Por qual nome atende o amor

A praça não tem mais crianças e mães, somente jovens enamorados recitam as palavras que se eternizaram por inúmeros poetas. Alice acena, sorridente, estimulando Lorena a continuar andando. Estrelas surgem junto com o manto de Nix e a mesquita vai fechar.

Segurando firme o nó que segura seu hijab para esconder seu medo, nervosismo e timidez, Lorena segue adiante como se outra pessoa ou uma força a impelisse. O iman habita um cômodo dentro da mesquita, esta mesma sendo adaptada do que sobrou de uma fábrica.

Quem mora no subúrbio se habitua a sobreviver na periferia da sociedade, afastado e impedido de exercer sua plena cidadania. Para católicos e protestantes não é muito fácil conviver no mesmo Reino Unido, se deixarmos de fora os anglicanos. A situação é pior para crenças não cristãs e, apesar de ser uma religião com as mesmas origens do Cristianismo e do Judaísmo, o Islamismo é considerada uma “religião das minorias”.

Lorena respira fundo, sentindo um calafrio na espinha e um tremor no corpo. Ela pede pela proteção e orientação de Aisha, sente um calor aconchegante e bate na porta.

– Só um minuto! Sim, pois não? Ah! Boa noite, Lorena. O que foi? Aconteceu algo?

– N… não… nada… Pai Saladino… eu apenas… gostaria de falar com o senhor.

– Claro, sem problema. Entre, por favor. Eu acabei de fazer chá, quer um pouco? Olha, não repare a bagunça.

Lorena conhecia bem esse cômodo, Saladino recebia qualquer um em seu domicílio e as crianças aprendiam o Corão ali mesmo. Saladino tinha uma habitação simples, sem luxo, móveis simples e funcionais, um verdadeiro contraste em comparação com as casas que ela conhecia ser de propriedade dos padres.

Em uma mesa feita de madeira de demolição, um bule, xícaras de chá, mel, adoçante, açúcar mascavo, um prato com queijo e vários pães sírios. Em uma das cadeiras, uma mulher a encarava, com desdém. Lorena a conhecia. Esta era Makusha. Todas as mulheres da comunidade falavam mal dela. Ela era afamada por ser “devoradora de homens”, ela era chamada de “Viúva Negra”.

– Ah, sim! Lorena, esta é Makusha. Mas vocês devem se conhecer. Que bobagem a minha. Mas é bom que você esteja presente. Makusha está fazendo uma acusação séria e eu quero que você me ajude a resolver. Makusha não merece ter sua reputação mais manchada do que se encontra, então sua presença aqui vai evitar fofocas maldosas. Tudo bem para vocês?

– Hmpf. Por mim tudo bem. Eu sou uma mulher madura e crescida. Seria ridículo eu ter medo de uma criança. Eu até acho bom, pois ela deve saber bem do que andam me chamando por aí.

– Bom, para ser sincero, eu preferia chamar pessoalmente cada um dos envolvidos e suspeitos. Conversar, fofocar, é uma coisa. Ficar com maldade e malícia é outra coisa. Se formos por esse caminho, será o fim da comunidade. O que você pode falar sobre isso, Lorena?

– Olha, Pai, eu não conheço a senhora Makusha pessoalmente, mas eu infelizmente ouvi o que falam dela. Eu não quero ofendê-la, senhora Makusha, mas seu comportamento e hábitos são muito escandalosos para a comunidade. Eu me sinto constrangida, vendo a senhora na mesquita, usando o hijab, recitando o Corão, falando de Deus, mas tem uma regra de vida muito secular. Mesmo casada, a senhora flertava com outros homens. Não importa se eram casados, nem se eram de fora da comunidade. Desculpe a sinceridade, mas a senhora parece uma meretriz.

– Há! Vê só? Como pode isso, iman? Essas mulheres mal amadas, ciumentas, invejosas, estão me julgando e condenando!

– Tenha calma, Makusha. Só Deus pode te julgar. Lorena apenas está relatando o que sabe. Minha preocupação é com a comunidade, então precisamos esclarecer tudo isso. Eu te conheço pelo menos há um ano, Makusha e devo dizer que seu comportamento me intriga.

– Iman! Até você! Vai querer dar uma lição de moral, de conduta?

– Em absoluto. Você é adulta, maior de idade e consciente de seus atos. Você só tem que se explicar, se justificar, dar satisfação a Deus. Eu estou dizendo que eu fico intrigado, não que te condeno ou desaprovo seu modo de viver. Para mim é indiferente, com quem e com quantos você se relaciona. Eu quero que você só me diga é se há amor ou dinheiro envolvido. Se há amor, pouco importa o nome, será amor. Mas sé é por dinheiro, você está fazendo pouco de si mesma, pouco do seu amor e do amor que recebe desses homens. Acredite, eu sei aonde este caminho acabará.

– Hah! Até parece aqueles padres da igreja que eu abjurei! Vai falar que eu vou para o Inferno?

– Makusha, eu não posso falar em nome de outros sacerdotes, de outras religiões e templos, mas eu te garanto que quem te disse isso não conhece Deus. Nós todos somos filhos e filhas de Deus. Nosso corpo, nossa natureza, nossa essência, nossas necessidades, são todas bênçãos de Deus. Como Deus nos daria algo para depois nos condenar por algo que Ele mesmo criou e nos deu? Eu sei e eu estou ciente de que são muitos o que falam em nome de Deus e, através do medo, enriquecem vendendo indulgências, perdões e penitências. Mas saiba disso, Makusha… e você também, Lorena… nosso corpo, nosso desejo, nosso prazer, são igualmente sagrados e divinos quanto o Corão. Deus nos concedeu o dom do amor e do sexo. Errado seria nos privar disso em nome de uma dúbia moral e de valores questionáveis.

– Mas o senhor… o senhor disse… e se meu amor envolver dinheiro? Não é amor do mesmo jeito?

– [suspiro] Makusha, minha mãe era uma prostituta. Eu nunca conheci um pai. Eu tinha tudo para ser um delinquente. Minha mãe viveu por muitos anos nessa ilusão de que amor e dinheiro combinavam. Mas dinheiro sufoca o amor, não há lugar para o amor onde há dinheiro. Não há amor onde o dinheiro está presente. Quando o dinheiro acaba, não há coisa alguma em que se escorar. O amor nunca acaba, nunca definha, nunca te abandona, não pode ser dividido ou diminuído, apenas aumenta e multiplica. Você quer ser amada ou quer ser usada como uma mera mercadoria que pode ser descartada?

– V…você… você não sabe coisa alguma! Como pode falar em amor? Padres, pastores, imans… vocês são todos iguais. Nunca sentiram amor, nunca experimentaram o sabor de uma carne no ato sexual… dane-se você… dane-se sua comunidade!

Makusha sai em disparada, deixando atrás de si um vendaval. Lorena está quase desmaiada de vergonha. Ninguém teria tamanha ousadia de dirigir um “você” para Saladino. Nem seria capaz de ser tão rude daquela forma. Lorena não sabia direito o que sentia. Compaixão? De quem? De Makusha ou de Saladino? Doía o coração de Lorena vendo a expressão cabisbaixa e decepcionada que Saladino expressava.

– Eu acho que nós não veremos mais a senhora Makusha… [suspiro] eu devo estar perdendo o jeito. Deus me confiou essa comunidade, mas eu estou faltando com a minha obrigação.

– N… não! Nunca! Jamais! Nunca mais diga isso! O senhor… o senhor… o senhor é quem nos mantém unidos, o senhor é quem dá sentido à nossa comunidade… o senhor… [snif] o senhor… [snif] o senhor é amado por todos nós!

Saladino fica espantado ao ver Lorena tão próximo dele, segurando-o com vigor em seus braços, sacudindo-o levemente, com os olhos cheios de lágrimas. Lorena tinha aquele jeito recatado, reservado, contrido, como ele cresceu acostumado em meio às freiras, quando viveu sua infância em um internato católico. Ele sabia, de alguma forma, que Lorena gostava dele, mas não conseguia, por algum motivo, expressar o que sentia, até então. Saladino tenta adivinhar se Alice não estaria por detrás dessa transmutação, ou se foi a entrevista com Aisha, ou se foi por causa do estresse causado pelo trabalho que Lorena estava transbordando seus sentimentos.

