Seven Days Before King Comes

Men know our names. Once they remember who were the Witches of the North, East, South and West. They remember also Dorothy and the Wizard of Oz.

Men know our deeds. Once the Church and the Kings put hunters at our large, but they didn’t catch us, they take under arrest, tortured and killed many innocent women and men, accused of heresy and witchcraft. Well, Church doesn’t like concurrence, but we have a lot of fathers, priests and monks in our meetings.

At the days when we celebrate Saturnalia, boys and girls look after us, feeling the blood calling as Jack and Jill once did.

I remember quite well. I was the favorite toad of Miss Trude.

In the first day, comes Jack, we buy his goat and he took five beans. It wasn’t easy to settle back the Cloud Giant to his home. Not enough, he robbed the Golden Goose and Humpty Hump feel from the bridge to save the village. Trude don’t know, but I deliver Jack to Old Nick and we didn’t hear about him anymore.

Then, in the second day, Jill appeared, looking for her brother. Judge me not, dear audience, because Jill grew up and all I thought was to be between her legs.

– Mister Frog, have you see my brother?

– Milady, I can’t say that because I am under a vowel of sigil.

– My, oh, my! Are you in the door, Jill?

– Yes, Miss Trude, sorry to bothering.

– No bothering at all. See, we are in Saturnalia and we are setting to the Day King Comes. Would you please help us?

Jill can’t deny that, Miss Trude always help everyone in the village. It’s not wise say no to Miss Trude.

– I can try, Miss Trude, but I am no good in this Craft.

– Nonsense. You couldn’t avenge your fathers against a witch if you aren’t good in Craft.

Then I found myself between two beauties, making arrangements to the Tide of the Season. That was busy days and I took any opportunity to be between their legs. They also ride over me many times, but who am I to claim?

We were set and ready, at the King’s Road, full of magic creatures, nature spirits, wizards and witches, in a big train to celebrate the Day King Comes. Then I heard this dialogue that only trained eyes [and ears] can understand.

-I saw something that frightened me.

-What did you see?

-I saw a black man on your steps.

-That was a charcoal burner.

-Then I saw a green man.

-That was a huntsman.

-Then I saw a blood-red man.

-That was a butcher.

– Miss Trude, I am seeing a man with a crown made of fire.

– Fear not, dear sister. He is our Lord. He was dead but now He is rising again.

[loud voice]- Come, My Children! Come, because I Am the Life and the Death, I Am the Winter and the Summer.

Forgive if I cry, dear audience. Because between the Children of the Crooked Path, this humble teller, the Bard Toad, yes, me, I am the most persecuted, renegade and rejected of the People of the Darkness. I cry since the first day I met them. My Lord is with His arms wide open even to me.

– Kids? The dinner is ready!

I turn my head and I see the One I love more than life. She is with the moon as Her crown and She is scouted by stars. She smiles and laugh because She knows how much I love Her and my body shows it in explicit ways.

[loud voice]- It’s been sometime you haven’t seen the Queen, isn’t it, Bard Toad?

[shamed]- Y… yes, My Lord.

[loud voice]- What are you waiting for? Hurry up! She misses you too. Fill Her with your seed!

Forgive, dear audience, but this is the King’s order and I can’t resist to Her smile.

Happy Summer Solstice, Happy Sol Invictus Day, Happy Mithra’s Day.

Teoria Geral da Suinidade

Squigley acordou com preguiça, esfomeado. Ele levanta para vasculhar a geladeira e ver o que tem pronto. Não tem café e os produtos derivados de cannabis só chegam semana que vem. Ele até poderia voar rapidinho para o Canadá, com qualquer receita médica conseguida pela internet e adquirir mais da “maconha medicinal”, mas nessa época do ano o Canadá está frio demais.

– Você está pensando nela, né?

Squigley se assusta, afinal mora sozinho no estúdio no Almond Glory Boulevard. A imagem no espelho de parede inteira parece zangada.

– Sarah? Mas… como? Eu não estou usando o vestido.

– Digamos que, depois de você me dar forma e voz eu achei outras formas de existir no seu mundo. Eu ainda estou vendo como eu passo desse mundo de duas dimensões para o mundo de três dimensões.

[pensativo]- Boa sorte com isso. Personagens de Cartoonland que passaram para o mundo tridimensional não voltaram.

[eureca]- É mesmo! A dimensão do espelho é a mesma dimensão de Cartoonland!

[engolindo o ultimo energético]- Eu não sei. Tente passar pelo espelho.

Sarah empurra, faz força, tenta achar uma brecha, mas sem sucesso.

– Eu estou presa aqui.

– Ótimo. Ficaria confuso se nós existíssemos no mesmo plano. Eu vou comprar comida, bebida e energéticos. Quer algo?

– Hã… traga pizza.

Squigley sai na rua sem pensar em como Sarah iria comer a pizza. Distante duas quadras de onde mora, Squigley é cliente diário da loja da Kwik E Mart da Plazza Milo Manara. O cestinho enche rápido, as compras são feitas mecanicamente, sempre das mesmas marcas.

– Senhor Squigley, bom dia.

– Bom dia, Horácio. Como vai Clarabela?

– Está bem. Trabalhando bastante no Núcleo de Princesas da Disney.

Só em Cartoonland personagens de estúdios e universos completamente diferentes interagem no cotidiano. Não é incomum heróis e vilões serem bons vizinhos. Amor, sexo e relacionamentos, então, nem é bom pensar.

– Senhor Squigley, uma pizza? Está com uma companhia feminina, né, safado?

– Mais ou menos. Pode-se dizer que eu não posso me livrar dela.

[melancólico]- Eu sei bem como é isso. Quando nós trabalhávamos para o Estúdio Disney, lá por 1930, nós nos apaixonamos na primeira cena. Oficialmente nós formamos o par romântico, mas o estúdio escondeu nossos filhos e aos poucos, nós ficamos fora dos roteiros. Não pegava bem para a empresa que seus atores/personagens/funcionários tivessem filhos.

– Olha, não está muito diferente nos dias de hoje. Com a paranoia em torno da pornografia, até as redes sociais estão começando a censurar tudo que é considerado conteúdo adulto.

– Felizmente sempre existem os estúdios alternativos, né, safadão? [piscadinha]

[desconversando]- Eu não sei do que você está falando.

De repente a loja fica cheia de clientes. Thanos escolhe cerveja com Hulk. Mulher Maravilha escolhe revistas femininas com a Viúva Negra. Horácio esquece o amigo e fica dando assistência [não solicitada] às famosas heroínas. Squigley confere o troco, ensaca as compras e faz o retorno ao estúdio, pois esse é apenas mais um dia comum em Cartoonland. Chegando na rua, o celular toca. Distraído, Squigley nem percebe a chegada e entrada do Batman.

– Você comprou a pizza?

– Sarah?

– Comprou ou não? Que sabor?

– Hã… sim… pizza de raízes, grãos e larvas sortidas.

– Aceitável.

– Como… como você entrou no celular?

– Eu não sei! Eu só vi uma janela enorme com algum tipo de painel de controle.

[mastigando]- Então há uma possibilidade.

[estomago roncando]- Hei… a pizza é minha!

[mastigando]- Eu sei. Eu estou comendo uma fogazza de presunto e queijo sintético. Eu sei exatamente onde nós podemos conseguir respostas para esse problema.

– Quem? Professor Pardal? Dexter?

– Eu vou no melhor. Doutor Reed Benjamin Richards.

Demonstrando incomum habilidade e disposição, Squigley percorre a incrível distância de dois quilômetros [parando para beber smoothies e energéticos] para chegar na casa simples demais para pertencer a um astro do Estúdio Marvel. Squigley ajeita o cabelo e aperta a campainha.

– Sim, quem é?

[pigarreando]- Este porquinho foi ao mercado. Este porquinho ficou em casa. Este porquinho tem um bife com purê. Este porquinho não tem nada.

– Um instante, por favor.

Algo estala, como fazem portas elétricas e um trecho do jardim abre como se fosse portão de garagem para então aparecer e subir um contêiner parecido com uma cabine de elevador. Squigley espera o mecanismo parar de mexer e a luz verde acender para então entrar. Automaticamente o mecanismo inicia o movimento inverso, descendo por três pisos, até onde a verdadeira casa do doutor Richards fica.

– Senhor Squigley, eu espero que o senhor não tenha vindo para ver minha filha.

– Claro que não, doutor. O que aconteceu entre eu e Val foi um lance de corpo, entende?

– Não, não entendo. Nossa família fica muito embaraçada por Valéria ser filha de Susan com Doom, então o relacionamento de vocês desagradou muito o lado judeu de nossa família.

– Olha, foi só um lance. Nós nem nos vemos mais.

– Então… você não veio para me pedir mais psicotrópicos sintéticos?

– Eu juro pelo Grande Presunto que eu estou reabilitado.

– Então o que te traz aqui?

– Isto… ou melhor dizendo… ela.

O doutor Richards observa Sarah, acanhada, dando tchauzinho da tela do celular do Squigley.

– Simpática. Sua namorada?

– Não, doutor… ela sou eu… digo, meu outro eu.

– Isso é pegadinha?

– Não, doutor.

Reed coça a cabeça. Isso só era um modelo teórico. Algo possível por complicadas equações.

– Eu preciso fazer alguns testes. [belisca]

[dueto]-Ai!

– Fascinante. [alisa a tela do celular]

[gemido em dueto]

– Incrivelmente fascinante.

– Então… doutor… o que acha?

– A ciência trabalha com fatos e evidências, meu amigo, não com o que eu acho. Você e sua amiga são efetivamente desdobramentos da mesma existência. A psicologia teoriza que nós temos um reflexo de nosso eu, mas isso não é algo verificável. Evidentemente, falamos em modelos psicológicos, o que não é o mesmo que duplos em termos corporais. A sua amiga é um paradoxo que não é aplicável no modelo clássico da ciência, somente existe como possibilidade mediante complexas operações científicas.

– Bom… hã… então nós somos idênticos, é isso?

– Essa é a conclusão, embora seja uma definição imprecisa.

– Como Sarah pode se alimentar?

– O nome dela é Sarah? [afirmativo] Boa pergunta. Senhorita Sarah, pode me descrever o ambiente no qual você se encontra?

– Bom, doutor, pelo que eu vejo através da tela do celular, o lugar onde eu estou parece um reflexo cinzento.

– Fascinante. Definitivamente fascinante.

– Isso é bom ou ruim, doutor?

– Veja bem, meus amigos, seja qual for o motivo que causou a refração da mesma existência em duas está duplicando o ambiente original da mesma forma. Qual foi a comida que você preparou para ela, Squigley?

– Eu comprei essa pizza.

– Excelente. Fotografe com a câmera do seu celular ou exponha a pizza com videoconferência.

Squigley acionou o aplicativo de videoconferência e apontou a tela do celular na direção da pizza. Instantaneamente a “cópia” da pizza aparece ao lado da Sarah.

– Por favor, senhorita, coma essa pizza.

Com a fome que ela estava, Sarah atacou sem hesitação. Depois de alguns minutos ela tinha devorado a pizza inteira, estava satisfeita e soltou um arroto.

– Desculpem, meninos.

– Não por isso, senhorita. Agora, qual o gosto da pizza?

– Muito boa. O sabor é o mesmo que eu sentia indiretamente pelo meu outro eu.

– Fascinante, absolutamente fascinante.

– Hã… o que isso significa, doutor?

– Quando falamos da realidade, nós falamos do modelo clássico, copernicano e newtoniano. Para observações práticas e cotidianas, estes parâmetros são válidos. Mas em um aspecto mais amplo, na perspectiva cósmica, universal, esses são padrões muito limitados.

– Fale português, doutor.

– Muito bem, eu vou utilizar essa ocorrência que estamos testemunhando. Sarah está, digamos, dentro do celular, praticamente em uma realidade paralela a esta onde nós dois estamos. [vasculha trecos no laboratório] Pense nas localidades como caixas.

– Caixas?

– Sim, caixas. Eu poderia falar em unidades de existência tridimensionais, mas assim fica mais simples. Imagine que cada coisa e ser vivo que existe sejam compostos por pacotes de dados.

– Pacotes de dados?

– Eu poderia falar em partículas quânticas, se preferir.

– Continue, doutor.

– Os pacotes de dados são configurados conforme as condições intrínsecas de cada caixa. Em condições normais, indivíduos e coisas não tomam conhecimento das outras caixas, tampouco dos seus “duplos”, por assim dizer.

– No caso entre eu e Sarah, como fica a situação?

– Essa é a parte interessante desse evento. Nós interagimos com outras realidades, só não nos damos conta. Os meios de comunicação de massa são um bom exemplo. Sons e imagens transmitidas são projeções que reproduzem gravações de coisas e pessoas de outros lugares. Jogos de videogames são projeções de realidades construídas nos mesmos moldes que o universo cria as caixas e as configurações de dados.

– Por isso que eu tenho a impressão de que eu estou em outro mundo quando entro em um videogame ou vejo um filme?

– Precisamente, meu amigo. A arte em suas muitas formas só é possível graças a indivíduos excepcionais que possuem a capacidade de receber esses pacotes de dados. Todo artista é um vidente, um médium.

[animada]- Então existe um meio para que eu possa entrar no mundo de vocês?

[pensativo]- Existem possibilidades, mas isso seria muito complexo. Senhorita Sarah, onde a senhorita estava antes de existir dentro desse celular?

[zangada]- Na cabeça desse pervertido.

[curioso]- Algum processo ocorreu para que a ideia de seu outro eu pudesse ser codificado em pacotes de dados para então a senhorita pudesse tomar forma.

[zangada]- Esse pervertido se travestiu.

– Algo tão frugal foi suficiente para criar o canal que resultou nessa singularidade onde você existe fisicamente dentro do celular, Sarah, embora seu corpo seja somente um amontoado de impulsos elétricos.

[ofendida]- Como é?

– Não fique ofendida, senhorita Sarah. Tecnicamente falando, todos os objetos sólidos são compostos por impulsos elétricos. Mesmo o adamantium, considerado o metal mais duro e resistente conhecido, é composto por partículas quânticas que vibram em determinada frequência. Basta uma leve variação em uma partícula para que uma rocha de granito fique tão macia quanto isopor.

[intrigado]- Então, na prática, a Sarah pode vir para cá e nós podemos ir para outros mundos?

[franzindo a testa]- Isso é o que eu gostaria de descobrir, com a ajuda de vocês. Se eu conseguir criar um portal ou um canal entre vocês dois, os desdobramentos dessa descoberta são incalculáveis.

