Ciúme na caserna

Um estampido indica a chegada de uma mensagem via radio.

– Pixie Zero Um. Recolher asas. Repito, recolher asas.

– Cambio. Ciente. Movendo para a Colmeia.

Tanya aciona o propulsor de plasma em seu pé, seguido logo atrás por Victória.

– Major, o que faremos com o cativo?

– Minha intuição diz que o senhor Weinberg nos seguirá sem dificuldades, Visha. No momento, temos que nos concentrar em reagrupar e voltar ao acampamento.

– Não me chame assim na frente de estranhos…

– Eh? Disse algo, tenente? Sua voz fica embotada quando você está amuada.

– Na… nada! Nada! Apenas que eu estou avistando os demais membros do 203º.

– Algum sinal de inimigo ou de possíveis retaliações?

– Nenhum sinal. Nem dos Observadores.

– Excelente. Vitória limpa e absoluta. Nossos superiores devem estar satisfeitos.

– Perdoe minha curiosidade, major, mas quem é Seimei?

– Um pobre coitado que teve a infeliz ideia de se meter comigo. Eu terei muito prazer em estourar os miolos dele.

O radar de Victoria aciona sons e luzes, indicando a proximidade de uma patrulha aérea de magos, visíveis a olho nu, mas a direção que tomam é completamente oposta da posição onde elas estão.

– Ufa… não nos viram.

– Nós estávamos no mesmo quadrante, Visha. Eles também têm radares. Eles nos evitaram. Ou perceberam a proximidade de nosso pelotão ou… pressentiram o perigo potencial de nosso cativo.

Tanya e Victoria reagrupam com os outros oficiais do 203º e todos seguem ao acampamento, para a Colméia, para descansarem, comerem, reabastecerem e aguardar as ordens do Comando Central.

Na cafeteria, Tanya enche seu prato com carne, repolho e linguiça. Disfarçadamente pega um caneco de cerveja escura e senta na mesa dos oficiais.

– Ah! Nada como um bom brecht para espantar o cansaço e a dor no corpo.

– Ma… major… eu posso me sentar com a senhora?

– Mas é claro, Visha! Vamos, puxe um banco e sente-se.

– Obrigada, major. Sabe… senhora… eu estou intrigada. Como o cativo sabe mais da senhora do que eu?

– Hum? O que quer saber sobre mim, tenente?

Victoria sua frio enquanto Tanya enxuga o caneco de cerveja. Quando a major a chamava de Visha era bom, mas não era bom quando a tratava de tenente.

– N… não interprete isto como indiscrição da minha parte, mas dentre os membros da 203ª, eu sou a única veterana. Nós nos conhecemos no fronte, quando éramos apenas recrutas da 414ª. Nós somos as únicas mulheres, então eu achei que nós temos que nos conhecer melhor e…

– Tenente! [arroto] Está querendo dizer que está interessada ou apaixonada por mim?

Os cabelos da nuca de Victoria se arrepiam enquanto o som da caneca batendo na madeira da mesa parece soar como um terremoto. Gesticulando os braços e as mãos vigorosamente em todas as direções e suando profusamente, Victoria tenta contornar a situação.

– Na…na…não! imagina! Sem chance! A senhora é o Demônio de Rhine, a Asa de Prata, major da 203ª! Nossos superiores devem estar satisfeitos e orgulhosos de suas vitórias e eu sou uma mera tenente! Hahaha! Bobagem! Sem chance! Eu? Que nada! Nós somos mulheres, o normal é que nós nos interessemos por homens.

– Visha… isso não tem coisa alguma a ver com “normal”. Atração, paixão, amor… nada disso é normal ou racional. Amor é supervalorizado. Amor é um vício e um veneno. Se pretende sobreviver nessa guerra, esqueça essas ilusões românticas.

Outro caneco com cerveja escura surge na mão de Tanya que, rapidamente, esvazia, sem que a major se importe com o visível aborrecimento de Victoria. Apesar de negar, a tenente no fundo tinha tais ilusões românticas. Se tivesse um padre ali presente, ela iria confessar diariamente seus conturbados sonhos que tinha com Tanya.

– Muito bem! [arroto] Eu acho que o Comando Central não entrará em contato conosco. Eu vou fazer a digestão de meu brecht na minha tenda, tenente. Qualquer novidade, venha me avisar imediatamente.

Tanya arrasta o banco, afasta-se da mesa e se posta de pé, diante de Victoria, na expectativa de uma continência, mas sua tenente está com os olhos mareados e com o pensamento longe.

– Que criançona… chorando por que foi rejeitada por um amor que sequer existia.