– Heh… pelo visto, eu sou amado mesmo. Como sua amiga Alice disse, a comunidade me procura porque confia em mim… confia porque me ama. Eu também os amo a todos, mas tem uma pessoa que eu gostaria muito que fosse capaz de dizer o que sente por mim. Sabe… não sei bem como falar isso… mas eu também gosto dela, mas receio tomar a inciativa. Sabe como é… ela é tão jovem, brilhante, inteligente, esforçada e eu sou tão… velho…

– Ah… [snif] meu Pai Saladino… eu sou apenas uma criança, nada sei sobre essas coisas. Mas eu acho que, seja quem for essa mulher, ela é a mais bem aventurada entre nós. Deixe-me cuidar disso… se o senhor me permite… eu mando um recado sutil para esta mulher sobre seus sentimentos por ela e ela certamente virá correndo para lhe oferecer o mesmo sentimento. Quem seria essa sortuda?

– Hahaha! Isso é engraçado, Lorena… pois ela está bem na minha frente.

– A… ah? Aaah? E… eu? Nãonãonãonãonão…. sem chance! Impossível! Eu? Uma criança? De jeito nenhum!

– Está retrucando seu Pai, Lorena? Acabou de dizer que a mulher corresponderia ao meu sentimento, mas você nega expressar o que sente? Por que você não ? Você fala de si mesma como uma criança, mas reclama constantemente quando te tratam como criança. Deu uma boa olhada em si mesma, Lorena? Há tempos que você deixou de ser uma criança e agora é uma mulher. Como você pode exigir que as pessoas te tratem como adulta se você mesma não se aceita como uma?

Lorena deixa sua mãos caírem ao lado, sem forças, largando o ombro de Saladino, seu rosto inteiro está em ebulição e veríamos fumacinha saírem de seus ouvidos, se isso fosse um filme. Ela está furiosa com ela mesma. Como ela pode responder desse jeito com seu Pai? Como ela pode tocar e agarrar em seu ombro? Por que ela sente seu corpo quente e derretendo como se fosse manteiga no fogo, diante do olhar sereno de seu Pai?

– N… não… eu não ousaria… eu não poderia… o senhor é meu Pai… ohmeuDeus… eu retruquei para o senhor… eu segurei o senhor com força e o sacudi… o que aconteceu comigo?

– Eu gostaria muito de saber, Lorena. Eu sei que é difícil, eu sei que você está com medo. Eu também senti tudo isso e eu sei que só você tem forças para desafiar e superar isso. Tudo o que eu posso fazer é te oferecer meu apoio, minha ajuda e minha amizade. Quando você estiver pronta, eu estarei aqui para ouvir tudo o que seu coração tem a dizer. Não importa o quão terrível e dolorido tenha sido essa experiência, saiba que eu estou ao seu lado, sempre.

Saladino coloca seu braço ao longo dos ombros de Lorena, como sempre estava acostumado a fazer quando alguém está desconsolado, perdido, inseguro. Lorena estava tremendo, mas era possível sentir sua força e seu calor. Aquela flor tinha sido machucada, tinha se curado fisicamente, mas ainda carregava uma cicatriz espiritual. Saladino intui que o trauma foi forte e recorda quando conheceu Lorena, aos cinco anos e como, aos poucos, ela começou a conviver com a comunidade e ali ela se reconstruiu, se reinventou, cresceu e amadureceu. Ela só vai precisar de um tempo para perceber e aceitar que o que conta é o hoje, o passado pertence ao cemitério.

Parlare, parlatore

Suavemente o sol segue em direção do oeste, a neblina londrina misturada com a poluição reflete o lusco-fusco, uma fábrica soa seu sinal ao longe, misturado com o som dos navios que estão atracando no cais. Lorena aprecia a comida servida na comunidade, observando com olhos cheios de amor as crianças correndo enquanto suas mães tentam recolhê-las.

– Você tem uma comunidade e tanto, Lorena.

– Sim… eu tive muita sorte em achá-los…

Uma lágrima percorre o rosto de Lorena e Alice percebe que ali existe uma ferida, uma mágoa. Aconchegando Lorena em seus braços, Alice tenta animá-la.

– Ora, vamos… por que essa tristeza? Seja o que tenha acontecido contigo, é passado, passou. Guardar mágoa ou rancor só vai evitar fechar essa ferida. Olhe em sua volta! Você é uma privilegiada, sabia? Você tem gente que gosta de você. Está na sua cara que você os ama. Isso é mais do que muita gente tem.

– Eu sei disso… snif… eu sempre penso neles quando eu fico triste. Eu peço a Deus que me ajude a perdoar, a esquecer, a superar. Mas as memórias voltam e a dor também, quando alguém me trata mal.

– Oooqueeeii… eu não sou de falar isso com qualquer uma… mas você é especial, Lorena, então eu vou te contar um segredo… eu sofri muito em minha infância, quando eu ainda era humana. Mas eu enfrentaria tudo de novo, porque valeu a pena, pois eu fiquei junto com o senhor Carrol.

– Snif… pode me contar mais sobre sua infância? Como você conheceu o senhor Carrol?

– Tudo bem… se isso te animar. Eu vou contar minhas memórias. Isso você não vai encontrar em nenhum livro. Eu nasci bem no reinado da Rainha Vitória, a Revolução Industrial estava avançando rapidamente e o Reino Unido havia sido promulgado pelo Parlamento Britânico através do Ato de União em 1800. Nós, britânicos, podíamos orgulhosamente afirmar que o sol não se punha nas Terras da Rainha. Eu nasci em Oxford, filha de Henry e Lorina Hanna Liddell, uma dentre nove filhos. Meu pai era professor e reitor da Westminster e da Christ Church. Foi ele quem contratou seu amigo de colégio, Charles Dogdson e praticamente foi ele quem nos apresentou. Nós nos tornamos amigos no primeiro dia. Charles amava matemática, ele era filho e neto de sacerdotes cristãos anglicanos. Ele também amava tecnologia e foi um estardalhaço quando ele chegou para nos visitar com uma câmera fotográfica. Na época, apenas pessoas ricas ou influentes tinham essa maquininha. Meu pai e Charles gastaram todas as chapas, foram várias fotos, mas foram as que eu tirei que chamou a atenção. Não que eu fui forçada, foi tudo uma enorme brincadeira. Lorina gostava de fadas, assim como toda criança gosta de contos de fadas. Nós pedimos para Charles nos fotografar como fadas. Foi um momento de descontração em família, mas… de algum jeito souberam das fotos e aí começaram a falar coisas horríveis de Charles.

– Eu vi suas fotos… elas são bem… sugestivas.

– Sugestivas para as mentes pervertidas. O engraçado é que são as pessoas que não admitem ver nelas mesmas suas pulsões e libidos, então tendem a expurgar acusando outra pessoa por aquilo que gostariam de fazer. Uma foto, uma imagem, um desenho, é nada mais do que isso. Um corpo exposto, um corpo nu, deveria ser visto como algo normal, natural, sagrado e divino.

– Mas isso… é demais… as pessoas vão sempre ver o corpo nu como pornografia.

– Bah! Eu vivi na Era Vitoriana, então eu sei muito bem o que a “cultura ocidental civilizada” pensa sobre o corpo, o desejo e o prazer. Eu vivi esse movimento romântico, na arte, na literatura e na sociedade. Idealizaram romanticamente a criança e o adolescente como seres angelicais, puros, inocentes, ingênuo e assexuados. Eu era uma senhora quando Freud colocou nosso pensamento puritano de cabeça para baixo. Mas ainda precisou mais cinquenta anos para que Alex Kinsey provasse aquilo que é óbvio: todo ser vivo nasce com uma sexualidade. Mas a dita “civilização ocidental culta” prefere continuar a existir cheia de recalques. O mais engraçado é que essa mesma sociedade tolera não apenas a pornografia, mas também a prostituição, nós somos bombardeados diariamente com publicidade recheada de sexismo e fetichismo, então porque ainda mantemos esses mesmos pruridos? Nós devíamos olhar de frente e tentar entender nossa libido e nossas pulsões.