Squigley e Sarah estavam com medo, mas o entusiasmo de todos foi maior. Reed usou algumas sobras que ele pegou e ganhou dos estúdios da Paramount e do pessoal da séria Jornada nas Estrelas. Toda aquela movimentação atraiu a atenção de Tony Stark e foi contanto com Bruce Banner que os cientistas conseguiram chegar ao protótipo de portal interdimensional.

O experimento foi bem sucedido, Sarah e Squigley puderam coexistir no mesmo plano de realidade. Entretanto, isso abriu a percepção humana para as doze dimensões que compõe o universo, incluindo o Reino dos Deuses, para o embaraço de crentes e descrentes.

Eisbein com sarapatel

Squigley estava no seu camarim, decorando e treinando o roteiro do dia para o quadro Sinfest [Tatsuya Ishida] quando seu celular tocou.

– Alô?

– Senhor Squigley, bom dia. Aqui quem fala é a Hellen.

[animado]- Bom dia, senhorita Hellen.

– Como está se sentindo hoje, senhor Squigley?

– Eu estou muito melhor, senhorita Hellen, muito obrigado.

– As minhas amigas perguntaram de você. Ligue para elas, quando der, pode ser?

[duvidando]- Claro… eu ligo sim.

– Você está para entrar no estúdio, né?

– Sim. O senhor Ishida tem insistido nesses roteiros supostamente feministas que criminalizam a pornografia e a prostituição.

– Isso não deve perturba-lo, senhor Squigley. A sua profissão [seu trabalho] não deve influenciar sua vida ou sua opinião.

[aborrecido]- Eu acabei assimilando parte dessa doutrina. Deve ter sido isso que causou o meu descontrole emocional.

[séria]- Senhor Squigley, o senhor é plenamente capaz de ter sua própria ideia de julgamento sobre qualquer coisa.

[engole seco]- De… desculpe.

[risos]- Isso inclui sua ida até a clínica, senhor Squigley. O senhor nunca teria ido lá e nós não teríamos nos conhecido.

[pensativo]- Puxa, é verdade!

[risos]- Senhor Squigley, gostaria de realizar um experimento?

[curioso]- Um… hã… experimento?

– Sim. Ache um vestido do seu gosto e vista-o.

[receoso]- Quer que eu seja um cross-dresser, uma drag-queen?

[risos]- Você vai ver. Ative a função “chamada de vídeo” para que eu possa acompanhar.

Conformado, Squigley encontra uma arara com diversas roupas [afinal, ele estava nos bastidores] e encantou-se com um vestido comum de cores vibrantes e delicados detalhes. Sem pensar, simplesmente despiu-se ali mesmo [não tinha pessoa alguma
olhando] e ensacou o vestido por sobre seu corpo. Ali próximo um enorme espelho refletiu sua imagem e ele estranhou seu reflexo. Mas a sensação de estar usando aquele vestido trazia conforto e segurança. Olhando para sua imagem feminina, somado com a sensação de estar travestido causou uma ereção em Squigley.

[risos]- Ora, vejam só, senhor Squigley! Excitado por ver seu lado feminino? Ou excitado por ter desabrochado sua feminilidade?

[constrangido]- Isso… isso não é o que parece!

– Está tudo bem, senhor Squigley. Respire fundo. Não é um pequeno vestido que vai alterar sua sexualidade. Senão você não estaria excitado por ver sua imagem feminina.

[acanhado]- Mas… mas isso é normal?

– Perfeitamente normal, senhor Squigley. Eu tenho um lado masculino, sem ele eu não poderia apreciar a minha beleza nem me relacionar com outras mulheres. Nosso encontro na noite anterior foi propício para que eu te mostrasse que “gênero” é uma encenação social. Você sabe bem como é representar um papel conforme o roteiro.

– Eu entendo… mas é como se fosse outra pessoa!

[risos]- Nesse caso, ela precisa de um nome. Como vai chama-la?

[pigarro]- Sarah… Sarah Pigling.

– Excelente, senhor Squigley! Olhando para Sarah, o que você sente?

– Ela… ela é tão linda… inocente… atraente… eu quero agarra-la… rasgar suas roupas e UFFFF!

– Senhor Squigley! Algum problema?

– Ahmeudeus… eu ejaculei fantasiando em trepar com a Sarah!

[risos]- Foi um jorro e tanto. Eu quase sinto ciúmes da Sarah.

[desconcertado]- Não ria! Isso é grotesco! Não é assim que um homem [macho] deve tratar uma mulher [fêmea]!

– Uau, eu acho que nós estamos quase conseguindo algo. Quem disse isso foi o senhor Squigley ou foi a senhorita Sarah?

– Como é?

– Senhor Squigley, o senhor deu uma forma para Sarah. Ela precisa ter voz. Deixe-a falar.

[pigarro]- Senhorita Hellen, como você atura esse porco?

– Senhorita Sarah, eu devo te agradecer.

– Agradecer-me? Pelo quê?

– Se a senhorita não estivesse pulsando em algum lugar desse porco, eu não teria conseguido ajuda-lo.

– Bom… hã… a gratidão é mútua. A senhorita deve ter ideia de como eu sofri quando ele consumia pornô ou visitava os bordéis.

[risos]- Vamos ser sinceras? Papo de menina. No fundo você gostava.

[indignada]- Como é?

[risos]- Você não tinha nem forma nem voz, mas existia dentro do senhor Squigley. Então você se via no corpo e na voz dessas profissionais do sexo. Esse seu falso moralismo é a forma como você exprime seu ciúme do senhor Squigley. Você queria fazer com ele essas coisas que você convenientemente condena.

[escandalizada]- Mas quê? Como ousa? Eu sou uma donzela!

[risos]- Eu acho que terei que cobrar em dobro do senhor Squigley. Afinal, eu terei que te incluir no atendimento. Vamos, Sarah, aqui só tem eu e você. Seja sincera comigo e com você mesma. O que você sente quando olha para o senhor Squigley?

[acanhada]- O meu outro eu? Bom… Squigley até que é interessante.

[risos]- Interessante? Pode dizer então porque, ao pensar nele, fica excitada?

[roxa]- Eu não estou excitada!

– Lamento discordar, querida, mas dentro do corpo do senhor Squigley é difícil esconder sua excitação.

[lívida]- Ahmeudeus! Esse… pervertido! Com esse negócio…

– Será que a donzela está começando a ser sincera consigo mesma? Diga, Sarah, o que sente quando vê o senhor Squigley despertando o Poderoso Javali?

[envergonhada]- Isso é nojento… fica pulsando, cada vez mais duro… isso é repulsivo… [tremendo] minha mão… eu quero segurar… [gemendo] por que é tão bom sentir isso na minha mão? [contorcendo] Ahmeudeus… esse treco magnífico… eu quero tudo dentro de mim! UFFFF!

– Senhorita Sarah? Está tudo bem?

[arfando]- Eu… eu fiz de novo…

– Sim… foi divertido, não foi?

– Mas isso… isso não é imoral?

– Não, isso é sensacional. Sexo é normal, natural e saudável. Imoral é querer fixar regras, limites ou proibições. Isso só resulta em opressão e repressão sexual, a causa das frustrações e recalques, cujo resultado é violência física e sexual. Prostituição e pornografia só são ilegais e criminalizadas como parte da manutenção do sistema. Em culturas onde o sexo era sagrado, a pornografia e a prostituição eram legalizadas e regulamentadas. Sem recalque e frustração, não ocorriam tantas ações de violência física ou sexual.

– Mas… isso não é promiscuidade? E quanto aos riscos, como doenças sexualmente transmissíveis e gravidez?

– Esse é um assunto correlato interessante, Sarah. Sabe, estudos científicos indicam que a monogamia é rara na natureza. Espécies monogâmicas habitam apenas ambientes restritos e estão mais suscetíveis a doenças em geral. O normal na natureza é parceria múltipla. Espécies cujas fêmeas copulam com mais machos são mais adaptadas a vários ambientes e tornam-se resistentes a diversas doenças, incluindo as sexuais.

– Bom… mas isso… é entre animais. Nós não somos animais.

[anotação pessoal: tecnicamente os personagens são seres zoomórficos, mas para não estragar o texto, eu vou manter o raciocínio]

– Então você admite que a “diferença” é puramente cultural, social, não natural.

[chateada]- Do jeito que você fala, até parece que não existem restrições ou normas.

[risos]- Quais seriam as restrições e normas?

[emburrada]- Você está caçoando de mim.

– Absolutamente. Eu confio na sua capacidade. Você deve saber que somos nós quem criou tais restrições e normas, então nós podemos alterar, dobrar, moldar essas restrições e normas.

– Isso é… indecente, obsceno!

– Nisso você se engana, amiga. Seu outro eu passou por experiência interessante para aprender que “gênero” é uma encenação social. O modelo de relacionamento considerado “normal” também é um roteiro com papéis bem definidos. Não obstante, escondido dos olhos, ocultado entre cortinas, as pessoas possuem uma vida sexual muito mais colorida e variada.

[indignada]- Você está relativizando os sagrados laços do casamento!

[risos]- Nossa, você parece com a nossa bisavó. Acredita mesmo que um pedaço de papel, um contrato, é necessário para autorizar ou permitir algum relacionamento? Pois bem, nada nos impede de reescrever os termos, itens, cláusulas e condições desse contrato. Nada nos impede de nos associar a outros contratos.

– O casamento é fundamental para formar uma família!

– Ora, parece que temos uma confusão. Por vivermos em sociedade, o registro da união é necessário para fins legais e jurídicos, mas isso nada tem a ver com amor e sexo. O casamento não impede de que uma das partes abandone o lar e filhos. A família não impede que uma das partes desenvolva outro relacionamento. O casamento não é fundamental para que crianças surjam da conjugação carnal. Conjunções carnais continuam a acontecer, independentemente de casamento.

– A família é o núcleo da sociedade!

– Pelo visto estamos andando em círculos. Primeiro existem relacionamentos, que podem conter diversas formas, portanto, diversas associações chamadas família e destas se estrutura a sociedade. A estrutura social é indiferente aos tipos de relacionamentos que nela ocorrem, do contrário nossa sociedade teria sido extinta há muito tempo.

[enraivecida]- Então nós devemos ser devassas, libertinas, vadias?

[surpresa]- Por que não? O que nós conseguimos e conquistamos aceitando essas regras e limitações impostas à sexualidade? Nós não conseguiremos nem conquistaremos nosso lugar no mundo rejeitando nossa sexualidade, sensualidade e feminilidade. Nós temos, em nós mesmas, a maior e melhor ferramenta que, se soubermos usar, nós conquistaremos o mundo. Não se engane, amiga, o homem [macho] é o sexo frágil, senão não precisaria de leis, armas e exércitos.

[espaçando]- Ah… eu acho que Sarah não está mais conosco.

[sorrindo]- Isso foi um avanço, senhor Squigley. Traga a Sarah nas próximas sessões.

– Eu… vou me esforçar.

– Eu tenho certeza que consegue, senhor Squigley. Sarah precisa conhecer nossas amigas.

– Hã… certo… elas gostaram mesmo de me conhecer?

– Evidente que sim, senhor Squigley. O senhor não está pensando em ter uma recaída, está?

[confuso]- Bom… hã… não sei… eu vou poder continuar a te ver após a minha alta?

[risos]- Senhor Squigley, eu estou lisonjeada. Vamos focar no agora, no que se deve fazer. Até a próxima sessão.

Squigley não pode evitar em ficar melancólico. A voz de seu melhor amigo [para quem ele faz escada] faz com que ele volte sua atenção ao roteiro do dia. Slick, seu melhor amigo, tem um treco ao vê-lo como Sarah [não consegue admitir que
sentiu atração pelo lado feminino do porquinho] e Dominique pensa nisso como uma forma de se livrar de Slick para viver em paz com Abby. O que o roteirista [Tatsuya Ishida] não se dá conta é que, ao apoiar a visão do feminismo radical, ele defende o conservadorismo cristão que proíbe o amor de Dominique com Abby.

Quando o porco torce a língua

Nervoso, Squigley olha o relógio pela centésima vez, todo empetecado em um fraque e o impecável buquê de flores na mão. Alguns idiotas ficam dando risadinha, mas ele tinha adquirido autoconfiança e autoestima suficiente para ignora-los.

– Senhor Squigley! Boa noite!

A voz feminina, suave e harmônica provoca um sorriso no rosto de Squigley e suas bochechas ficam rosadas assim que o cheiro do suave perfume chega ao seu focinho.

– Senhorita Hellen! A senhorita veio!

Squigley virou e teve dificuldades em controlar a ereção assim que viu Hellen, a psiquiatra, psicóloga e terapeuta de Cartoonland. Compreensível, pois até o Homem na Lua ficou transtornado com tão bela visão.

– Evidente que eu vim, senhor Squigley. Considere isto como uma extensão do seu tratamento.

– Muito obrigado, senhorita Hellen. Por favor, aceite esse buquê de flores.

– Quanta gentileza, senhor Squigley. Muito obrigada. Eu apenas ressalto que eu estou aqui como profissional.

– Claro, claro! Profissional!

[risos]- Pela forma como você está arrumado, dando flores, vai ficar parecendo que nós estamos tendo um encontro.

– Hahahaha… que coisa… isso seria loucura, né?

– Eu prezo por minha ocupação, senhor Squigley. Nós combinamos continuar com o atendimento do seu caso fora da clínica com o intuito de investir em seu progresso.

– Eu jamais faltaria com o respeito com a senhorita.

[risos]- Eu sei, senhor Squigley. Foi pensando nos possíveis desdobramentos que esse atendimento incomum pode causar no meio social que eu decidi trazer comigo mais três amigas. Assim, curiosos e fiscais do alheio não poderão fofocar ou dizer que nós estamos tendo um encontro.

– Tre… três?

– Sim. Elas devem estar chegando.

Como uma coreografia milimetricamente ensaiada, chega um veículo trazendo três beldades que são de parar o trânsito.

– Ah, olá, garotas. Esse é o senhor Squigley.

[excitado]- Bo… boa noite.

– Boa noite, senhor Squigley. Eu sou Riley Marlow.

[com medo]- Bo… boa noite.

– Boa noite, senhor Squigley. Eu sou Alraune Prospoitheite.

[curioso]- Boa noite.

– Boa noite, senhor Squigley. Eu sou Astolfo de GrandRose

[intrigado]- Boa noite.