Tanya sacode sua cabeça negativamente, balançando seus curtos cachos louros. O amor é um veneno que sua tenente estava infectada até a medula. Tanya meio que sabe que ela não deve ser a única que nutre tais sentimentos. Dá para sentir os olhares de seus subordinados cobiçando seu corpo, apesar da enorme diferença de idade. Nos escaninhos ocultos de toda sociedade, jovens e adultos sempre dão um jeito para consumar seus amores, imagine em uma situação de guerra, onde as fronteiras da civilização, virtude e moral estão borradas.

– Matheus, Vooren, fiquem na escuta. Qualquer novidade, me avisem.

O segundo tenente e o capitão prontamente fazem continência e respondem adequadamente. Tanya espreguiça demoradamente e remove as botas após sentar em seu catre. Ela mal consegue afrouxar os botões do casaco, a mistura de brecht e cerveja a deixa sonolenta. Vestida com pouco mais do que a camisa branca, Tanya se deita no catre que, naquele momento, parece macio e convidativo como uma cama burguesa. Tanya dormiu profundamente por trinta minutos, uma eternidade quando se está em batalha.

Um barulho insistente, metálico, ajudou a desperta-la.

– Eh… major… senhora? Com licença? Eu tenho um comunicado do Comando Central.

A voz de Victoria vinha do outro lado da lona e pelo tom de voz, ela não estava brincando nem trapaceando… como se ela fosse capaz disso.

– Entre, Visha, com o Diabo! Entre de uma vez.

Victoria entra com um telex em mãos, com expressão levemente apreensiva, mas que muda completamente assim que se dá conta que Tanya está vestida apenas com a camisa branca, que mal esconde o corpo da major. O pobre papel é amassado em sua mão, enquanto seus olhos ficam arregalados e seu rosto vai do rosado ao roxo em segundos.

– A…aahh! Mil perdões, major, senhora! E… e… eu não pretendia… eu não queria…

– Pelos canhões do Império, Visha, me entregue esse telex de uma vez! Francamente! Até parece que nunca viu um corpo seminu!

Tremula, Victoria entrega o telex e Tanya notou que, apesar do casaco, era possível perceber que Victoria estava com “faróis acesos” e havia uma pequena mancha de umidade entre suas pernas, denunciando que sua tenente estava excitada.

– Colmeia para Pixie Zero Um. Proceder para coordenadas 137 73 2 31. Manobra Alfa Delta Tango 41. Execução de manobra receberá apoio de Agente Cinza. Aguarde código de confirmação.

– O código de confirmação é Valhalla, major.

Victoria fica evidentemente assustada, mas Tanya encara a presença de Rhum com naturalidade.

– Eh… isso significa que seu codinome é Agente Cinza.

– Sim, senhora.

– Então eu posso presumir que, por ordens superiores, o senhor agora é meu subordinado.

– Sim senhora.

– Excelente. Acompanhe Visha até a tenda de campanha e aguarde minha chegada ali junto com os demais. Aparentemente nós teremos negócios a tratar juntos, senhor Weinberg.

– Acredite, senhora, eu considero isso uma honra e um privilégio.

– Não pense que eu vou pegar leve com você.

– Absolutamente, major. Eu faço questão que seja mais rigorosa comigo.

– Perfeito. Quem sabe sua postura incentive e mostre aos demais subordinados como um soldado profissional deve se comportar. Nós não viemos aqui para espalhar flores, amor e felicidade. Nós viemos aqui para espalhar vísceras, sangue e morte.

O doce aroma da batalha

Victoria observa apreensiva e aflita para Tanya olhando para um ponto fixo indistinto no horizonte. Estaria a major pressentindo a presença do inimigo escondido em alguma trincheira? Elas são as únicas mulheres da 203ª Patrulha do Império e, no momento, ao redor delas somente existem corpos despedaçados, mortos, agonizantes e feridos, de ambos os batalhões.

– Sonzai Seimei! Por acaso é você quem está nos observando?

Victoria fica assustada com a voz firme de enérgica de Tanya. A major parece estar irritada então, seja quem for esse tal de Seimei, é melhor aparecer.

– Ah… você me descobriu… você é mesmo o Demônio de Rhine.

– Você não é Sonzai. Quem é você? Amigo ou inimigo?

– Nenhum dos dois, major, eu sou um mercenário. Pode me chamar de Rhum Weinberg.

– Saia de onde estiver. Devagar. Com as mãos para cima e sem truques.