– Desculpe, Alice, mas as pessoas não estão preparadas para isso…

– Isso é só uma questão de tempo. Muitas coisas consideradas “normais” e “tradicionais” foram abandonadas. Falam tanto em “família tradicional” ou de “casamento tradicional”, como se a história da Europa não fosse comum, até a Era Moderna, diversas formas de relacionamento e até de casamentos entre pessoas com diferença etária. Reis, imperadores, rainhas, imperatrizes, até padres, bispos e papas tiveram diversos tipos de relacionamentos, inclusive incesto!

– Ai, Alice… você pode até estar certa, falando da História, coisa e tal… mas sei lá… eu ainda acho errado.

– Ah! Eu achei vocês! Desculpem-me, beldades, mas o pessoal costuma me segurar, mesmo depois de acabar a reunião. Sempre tem alguém com algum problema que aparentemente precisa de minha intervenção. Então, Alice, o que achou de nossa comunidade?

– Boa noite, “Pai Saladino”. Eu achei sua comunidade ótima. Eles te procuram porque sabem que o senhor é confiável. Eu só espero que eu não crie ciúmes, pelo senhor vir nos dar atenção.

– Não tem problema. Afinal, eu tenho que relaxar também. Gostaram do ragu? Eu achei um pouco picante demais.

– Ah! Então isso se chama ragu? Eu achei delicioso.

– Eu fico feliz em ouvir isso. Venha sempre que quiser, Alice. Ah, sim, mais uma vez, parabéns pelo seu trabalho, Lorena.

– A… ah? Aaah…. o… obrigada, Pai Saladino.

– Obrigado pela atenção de vocês, meninas. A beleza de vocês são um bálsamo para mim. Boa noite.

Saladino sai da praça onde a comunidade faz a refeição comunitária, os homens recolhem as mesas, as mulheres recolhem as louças, mas Lorena está cabisbaixa, contrida, envergonhada, com o rosto parecendo uma rosa.

– Hmmmm… você hem, Lorena? Com esse jeito de mulher recatada… deixa transparecer muito facilmente que você sente atração pelo seu “Pai”…

– A… aah… ah? Ah! Nãonãonãonão! Nada disso! Não é nada disso que você pensa! Eu? Jamais! Sem chance! Nem pensar!

– Oquei, oquei, calma, respire fundo. Sabe isso que você sente por Saladino? Foi o que eu senti por Charles, pelo senhor Carrol. Então eu sei pelo que você está passando. Eu senti essa mesma pressão, esse mesmo medo. Eu compreendi mais ainda depois que eu falei com Aisha. Eu espero que você aceite e entenda isso, Lorena. Por mais que você negue e fuja, você é um botão de flor, crescendo, amadurecendo, pronto para desabrochar. Pense bem, Lorena… que tipo de futuro você quer para sua vida adulta. Quer ser mais uma adolescente que vai entrar na vida adulta com qualquer um, ou quer que seja com alguém especial, com alguém que você goste?

– Isso… isso é… indecente! Eu? Eu sou jovem demais! E o Pai Saladino… ele está… ele é…

– Velho? Inatingível? Agora me diga de novo, como é ser discriminada por causa de sua idade. Ele é mais humano do que muito padre que eu conheci. Vamos, garota! Acredite em você mesma! Ou você acha que ele veio conversar conosco por minha causa? Bom, até pode ser, afinal, eu sou linda. Mas você é linda. O que te impede é apenas essa timidez. Vamos, não é difícil. Não pense em coisa alguma. Converse com ele, como você conversa com qualquer um.

– Isso… é inapropriado… por acaso você falou com o senhor Carrol? Por acaso aconteceu algo mais entre vocês do que uma amizade?

– Ah… isso você só vai saber se você falar com Saladino. Eu vou contar tudinho. Até as partes mais censuradas. Mas só depois que você falar com Saladino. Acredite em mim, eu saberei se vocês conversaram. Eu te garanto isso: se você guardar esse sentimento, você vai se arrepender pelo resto de sua vida.

O pássaro do alvorecer

Lorena ainda está sonolenta quando um pássaro azul resolve cantarolar na sua janela. Não é algo normal, mas alguns pássaros conseguem sobreviver aos subúrbios londrinos. Lorena joga uma meia velha, espantando o pássaro azul.

– Nossa, um pássaro azul do alvorecer! Não é todo dia que se vê um.

Lorena nota um vulto ao seu lado, uma figura feminina, vestindo apenas uma camiseta e segurando uma xícara. Ela fica inteiramente ruborizada, envolve-se por inteiro em um cobertor e pega um guarda-chuva para servir de escudo e arma.

– Que… que… quem é você? O que faz aqui? Como você entrou?

– Ai meus Deuses… você é sempre lesada assim quando acorda? Esqueceu foi? Nós nos conhecemos no primeiro dia da Exposição Lewis Carrol, no Museu de Londres. Eu sou Alice Liddell, a musa inspiradora do senhor Carrol. Você meio que concordou em que eu passasse alguns dias morando com você.

– A… ah… senhorita Liddell… perdoe-me…

– Só Alice, por favor. Quer café, Lorena? Eu tomei a liberdade de preparar duas xícaras com esse pó de café colombiano. Não é engraçado como nós somos esquisitos? Nós reclamamos que estamos sendo “invadidos” por estrangeiros, mas não temos problema algum em consumir produtos importados.

– O… obrigada… Alice… ah! Que horas são?

– Hmmmm… o relógio na estação de trem marca meio-dia.

– A… ah! Eu estou atrasada! Muito atrasada!

– Mas que pressa é essa, Lorena? Você não está de folga? O museu só retomará suas atividades na próxima semana.

– Quem me dera o museu fosse meu único compromisso. Eu estou atrasada com minhas orações matinais. Eu estou atrasada para o culto na mesquita. Eu estou atrasada em meus serviços com a comunidade. Eu estou atrasada com meu Pai Saladino.

– Puxa, você é bem dedicada! Na minha época, nós apenas falávamos dos Protestantes, como se fossem outra raça. Eu e meus irmãos ficávamos olhando as pessoas nas ruas, tentando adivinhar, quem seria católico, quem seria protestante. Ah, quantas bobagens nós fazíamos! Mas eis-me aqui, diante de uma britânica muçulmana!

– Alice, me perdoe, mas eu estou super atrasada. Eu não vou poder apreciar seu café. Desculpe me vestir e sair correndo, mas eu tenho que ir.

– Ah, isso é que não. Eu vou com você. Eu tenho que saber de sua vida, se eu vou expor a minha vida para você.

– Mas Alice… não tem problema? Você, uma celebridade… em uma mesquita?

– Bom, sempre tem os haters… apareceram vários depois de minha entrevista com Aisha, mas eu simplesmente os ignoro. Eu só tenho que colocar um lenço na cabeça… bastante conveniente não é mesmo?

– Hã… sim… conveniente. Mas a comunidade não te conhece. Então deixe que eu te apresente.

– Tudo bem, “patroa”, você é quem manda.

Lorena se veste de forma pudica, reservada, roupas discretas que combinam com o clima londrino. Ela não consegue achar um hijab limpo, mas Alice se adianta e envolve sua cabeça em uma echarpe francesa. Muito colorida, mas serve como hijab. Lorena segue pelas ruas a passos largos, sendo seguida de perto por Alice. Nas quadras que antecedem ao bairro muçulmano, Lorena avista algumas amigas suas.

– Umala! Shantia! Desculpem o atraso! A comunidade começou a reunião?

– Lorena! Que bom! Nós estávamos começando a ficar preocupadas com você! Estão todos esperando por você… quem é essa mulher?

– Pessoal, essa é Alice…

– Quêêêê? Você? A Alice do programa “Alice Pergunta”?

– Sou eu mesma. Muito prazer em conhecê-las.