Squigley levou suas companhias a um badalado restaurante e lanchonete. Não teve um presente que não torceu o pescoço para observar. Alguns babacas torciam o rosto, inconformados por ver Squigley acompanhado de três beldades. Cavalheiro, educado e atencioso, Squigley puxa as cadeiras para que sentassem.

– Puxa… eu não lembro de ter estado antes em um lugar tão chique assim.

– Aqui é maior, mas eu estive em algo parecido com meu mes… digo, meu tio.

– Provavelmente ambas receberam o mesmo tratamento por parte do senhor Durak, que eu conheci na pessoa do senhor Ornellas.

[risos]- Sim, nós todas conhecemos de diversas formas o senhor escriba, seus muitos nomes e formas. Ele provavelmente está em algum lugar nos observando e anotando.

– Eu espero que sim. Eu estou com saudades. Eu estou precisando de uma injeção de testosterona.

[coro]- Eu também.

[risos]- Ânimo, pessoal. Pode ser que essa noite nós tenhamos boas surpresas. Certo, senhor Squigley?

[espaçando]- Quê? Ah! Sim, sim.

– Ótimo senhor Squigley. Hoje nós vamos trabalhar com os aspectos e distinções entre sexo, gênero, identidade, opção, preferência e orientação sexual.

– Hã… como é?

[risos gerais]- Deixe-me tentar, Hellen. Senhor Squigley, seja honesto, qual de nós é mais bonita?

O coitado fica pálido, agitado, sacudindo a cabeça de um lado a outro, sem conseguir escolher, mas certamente todas o deixavam excitado.

[risos]- Senhor Squigley, o senhor está feliz só de olhar para nós, certo?

– Eeeeh… sim?

[risos]- Eu percebi isso, senhor Squigley. Seu apreço à nossa beleza é extremamente visível. Mas nós somos diferentes tipos de mulher.

[confuso]- Eh?

– Assim você vai deixar o coitado confuso, Riley. Senhor Squigley, eu sou mulher em três quesitos. Eu tenho sexo feminino, gênero feminino e identidade feminina. Eu sou mulher e heterossexual e eu gosto de homens que sejam masculinos ao menos em dois itens.

[ainda confuso]- Eerrr…

– Deixe eu tentar. Senhor Squigley, embora nós pareçamos ser semelhantes e atraentes para você, uma de nós não é humana e uma de nós não é mulher.

[assustado]- Como que é?

– Vous compliquez. Senhor Squigley, apesar da minha aparência seja um aperitivo aos seus olhos, eu sou menino.

[chocado]- Quêêêêê?

[risos]- Deixem que eu continue, pessoal. Alraune é uma bela mulher, mas ela é um ser biotecnológico. Riley é uma bela mulher, mas ela é transgênero. Astolfo é muito belo e feminino, mas é menino.

Squigley trava e fica balbuciando e murmurando coisas sem nexo.

– Mais quelle chose. Vous casse le jouet.

[pensativa]- Talvez nós devamos recorrer a um método didático prático, físico e tangível. Senhor Squigley, o que o senhor acha de continuarmos seu atendimento em um ambiente mais propício? Eu sugiro um motel.

Squigley recupera a consciência rapidamente. Sinaliza ao garçom, paga a conta, aciona o Uber e leva suas companhias até o Flat Álibi Perfeito. Nem piscou quando o recepcionista cobrou mil reais por pernoite. As três [e o Astolfo] estavam tranquilos, deslumbradas em apreciar as instalações desse motel. Squigley escolheu a Suite Presidencial, o espaço é comparável a de um apartamento de três quartos, mais o serviço de quarto. Enquanto o quarteto se espalhava para desfrutar de cada detalhe da decoração, Squigley afrouxa a gravata e tira o paletó do fraque. Abre o frigobar e se considera sortudo por ter achado uma garrafa de Jack Daniels ainda inteira.

– Hei, vocês querem algo? Bebida, comida? O pernoite é tudo incluso.

– Hum… será que eles servem presunto?

– Fritas com bacon cai bem.

– An jarrete au baguette.

– Gente, assim vocês vão matar de medo nosso convidado.

Muitas gargalhadas e Squigley sorri amarelo. Muitas cervejas, salgadinhos e pedaços de pizza depois, Hellen continua sua apresentação.

– Muito bem, senhor Squigley, eu vou demonstrar de forma didática e prática a distinção entre sexo e gênero. Por favor, Astolfo?

– Pois não, mademoiselle.

Hellen despe Astolfo, que finge ficar acanhado e remove suas roupas.

– A diferença física entre nós é notável. Mas isso não te impediu de sentir-se atraído por Astolfo, não é, senhor Squigley?

[enfezado]

– Não fique chateado, senhor Squigley. Você não deve ter receio de demonstrar sua atração sexual. Você vai continuar sendo quem é, sua sexualidade não ficará alterada. Astolfo é atraente porque seus traços são femininos, em suma, seu gênero é feminino, mas seu sexo é masculino. Agora, senhor Squigley, seja sincero e me diga o que sente quando você vê esse traseiro?

Hellen vira Astolfo de costas. Em segundos Squigley esquece que Astolfo é menino. Aquela bunda redonda, perfeita, lisa e feminina faz o seu sangue ferver.

– Agora vamos a outra configuração. Alraune, pode vir aqui?

Delicadamente, com passadas de bailarina, Alraune fica ao lado de Hellen que a coloca de costas, ao lado de Astolfo. Tal como outrora, Hellen remove a roupa de Alraune e Squigley sofre para manter o controle.

– Olhe bem, senhor Squigley. Consegue distinguir? Qual dessas belas ancas é mais feminina?

[babando]

– Quando falamos em identidade sexual de uma pessoa, é necessário considerar o corpo como um todo, não olhar somente uma parte. Virem-se agora, minhas colaboradoras.

[assombrado]

– Sim, senhor Squigley, Astolfo e Alraune possuem pênis, mas somente Alraune possui seios. Agora, Alraune, mostre a ele seu tesouro.

Sem qualquer emoção, Alraune levanta o talo do pênis e, desavergonhadamente, exibe a entrada da vagina. O coitado do Squigley tem que crispar os dedos na poltrona para manter o controle.

– Alraune não é humana, ela mesma escolheu essa configuração. Para os padrões humanos, ela é um indivíduo intersexual. Agora, vamos comparar com a Riley.

Lançando olhares famintos, Riley se junta à trupe e, sem esperar, remove sua roupa. O coitado do Squigley fica ajoelhado, prestes a perder a consciência.

– Riley é zoomórfica como muitos habitantes de Cartoonland. Ela é bem parecida com Alraune, embora seja totalmente orgânica. Consegue dizer qual a diferença entre minhas amigas, senhor Squigley?

[frases desconexas]

[risos]- Eu vou considerar isso um elogio. Alraune é perfeita, em vários aspectos. Ela é intersexual, eu sou transgênero por um pequeno e quase imperceptível sinal, uma cicatriz, resultante do procedimento cirúrgico que eu passei poucos minutos depois de nascer. O pediatra, o obstetra, o clinico geral e o cirurgião decidiram, depois de muitos exames e análises clínicas, remover um saco escrotal mal formado que pendia de minha púbis. Aquilo futuramente poderia ter se tornado um tumor. Quer ver?

Riley se aproxima de Squigley, todo trêmulo, doido para colocar as mãos e todo o resto dele naqueles corpos perfeitos. Eu conheço bem esse sinal. Parece uma risca de giz. Que só a deixa mais bela.

[risos]- Parece que você está começando a entender, senhor Squigley. Eu sou feminina em três aspectos e sou heterossexual. Astolfo é feminino em um aspecto e é homossexual. Alraune e Riley são tanto masculinas quanto femininas e, para nossa sorte, elas são bissexuais.

[séria]- Acabou a aula teórica? Então vamos partir para a aula prática.

Squigley é surpreendido por Riley, que inveja algo espetando uma seringa em seu pescoço.

– O… o que é isso, senhorita Riley?

– Extrato de frutafoda. Nós somos quatro. Você vai precisar de energia extra para brincar.

Por precaução e economia, eu não relatarei o que eu testemunhei. O Sindicato dos Personagens arcou com os danos causados pela intensa maratona. Nossas amigas e nossos amigos estão bem. Felizes e satisfeitos, é só o que importa.

Salto alto e o topo da montanha

“Nós temos um problema do cavalo alto emergindo no paganismo moderno. Ou pelo menos, está borbulhando para a superfície e se tornando mais notável graças aos poderes mágicos da internet. Quando me refiro ao problema do cavalo alto, estou falando de formas de elitismo.” – Melissa Smith.

Toda vez que eu leio alguém reclamando do elitismo em algum campo do conhecimento humano, eu vejo ciúme, inveja e anti-intelectualismo. Entre os americanos está acontecendo uma onda de novatos, jovens e adultos, inundando o Paganismo Moderno e querendo fazer dessa reconstrução cultural algo mais confortável, cômodo e conveniente para objetivos e agendas pessoais. No Brasil a coisa está pior ainda, com a Comunidade Pagã sendo envolvida [estagnada, asfixiada] por um culto à personalidade baseada em um sacerdote, dito legítimo iniciado.

Até parece que eu [ou algum bruxo/bruxa, sacerdote/sacerdotisa] tenho que sentir vergonha por ter chegado aonde cheguei e por saber o que sei. Eu acho que a experiência é semelhante, eu estou estudando e praticando Bruxaria há tanto tempo que eu esqueci onde, como e por que eu comecei a seguir o Caminho Torto, que eu chamo carinhosamente de Caminho Entre o Bosque Sagrado, mas para os curiosos eu falo que é o Caminho do Vale das Sombras.

Preguiçosos e espertalhões vão tentar achar atalhos e vão ficar choramingando em vão. A maestria vem da prática e experiência. Quer subir no cavalo alto? Você tem que achar um, para começar. Se [quando] você achar o cavalo alto, você vai ter que aprender a subir nele. Se [quando] você aprender a subir no cavalo alto, você vai ter que aprender a conduzi-lo. Se [quando] você adquirir essas coisas, você acha justo que alguém em um cavalo de pau querer ser igual a você? Eu creio que não.

Oquei, nós podemos descer do cavalo alto, mas ainda estaremos de salto alto. Quem se lembra do [filme] Mágico de Oz, os sapatos usados por Dorothy e a Bruxa do Oeste, deve ter entendido onde eu quero chegar. Quem tentar tocar nos meus saltos altos pode se considerar morto. Nesta analogia, o princípio permanece. Para ter um salto alto, nós temos que achar um sapateiro [artesão] confiável e habilidoso. Um sapateiro [artesão] assim só poderá nos fazer sapatos depois de árduo treinamento com o mestre sapateiro e ter a aprovação da guilda. Esse parâmetro tem muito a ver com a Bruxaria que, não coincidentemente, é chamada de Ofício. Inúmeras outras ocupações e profissões seguem o mesmo padrão de exigência. Em lugar algum um aluno de escola pode ser comparado a um professor universitário. Então por que só na Bruxaria tem que ser diferente?

Mesmo se você achar um sapateiro [artesão] confiável e habilidoso, não pense que é só ir e encomendar seu salto alto [ou outro símbolo de sua diplomação/graduação]. Sabe como é, guildas são exigentes e costumam conversarem, trocar informações e suporte mútuo. Certamente você terá que entregar um certificado [que nós chamamos de voucher] onde diz a qual guilda você pertence, qual foi o seu mestre e qual a sua vocação. O sapato será feito conforme o tamanho do seu pé, mas conterá as especificações bastante restritivas conforme a posição que você ocupa nesse ofício. Mesmo de posse do sapato, você vai ter que trabalhar muito antes de querer aumentar seu salto. Você acha justo alguém de chinelos querer ser igual a você? Eu acho que não. Quem quiser usufruir dos privilégios [chamado de elitismo pelos invejosos e ciumentos] de ser um profissional do Ofício deve passar pelo mesmo árduo treinamento, passar pelo crivo [rigoroso] da guilda e mostrar [com trabalho] de que é apto. Não existe atalho ou facilitação.

Eu não estou onde estou de graça. Eu tive que ler, aprender, praticar e passar pela experiência. Tal como na lenda da vila onde as pessoas acreditavam que os Deuses estavam no alto da montanha. Quem queria conhecer os Deuses teria que efetivamente subir até o topo da montanha [e isso requer vontade, treinamento e dedicação].

Imagine se um espertalhão, preguiçoso só vai ate uma pequena parte da montanha e volte falando que não encontrou coisa alguma. Imagine que mais pessoas assim façam o mesmo e digam a mesma coisa. Em algumas gerações, os jovens vão simplesmente deixar de acreditar nos Deuses por que “não há evidência de existência”. Esse é o descrente, o ateu, baseia sua visão de mundo por uma visão parcial.

Imagine que um jovem resolve desafiar a “ciência” e decide ir até o topo da montanha, para encontrar os Deuses, como dizem as lendas. Ele sofrerá com a resistência dos “monges da matéria” e com a condenação da Igreja Oficial. Apesar de tudo, ele prossegue e percebe que os espertalhões foram desonestos, relataram suas experiências [e certezas] de um local restrito da montanha, ignorando o entorno e a continuação mais acima. Com muita dificuldade ele consegue chegar até o topo [e pode comprovar
que o fez], muito embora seu relato seja ignorado porque foge do padrão vigente.

Imagine que a experiência dele encoraje outros jovens a empreender a mesma missão. Imagine que essas experiências finalmente são consistentes e assim voltam a fazer parte do conhecimento científico. Você acharia justo se alguém subisse em um morro e exigisse ter o mesmo reconhecimento? Eu acho que não. Se você quer chegar até o alto da montanha, você vai ter que caminhar.

Amor e crime – VI

Por algum motivo eu comecei a registrar esses dias intrigantes de minha vida. Eu não tive esse interesse nas ocorrências anteriores e sinceramente eu prefiro esquecer os eventos com meu pai verdadeiro e os que aconteceram com Shiou.

Eu fiquei sabendo que fizeram um anime baseado no que foi publicado nos tabloides sensacionalistas, o que me proporcionou muitas risadas. Mas perdeu toda a graça quando nós tivemos que mudar novamente e por coincidência [isso não existe] eu e minha mãe viemos parar nessa cidade cujo nome constantemente me lembra de meu relacionamento com Shiou.

