e só devo receber mesada no mês que vem.

– Oquei… vamos combinar assim. Eu te pago as fotos e você me reembolsa no mês que vem.

– Se você insiste…

Sim, ele insiste. Ele tem mania de perfeição. As garotas ficam nos encarando, provavelmente me jurando de morte. Típico sonho e fantasia masculina. Ver as mulheres competindo e brigando por eles. Eu morro, mas eu não vou dar esse gosto. Novamente, eu fico incomodada com a aparência extremamente organizada e arrumada da papelaria. Eu vou até o “estúdio”, sento na banqueta e faço mil bocas e caras, deliberadamente provocando o mauricinho.

– Quando estiver pronta, me avise, Beth.

– Diz aí, Nat, quanto você leva para trazer as alunas aqui?

– Como é?

– Eu que pergunto. O dono é parente seu?

– Não… [visivelmente contrariado] Por favor, sente-se corretamente para a foto. As fotos são para seu cadastro e crachá no colégio.

– Ah, sim, senhor! Eu não sabia que eu estava sendo arregimentada para o Exército, senhor!

Nat fica vermelho quando eu faço continência mostrando a língua e ainda dou uma banana com meu braço. O atendente segura a risada para poder tirar a minha foto. Ele torce os lábios porque não ficou… perfeita, mas vai ter que servir.

– Mas… o que significa isso, Nathaniel?

– Agora não, Amber…

– Agora, sim senhor! Essa novata não pode te tratar desse jeito!

Eu dou uma boa olhada no tipo. Alta, loira, em forma. Praticamente um reflexo feminino do Nat. A patricinha do colégio e certamente a irmã superprotetora.

– Algum problema, Nat? O que pode ser tão grave que sua namorada tem que intervir?

[ambos, roxos] – Na… na… na… namorada?

– O que você está falando, novata? Não tem noção não?

– Amber é minha irmã gêmea, Beth.

– Sei… se bem que, hoje em dia, isso não quer dizer que não sejam namorados.

[visivelmente aborrecido] – Não fale bobagens, Beth. Isso seria… impróprio. E contra as leis de Deus.

– Qual Deus? Eu conheço doze. Se for o semita, não foi Ele quem mandou Adão e Eva se multiplicarem? Sendo ambos irmãos? Gêmeos?

Eu quase sinto pena do Nat enquanto fumaça sai da cabeça dele. Amber, mais agressiva e menos articulada, vem com tudo para cima de mim. Oquei, aqui são todos adolescentes, Amber pode parecer ser maior e mais forte, mas este corpo onde eu estou encarnado carrega a minha habilidade com artes marciais. Nat assiste, atônito, sua irmã voar e cair dois metros adiante. Funcionários, assistentes e fiscais do colégio aparecem aos montes para ajudar a patricinha. Evidente que os gêmeos nada falam nem me denunciam. Amber é levada para a enfermaria e Nat tenta terminar sua ronda.

– Oquei… certo… eu vou deixar assim por hoje. O que importava é sua assinatura e as fotos. Eu só te peço para ter cuidado, Beth. Violência não é permitida aqui.

– Diga isso para sua irmãzinha. Eu só me defendi.

– Por isso que eu vou relevar. E por favor, não fale mais que nós somos namorados. Ou sobre sua crença pagã.

– Por mim, tudo bem. Não me provoquem e eu não provoco.

– Ótimo. Combinado.

O meu relógio de pulso vibra. Um relógio similar a esses que compartilham sinal com smartphones. Eu vejo uma mensagem de status indicando que eu passei para o nível 2. Eu dou de ombros, pois é irrelevante. Assim como o resto das aulas e o retorno para minha “casa”. Eu só estou começando.