– Nossa! O prazer é nosso! A comunidade vai enlouquecer assim que souber de sua visita. Nós todos ficamos muito gratas com a sua entrevista com Aisha.

– Eu fico muito feliz que tenham gostado.

– Gostado? Nós ficamos mais fãns ainda! Ai, quem diria! Eu falando com Alice! Que conheceu e conversou com Aisha!

– Geeente, desculpe interromper, mas a comunidade nos espera, certo?

– Ai… a Lorena… sempre acaba com a nossa alegria…

– Mas eu estou aos cuidados dela, então sejam gentis com ela, oquei? Além do que nós podemos nos divertir juntas nessa reunião.

– Sim! Sim! Nós vamos te apresentar ao Iman Saladino!

– Apresentar quem, meninas?

– Ah! Oh! Santo homem! Perdoe-nos por fofocarmos…

– Nossa comida não seria tão boa se não fofocassem, meninas. Mas diga-me, quem vocês querem me apresentar?

– Ahem… a preferência é minha… eu estou na responsabilidade, lembram? Pai Saladino, eu gostaria de te apresentar Alice.

– Oh! A apresentadora do programa “Alice Pergunta”? Nós estamos muito honrados e lisonjeados com sua visita.

– Pai Saladino? Até o senhor a conhece?

– Mas é claro, Lorena. Eu não seria um bom líder espiritual se não me mantivesse atualizado. Essa concepção de que sacerdócio é coisa de gente fechada e intransigente é completamente errada. E parabéns, Alice, por essa bela echarpe. Francesa, certo?

Alice balança a cabeça e conversa com Saladino como se fossem amigos de infância. As amigas de Lorena pegam carona nesse ambiente e retomam a fofocar. Todos entram na mesquita, lotada, onde homens e mulheres aguardam a chegada de Lorena e o início do culto.

– Nossa, quanta gente! Nem no tempo em que eu frequentava a igreja eu tinha visto tanta gente assim!

– Hoje o pessoal veio para nossa reunião mensal antes da lua cheia. Nós conversamos, discutimos e resolvemos problemas que a comunidade tenha. Depois o Pai Saladino conduz o culto, recitando o Corão.

– Hah… eu me sinto velho cada vez que você me chama de pai. Fique à vontade, Alice. Não deixe que minha pequena Lorena faça você ter ideias erradas sobre nós.

– Não tem problema, “Pai Saladino”. A Lorena tem esse jeito que a faz parecer mais velha do que o senhor, mas é uma boa pessoa.

– Agh. Velho. Eu me sinto extremamente velho. Mas não há coisa alguma que eu possa fazer. Eu me sinto honrado se a senhorita me considerar como seu “pai”. Se as beldades me permitem, eu tenho que iniciar a reunião.

Saladino se posiciona no palanque do auditório, acena e pede, como se sussurrasse, pela atenção de todos, que prontamente é atendido. Saladino tem ao seu lado duas pessoas que anotam tudo e ajudam a organizar a reunião. Saladino toma seu lugar no auditório e começa a reunião dando boas vindas para Alice e elogiando Lorena pelo trabalho feito no dia anterior. Muitos aplausos e elogios vindos da comunidade. Organizadamente, as pessoas vão tomando seus lugares na reunião e vão deliberando, propondo, opinando. Problemas surgem assim como soluções. Tudo é discutido e resolvido em comunidade.

– Mais algum assunto? Mais alguma pendência? Nesse caso, permitam-me encerrar essa reunião com uma oração a Deus, recitando o Corão.

Lorena sente seu rosto quente quando ela vê Saladino dirigir um sorriso em sua direção. Alice está peculiarmente silenciosa e sorridente, enquanto Saladino recita o Corão. Lorena está surpresa, mas sente que Alice está sentindo o mesmo que ela. Essa presença marcante e gloriosa de algo ou alguém maior e mais amplo do que todo o universo.

Os últimos não serão os primeiros

Foram três transmissões ao vivo pela BBC e mesmo assim, aquela Exposição Lewis Carrol teve um recorde de público, digno de ser registrado no Guiness. O Museu de Londres conseguiu fechar suas portas apenas à meia-noite, mas mesmo assim ainda tinham visitantes perambulando pelos corredores até às duas da manhã e Lorena os caçava para, gentilmente, solicitar que voltassem outro dia.

– Boa noite! Voltem na próxima semana! Nós abriremos às nove da manhã, pontualmente!

– Ah, esses últimos sempre dão trabalho.

Lorena volta-se e se depara com uma garota, aproximadamente da mesma idade que a dela, cabelos entre o dourado e o cobre, com olhos de um azul profundo.

– Lamento informar, senhorita, mas o museu fechou suas portas. Eu devo pedir que volte para sua casa e retorne na semana que vem.

– Isso será um problema, porque a minha casa é aqui…

Lorena olhou desconcertada para a garota desconhecida. Suas roupas são bem comuns, mas não é um uniforme de um funcionário do museu, ou da empresa de vigilância. Seria alguém da produção da BBC que se perdeu da equipe?

– Você não está me reconhecendo, certo?

– Não… senhorita…

– Alice. Alice Liddell. Você deve ter me visto milhares de vezes no programa “Alice Pergunta”.

Lorena sente as pernas tremendo. Ela estaria vendo um fantasma? Ou estaria delirando de cansaço, depois de tantas horas falando de seu assunto e estudo favorito? Um beliscão a faz voltar a si.

– Sentiu? Então eu não sou fantasma. Bom, tecnicamente eu sequer sou humana, mas eu sou bem viva e encarnada como você.

– A… A… Alice?

– Sim, Alice Liddell, do programa “Alice Pergunta”. Você deve ter me visto pelo menos uma vez, certo? Ou você é uma dessas ratas de biblioteca?

– Senhorita Liddell, eu a conheço mais pelo meu estudo sobre o senhor Carrol. Eu acho que eu vi seu programa, mas não atinei o nome com a pessoa.

– Apenas Alice. E não se preocupe. A maioria não atina o nome à pessoa. Meu programa é um sucesso por que eu tenho essa aparência juvenil e inocente.

– Mas… Alice… como? Isso é impossível! Você morreu em 1934 e nós estamos em 2016!

– Como isso é possível? Você, que trabalha em um museu, me pergunta como uma existência permanece além de seu tempo de existência? Basta você abrir um livro… Lorena, certo? Abra um livro e leia. Você entrará em um universo onde você é capaz de ver, ouvir, falar e conhecer o próprio rei Leônidas. Que é uma gracinha, diga-se de passagem e Gerard Butler fez jus ao seu espectro, mas tem hora que cansa de ouvi-lo falar da mesma coisa. A tal da Batalha da Termópilas.

– Mas uma coisa é desenhar uma imagem na mente ou ver um ator interpretando um personagem… mas você… é bem real! Isso… é impossível!

– Ah… o que eu posso falar…. eu vivi por muitos anos na mente das pessoas e ganhava vida sempre que abriam os livros com as minhas estórias. Eu acho que foi na ocasião do centenário do livro “Alice no País das Maravilhas” que um estúdio americano decidiu fazer um filme de animação sobre mim. O estúdio fez tanto sucesso que abriram diversos parques pelo mundo. Dizem até que eu fui o resultado de uma missa negra em um templo satânico escondido nos subterrâneos de um desses parques. Eu não sei muito bem como e porque eu encarnei, mas quando eu dei por mim eu estava em Hollywood.

– Mas… você vive aqui em Londres e seu programa é transmitido para o mundo inteiro de uma emissora em Liverpool…

– Ah, sim… eu decidi voltar para minhas origens. Eu tive que sair da terra dos casacas azuis. Minha vida como personagem daquele estúdio de animação estava indo bem até que um russo… um tal de Vladmir Nabokov… lançou um livro chamado “Lolita”. Foi na década de 50 ou sessenta? Não importa. O problema é que causou um furor, principalmente depois que o autor afirmou que tinha escrito seu livro inspirado em mim!