Talvez venha a calhar para fazer sentido nessas memórias falar de Shiou e Shouko. Isso foi quando nós morávamos em Yukai. Mamãe estava com seu terceiro homem, meu quase futuro segundo padrasto. Foi ali, no Colégio Horonigai que eu conheci Shiou. Eu desenvolvi uma paixão doentia por ela, especialmente depois que eu descobri que ela era abusada pelo pai, meu quase futuro padrasto. Para protegê-la, eu provoquei um incêndio, coloquei em perigo a vida de minha tia, eu quase morri, mas acabei com a vida daquele lixo.

Os autores do anime até que fizeram uma boa trama, mas erraram ao acreditarem que eu morri. Realmente, eu pulei do telhado do cortiço [cinco andares] onde eu morava com minha tia, mas isso não me mataria. E definitivamente eu não mataria Shouko. Eu conheci Shouko [que estudava no Colégio Makikou] durante uma excursão escolar. Foi graças a ela que eu percebi que o que eu sentia por Shiou não era amor, era doença. Meus terapeutas [gente tão desarranjada quanto eu] disseram que isso foi uma forma de projeção, eu via em Shiou uma forma de resgatar minha infância e é aí que entra a minha história com meu pai verdadeiro.

Eu tive uma infância aparentemente normal, mas conforme eu amadurecia, meu pai também se transformava. Ou isso ou a maturidade me fez perceber sua identidade verdadeira. Para ser bem sutil, meu pai era o típico machão, beberrão, violento e abusado. Então o meu corpo amadureceu e a atenção dele começou a focar em mim. Até que, seja pela bebida, ou por causa da minha mãe e da sociedade constantemente fechar os olhos para seu caráter duvidoso e criminoso, meu pai abusou de mim.

Naquele dia, eu achei que era castigo, alguma coisa que eu tinha feito, que era culpa minha. Se fosse algo mutuo, consensual, eu mesma teria tido a inciativa, como muitos casos que depois eu fiquei conhecendo, mas como acontece com frequência, abuso sexual de menor ocorre com gente da família ou parente. Não é a melhor forma de começar a vida sexual de pessoa alguma. Eu senti dor, medo, vergonha, mas isso aparentemente apenas estimulou meu pai, que se revirava dentro de mim. Eu só via uma enorme escuridão em minha volta, Buda não parecia estar me ouvindo. Então eu ouvi uma voz… aquela voz.

– Satou chan… isso não está certo… isso não pode continuar… a justiça precisa ser feita.

[pensando]- Quem… quem está aí… quem está falando?

– Você pode me chamar de Tanathos, Satou chan.

– Tanathos Sama… o que eu posso fazer? Eu sou apenas uma garota…

– Não, Satou chan, você é mais do que apenas uma garota. Em você corre o mesmo sangue das Deusas, minhas esposas, mães, irmãs e filhas. Libere seu poder.

– Como… como eu posso fazer isso, Tanathos Sama?

– Você consegue, Satou chan. Sinta seu verdadeiro Espírito. Desencadeie sua alma divina.

Eu senti… em algum lugar no meio da escuridão… algo quente… luminoso… intenso… chamando por mim… era eu mesma. Quando eu recobrei minha consciência, o corpo de meu pai [o verdadeiro, original], agonizava em minhas mãos.

Entre isso e a família Asahina, muitas coisas, pessoas e circunstâncias aconteceram, eu conheci e passei por esses eventos que ajudaram a me conhecer, me fortalecer, me preparar para ser a assassina [que digam psicopata, eu não ligo] mais perfeita que eu conheço, depois de Ran Mao, diga-se de passagem.

Então eu me vejo envolvida com a família Asahina e esses homens peculiares que estão quebrando todos os padrões que eu julgava serem perpétuos. O funeral duplo foi, eu devo admitir, o evento que concluiu a transformação que estava acontecendo em mim e em minha vida.

Eu não sou a pessoa mais sociável do mundo, mas eu tive que me esforçar para não surtar. Como previsto, familiares e parentes compareceram, assim como conhecidos e sócios. Da família Asahina eu tive que decorar cerca de sessenta nomes, dos parentes, mais oitenta. Com conhecidos e sócios, eu devo ter decorado trezentos nomes. Eu era praticamente uma estranha, mas eu me senti mais bem vinda entre essas pessoas do que entre meus familiares e parentes, esses ilustres desconhecidos, com que eu apenas compartilho a linhagem sanguínea.

– Satou!

A voz inconfundível, a aparência e o cheiro de Shouko são um balsamo. Eu fico imaginando mil planos para ter alguns instantes de intimidade com ela.

– Oi Shouko. Que bom que você veio.

– Eu não poderia faltar, né? Meus pêsames.

– Obrigada. Mas eu ainda não sou oficialmente parte dessa família.

– É sim, é sim! Satou ne chan é minha one san!

Wataru me abraça de forma tão sincera e calorosa que eu acabo retribuindo. Eu estou amolecendo.

– Shouko ne chan veio também! Oba!

– Oi Wataru. Meus pêsames.

– Obrigado Shouko ne chan. Olha, Fuuto está cantando! Vamos dançar?

Shouko balança a cabeça enquanto Wataru a conduz para perto do palco no qual Fuuto canta e casais dançam. Nem parece funeral. Fuuto fica fazendo caras e bocas quando olha na minha direção, eu percebo que Kaname faz sinais para ele [coisa entre irmãos] e ele finge que seus trejeitos é para todas as mulheres [casadas ou solteiras] que estão na cerimônia.

– Seria um enorme desperdício não aproveitar a oportunidade. Satou ne chan, aceita dançar comigo?

– Subaru?

– Hai. Só uma dança. Depois Yusuke quer dançar também. Nós dois estamos lidando com a dor. Mas nós estamos felizes por você e Shouko.

– Yusuke te contou né?

– Sim. Por favor, me perdoe, mas eu contei para Azusa. Ele fez uma expressão de incrédulo, mas aceitou e apoiou sua opção.

[risadas]- Vocês são fofoqueiros hem?

[riso contido]- Está surpresa por nós termos aceitado e nos conformado?

[séria]- Subaru… eu não conheço vocês e tem muito que vocês não sabem sobre mim. Mas eu acho que ao conhecer Luiz e Hikaru fez com que eu me desarmasse.

[sério]- Isso não importa, Satou ne chan. Daqui há algumas semanas, você será nossa irmã e nós seremos seus irmãos. [abraçando] Nós teremos muitas oportunidades para nos conhecer.

O abraço de Subaru é quente, acolhedor. Que coisa esquisita. Eu me sinto confortável.

– Hei, chega, agora é a minha vez.

Subaru faz uma reverência e passa a vez para Yusuke. Eu estou me estranhando cada vez mais, pois eu não me sinto ofendida, mas elogiada.

– Desculpe, Satou ne chan, mas eu fiquei com ciúmes ao te ver dançando com Subaru.

[sorrindo]- Eu acho que é inevitável. Vocês me amam.

-Sim. Azusa pelo visto também foi flechado pelo Cupido com o seu nome. O linguarudo do Subaru falou para ele sobre você e Shouko.

– Eu devo dizer que fiquei feliz com a reação de vocês. Eu acho que eu devo agradecer ao Luis e ao Hikaru.

– Sim, talvez. Você não sente ciúme de Shouko dançando com Wataru?

– Só um pouco. Mas eu não sou possessiva.

– Talvez seja bom falar com Wataru sobre vocês.

[sorrindo]- Eu sei que Shouko irá falar com ele. E conhecendo vocês, mesmo que só um pouco, eu sei que Wataru também vai aceitar.

[surpreso]- Não vai ficar chateada se Shouko e Wataru namorarem?

[risos]- Se isso acontecer, eu vou ter que aceitar.

[risos]- Falando em falar… eu acho que ainda falta Masaomi, Ukio e Natsume.

[fingindo inocência]- E Kaname.

– Conhecendo Kaname, ele deve ter percebido ou aprendido que ele está fora do páreo diretamente de você.

[riso abafado]- Assim eu fico parecendo uma conquistadora irresistível.

[sério]- Não foi minha intenção, Satou ne chan. Eu devo admitir que nós somos predadores. Nós puxamos ao nosso pai.

[séria]- O pai de vocês… Rintarou… meu futuro padrasto.

[mais sério]- Sim… isso pode vir a ser um problema.

– Assim eu fico assustada, Yusuke ni san.

– Não se preocupe. Nós iremos te proteger. [música parou] Satou ne chan… por favor, eu posso te dar um beijo?

– Sim… eu acho que sim…

Yusuke deu um beijo, um selinho. Eu fiquei intrigada por ter sentido algo.

– Perdoe-me por isso, Satou ne chan. Eu quis te dar um beijo por que eu não pude aceitar que Subaru recebeu um beijo seu.

– Tudo bem, Yusuke. Está tudo bem. Eu gosto muito de vocês dois.

Os demais casais que dançavam aplaudem vigorosamente. No centro do salão, Shouko ainda está beijando Wataru. Isso me deixa alegre e animada. Wataru cai no chão, estonteado. Todos riem. Eu compreendo Wataru e percebo que ele tem bom gosto. O beijo de Shouko é uma bomba atômica.

– Hei, seu folgado! Levante daí! Não é assim que um homem faz quando recebe um beijo!

– Aaaah, Yusuke ni san! Shouko ne chan me beijou!

– Sim, eu sei, Wataru. Eu conheço essa sensação incrível de beijar a mulher que você ama. Mas isso que você fez é grosseiro. Levante, peça desculpas e agradeça a senhorita Hida pela dança.

– Poxa… como é complicado… Shouko ne chan, desculpe por meu comportamento e obrigado pela dança.

– Hai, hai! Eu é que te agradeço, Wataru.

– Isso quer dizer que nós somos namorados, Shouko ne chan?

– Wataruuuuu!

[risos]- Vamos dizer que você ganhou um ponto.

– Uaaau! Um ponto! Quantos pontos eu tenho que ter?

– Wataruuuuu!

[risos]- Cem pontos, Wataru. Mas saber disso vai te custar um ponto.

– Quêêê? Cem pontos? E eu voltei ao zero? Isso não é justo!

– Wataruuuuu!

Eu e Shouko caímos na risada enquanto Yusuke chamava a atenção de Wataru. Shouko dá uma piscadinha na minha direção enquanto mostra a língua. Eu sei, pode ser ou não sério, isso não me incomoda. Eu sei que no “Sistema Shouko” eu tenho um milhão de pontos.

A cerimônia acabou e o salão vai esvaziando aos poucos. Eu respiro fundo e solto o ar. Talvez não seja o momento certo, mas eu tenho que “sair do armário” como dizem por aí.

Luiz e Hikaru foram fáceis. Eles sabiam. Do jeito deles, sabiam. Dificil foi Kaname e Natsume. Eles ficaram em choque. Masaomi e Ukio ficaram surpresos, mas ao sorrirem, eu vi que isso era irrelevante. Só faltava Wataru. Mas o choro dele mostrou que Shouko disse quem era o amor dela. Ele é um bom garoto. No ritmo que minha vida tem mudado, eu realmente cogito em dividir a Shouko com Wataru. E isso é o que me assusta.

Poderia ter acabado aqui. Isso seria perfeito. Seria o final feliz que as pessoas tanto aguardam quando leem estórias. Mas a história da minha vida tem que ter drama e suspense. Duas da manhã, barulho na cozinha, todos dormindo pesado, meus instintos tinindo. Alguém estava invadindo a casa. Meu sangue começou a ferver. Sabe-se lá por que eu queria defender os meus irmãos.

– Parado! Eu chamei a polícia! Você não vai conseguir roubar ou fazer mal a meus irmãos!

[gargalhadas]- Você deve ser Satou chan, a adorável filha da minha Zetsubo. Como eu posso roubar algo que me pertence, minha enteada?

Foi a primeira vez que eu vi aquele que estava para ser meu padrasto e ele me parecia incomodamente familiar.

– Algum problema, Satou? Viu um fantasma? Ah, verdade, nós ainda não fomos formalmente apresentados. Eu sou Rintaro, seu futuro padrasto. Você não deve se lembrar de mim, mas eu te conheci antes.

– Você me conheceu antes… quando? Como?

[sorriso maníaco]- Ah, Satou chan… eu quase fico magoado por você não se lembrar de mim. Eu sou irmão de seu pai, Yopparai.

Aquele era meu tio Shitsugyo. Isso explica tudo. A sensação de nojo. A fúria. De algum jeito ele trocou de nome, mudou a aparência, mas sua essência era igual a de meu finado pai original. Bêbado, violento, abusado, machista.

– Isso não faz sentido.

– O que não faz sentido? Eu ter uma família maravilhosa? Família que você poderia ter mas jogou fora? Meus filhos devem estar te tratando bem, aproveite, pois em breve eu contarei a eles a verdade.

– Qual verdade? Que seu irmão me estuprou e, quando eu lutei por minha vida, aconteceu um acidente e ele morreu?

– Essa é a mentira que você conta e convence, Satou chan? Então o trabalho que eu tive para mudar de nome, mudar de aparência e criar meus filhos valeu a pena. Isso praticamente me deixou falido, mas a pensão que eu irei ganhar após o trágico acidente com a minha futura esposa será o suficiente para recomeçar. Eu pretendia te deixar por ultimo, depois de estupra-la, mas eu posso adiantar a sua parte.

Soltando a gargalhada insana que é igual a de meu finado pai [original], Rintaro/Shitsugyo avança para me atacar, certamente com intenção de me matar. Os movimentos dele não seguia um padrão, algo que pode surpreender lutadores, mas este tipo de técnica eu conheço bem. Eu deixo ele brincar como quer, deixo que a falsa sensação de superioridade faça com que ele me subestime e abaixe a guarda.

– Qual o problema Satou chan? Não consegue me acertar? Eu sei tudo que você sabe. Eu conheço todos os seus truques. Você não tem como vencer.

Isso eu posso deixar de conselho. Nunca, jamais, diga a um psicopata ou assassino que vai fracassar. Gente como eu tem vontade e força sobre-humanas, não precisa de mais estímulo. Não deve ser novidade para qualquer assassino, psicopata, soldado ou guerreiro que toda luta é um xadrez, o que conta é a técnica e a estratégia, não a força, tamanho ou velocidade. Deliberadamente eu o deixo rasgar partes da minha roupa, só esperando o momento certo.

– Hehe. Meus filhos devem estar tendo ótimos momentos com você. Vai ser um desperdício, mas paciência. Está no momento de sua vida ter fim, Satou chan.

Nossa luta acirrada dá início a um incêndio que se espalha rapidamente. Inexplicavelmente eu fico preocupada com meus irmãos. Isso tem que parar. Não é muito bonito e agradável de ver ou descrever, mas o resultado, quando eu levo a sério, é sempre o mesmo. Rintaro/Shitsugyo está semiconsciente no chão e é uma questão de tempo até sua vida esvair. Meu foco passa para salvar meus irmãos e isso é surpreendente, vindo de mim.

No caminho, subindo pelas escadas, eu encontrei os mais velhos, despertados pelo barulho, calor e fumaça. Os mais dorminhocos são sacudidos e sou eu quem colhe Wataru, desacordado, provavelmente intoxicado pela fumaça. Pela primeira vez em minha vida eu senti dor no coração e saí correndo com ele, para fora, torcendo para não ser tarde demais. Meus olhos lacrimejam e eu tusso. Do lado de fora, bombeiros e equipes de resgate estão à postos. Eu mal vejo Wataru sendo levado. Mais dois minutos e nós dois teríamos morrido. Então eu perdi a consciência.

– Senhorita Matsuzaka? Está conosco?

Com dificuldade, eu sinalizo que sim.

– Ótimo, senhorita Matsuzaka. Continue conosco. Respire lentamente.

– Wa… Wataru… meu irmão…

– Ele está bem. Tem uma leve intoxicação com fumaça, mas está estável.

Eu sorrio e a porta da ambulância abre repentinamente.

– Satou ne chan?

Barulhentos, Yusuke e Subaru disputam o curto espaço no interior da ambulância, legitimamente preocupados mais com o meu bem estar.

– Oi pessoal [tosse]. Eu estou bem [tosse]. Como estão os outros? [tosse]

[dueto]- Todos estão bem, mas estão preocupados, perguntando de você.

No fim da tarde, após o rescaldo, os bombeiros confirmaram a identidade do corpo encontrado na mansão como o do proprietário. O delegado tentou falar comigo, mas o médico que me atendia não liberou. Eu acho que ele ficaria contrariado se soubesse que o doutor abriu exceção para Shouko que veio, afogueada, arfando e chorando.

– Satoooou!

Choradeira atrás de choradeira. Eu fui liberada pelo médico três dias depois, quando ficou programado o funeral de Rintaro. Estavam todos lá e meus quase irmãos ficaram ao meu lado todo tempo. Evidente, mamãe não casou e vai ficar de molho por algumas semanas. Isso aparentemente não importava, eles ainda me tratavam como irmã deles.

No fim da cerimônia, quando sobravam só os Asahina, mamãe, eu e Shouko, alguém [provavelmente Wataru] jogou a ideia de que deveria acontecer um casamento. Mas dessa vez entre eu e Shouko. Shouko começou a chorar copiosamente e eu fiquei lá, pasma, passada, empacada. Kaname nos casou e abençoou nossa união. Wataru fez questão de ser o padrinho e levar as alianças. Os demais fizeram uma coleta e nós recebemos de presente uma casa inteiramente mobiliada.

Então, tia, eu e Shouko estamos oficialmente casadas e temos nossa própria casa. Mesmo sem que mamãe tenha se casado, eu e Shouko fomos adotadas pela família Asahina. Que fique entre nós, mas eu tive que deixar todos no verde, fora da lista. Como eu te disse antes, algo mudou. Eu acho que, agora sim, eu posso dizer que eu tive meu final feliz.

Amor e crime – V

Com a precisão de um relógio suíço eu acordo e vejo que Luiz e Hikaru roncam em dueto. Se a intenção deles é de serem meus guarda-costas, falharam. Se bem que eu não precise. Eu desenvolvi e descobri uma força sobre humana em mim desde aquela conversa que eu tive com meu pai… bom, o verdadeiro, o original.

Três dos meus irmãos estavam na cozinha, outros estavam trabalhando ou providenciando os arranjos do funeral de Tsubaki. Eles estavam mais sérios e graves do que antes.

[encenando]- Gente… isso aconteceu mesmo?

– Infelizmente sim, Satou.

– Eu… eu estou arrasada. Eu perdi mais um irmão.

[chorando]- Satou one san promete que você não vai sumir?

[sorrindo]- Não se preocupe, Wataru, eu não vou sumir.

[fungando]- Promete?

[sorrindo]- Eu prometo. Agora, pare de chorar. O que Shouko diria se te visse assim?

[enxugando o rosto]- É mesmo! Eu prometi para Shouko chan que eu seria um homem honesto, decente e honrado.

[sorrindo]- Isso mesmo. Quem sabe você tenha chance de ser namorado dela?

[animado]- Sim! Sim! Eu vou conseguir!

– Claro que vai, Wataru. Satou, poderia ir com Azusa para buscar Subaru no ginásio? Ele era mais apegado ao Iori do que nós e recebeu a notícia depois do jogo oficial do time da Universidade de Meiji.

Eu aceitei pensando em formas de analisar Azusa. Eu também quero conhecer a Universidade de Meiji, onde pretendo ingressar.

– Satou ne chan, aconteceu algo entre você e Yusuke?

– Não que eu saiba, Azusa ni san.

– Que bom. Yusuke é esquisito, até para nosso tipo de família. Mas ficou mais esquisito nos últimos dias. Eu acho que eu o ouvi falar o seu nome depois de vários suspiros.

– Ah, isso. Yusuke é um doce. Ele se confessou para mim. Como se vocês não fossem meus irmãos.

– Satou ne chan, eu me sinto à vontade para conversar com você porque você é direta, lógica e inteligente como eu. Então eu confio em seu bom senso, pois eu sei bem o que Yusuke sente. Eu nunca senti algo assim antes. Eu tenho certeza de que meus outros irmãos também foram impactados por sua beleza. Yusuke não fala como costumava, então permita-me perguntar se tem alguém de quem você gosta.

– Que é isso, Azusa! Do jeito que fala até parece que eu sou uma miss universo. Eu sou uma garota comum.

– Permita-me discordar, Satou ne chan. Você exala uma aura de enorme poder. Eu quase desejo que nossos pais não se casem, para que eu possa lutar pelo seu amor.

– Eu fico lisonjeada, Azusa, mas meu coração está preenchido.

– Entendo. Isso faz sentido. Isso explica a melancolia de Yusuke. Nesse caso, eu te peço que seja gentil e fale isso para Subaru. Ele é mais fechado e tímido de nós, mas ele deve estar apaixonado por você.

– Eu não sei, Azusa… falar disso, sem mais nem menos… não é cruel?

– Sim, especialmente se tratando de Subaru. Eu vou sutilmente dar uma deixa com a qual você ou ele podem começar a conversar. Na pior das hipóteses, ele vai ficar melancólico como Yusuke.

– Obrigada, Azusa. Mas… e você?

– Eu estou bem. Coração apertado e doído, mas eu estou bem.

Nós entramos pelo ginásio de basquete da Universidade de Meiji e inevitavelmente o treino parou, todos os presentes esqueceram-se do treino e ficaram me olhando. Subaru era o mais avermelhado do time.

– Oi Subaru ni san. Eu vim te buscar.

Assovios, aplausos e uivos. O coitado ficou mais roxo que berinjela quando eu o abracei. Azusa ficou evidentemente contrariado.

– Que é isso, pessoal? Essa é minha irmãzinha, Satou.

– Irmãzinha, né?

– Bem que eu gostaria de ouvi-la falar oni san no meu ouvido.

– Pois eu dispensaria todas as minhas namoradas para ficar cinco minutos com ela.

Muitos risos, piadas, bobagens. Depois os homens não sabem por que é tão difícil achar uma namorada. Homem que se preza tem elegância e discrição. Nós três saímos daquele Clube do Bolinha e Azusa deu uma desculpa bem fraquinha para deixar eu e Subaru à sós. Eu respirei fundo e exalei.

– Eles… eles te chatearam, Satou ne chan?

– Tudo bem, Subaru, eu estou acostumada. Palavras não podem me atingir.

– Mas palavras escondem intenções que podem virar ação. Eu não quero que você se machuque.

– Awww… meu irmãozão está preocupado comigo…

– Sa… Satou! Não fique me abraçando desse jeito!

– Abraço de irmãos! Awww…. não fique assim, Subaru. Eu sei que você gosta de mim, como todos os outros.

– Pode ter certeza disso… muito embora eu só conheça um que sente o mesmo que eu… Yusuke… ele certamente te ama… mas não mais do que eu.

– Su… Subaru… essa é a coisa mais linda que eu ouvi hoje…

Não deve ser surpresa ou novidade para quem quer que seja que a mulher em geral diz aquilo que o outro quer ouvir. Eu dei um beijo, um selinho no Subaru, suas orelhas pareciam chaminés, ele tremia inteiro, suava bastante e algo aumentou entre suas pernas. Eu devo ter dado o primeiro beijo da vida dele.

– Subaru, eu gosto muito de você. Você é gentil, atencioso, educado. Mas nós somos irmãos e eu tenho um amor. Então eu não posso corresponder ao amor que você tem por mim.

Em seus dois metros de altura, Subaru despenca como se fosse um vaso trincado. Chorou, chorou, mais do que Yusuke. Eu só não sei por que isso acabou me incomodando. Eu devo estar amolecendo.

[resfolegando]- Eu… eu sabia… não tem como uma mulher linda como você não ter alguém no coração. [enxugando as lágrimas] Satou ne chan, você precisa falar isso para Yusuke.

– Oh… bem… desculpe sua irmãzinha, mas eu e Yusuke nos acertamos antes.

[surpreso]- Yusuke… se declarou? [sinal positivo] Heh… bem a cara do Yusuke. Bom, lágrimas não vão resolver coisa alguma. Vamos irmãzinha, vamos voltar para casa.

– Ahn… Subaru… tem algo que você precisa saber.

[sério]- Tudo bem, Satou ne chan. Eu aguento. Pode falar.

– Iori ni san morreu.

Subaru baqueou mas não caiu. Ele sentiu mais a minha “perda” do que a morte do Iori. Eu vou considerar isso um elogio. Talvez eu deixe Subaru fora da minha lista, definitivamente, tal como Yusuke.

Miraculosamente Azusa reaparece e cogitam em me deixar no colégio, mas perfeita como sempre, Shouko me liga e avisa que o colégio me dispensou para que eu cuidasse do funeral. Isso quase me faz gostar de verdade da família Asahina. Esperta, Shouko se ofereceu de levar para mim as matérias e lições todos os dias que eu precisar ficar afastada. Ao menos eu não ficarei entediada.

– Nesse caso, nós devemos voltar para casa. Agora nós teremos um funeral duplo para realizar. Será o dobro de preparativos e planejamentos.

Alguém liga para Azusa. Kaname pede carona para casa. Ele quer trazer seus colegas de templo para o funeral, mas precisa acertar os detalhes com a família. Foi dessa forma que eu me vi no banco de trás com o monge, voltando para a mansão Asahina.

– Bom dia irmãzinha. Você não devia estar no colégio?

– O colégio dispensou-a, para cuidar do funeral.

– Entendo. Eu dedicarei uma oração de agradecimento ao colégio por liberar nossa irmãzinha. Satou ne chan, você pode desabafar comigo sua tristeza pela perda de seus irmãos.

Kaname envolveu-me em seu braço com aquela intimidade e intenção sexual que, provavelmente, está acostumado a ter com as mulheres que frequentam o templo onde ele trabalha. Eu só precisei dar uma encarada pala ele recuar, assustado. Ele e Fuuto estão no amarelo. Eu não decidi sobre Masaomi e Ukio. Eu ainda me recuso a fichar o Wataru. Realmente, eu estou amolecendo.

Quando chegamos em casa, tinha vários veículos e muitas pessoas indo e vindo apressadamente. Luis e Hikaru coordenavam as equipes de profissionais e fornecedores, deixando Ukio e Masaomi para decidir nos momentos que a coisa empacava. Sabe se lá saindo de onde, eu fiquei animada e me pus a, voluntariamente, ajudar naquilo que eu podia. Quando eu ficava canada ou desanimada, bastava eu olhar para Wataru para recobrar o animo. Pouco depois chegaram Yusuke e Natsume, juntamente com Kaname e seus colegas de monastério. Tudo acertado, conseguimos fechar a lista com duzentas pessoas. Eu estava esgotada, mas foi só Shouko chegar [deixando Wataru muito feliz] que o cansaço sumiu.

– Shouko ne chan! Olha só! Eu fiz um monte de coisa para o funeral!

– Nossa, Wataru! [beijo na testa] Olha, se você continuar assim, eu sou capaz de me apaixonar por você!

[animado]- Uaaaau! Shouko ne chan me deu um beijo!

Eu fico me estranhando por não sentir ciúme de Wataru. Eu deixo escapar uma risadinha abafada. Wataru tem toda razão, o beijo de Shouko é uma delícia. Yusuke parece cochichar algo para Subaru. Ele arregala os olhos por alguns segundos em nossa direção, mas assim como Yusuke, aceitou e se conformou. Ele fez positivo na minha direção. Com isso são dois de meus irmãos que sabem e apoiam o meu amor com Shouko. Será que eu estou indo em direção a um final feliz?

Amor e crime – IV

Ao contrário de meus irmãos, eu tive uma excelente noite de sono. Eu tive um sonho esquisito onde eu e Shouko nos casávamos e acabei acordando molhada. Eu pude perceber facilmente que eles estavam todos na cozinha, ainda lastimando, choramingando. Como presidente do clube de teatro do colégio, eu fui fazer a minha cena.

[snif]- Gente… eu não consegui dormir. E vocês?

– Bom dia, Satou chan. Eu acho que falo em nome de todos quando digo que nós todos estamos chocados.

– Sem dúvida. Eu fiquei desanimado até para preparar o desjejum de todos.

– Ah! Ukio oni san! Você preparou algo né?

[rindo]- Claro que sim, Wataru. No entanto eu só preparei panquecas e cobertura de melaço ou chocolate. Eu espero que seja o suficiente.

– Ooobaaa! Itadakimasu!

O animo e o apetite de Wataru dissiparam o clima pesado.

– Wataru sempre encontra uma forma de nos animar. Satou, eu te agradeço por sua preocupação.

– Não por isso, Masaomi. Afinal, nós em breve seremos uma família.

– Falando nisso, hoje chegarão nossos outros irmãos que ainda ficaram de ser apresentados, Luis, Hikaru e Fuuto.

– Vocês chamaram?

Iori entra e traz com ele os três dos meus irmãos que ainda não conhecia.

– Uau! Então essa é a nossa futura irmã? Valeu a pena escapar da turnê para te conhecer. Muito prazer, eu sou Fuuto.