– Bom… é isso o que críticos e especialistas em literatura dizem. Eu até li esse livro como parte de meus estudos. Invariavelmente, o público acaba me fazendo a mesma pergunta…

– “Ele tinha ou não algum relacionamento amoroso com Alice?” sim, eu sei. Eu passei boa parte de minha adolescência e maturidade tentando esclarecer e desfazer esse mal-entendido, isso é, quando eu ainda era viva em um corpo humano.

– Então… qual era a natureza do relacionamento de vocês?

– Pelos Deuses! Até você quer saber! Até quando o ser humano vai ficar preso a esses falsos conceitos e limites etários? Nós estamos mesmo no século XXI?

– Por favor, senhorita Liddelll… eu não cheguei a conclusão alguma e os registros não são muito esclarecedores… eu tenho… digamos assim… um interesse pessoal em resolver essa questão.

– Hmmmm… agora que eu me dei conta que nós aparentamos ter a mesma idade… seja sincera, Lorena… quantos anos você tem?

– Eu? Hã… dezessete…

– Eu estou eternizada nessa aparência de uma garota de quatorze anos, embora eu tenha, tecnicamente falando, cento e sessenta e quatro anos. Consegue imaginar como é ter que viver sendo desprezada e desmerecida, unicamente por que a sociedade me vê como uma adolescente, incapaz, incompetente, imatura?

– Hã… sim… na verdade eu tenho sim.

– E você acha que se descobrir algo sobre a minha vida e relacionamento com o senhor Carrol irá facilitar as coisas em sua vida? Boa sorte com isso, irmã. Eu vivi muitos anos e pude ver como a humanidade é lenta para certos assuntos.

– Mesmo que eu vire pó… mesmo que demore milênios… eu tenho que saber. Da mesma forma como você viveu sua vida atormentada por essas dúvidas, eu tenho vivido assim, porque as pessoas só me perguntam se é verdade que o Profeta casou-se com Aisha quando ela tinha nove anos!

– Ah! Isso explica o porque que Aisha me pediu para vir te ver…

– A… Aisha? Você conheceu e falou com Aisha?

– Mas é claro! Eu a entrevistei no meu programa mais recente, você deveria assistir.

– Eeueueueueueueu… eu gostaria de ver e falar com Aisha….

– Você e milhões de muçulmanos… mas vamos ver… se você for boazinha e cuidar bem de mim… quem sabe?

– E…eeeh? Eu? Cuidar de você? Como assim?

– Ordem de cima… querem acabar de uma vez com todas com essa neurose e paranoia. O ser humano não foi gerado pelos Deuses para ter medo, vergonha ou nojo de seu corpo, de sua natureza, de sua sexualidade. Eu irei morar com você até acabar essa Exposição Lewis Carrol e eu espero que nós possamos resolver esse assunto de uma vez por todas.

Exposição em Londres

A BBC teve a ideia de fazer uma exposição em pleno Museu de Londres para comemorar os clássicos da literatura inglesa, um tema ou um autor por semana. Conforme a atração oferecia ao seu público um pouco sobre a época, os costumes e a sociedade de cada autor, não houve muito interesse do público até que anunciaram o início da exposição em homenagem à Lewis Carrol. Os ingressos esgotaram uma semana antes do museu abrir suas portas e não faltaram cambistas vendendo ingressos fajutos a preços altíssimos.

O público britânico, tão gentil, tão educado, tão refinado, estava prestes a virar um público latino-americano, para o horror das autoridades. Para evitar o pior, a BBC resolveu transmitir a exposição ao vivo em horários alternados para todos os cidadãos do Reino Unido. A curadora do museu, preocupada com a imagem do Museu de Londres e com a sua carreira, achou por bem insistir com os produtores da BBC que sua guia oficial é quem devia apresentar a exposição para os telespectadores.

– Lorena, você é estudiosa de Literatura Inglesa e especializada na vida e obra de Lewis Carrol. Eu quero que você seja tanto a guia dessa exposição como a apresentadora desse programa que a BBC vai transmitir.

– Puxa vida, diretora… eu fico lisonjeada… mas por incrível que pareça, eu não gosto de me expor a um público tão grande. A senhora sabe… eu venho de uma família que tem laços com o senhor Carrol, as pessoas nunca o entenderam e podem fazer perguntas embaraçosas.

– Ânimo, mulher! Nós estamos no século XXI! Nem mesmo nós, britânicos, temos mais aquele prurido e vergonha das coisas, como tínhamos na Era Vitoriana.

– Mas… diretora…

– Sem desculpas. Ou faz, ou rua.

Lorena abaixa os olhos, aperta as mãos e comprime os lábios. Ela precisa do emprego, especialmente agora, que a Europa tem reacendido o Fascismo da década de 30, do século XX. Depois que o Reino Unido se “divorciou” da União Europeia, Lorena tem que andar com um calhamaço de documentos em mãos, para provar que ela é cidadã britânica, pelo menos pelo lado de seu bisavô. Mas nem sempre é tão fácil assim, diversas vezes ela era parada por policiais na rua, simplesmente por parecer estrangeira ou simplesmente por ser muçulmana. Lorena tinha orgulho de suas origens, multiétnicas, cosmopolitas, ela era, literalmente, uma filha da Globalização, mas isso só funciona com coisas, não com pessoas.

– T…tudo bem… eu faço. Mas eu quero intervalos regulares para as minhas orações diárias.

– Boa menina! Ela é toda de vocês, equipe de programação.

As equipes de cabeleireiros, maquiadores, estilistas e técnicos invadem o pequeno espaço dos funcionários do museu para preparar Lorena. Uma coisa é apresentar uma exposição para algumas dezenas de pessoas, outra coisa é fazer a mesma apresentação para milhares de pessoas. As emissoras de televisão criaram, ao mesmo tempo em que cresciam, sua própria linguagem e estética. Lorena teria que ficar mais “adequada” para o “gosto do público”.

– Ai que horror, menina! Você tem uma pele tão… cor de cáqui! Isso é quase o mesmo que ser parda… você vem de onde mesmo, querida?

– Eu sou de Cheshire… a mesma região de onde nasceu o senhor Carrol…

– Ah! Desculpe querida, mas… você tem uma aparência tão…

– Estrangeira? Sim, eu sou extravagante, única, original. Você se acha muito britânica, não é? Por acaso conhece seus antepassados, seus ancestrais?

– Ai credo… mal começou a aparecer na televisão e está dando piti… querida, eu não dou a mínima nem de onde vem a comida… mas isso é televisão… o “público” pode estranhar sua aparência, só isso.

– Desculpe se eu não sou loira, burra e um mero objeto sexual…

– Ah! Agora, quem está sendo preconceituosa? Bom, querida, eu vou passar só uma base levinha, assim você fica com uma pele mais puxada para o café com leite.

– Hei, agora não é hora de ficar de DR. Eu ainda tenho que fazer o cabelo dela.

– E eu tenho que medir ela para tentar achar um vestido que emoldure tudo.

Como se estivesse em um pesadelo, Lorena assiste impotente ao que estes monstros fazem com ela, transformando-a em outra pessoa, outra coisa que não era ela mais. Lorena fecha os olhos e pede a Deus que isso acabe rapidamente, que ela não sinta dor ou sofrimento. A assistente de direção de programação lhe dá alguns tapinhas no ombro, como que para despertá-la.

– Acorda, Bela Adormecida, que aqui não tem Príncipe Encantado, mas tem Espelho Mágico.

Lorena abre os olhos vagarosamente, com receio do que estava para ver, mas depois arregala os olhos. Sim, estava magnífico. Nada vulgar e apelativo, como ela achava que seria. Seu rosto tem uma maquiagem leve e sua pele a faz lembrar-se de sua avó. Seu cabelo nunca esteve tão maravilhoso assim, nem mesmo em sua festa de formatura. O vestido dela era muito parecido com um que ela vivia paquerando na vitrine da loja. De alguma forma, a equipe de produção manteve e ressaltou sua beleza única e especial.