– Hã… o prazer é meu. Eu sou Satou Matsuzaka.

– Fuuto é o mais conhecido pelo público. Você deve ter visto algum de seus videoclipes.

Sim, infelizmente eu o reconheci. Não existe uma garota do colégio que não suspira, cantarola as músicas ou coleciona imagens desse ídolo pop.

– Ukio que não nos ouça mas Fuuto, depois de Natsume, é o que mais vive ocupado. Você ainda não o conheceu porque ele vive sozinho.

Não importa. As mãos de Fuuto são gordurosas e delicadas. O máximo de esforço que ele faz é segurar o microfone, entoar aquelas letras desagradavelmente açucaradas e fazer aquela pose que agrada o público feminino influenciável. Mesmo se eu gostasse de homens, ele estaria riscado de minha lista.

– Hei a irmã não é só de vocês, sabiam? Muito prazer, eu sou Luis e esta figura vestida de mulher é Hikaru.

[risos]- Sim, eu sou cross-dresser e sou afeminado. Ao contrário de meu irmão Luis, eu não tenho vergonha em admitir que eu sou homossexual.

– Hei… quem ajudou quem a sair do armário?

– Isso é uma competição?

Os dois caem na risada. Fuuto é o que merece minha atenção. Luis e Hikaru não constituem qualquer ameaça. O maior risco que eu corro com eles é de quererem mexer na minha maquiagem e vestuário. O som de um celular nos faz voltar ao assunto.

– Alô? Natsume? Sim, sou eu, Masaomi. Ah. Entendo. Ótima notícia. Nós te aguardamos na cozinha. Só falta você conhecer nossa irmã. Hã? Como ela é? Venha ver pessoalmente. Puxa… que grosseiro. Desligou na minha cara.

– Finalmente o ermitão dá as caras.

– Gente, desculpe trazer esse assunto de volta, mas nós temos que nos organizar para o funeral de Tsubaki. A parte religiosa nós podemos deixar com Kaname, ele se ofereceu para fazer o ritual budista gratuitamente.

– Vantagens da família Asahina ter seu próprio monge.

– Mas tem a parte civil. Onde e como nós faremos a recepção para os parentes e familiares?

– Hai. Eu tenho o salão.

– E eu posso providenciar o serviço de buffet.

– E eu posso fazer um espetáculo privativo.

– Obrigado a todos. Eu só espero que a presença de Fuuto não cause uma comoção em todo o bairro.

– Ah, poxa, Masaomi, não estraga meu momento.

[risos]- Pena que a família Asahina não tenha um delegado de polícia para ajudar na segurança e bloqueio.

Todos começam a rir e trocar piadas, a despeito da gravidade do assunto. Eu não tinha ideia de que existia família assim ou homem assim. Eu não sei por que eu fico constrangida por não ter algo a colaborar. Afinal, fui eu quem matou Tsubaki. A campainha da porta torna-me útil.

– Deixa que eu atendo.

Eu abro a porta e minhas mãos tem bastante material para se ocuparem. Shouko veio me buscar. Então algo parece envolver meu quadril, meu sangue começa a ferver.

– One chan Shouko! Você vai no funeral do Tsubaki, né?

– Hã? Que? Ah, oi Wataru. Eu não sei… eu considero Satou minha irmã, mas eu não sei se eu posso ir.

Estranhamente minha fúria arrefece. Meus sentimentos são confusos e conflitantes quanto a Wataru. Eu não sei se ele tem essa excessiva liberdade e intimidade comigo por ser imaturo ou se está se aproveitando, pois idade não define maturidade. O peso de uma mão no meu ombro provoca outra sensação, de tranquilidade, eu diria que foi um toque paternal.

– Claro que pode vir, senhorita Hida. Eu endosso que a senhorita é sempre bem vinda em nossa casa.

– Masaomi oni san, você também gostou da Shouko chan, né?

[riso curto e abafado]- Não fale isso, Wataru. Não seja mal-educado e indiscreto. O que nossa irmã vai pensar de nós? Nós não somos lobos famintos.

[choramingando]- De… desculpe one san.

[risos]- Não tem problema, Wataru. Vamos combinar assim. Se, quando você crescer e amadurecer, você for um homem bom, decente e honrado, pode ser que eu me interesse por você, que tal?

[olhos brilhando]- Mesmo? [cabeça dizendo sim] Ueba! Viu, viu, Masaomi oni san?

[risos]- Wataru… você não tem jeito.

Eu não sei por que eu sinto vontade de rir junto. Shouko está animada e parece falar sério. Eu sinto uma pontada de ciúme. Quase tristeza diante da expectativa de ser traída pela mulher que eu amo. Eu fico intrigada por sentir que isso é irrelevante. Eu volto para a cena coma chegada de um carro e de alguém desembarcando com pressa.

– Masaomi! Eu cheguei! Conte-me tudo!

[estressado]- Natsume… apressado, como sempre. Isso não muda o fato de que você é um Asahina. Tenha modos e comprimente nossa irmã e sua adorável amiga.

Mais um homem elegante e educado. Eu custo crer que existam homens assim. Ele estende a mão para mim e faz a apresentação formal.

– Muito prazer. Eu sou Natsume.

– O prazer é meu. Satou Matsuzaka. Como sabia que eu sou sua irmã?

– Wataru deu uma boa dica. Ele é um bom garoto, mas só tem essa excessiva intimidade com quem é da família.

Ah, sim. Wataru ainda estava enganchado em mim. Shouko riu e fez piada. Eu fico aborrecida, mas não chateada. Eu mal consigo me reconhecer.

– E esta donzela, quem é?

– Hai! Muito prazer, eu sou Shouko Hida, a melhor amiga da Satou.

– O prazer é meu. Os outros devem estar na cozinha, comendo as coisas preparadas por Ukio.

– Sim, estão.

– Senhorita Hida, está com fome?

[acanhada]- Bom… só um pouquinho…

– Hei, seus esfomeados, guarde um pouco e tenham modos. Eu estou entrando junto com a senhorita Hida.

Muita bagunça, arruaça, risadas, piadas. Natsume conduz Shouko com educação e distinção. Eu não percebo um único sinal de intenção sexual. Esses homens estão quebrando muitos padrões. Ou será que eu estou sendo preconceituosa? Eu fico mais intrigada por não sentir ciúme de Shouko saltitando ao lado de Natsume. Parece a irmã nova andando com o irmão mais velho. Eu estou passando por várias novidades e surpresas, inclusive a meu respeito. Eu volto para dentro, acompanhada por Wataru e Shouko encontra-se totalmente enturmada e com a boca cheia de guloseimas. Eu tento acompanhar o ritmo, mas isso é impossível, ninguém consegue acompanhar Shouko, o que torna verdadeiro mistério de como ela não engorda um grama.

– Chega por hoje, né, Shouko? Nós temos que ir à escola. Nós vamos perder o ônibus.

Shouko e Yusuke arregalam os olhos lembrando-se do horário do ônibus escolar. Isso ambos têm em comum.

– Não se preocupem. Eu levo vocês.

– Obrigado Iori oni san.

Eu me vi dentro do carro praticamente sozinha com Iori, pois Yusuke e Shouko dormiam pesadamente no banco de trás devido à comilança. Iori está quase terminando a terceira série e pode-se dizer que tem um pé em qualquer faculdade que quiser cursar. Eu sei que a coisa não vai acabar bem pelas músicas que ele deixa tocar no mp3player.

– Satou chan, eu devo dizer que eu estou impressionado contigo.

– Hai?

– Eu devo me formar em breve, mas não tem um único colega meu que não fale de você e agora eu vejo o motivo. Meus irmãos devem estar sofrendo bastante, assim como eu, com toda essa beleza natural irresistível.

Quando eu entrei no Colégio Makikou, a fama de Iori como conquistador foi a primeira coisa que eu aprendi. Eu perdi as contas de quantas garotas e professoras choraram por causa dele. Eu não posso criticar, pois eu fui assim com relação aos meninos e professores durante a primeira série. Se eu ouvi sobre a fama dele, ele deve ter ouvido algo sobre a minha fama. Dissimulado, fingindo que vai trocar de marcha [câmbio automático] ele repousa a mão em minha coxa e fica com aquela expressão plastificada, com uma resposta pronta caso eu reclamasse. Eu só o encarei e sinalizei com meu dedo indicador deslizando de um lado a outro do meu pescoço, deixando claro o que aconteceria se ele não parasse.

– Você é mesmo uma graça, irmãzinha. Eu só fico imaginando a expressão que meus irmãos irão fazer quando descobrirem sobre seu passado promíscuo no colégio.

– No momento certo, eu mesmo irei falar, se for conveniente. Ao contrário de você, irmão, eu não tenho medo ou vergonha de meus atos, eu sou consciente e responsável.

[gargalhada]- Claro, irmãzinha, claro.

Iori breca bruscamente o carro, despertando Shouko e Yusuke. Nós desembarcamos calados e emburrados.

– Boa aula, meus irmãos e senhorita Hida. Satou one chan, eu venho te buscar às cinco da tarde, oquei?

– Como quiser, Iori oni san.

– Ah, sim, eu quero. [piscada indiscreta]

Eu tive todo o período de aulas para pensar e planejar em como eu iria aumentar a minha conta de vítimas. O que me empacou foi quando eu comecei a pensar em quantos eu colocaria na lista. Eu sentia arrepio quando pensava em Wataru. Quando eu pensava em Yusuke e Subaru, minha cabeça ficava girando. Luis e Hikaru estavam totalmente fora. Eu me recusava a pensar em Masaomi e Ukio. Eu não tinha opinião formada sobre Fuuto. Essa era a novidade que me incomodava.

– Satou? Você está aérea. Aconteceu algo?

– Quê? Ah! Shouko, não é nada. Eu só estou preocupada. O casamento de mamãe, agora a morte de Tsubaki.

– Fique tranquila. Tudo vai ficar bem.

Shouko me abraça e acaricia meus cabelos. Eu queria arrancar a roupa dela e come-la ali mesmo, mas tem muita gente olhando. Shouko é a base do plano que vai lidar com meu irmão Iori. Perdoe-me Shouko, por envolvê-la.

Pontualmente Iori estaciona na frente da escola e Shouko faz a parte dela. Iori me procura onde recebeu a indicação, mas colaboradores inocentes declaram que me viram partir no ônibus escolar. Iori ficou irritado e eu contava com isso, distraído, foi tentar interceptar o ônibus escolar sem que tenha visto os ajustes que eu tinha feito no carro.

Como eu havia previsto, o motorista dirige até a junção com a linha férrea, mas o carro de Iori tem uma falha misteriosa que faz com que o veículo seja colhido em cheio pelo trem das cinco. Eu estava a poucos metros dali quando o pessoal no ônibus escolar começou a gritar, horrorizados com a tragédia que testemunharam. Policiais e o resgate chegaram relativamente rápido, mas não tinha muito que fazer. Eu comecei a rir desenfreadamente enquanto os policiais tentavam colher os pedaços do que era meu irmão.

O motorista e os alunos foram levados para a delegacia de polícia. Tanta gente, tanta confusão, somando os repórteres, ninguém percebeu quando eu entrei e me juntei aos demais alunos.

– Satou chan!

– Ah… Shouko chan.

[snif]- Ah, Satou… [snif] que horrível… [snif] que tragédia… [snif] que bom que você está bem.

– Sim, Princesa, eu estou bem. Você está bem?

– Eu estou bem. Eu estava no ônibus seguinte. Deve ter sido terrível para você ter visto tamanha tragédia.

– Eu estava no fundo do ônibus, estava cheio de alunos, então eu não vi muita coisa. Eu só sei que houve uma colisão.

– Ohmeudeus… então você não viu, não sabe?

– Sei o que Shouko chan?

[snif]- Satou… você terá que ser forte… por Wataru.

– Diga logo, por favor!

[snif]- Satou… Iori morreu!

Senhores da Academia de Cinema, reservem um Oscar para mim. Eu mereço por minha excelente atuação. Yusuke chegou pouco depois e eu fiquei pasma por ele estar mais preocupada com o meu bem estar. Ele murmurou algo sobre Iori ter recebido diversas ameaças de morte por namorados e maridos. Ah, Tanathos, eu te devo mais uma.

O delegado nos levou de volta para casa. Masaomi estava arrasado, mas aliviado por me ver intacta. Wataru grudou em mim como se eu fosse sumir. Luis e Hikaru fizeram questão de dormir comigo e eu aceitei. Eu tive que ficar uma noite sem minha Shouko, mas tal como Tsubaki, a morte de Iori funcionou como sonífero e eu tive sonhos maravilhosos.

Meu porco, minhas regras

Hellen é psiquiatra, psicóloga, psicanalista e terapeuta em Cartoonland. Ela atende junto com seus colegas cerca de vinte a trinta personagens por dia. A vida dos personagens em Cartoonland é estressante e os cidadãos têm crises de identidade e de ética constantemente.

Por profissionalismo e ética, Hellen sempre deixa bem claro que atende conforme a ordem de chegada. Seu nicho tem vinte e cinco fichas e ainda são oito da manhã. Ela prepara seu consultório com música relaxante, atiça um incenso e liga as câmeras de segurança.

Os casos e os clientes vão passando pela análise e atendimento na clínica, pausa para o almoço e retomada. Hellen está aborrecida e desanimada, os casos são comuns, banais, problemas que seriam facilmente evitados [ou resolvidos] se os clientes tivessem recebido de seus pais [ou responsáveis] algum corretivo educativo [a moda agora é educar sem dar palmada, gerando crianças e adolescentes problemáticos].

Quase no fim do expediente [17h] Hellen pega a ultima ficha. Um sorriso surge em seu rosto. Conforme ela se dirige à sala de espera, seus colegas [homens e mulheres] abrem as portas para vê-la passar.

– Senhor Squigley?

– Aqui!

– Por aqui, senhor Squigley.

Conforme Hellen retorna, uivos, assovios, vindo dos homens, mas também de algumas mulheres. Squigley a acompanha excitado, mas controlado.

– Por favor entre, senhor Squigley e sente-se.

O cliente entra e senta normalmente. Uma evolução considerável.

– Como o senhor se sente hoje, senhor Squigley?

– Eu acho que eu estou bem. Eu não sinto mais culpa por consumir pornô. Nem tenho mais tanta compulsão em consumir.

[batendo palma]- Excelente, senhor Squigley. O senhor conseguiu perceber e estabelecer qual é, onde está e como controlar aquilo que foi estabelecido como problema. Hoje nós tentaremos desproblematizar a pornografia e, com sorte, nós podemos trabalhar com sua autoestima.

– A senhorita não acha que a pornografia é um problema?

– No mundo contemporâneo existe uma profissão que carece, urgentemente, de legalização e regulamentação: a do trabalhador do sexo. Todo tipo de ocupação humana é igualmente digna e todo tipo de ocupação humana é exercida mediante pagamento, mas o trabalho do sexo ainda está cercado de tabus, proibições e estigmas. Centenas de pessoas humanas são relegadas à clandestinidade simplesmente porque alugam seu tempo de serviço e sua ferramenta [o corpo] para suprir a necessidade humana de sexo. Essa função carrega consigo o estigma da sociedade porque nossa cultura sofre com a influência da religiosidade judaico-cristã que vê o corpo, o desejo, o prazer e o sexo como coisas pecaminosas.

– Ma… mas… os estudos mostram as consequências prejudiciais da pornografia…

– A princípio a pornografia foi duramente combatida pelos governos, mas depois tolerada, por que era rentável e fornecia meios para endossar o sistema de repressão e opressão sexual. A pornografia, ou a escrita da prostituição, recebeu a pecha de coisa vulgar, suja, imprópria, impura, pois exacerbava aquilo que ainda hoje são tabus na cultura ocidental cristã: amor, sexo, relacionamento, desejo, prazer e o corpo. A pornografia foi usada pelo Estado, pela Sociedade e pela Igreja para manter o patriarcado, a misoginia, a monogamia e a heteronormatividade. O curioso é que quando o Feminismo Radical contesta e protesta contra a pornografia, acaba endossando o discurso oficial.

– Então há correlação entre pornografia e prostituição?

– Tanto a pornografia quanto a prostituição são expressões bem antigas, embora tenham recebido outros conteúdos, contextos e conceitos, em outras épocas. Houve uma época onde existiam as prostitutas sagradas, houve uma época onde a cortesã recebia alguma estima social. A prostituição desceu na escala das ocupações na Era Vitoriana e seu Puritanismo. A pornografia desceu na escala das expressões artísticas na Era Moderna, com as ditas revistas masculinas adultas. Entretanto, em torno da revista ou da prostituta existem diversos outros profissionais que, da mesma forma, estão no trabalho do sexo, mas que são relegados ao mesmo substrato social. Para melhorar a condição destes profissionais, torna-se urgente e necessário a legalização e regulamentação desse trabalho.

– Mas nos dias de hoje, a pornografia e a prostituição não são formas de exploração e escravização da mulher, não patrocinam o tráfico humano?

– O problema está na sua forma, no seu conteúdo, ou na sua produção? Inúmeras artistas foram consagradas pelo público exatamente através da exploração do seu corpo, sua sensualidade, não pessoas escravizadas. Inúmeros jogadores de futebol são comprados e vendidos entre times de diversos países, mas são considerados atletas bem sucedidos, não vítimas de tráfico humano. Então essa contestação, esse protesto e movimento para criminalizar a pornografia tem outro objeto [problema] e objetivo [solução].

– E… então… não há coação… opressão… supremacia masculina… sexismo?

– Existem, de formas bastante distintas e diversas, inclusive vindo de grupos e organizações sociais e políticas que supostamente existem e que estão “defendendo a mulher”.

[intrigado]- Eu não entendi.

[sorrindo]- Isso se chama biopolítica. O corpo é o lugar onde se exerce a política. Quem controla o corpo tem o controle político. Quando [e se] o indivíduo retomar a posse, o poder e a autonomia sobre seu corpo, nós teremos a base para uma sociedade melhor. O corpo é um território a ser reconquistado. Nenhuma outra pessoa ou grupo deve ter o poder sobre o seu corpo. O que esses grupos estão realmente falando é que você [ou eu] não é suficientemente maduro ou consciente sobre como deve viver seu desejo, seu prazer, sua sexualidade. Este é o sentido da biopolítica, quando o Estado trata o sexo, de assunto privado, torna-se assunto público. O modo de produção capitalista/consumista/industrial precisa manter a máquina humana em funcionamento e [re]produzindo. Para isso, políticas de controle populacional, tecnologias de contracepção e tratamentos médicos para doenças sexualmente transmissíveis surgiram.

– Mas… e o tráfico humano? A escravidão?

– Ora, fiscalização e punição das pessoas e empresas que o fazem. Querer criminalizar a pornografia e prostituição alegando que promovem a escravidão e o tráfico humano só atinge aqueles que são as vítimas. Acredite, escravidão e tráfico de pessoas vão continuar a existir, mesmo sem a pornografia e a prostituição.

[pensativo]- Criminalizar a pornografia e a prostituição resulta em mais repressão e opressão sexual?

[levantando os braços]- Bingo! O problema deixou de ser problema para ser uma ferramenta de resistência e contestação. Então vem a calhar pensar por que a pornografia [e a prostituição] se transformou em problema para você, senhor Squigley.

[constrangido]- Bom… eeehh… sabe como é… eu vejo aquelas mulheres, em boates, nas esquinas, tendo que trabalhar em condições precárias, alugando seu corpo para satisfação sexual de estranhos…

[sorrindo]- Isso é problema na relação de trabalho, coisas que são corrigidas exatamente com a legalização e regulamentação dessa ocupação. Veja bem, pessoas que trabalham no campo estão assim, pessoas que trabalham em confecção estão assim, por que só criminalizar a prostituição?

– Mas… essas mulheres… não estão em situação de fragilidade e acabam sendo agenciadas por falta de opção?

[séria]- Pessoas em situação de fragilidade vendem bala nos faróis, fazem bico como entregador, armam barraquinhas com produtos de origem duvidosa, contrabandeiam mercadorias… por que só as que alugam seu corpo são visadas? Criminalizar a prostituição [e a pornografia] só irá complicar seu estado de fragilidade.

[engolindo seco]- Ma… mas… eu não consigo evitar… elas devem ser mães, irmãs, filhas de alguém…

[rindo]- Sim… muitas são casadas, noivas ou tem namorados. Assim como os clientes delas são esposos, pais, filhos ou irmãos de alguma mulher. Isso não os impede de procurar pelo serviço. Se isso fosse realmente um problema, um vício, como querem te fazer crer, acha mesmo que essas mulheres não pressionariam a seus homens [conforme a ligação de relacionamento] a não usarem desse serviço, ou melhor, não dariam elas mesmas o alívio que tanto procuram?

[arregalando os olhos]- Ma… mas isso é….

[cortando]- Pecado? Pois é esse o verdadeiro motivo pelo qual tem tanta gente querendo criminalizar a pornografia e a prostituição. A despeito do discurso e das boas intenções, não passa do mesmo falso moralismo hipócrita do fundamentalismo cristão que vê o corpo, o desejo, o prazer e o sexo como algo ruim, sujo, errado, pecaminoso.

[engolindo seco]- E… eu não pensei nisso…

[suspirando]- Está tudo bem, senhor Squigley. Poucas pessoas são capazes de perceber e analisar a complexidade da pornografia e da prostituição. O meu interesse é o de fazer com que supere esse trauma que adquiriu por conta da forma como você supre sua necessidade normal, natural e saudável por relações sexuais. Talvez nós devamos deixar para outra sessão sobre onde, como e por que o senhor adquiriu esse trauma. Hoje vamos explorar sua relação com o sexo e como você atende essa necessidade.

[cismado]- O… oquei.

[sorrindo]- Senhor Squigley, qual a imagem que o senhor tem de você?

[cabisbaixo]- Ah… bem… eu sou um porco. Baixinho, gordinho, egoísta e hedonista. O criador [Tasuya Ishida] me fez como uma forma [não sutil] de criticar o machismo [porco chauvinista].

[séria]- Senhor Squigley, essa é a forma como você se vê ou é a forma como as pessoas te veem?

– Hein?

[encarando]- Senhor Squigley, é muito comum nós permitirmos que as opiniões dos outros interfira [e defina] a imagem que nós temos a nosso respeito. Pare de se olhar pelos olhos dos outros. Quer que eu te ajude a se ver como você é?

– Hã… sim?

Hellen parece vasculhar por algo, deixando seu corpo em uma posição que deixou seu traseiro empinado, provocando reação imediata.

– Pronto, senhor Squigley. Olhe bem para este espelho. O que vê?

– Eeeeh… eu vejo um porco.

[franzindo a testa]- Senhor Squigley, faça um esforço.

[amedrontado]- Eeeeeh… espera… eu estou vendo meus pais, meus avôs…

– Excelente. Continue.

– Mas… que truque é esse? Eu vejo vários porcos, com roupas de épocas distantes. Opa… epa… quem é esse?

– Descreva, senhor Squigley.

– Eu vejo um bicho enorme, peludo, cerca de 1,80 cm, 200 kg. Ele tem uma expressão ameaçadora, com aqueles dois caninos saindo de seu maxilar inferior.

– Senhor Squigley, esse é seu ancestral, o javali. Quando os javalis andavam em grupo, até os lobos os temiam. Este é o espírito do seu clã. Você tem o sangue desse guerreiro forte e poderoso.

– Me… mesmo? Eu… tenho?

– Sim, senhor Squigley. Respire fundo. Sinta seu sangue fluir. Evoque seu espírito ancestral.

Uma névoa volteia em torno do Squigley, cada vez mais densa e luminosa. Acontece um facho de luz e Squigley se vê como realmente é.

– Ma… mas… como? Esse sou eu?

[lambendo os lábios]- Sim, senhor Squigley. Debaixo da imagem que você deixou que as opiniões alheias te fizeram acreditar, esse é seu verdadeiro eu.

– Ca… caramba… eu nunca percebi como eu sou atlético e simpático.

[alisando]- Eu SEMPRE vi o senhor assim, senhor Squigley.

[babando]- Se… senhorita Hellen…

[abrindo o zíper]- Senhor Squigley, como parte de seu tratamento, agora eu irei dar início à minha terapia. Lembre-se, controle.

O rosto de Squigley rapidamente adquire tons cada vez mais avermelhados conforme o suor lhe escorre pela testa. Seus olhos ficam embaçados, giram de um lado a outro, conforme seus gemidos escapam junto com o vapor saindo de sua boca. O coitado consegue resistir bravamente por alguns minutos, mas o conjunto de massagens com lábios, língua, mãos e seios excedem o limite até dos Deuses do Olimpo. Squigley urra e seu sêmen jorra abundantemente em golfadas.

[risos]- Parabéns, senhor Squigley. Você está progredindo.

[arfando]- Senhorita Hellen… perdoe-me…

[surpresa]- Mas por que ou pelo que, senhor Squigley?

– Bom… hã… por essa meleca bagunçada que eu fiz em seu escritório.

[risos]- Não se preocupe com isso, senhor Squigley. Foque no seu tratamento e progresso.

[confuso]- Mas senhorita Hellen, por que eu?

[surpresa]- Como assim? Por acaso eu [ou qualquer outra mulher/fêmea] precisa de algum motivo especial para querer trepar gostoso com um homem [macho] saudável? [séria] Eu acho que vou precisar de mais sessões com o senhor, senhor Squigley.

[cabisbaixo]- De… desculpe. Eu devo ser um estorvo e um incômodo.

[sorrindo]- Nada disso, senhor Squigley. Você é meu cliente. Sua satisfação e tratamento são meus objetivos. Eu te atendo com todo prazer. Literalmente falando.

[animado] – Bom… hã… nesse caso… a senhorita atende fora da clínica?

[maliciosa]- O que tem em mente, senhor Squigley?

[mordendo a isca]- Se for possível, atendimento em domicílio. Ou podemos ir a um motel.

[sensualizando]- Senhor Squigley… eu só faço atendimentos como profissional.

– Sim, sim, claro, super profissional!

[risos]- Senhor Squigley, se continuarmos nesse ritmo, eu posso ficar grávida. Está disposto a assumir a responsabilidade?

[engole seco]- Eeeh… sim?

[risos]- Muito bem, senhor Squigley. Passe na secretaria, marque as datas e acerte os valores.

Amor e crime – III

O sol se esgueira lentamente pelo meu quarto, passando pelo belo vitrô e a luminosidade multicolorida me desperta. Eu observo o dossel e o teto acima dele, ainda custando a acreditar que eu estou vivendo um sonho de princesa. Eu solto um urro de bocejo e olho em volta. Shouko não está presente. O cheiro vem convidativo da cozinha, mas antes eu preciso de um banho urgente. Trôpega, ainda não totalmente acordada, eu me arrasto pelo corredor, entro no elevador e sigo pelo quinto andar até o banheiro, certa e confiante que está livre, pois ou meus irmãos estão na cozinha, ou na escola, ou no trabalho. Meu corpo está parcamente coberto com meu roupão, eu simplesmente abro a porta e entro.

– Ah! Quem é? Sa… Satou chan? Irmã?

[bocejando]- Bom dia. Eu preciso tomar banho.

Eu passo seminua a poucos centímetros do coitado do Subaru, roxo de vergonha, se encolhendo próximo da pia, segurando com força a toalha que envolve o quadril de seu corpo nu. Eu removo meu roupão e o jogo displicentemente em cima do meu irmão que esbugalha os olhos por cinco segundos, mas logo vira os olhos para não ficar encarando meu corpo completamente nu. Eu deslizo a divisória e ligo o chuveiro. Temperatura perfeita. Eu reparo que eu tenho várias opções de sabonetes, shampoos e óleos corporais. Eu nem me dei conta que eu me despi para o Subaru, ou eu estava testando ele inconscientemente.

– Bo… bom dia, irmã. Fique à vontade. Eu… eu terminei aqui. Eu vou descer e separo seu desjejum, oquei?

– Hai.

A água ajuda a recobrar a consciência. Que sensação estranha. Eu não sinto medo ou vergonha de ter ficado nua diante do Subaru. Som de roupas farfalhando e o vulto dele através da divisória atiçam minha curiosidade. Discreta e lentamente, eu abro uma brecha e espio. Que esquisito. Subaru vestiu primeiro a camiseta. Eu consigo ver o seu treco. Nada mal. Talvez eu me permita brincar um pouco com isso antes de mata-lo. Não que eu goste de meninos ou homens. Mas também não os odeio. Antes de me descobrir, antes de começar a me relacionar com meninas, antes de conhecer Shouko, eu era a garota mais vadia do colégio. Eu devo ter tido tantos homens quanto tive de vítimas. Subaru termina de se vestir e sai, fechando a porta com gentileza. Novamente sozinha, no chuveiro, eu só consigo pensar em Shouko. Eu vou ter que fazer aquela mágica com os dedos.