– Gostou, não é mesmo? Olha, a televisão não é esse monstro que dizem ser. Infelizmente empresas e agencias de propaganda ainda nos fazem de meros objetos sexuais, assim como existem programas e filmes que perpetuam o machismo e o sexismo, mas isso felizmente está acabando. Essas coisas são antiquadas e obsoletas. Ânimo, irmã, o Feminismo venceu.

Lorena sorriu e se deu um soquinho na cabeça, como se fosse uma menina que acabara de ser pega fazendo traquinagens. Afinal, nós vemos com bastante facilidade o preconceito nos outros porque não enxergamos o nosso próprio. Ela percebeu o quanto estava sendo teimosa e intolerante, exigindo que respeitassem sua origem, enquanto ela mesma não tinha, até então, notado que a assistente de direção de produção exibia, orgulhosamente, seus traços asiáticos. O Neoliberalismo que regra a política econômica mundial arrastou a humanidade para um consumismo desenfreado e fútil, promoveu a Globalização, incentivou o Multiculturalismo e agora isso está engolindo seu Criador.

– Obrigada, pessoal… obrigada, senhora…

– Senhorita Leclerck. Eu sou franco-asiática. Aliás, se eu fosse dizer as inúmeras misturas que temos aqui, nós ficaríamos a tarde toda. Sim, nós somos todos mestiços. Desde o Neolítico. Então mantenha esse orgulho que você tem de suas raízes e origens. Sinta apenas pena de quem nutre alguma ilusão de pertencer a alguma estirpe.

– Poxa gente… obrigada mesmo… eu sei que eu fui chata…

– Iiiihhh… não chora não que deu um trabalhão para te deixar mais gata do que você é. Vai lá, irmã e arrasa.

Os técnicos se posicionam ao mesmo tempo em que os porteiros preparam para abrir as portas do museu aos primeiros visitantes. A assistente de direção de produção indica com os dedos dez minutos. Lorena respira fundo, pega seu smartphone e liga para seu iman.

– Salam Maleicum. Bom dia, Lorena.

– Maleicum salam. Bom dia, Iman Saladino.

– Aconteceu algo, meu anjo? Você parece estar nervosa, ansiosa. Tem algo de errado em sua apresentação que vai ser transmitida em breve?

– Oh, meu Pai Saladino! O senhor sabe de tudo! Deus deve ter te revelado!

– Ah, minha pequena Lorena, Deus está contigo também. Eu estaria sendo muito prepotente e arrogante se eu me colocasse em uma posição privilegiada diante de Deus. Eu soube pela comunidade, Lorena. Nós estamos todos torcendo por você. Que Deus te abençoe.

– Obrigada, meu Pai Saladino. Eu só espero não criar escândalo na comunidade por aparecer, pelas roupas que eu estarei vestindo…

– Acalme seu coração, Lorena. Somente Deus pode julgar. Ele te julgará pelo que está em seu coração, não por aquilo que você veste ou faz. Fique em paz e deixe que Deus faça de você um instrumento.

A assistente de direção de programação agita três dedos. Lorena segura o choro e consegue acalmar seu nervosismo. A comunidade está do lado dela. O santo homem está do seu lado. No tempo que lhe resta, Lorena entoa mentalmente uma prece para Aisha, a Mãe dos Crentes, para que ela tenha tanta força e coragem como ela. Enquanto a contagem regressiva passa no teleprompter, Lorena sente um caloroso abraço a envolvendo. Uma voz macia, feminina e vibrante sussurra em seu ouvido.

– Você me chamou, irmã, eu vim. Nada tema. Nós estamos contigo.

Eu busco as palavras, mas elas me escapam. Como descrever essa sensação, de pertencimento, de aceitação, de acolhimento? Poucas coisas nesse mundo podem ser tão boas assim, essa sensação de ser querido e amado. Sem isso, nós seríamos muito pobres, solitários, infelizes e melancólicos.

– Sejam bem-vindos todos à exposição da vida e da obra do escritor Lewis Carrol, o nome de pena de Charles Lutwidge Dodgson. Eu sou Lorena Latifa e eu serei sua guia. Esta é uma transmissão da BBC, patrocinada pelo Ministério da Cultura.

Neon Genesis – XIII

Doutora Ritsuko me chutou para fora da maca, do hospital, assim que eu recuperei minhas forças. Deja vu. Com a delicadeza que lhe é peculiar, jogou o uniforme de escola, dando a entender que eu devia seguir com esse teatro de fantoches conduzido por Gendo Ikari. Sensei Mako me recebeu como se fosse outro dia qualquer e eu sentei junto de Toji e Kensuke. Rei e Shinji continuavam parecendo um casal. Para variar, Asuka mandava bilhetinhos para mim com coisas escritas que parecem ter sido tiradas desses livros que surgiram com o sucesso “50 Tons de Cinza”.

Alguém bate na porta, sensei Mako atende, lê o bilhete. Parece uma reprise.

– Meninos e meninas! Atenção! Por favor, vamos dar as boas vindas a mais um aluno. Todos em pé, por favor. Por gentileza entre rapaz e apresente-se.

Entra um garoto, fisicamente parecido com Shinji, mas suas expressões são muito parecidas com as da Rei. Tem algo nele que me deixa nervoso.

– Saudações para todos! Eu sou Kaworu Nagisa. Eu espero que possamos nos dar todos bem.

Dessa vez quem vai ao delírio são as garotas da classe. Gritinhos, olhos brilhantes, bocas babando. Mas Kaworu não olha nenhuma das garotas e senta-se bem ao lado de Shinji.

– Shinji senpai… por favor… cuide de mim.

– Eh? Ah! Olá… Nagisa kun.

Rei se levanta, visivelmente irritada e sai correndo da sala. Shinji tenta acompanha-la, mas Kaworu o impede com palavras doces e carinhosas.

– Shinji senpai… não conspurque sua pureza com essa criatura. Eu vim de longe, muito longe, apenas para dar o amor que meu senpai merece.

Kensuke começa a tirar sarro enquanto Toji encara Kaworu.

– Que papo é esse? Vai sentar no meio das meninas. Aqui só senta homem.

– Suzuhara senpai… o que é homem? O que é mulher? Não somos tod@s, fih@s de ambos, macho e fêmea? Então somos todos hermafroditas…

– Não vem não, seu pervertido, pederasta! Eu sou muito macho e eu gosto é de pepeca, ouviu?

– Isso é o que você diz com seus lábios, mas não com seus olhos e coração, Suzuhara senpai.

– Quem diria, hem, Shinji? Cortando nas duas hem? Quando que você ia nos apresentar seu namorado?

– Ke… Kensuke! Pare com bobagens! Nagisa kun está apenas brincando, ele está apenas sendo gentil!

– Eu estou, Shinji senpai? Então porque você está todo corado, como uma colegial apaixonada?

Shinji estava em seu pior pesadelo. Ele era o centro das atenções. Eu pedi licença para sensei Mako e fui atrás de Rei. Eu tinha a impressão de que ela devia saber algo de Kaworu que a fez fugir. As vidraças da escola estremeceram quando soou o sinal de ataque de anjo. O indefectível helicóptero da NERV aparece para nos levar a todos, menos Rei, que foi na frente.

O Geofront tinha sido invadido por este anjo. Certamente deve ser o mais forte e esta pode ser a ultima batalha. A unidade zero não está sendo pilotada pela Rei, foi colocada para operar com um simulacro. Rei não é achada em lugar algum.

– Há! Quem precisa da Miss Simpatia! Eu vou acabar com esse anjo! Vocês verão que eu sou a melhor piloto!

Asuka de dentro de seu EVA pula para frente do anjo e atira com tudo que meu rifle tem, usa as facas progressivas, mas sem efeito, o campo ATF é forte demais. O EVA de Asuka é facilmente derrubado pelo anjo que avança para dentro do Geofront, em direção do Dogma Central, onde estão escondidos os segredos mais preciosos de Gendo.

– Shinji! Agora não é hora de brincar! Você deve despertar seu verdadeiro potencial! Assuma a forma de seu verdadeiro Eu!

A voz no intercomunicador zune uma mescla das vozes de Gendo e Misato, junto com a microfonia. Shinji treme todo e tenta, como eu, encontrar Rei desesperadamente. Então eu vi… debaixo daquela capa e elmo que o anjo tinha… era Rei. Não a Rei que nós havíamos conhecido, mas a sua forma verdadeira. Rei era a reencarnação da criatura que foi chamada de Lilith.

– Durak! Se realmente ama Rei, se realmente quer que vocês tenham algum futuro, você deve despertar o Deus da Floresta e deter a Rei!

Este era o desejo da Deusa? Este é meu destino? Enfrentar, matar meu amor ou morre por sua mão? O ser humano reclama de sua vida, de suas dores, de seus sofrimentos, acusando o divino, mas fomos nós quem voltamos a nossas costas ao que é sagrado. Nós, no alto de nossa arrogância, prepotência e petulância queremos julgar aos Deuses. Mas nossas dores, nossos sofrimentos, não os naturais, que toda criatura viva está sujeita, mas os artificiais, são causados por nós mesmos.

Outro alarme soa. Invadiram o Dogma Central. O Geofront está para ser evaporado, com todo seu comando, pelo anjo que eu conhecia por Rei. Mas se o Dogma Central for aberto e este outro anjo encontrar o embrião de Adama ou o corpo da criatura chamada de Lilith, ocorrerá o Terceiro Impacto e será o fim da humanidade tal como a conhecemos.

– Durak kun! Segure a Rei! Eu vou segurar Kaworu!

A voz de Shinji está clara como cristal. Ele está bem mais decidido e resolvido do que o costume. De alguma forma ele sabia também que ali era Rei e quem estava no Dogma Central era Kaworu. Se Rei era um clone de anjo, o que impede que Kaworu seja um anjo na forma humana? Nós simplesmente sabíamos. Porque nós tínhamos arrancado os véus da ignorância que encasula a existência carnal.

– Roger! Eu seguro a Rei. Por favor, veja se Asuka está bem!

Shinji segue em direção ao Dogma central enquanto eu consigo, por vontade própria, despertar o Deus da Floresta. Antes de lutar, eu tento falar com a alma da Rei.

– Rei! Rei chan! Por favor, me escute! Seja lá qual for seu motivo ou objetivo, pare! Nós podemos tentar achar outra solução!

– Ah… Durak kun… eu gostaria muito de estar em seus braços, mas não desse jeito. Rei chan não existe. Esta sou eu… Layla. Eles roubaram de mim Adama… meu amado… pior… tentaram mata-lo… como se não fosse o suficiente, agora fazem cópias dele. Meu Adama não é o monstro de Frankenstein. Eles… os humanos… eles são pior do que um verme, pior do que um vírus… você mesmo vê, Durak, do que o ser humano é capaz de fazer! Matam ao seu próprio povo! Estão matando o único habitat e casa que lhes foi confiado pelos Deuses! Agora querem espalhar essa doença pelo espaço! Há um motivo muito simples para que não se ache sinal de vida por milhares de anos luz daqui! Gaia, esse mundo, foi feito para exilar essa praga! Não há limite para o ser humano! Ele tem um vazio no coração que jamais será preenchido ou satisfeito! Nós temos que eliminar a humanidade! Para o bem maior!

– Eu poderia facilmente concordar com você, Layla. O homem é ganancioso, desonesto, dissimulado… mas eu não acredito que nossa natureza seja assim. Parte de mim é humana… assim como você, Layla. Todas as coisas boas que estão em nós… também é humano. Eu não acredito que Gaia seja uma prisão, mas sim, um laboratório de experiências, onde o ser humano pode depurar, por seu esforço, sua alma, ao ponto de poder evoluir para sua forma verdadeira, como filho e filha dos Deuses. Nós temos que aprender… pela dor que é própria da existência, pelo sofrimento que é próprio de todo ser vivente… que nós temos que ser senhores de nós mesmos. Quando nós cedemos aos nossos impulsos carnais, nós rebaixamos nossa essência… nós temos a ilusão de estarmos livres, mas na verdade nós somos prisioneiros de nossos apetites. Nós temos que ser senhores de nós. Somente controlando, pelo livre arbítrio, nossos apetites, é que seremos realmente livres, pois disciplina é liberdade.

– Durak kun! A… aqui é Shinji… eu… estou triste… muito triste… eu matei… Kaworu… mas… é como se eu tivesse perdido minha alma…

Rei, melhor dizendo, Layla, aproveita a distração, me derruba e foge em direção da superfície, para então subir até a estratosfera, para assimilar o máximo de espíritos humanos desencarnados o suficiente para causar o Terceiro Impacto.

– Tal como eu esperava e planejava… mesmo no final, Rei ainda está consciente no corpo do anjo e está cumprindo minha ultima ordem, que tornará possível concluir o Projeto de Instrumentalidade Humana.

– Pai! Do que você está falando? Se isso continuar…a Rei… o mundo… irá desaparecer!

– Vocês, crianças, precisam entender de uma vez por todas. Eu estou disposto a tudo, tudo mesmo, para concluir meu projeto. Eu abriria mão de minha própria vida, se for necessário… como Cristo mesmo o fez.

– Não! Eu não quero! Eu me recuso! Eu quero que a Rei viva! Eu quero minha irmã de volta! Eu quero me casar com Asuka! Eu quero que este mundo continue a existir!

Shinji e o EVA unidade um fundem-se em um único ser, tomando a forma de seu verdadeiro Eu, para unir-se carnalmente com Rei/Layla, cessando o Terceiro Impacto, ao mesmo tempo em que vertia um liquido rosáceo e dourado. Shinji e Rei, unidos, recriaram o Hermafrodita Primordial, o Demiurgo, que criou Gaia e essa realidade tempo-espacial.

Abençoando o Hiero Gamos, estava Ishtar, que sorria para todos nós. Ishtar vertia suas bênçãos diretamente ao ser humano, sem precisar de templos, textos sagrados, sacerdotes, representantes ou intermediários.

– Isso, meu querido e muito amado, resume tudo: Amor é a Lei.

Neon Genesis – XII

No hangar dos EVAs eu custo crer que tivemos o dia seguinte. Do alto do andaime mecânico, eu observo minhas obras primas. A despeito da falta de tempo, recursos, peças e mão de obra, eu consegui terminar a versão mais avançada dos EVAs. As três unidades estão equiparadas, em todos os termos, combater os anjos ficará mais fácil. Eu soo um sinal para que todos na equipe saibam que encerramos o trabalho do dia. Sim, nós podemos comemorar. Alguns colegas estouram garrafas de saquê no exoesqueleto, para “batizar”, como se faz com navios. Nós nos podemos nos dar férias.

No solo, meus colegas tentam me puxar para as comemorações, mas eu tenho um projeto pessoal em andamento que necessita de minha atenção. Eu vou para minha sala particular dentro dos hangares e, depois de ter certeza de que eu estou só, eu olho os resultados da análise que eu fiz clandestinamente no laboratório da doutora Ritsuko. A análise foi feita apenas com um fio de cabelo de Shinji e, como engenheiro de EVA, eu tinha “amostras” de Eva suficientes para comparar os dados.

Nervoso, eu lia os resultados. Os EVAs tinham três hélices de DNA, mas fora isso, os pacotes de RNA EVA/Humano eram absolutamente iguais. Não era surpreendente nem inesperado, eu tinha uma suspeita, mas até então era apenas uma Teoria de Conspiração, como tantas na internet, que diziam que a Humanidade é resultado de engenharia genética. Nós somos, literalmente, filhos e filhas dos Deuses, dos Annunaki. Isso explicaria como foi possível clonar o anjo que caíra na Antártida e isso pode explicar porque Shinji tem taxas anormalmente altas de sincronização com seu EVA.

– Então você descobriu, Durak? Teria sido melhor continuar na ignorância.

A voz nítida do senhor Ikari em meu escritório foi apenas o começo de algo que eu preferia não lembrar. Os fuzileiros navais da ONU me imobilizaram, enquanto a capitã Misato me algemava.