[gemendo]- Sho… Shouko…

Eu sinto como se eletricidade tivesse passado por minha espinha. Estrelas pipocam por onde eu olho. As pernas bambeiam e eu tenho que me ajoelhar e sentar no chão do chuveiro. Meu corpo inteiro treme, minha pulsação e respiração estão aceleradas. Consegue ver o que você faz comigo, Shouko?

Um relógio em algum ponto dessa mansão soa oito vezes. A diversão vai ter que esperar. Eu tenho que ir para a escola. Shouko certamente vai me ajudar nisso, com grande alegria. Eu escovo o cabelo, faço tranças, coloco lacinhos e presilhas. Eu borrifo um tiquinho de perfume. Eu apronto meu rosto com maquiagem básica. Eu me enfio no uniforme, caprichosamente limpo e dobrado, tal como eu deixei em cima do cesto de roupa. Eu saio saltitando pelo corredor, cantarolando alguma música, como se eu fosse uma garota normal. Eu capricho em minha expressão de menininha inocente e ingênua quando eu entro na cozinha.

– Bom dia, pessoal!

[coro]- Bom dia, irmã!

– Bo… bom dia.

Subaru vira o rosto e olha para o chão, com o rosto avermelhado. Ele deve ter gostado do que viu. Eu vou considerar um elogio. Eu disperso a atenção desnecessária dos demais, comentando e elogiando a refeição matinal preparada e servida por Ukio. A conversa virou rapidamente aquelas trivialidades que gente normal troca. Subaru pega no tranco e consegue esquecer o embaraço.

– Drogadrogadroga! Eu estou atrasado!

– Yusuke…

O cabelo vermelho de Yusuke parece uma tocha, com o movimento agitado dele. Ukio faz aquela expressão séria e grave enquanto Yusuke enfia vários biscoitos na boca e verte o achocolatado garganta abaixo. Eu não sei por que eu começo a dar risada. Isso é raro. Shouko vai ficar com ciúmes se souber.

– Chega de brigas e discussões, pessoal. Yusuke, pelo menos leve sua irmã na escola dentro do horário.

[resmungando]- Hai.

Alguns minutos depois eu e Yusuke estamos no portão da frente, esperando chegar o ônibus escolar. Eu acho esquisito, não faz sentido Yusuke ir para o colégio de ônibus escolar, sendo de família rica, mas é regra da casa, cada filho tem que fazer por merecer, trabalhar e comprar. Nós embarcamos no ônibus e Yusuke puxa conversa.

– Então… Satou chan…

– Hai, Yusuke kun?

[engole seco]- Pois é… nós somos alunos do mesmo colégio. Em que turma você está?

– Eu sou da Turma 4B.

[surpreso]- Eu estou na 4D. Você deve ser muito inteligente.

– Hai. Você é gentil Yusuke.

[embaraçado]- Você não estranha?

– Eu? Estranhar o que?

[constrangido]- Bom… do nada você morando em uma casa cheia de homens.

– Não. Nadinha. Vocês são meus queridos irmãos.

[incomodado]- Você é uma boa garota, Satou. Mas você tem que ter cuidado. Principalmente com Iori. Tsubaki é um babaca, mas só gosta de provocar. Iori é mais perigoso.

[sorrindo]- Obrigada pela dica, Yusuke kun! [aperto os braços dele entre meus seios, deixando ele roxo]

– C… claro… não há de quê… só não fique tão perto assim de mim. Eu também sou perigoso.

– Awww… Yusuke kun… você só diz isso porque gosta de mim, né?

Eu fico mais próxima e aperto ainda mais o braço dele entre meus seios. Eu sinto a temperatura do corpo dele subir exponencialmente, assim como o volume em suas calças.

– Po… pois então… é por isso que nós temos que conversar. Nós somos alunos do mesmo colégio e estamos no mesmo ano letivo. Se você ficar perto assim de mim, nossos parceiros vão comentar, os professores vão comentar. Boatos sujos vão surgir falando coisas sobre nós.

– Deixem que digam, que falem. Por meus irmãos eu sou capaz de fazer qual-quer-coi-sa.

Eu soletro as sílabas vagarosamente, fazendo biquinho, para ressaltar meus lábios, a poucos centímetros do rosto de Yusuke. Ele está trêmulo, seu corpo parece uma caldeira, suor escorre pela testa dele e o volume em suas calças aumenta. Homens são muito previsíveis. Eles são o sexo fraco.

– Nã… não fique falando bobagens nem prometendo coisas. Eu posso levar a sério.

– Awww… Yusuke kun… assim eu fico ofendida. Eu sempre falo sério. Eu sempre cumpro o que prometo.

[bufando]- Bo… bom… nós chegamos no colégio. Depois nós conversamos mais sobre isso, oquei?

– Hai!

Eu tenho que segurar a risada. Yusuke cambaleia entre tantos alunos, tentando disfarçar a ereção com a mochila. Eu não sei se ele vai conseguir segurar, pois nossa primeira aula é de inglês e a professora da turma dele adora caprichar no decote. O busto dela é tamanho D e ela não costuma usar sutiã. Todos os meninos ficam com as calças molhadas no fim da aula.

– Satou chan!

Eu sou envolta em uma brisa de primavera, morna, perfumada. Minha boca se enche de água assim que eu vejo Shouko se aproximar. Essa é a vantagem de ser mulher. Dá para disfarçar a excitação.

– Hai, Shouko chan! Vamos para a sala de aula?

– Hai!

Nós caminhamos pelas dependências do colégio de dedinhos entrelaçados, o máximo que é permitido. Os professores vêm e vão. Completamente inúteis. Eu assisto as aulas porque eu sou obrigada. Quando eu quero aprender realmente algo, eu vou à biblioteca. Animação só acontece no intervalo. Uma explosão de pessoas correndo para fora das salas de aula. O pátio fica preenchido com o burburinho das conversas. Os quiosques faturam alto com comida, bebida, cigarro e outras coisas menos lícitas. Em um canto, os valentões resolvem as diferenças. Em outro canto, os amantes fazem uma luta diferente. Eu e Shouko estamos em nosso lugar favorito, dando comida uma à outra na boca [nota: no Japão, isso é sinal de intimidade amorosa].

– Com licença. Boa tarde, senhorita Hida. Pode me emprestar minha irmã?

– Hã? Ah! Oi, Yusuke kun!

Shouko é bastante compreensiva ou desligada. Eu sou “cedida” e Yusuke me leva até uma das laterais da biblioteca, um local que provavelmente eu sou a única que conhece e frequenta.

– Satou chan, eu acredito que você é séria. Saiba que eu também sou sério.

– Hai, Yusuke. Eu sei que você é sério.

Yusuke chapa a palma da mão na parede ao lado do meu rosto e me encara.

– Satou chan, nós nos conhecemos desde o primeiro ano da segunda série. Eu me apaixonei por você na primeira vez que eu te vi.

– Eu sei disso, Yusuke. Você não é bom em esconder seus sentimentos.

– Eu tive que juntar toda a coragem que eu tenho para te dizer isso. Por favor, me escute. Daqui a alguns dias, nós seremos parentes, familiares. Você deve ter sentido que conviver com meus irmãos é muito arriscado para você. Eu sou capaz de jurar que devem estar apostando quem vai ser o primeiro a te foder. Isso é certo, todos eles querem te foder.

– Vo… você também, Yusuke kun?

[bravo]- Preste atenção! Isso é muito sério! [bufando] Ouça muito bem, Satou. Eu te amo. O único jeito de você ficar livre de ser estuprada pelos meus doze irmãos é você se tornando minha namorada. O que me diz?

Eu respiro fundo e solto o ar. Eu tinha colocado Tsubaki como primeiro na minha lista, mas felizmente eu sempre preparo planos secundários. Isso vai adiantar minha agenda, mas eu ainda estou dentro do controle de segurança.

– Yusuke kun, agora quem fala sou eu e você escuta. Eu te agradeço por ser gentil e sincero. Mas veja bem, nós vamos ser irmãos. Como se isso não bastasse, meu coração está preenchido.

Lágrimas começam a correr pelo rosto de Yusuke. Que sensação esquisita. Eu estou sentindo pena e compaixão?

– É… é a Shouko, não é? Eu ouvi vários boatos, mas é só olhar para vocês que qualquer um vê que vocês se amam. Eu espero que a Shouko seja forte. Por que isso não vai fazer a menor diferença para meus irmãos. Na verdade, isso só vai estimula-los e torna-los mais violentos.

Yusuke enxuga as lágrimas e recupera a compostura.

– Muito bem. Você fez sua escolha. Eu tenho que aceitar e te apoiar. Eu vou sofrer muito, mas meu amor por você é mais forte. Era o que eu tinha a dizer. Vamos voltar.

Quando voltamos onde Shouko estava, ela estava raspando o fundo do bentô. Shouko gulosa.

– Senhorita Hida, obrigado. Eu deixo a minha irmã aos seus cuidados. Ame-a tanto ou mais do que eu a amo. Isso é tudo. Obrigado.

Yusuke dá meia volta e sai andando com classe e elegância. Existem homens honrados assim?

– Ué… eu entendi direito? Yusuke está abençoando nosso amor?

– Parece que sim… hei, Shouko, sobrou algo do bentô?

– Hihihihi… tarááá!

Shouko faz surgir um bentô igualzinho ao que ela tinha comido tudo.

– Ma… mas como?

– Um garotinho que se diz chamar Wataru apareceu e entregou esse bentô que, segundo ele, foi feito por um tal de Ukio. Eles são seus irmãos, né?

Minhas emoções estão em confusão. Eu custo a crer que existam homens assim. Meu estômago ronca, então eu desisto de tentar entender.

Exatamente às cinco da tarde o colégio soa o sinal que concede alforria aos alunos. Eu não encontro Shouko. A mãe dela deve ter vindo busca-la. Os ônibus escolares estão mais lotados do que as linhas suburbanas. Enquanto eu penso em rotas alternativas, um carro buzina e pisca os faróis.

– Irmãzinha? Sou eu, Tsubaki. Venha, eu te dou carona.

Eu não sei por que eu olho em volta, tentando achar Yusuke. Eu devo agradecer a Thanatos adequadamente por essa oportunidade.

– Hai! Obrigada, Tsubaki kun.

Eu entro e, com é de se esperar, ele começa aquela ladainha que eu conheço de cor.

– Sabe, Satou chan? Eu gostaria muito que você me perdoasse. Não foi a minha intenção te assustar ou te magoar. O caso é que eu sou assim, carinhoso. Você pode me perdoar, minha querida irmã?

– Hai! Na verdade, sou eu quem deve te pedir desculpas. Eu reagi sem pensar.

– Muito obrigado, Satou chan. Será que eu posso te dar um beijo, de reconciliação?

– Hai! Pode sim, Tsubaki. Afinal, nós somos irmãos.

A borboleta revoa sem se dar conta da teia da aranha até ser tarde demais. Tsubaki inclinou-se e caprichou no beijo de língua enquanto sua mão direita se agitava entre minhas coxas. Eu não sinto coisa alguma. Ele beija muito mal e não sabe usar a mão. Ele recua, surpreso e irritado, percebendo que eu não estava excitada.

– Você é mesmo uma vadia bem puta, né, irmãzinha?

– Hai?

– Não me venha com essa. Você não me engana com essa falsa inocência e ingenuidade. Eu sei tudo sobre você, irmãzinha. Eu sei que você foi a vadia mais puta do primeiro ano do segundo grau.

– E se eu fui? O que você tem com isso?

[gargalhada]- Nada. Absolutamente nada. Para falar a verdade, eu fico aliviado. Quer saber de uma coisa, irmãzinha? Nesse exato momento tem uma aposta rolando entre nós para saber quem vai ser o primeiro. Os outros vão ficar decepcionados quando souberem que você é rodada, mas o que me interessa é ganhar o dinheiro da aposta. Talvez, se eu gostar, se você for boa, eu deixe você viva para ser estuprada pelos outros.

– Tsubaki kun, não siga por este caminho. Volte, você ainda tem tempo.

[gargalhada insana]- Acha mesmo que pode mandar em mim, irmãzinha?

Tsubaki freia o carro em um lugar ermo.

– Garotinha… eu posso quebrar seu pescoço com uma mão só.

Tsubaki envolve meu pescoço com a mão que estava entre minhas coxas e seus dedos vão se estreitando, fazendo força. Ele gargalha enquanto faz um esforço considerável tentando me esganar. Cinco minutos depois ele para de gargalhar. A mão esquerda se junta à mão direita. Ele está bastante dedicado. Mas está irritado e contrariado. Por mais força que ele faça, eu estou completamente tranquila.

– Ma… mas que Diabo? Que truque é esse? Como isso é possível?

– Tsubaki kun, meu pobre irmão, você disse que sabia tudo sobre mim, mas não sabe coisa alguma.

Eu abro o porta-luvas do carro e pego o calibre 38, uma das coisinhas que eu achei em minhas explorações. Eu aponto, miro e aperto o gatilho. A cabeça de Tsubaki pipoca, pedaços de crânio, cérebro e sangue se espalham pelo vidro do lado do motorista. Eu suspiro. Não foi uma obra prima. Mas dá para ajeitar. Eu coloco o revolver na mão de Tsubaki e aperto por cima da mão dele, assim as impressões digitais dele ficam gravadas no cabo. A cereja no bolo. Eu removo as luvas de silicone que eu sempre uso nas mãos. A parte fácil, sair e limpar as maçanetas. Eu vou caminhando pelas ruas em direção ao meu novo lar. Com toda tranquilidade, eu abro a porta e me deparo com todos na sala de jogos, vendo as notícias no telão. Todos parecem tensos e concentrados.

“Atenção para a notícia de ultima hora do Jornal da Tarde. Foi encontrado hoje o corpo do jovem Tsubaki Asahina nas cercanias de Hell’s Kitchen. Segundo informe da Polícia, o jovem foi encontrado morto com um tiro na cabeça, supostamente disparado pelo mesmo. A Polícia continuará a investigar, mas a primeira hipótese é de suicídio. Mais informações a qualquer hora”.

A melhor parte da minha arte acontece agora. As expressões naqueles rostos. Horror. Medo. Indignação. Tristeza. Dor. Luto. Eu cubro meus olhos e até consigo derramar algumas lágrimas. Um disfarce necessário para esconder que eu atingi o orgasmo. Shouko… perdoe-me por desperdiçar meu mel.