– Lembra-se do que eu disse, Durak? Tem coisas que eu prefiro manter em segredo e eu estou disposto a qualquer coisa para manter esse segredo. A capitã Misato é uma das poucas que pode saber isto que você descobriu… nem poderia ser diferente, pois ela deve a vida ao que nós fizemos há quatorze anos atrás. Você também, Durak, tem dentro de si a faísca dos Deuses Antigos, mas apenas não a despertou.

– O senhor não vai ficar livre disso, senhor Ikari! Eu vou te denunciar!

– Para quem? Para a ONU? A ONU é praticamente uma secretaria subordinada à NERV. Para a SEELE? Eu duvido muito que te ouçam, se é que você viveria até lá. Mesmo esses soldados que aqui estão, apenas receberam as ordens e estão a executando com tampões no ouvido. Ninguém irá te escutar, Durak.

– Eu… eu vou… meu computador tem arquivos que serão liberados para a internet, para todo o público!

– Por favor, Durak… eu estou há quatorze anos à sua frente. Você acha que a doutora Ritsuko não detectou sua atividade extracurricular? Você acha que o MAGI não está monitorando seu CPU? Eu podia facilmente te esmagar, Durak, mas você ainda me é útil para o Projeto de Instrumentalidade Humana.

– Você… há quatorze anos…

– Ah! Enfim! Eu estava ficando enjoado com essa formalidade. Sim, Durak, há quatorze anos atrás, seu exílio, o exílio de cada futuro piloto de EVA… foi minunciosamente planejado. Eu chego a sentir vontade de rir quando eu lembro de sua ceninha, pedindo desculpas por não ter cuidado da Rei. Eu sabia que Rei não atingiria o potencial dela, se você ficasse ao lado dela… então fui eu quem os separou, Durak. Asuka é filha de uma das doutoras de minha equipe, não foi difícil para eu acompanhar o crescimento e desenvolvimento das habilidades dela, lá na Alemanha. Sabe Toji e Kensuke? São filhos de diretores da SEELE. Mas para o nosso projeto dar certo, os pilotos, melhor dizendo, os alunos, são todos órfãos.

– A… a Rei… o que você fez com ela?

– Mesmo diante de tal perigo e ameaça, você ainda pensa nela? Muito bem, Durak, como você não vai lembrar muita coisa depois do “experimento” que farei com você, eu direi. A Rei que você conheceu não existe mais. Eu autorizei ao Kozo te dizer isso, mas você não entendeu. A verdade, Durak, é que há quatorze anos atrás, Misato e Rei estavam em situação crítica depois do ataque da criatura que eu chamei de Lilith. Misato eu consegui salvar, mas a Rei… eu tive que fazê-lo… a Rei é, na verdade, um clone de anjo, como os EVAs. Esse era, basicamente, o motivo pelo qual não havia “compatibilidade” entre Rei e o EVA unidade zero. Mas você deu um jeito… parabéns.

– E… então… Shinji… Asuka…

– Estes foram mais fáceis. Tanto Shinjo e Asuka possuem dentro deles o mesmo DNA dos EVAs que pilotam. Pode-se dizer que os EVAs são como um segundo corpo para suas almas. Por isso que suas taxas de sincronização são tão absurdas. Agora que os EVAs foram completados e estão em sua forma quase definitiva, eu devo cuidar de você, um detalhe que será crucial para a batalha final.

Nós paramos no nível do solo, na região montanhosa, onde diversos veículos da ONU disparam contra alvos que aparentam ser anjos. Gendo acena para Misato que dispensa os fuzileiros da ONU. Misato retira uma seringa de uma frasqueira térmica e entrega para Gendo.

– Está vendo aquelas criaturas, Durak? Parecem anjos, mas não são, são EVAs, ou melhor dizendo, são as réplicas americanas dos EVAs. O que eu posso falar? Os americanos são neuróticos e paranoicos. Eles não iriam aceitar que o Japão tivesse sozinho a tecnologia dos EVAs, então enviaram suas réplicas para nos destruir e recolher todos os nossos esforços. Eu podia enviar meus EVAs, mas eu vou usar você, Durak…

– E… eu? Mas… o que eu posso fazer?

– Misato, a seringa… veja bem, Durak… eu vou inserir em você o mesmo preparo que eu inseri em Shinji, Asuka e Rei. Você terá o DNA dos anjos e dos EVAs em você. Eu espero que isso desperte o Deus da Floresta que habita dentro de você. Você conseguirá dar conta sozinho dessas réplicas. Mas antes disso… eu vou permitir que Rei e Asuka possam se despedir de você com um beijo.

– Durak kun… boa sorte…

– R…Rei… Rei chan…

– Não olhe assim para mim, Durak kun. Eu não sou a Rei. Eu pareço com a Rei, mas isso que você vê é apenas um vaso.

– Hei, garoto bode, bem que eu pressenti que você tinha um potencial escondido. Se você sobreviver a essa “experiência”, não se esqueça que você me deve um jantar.

– A… Asuka… Asuka chan…

– Rápido, meninas… não temos muito tempo. O preparado está fazendo efeito.

Eu recebo um beijo de Rei e Asuka. Misato sai com elas pela escotilha, sendo seguidas de perto por Gendo. Assim que a escotilha faz o clique mostrando que está selada, meu corpo reage vigorosamente. As cordas e algemas que me prendiam se soltam com o crescimento dos músculos. Em instantes, eu alcanço a altura de um EVA, mas meu corpo está coberto de um pelo escuro e grosso. Garras saem de minhas mãos e presas saem de meu maxilar. De minha cabeça, despontam dois chifres e um fogo fátuo brilha no meio deles. Eu havia me tornado o Deus da Floresta.

As réplicas agem instintivamente e tentam me atacar. Atiram com suas armas, agitam suas facas progressivas, mas coisa alguma consegue me ferir ou cortar aquele pelo espesso. Com facilidade, eu esmago as armas, os braços, as pernas e as cabeças de diversas réplicas. Com minhas garras e presas, eu facilmente retalho diversas outras. Em questão de minutos, meu corpo inteiro está coberto com um fluído semelhante a sangue que saía em profusão das réplicas. O solo treme com meu urro de vitória. Todas as réplicas estavam mortas.

Esta foi a primeira vez em que meu verdadeiro Eu tomou forma. A primeira vez foi dolorida e induzida. Eu creio que eu posso dizer que eu fui estuprado. O que Gendo não explicou é como ele pretendia controlar a Fera, depois de que esta foi solta. O que Gendo não explicou é que eu e Rei tivéramos aquela conexão especial desde o começo porque, enquanto eu era o filho do Deus da Floresta, Rei era a filha da Senhora da Lua. Gendo… tremendo cafajeste… não hesitou em expor a Rei diante de mim em meu estado absoluto, unicamente para que a alma que ela continha dentro de si, me acalmasse. Eu desmaiei com o rosto de Rei próximo de mim com um sorriso apaixonado.

– Durak kun… Ikari sama não pode nos ouvir agora… mas eu não esqueci de você. Por favor, me perdoe por fazer isto com você. Mas acredite, isso é para servir ao propósito que a Deusa nos destinou. Eu te peço, Durak kun… confie em mim. Confie em nossa Deusa, Ishtar. Eu te prometo, quando tudo isso acabar, que eu irei te recompensar adequadamente.

Eu senti aquela mesma sensação que eu havia sentido há quatorze anos atrás. Eu pude reviver as mesmas palavras que eu achava terem sido ilusões e fantasias de criança.

– Então, meu querido, amado e muito desejado? Por acaso hesita? Por acaso rejeita teu destino? Por acaso duvida que eu tenha estado contigo desde o princípio?

– Ah… minha senhora… rainha… Deusa…

– Suas palavras são desnecessárias, Durak. Seu corpo é bem mais eloquente. Sim, eu senti seu calor queimando dentro de mim quando você me devotou seu amor através de minha manifestação como Misato. Mantenha puro seu ideal mais elevado, Durak, que eu te abrirei as Portas da Juventude Eterna e te darei o Cálice da Vida Eterna. Deseja estar eternamente envolto no arrebatamento do êxtase infinito? Continue sendo meu instrumento.