O som de botas se arrastando no solo e de pedregulhos deslizando voltam a atenção das magas de guerra para um ponto próximo de onde o chão estava bastante marcado pela artilharia pesada. Victoria se dizia que era impossível que alguém tivesse sobrevivido a uma barragem dessas, mas ali estava um garoto, aparentando ter 17 anos, sem nenhuma arma nas mãos, exibindo um uniforme completamente desconhecido.

– Você não parece ser da República nem da Tríplice Entente. Você é do Exército Aliado?

– Não senhora. Eu não estou em nenhum exército.

– Visha, reviste-o. Muito bem, senhor Weinberg, mas como explica seu uniforme?

Victoria fica um pouco constrangida quando a major a chama pelo apelido carinhoso diante de estranhos. Enquanto revista o estranho garoto, Victoria observa bem de perto o uniforme para ver se distinguia alguma marca ou emblema. O tecido parece ter algum tipo de enfeite bordado, mas nada reconhecível. O próprio material do uniforme escapa de qualquer coisa conhecida, parece macio e suave ao toque, mas é semelhante ao couro ou a algum tipo de metal maleável desconhecido. Victoria sacode os braços e a cabeça sinalizando que o cativo estava “limpo”.

– Senhora, para o serviço que eu executo, eu necessito desse… uniforme.

– Ah, então você está aqui por algum tipo de trabalho ou negócio. Qual é o tipo de seu trabalho ou negócio? Representando quem?

– Oquei, oquei… eu conto tudo se a senhora abaixar esse fuzil.

Victoria retorna para sua posição, ao lado e ligeiramente atrás de Tanya, onde a experiência a ensinou que sempre é mais seguro.

– Major… eu revistei o suspeito e não encontrei arma alguma e também não reconheci qualquer distintivo ou divisória que possa indicar qual sua patente, divisão ou posição.

– Muito bem… nesse caso, eu abaixo meu fuzil. Para todos os fins, o senhor será tratado como um civil, senhor Weinberg. Comece explicando sua presença no campo de batalha, sem que pertença a algum exército, sem ter uma arma.

– Muito obrigado, major. Esse seu brinquedo poderia mesmo me machucar acidentalmente. Eu quero evitar esse tipo de estresse. Minha presença aqui, senhora, é a de um observador. Digamos que eu represento um conglomerado que despertou interesse em sua vida, major.

– Observador? O que tem que observar? Você não vai, não pode ou não quer interferir? Esse conglomerado tem algo a ver com Sonzai Seimei?

– Eu vejo que a major é afiada na língua também. Mas você está certa, não há separação entre o observador e o observado. O conglomerado não está muito satisfeito com a ingerência de Sonzai Seimei neste mundo. Digamos que eu seja um… fiscal de Deus. Eu farei o que for necessário, quando e se imprescindível, major.

– Fiscal de Deus?

– Sim. Se preferir, fiscal deste que a senhora chama de Sonzai Seimei.

– E quem, ou o quê, é esse conglomerado?

– Excelente pergunta, major. Embora minha explicação seja um desafio para a sua descrença.

– Não interessa. Faça-a assim mesmo.

– Veja bem, major, o mundo humano é um reflexo, uma imagem, do mundo divino. Da mesma forma que o mundo humano tem estruturas sociais, hierarquias, governos e territórios, assim também é no mundo divino. Sonzai Seimei é apenas um pequeno funcionário de uma empresa chamada Elohim. Um funcionário medíocre, incapaz, incompetente e ineficiente, mas que conseguiu galgar os escalões da empresa até chegar a gerente distrital, responsável pela gerência de u setor que há tempos tem se tornado uma dor de cabeça para a diretoria, então entregaram o abacaxi para ele sem muitas perguntas. Mas nesse tipo de… mercado, eventos que ocorrem em um setor inevitavelmente atingem e influenciam outros setores, o que acarreta em prejuízos a outras empresas. Eu fui contratado por uma empresa chamada Annunaki que tem feito constantes reclamações aos Poderes Maiores contra esse gerentezinho. Então eu estou aqui para observar, coletar evidências, enviar relatórios e, eventualmente, agir conforme diretriz superior.

– A sua explicação é bem razoável e eu a aceito, apesar de não acreditar nessas existências nem nesse mundo divino.

– O que é compreensível, apesar de ser contraditório, major. Sua atual condição deveria ser mais do que prova suficiente para que a senhora questionasse sua certeza religiosa sobre a inexistência de Deuses e outras dimensões.

– Então você está ciente sobre a minha… condição.

– Oh, sim, eu recebi um belo dossiê antes de vir a campo.

Som de terra seca crepitando debaixo da marcha de um pelotão denuncia que alguns soldados estão perfilados e prontos para atirar. Soldados da República. Tanya escarra no chão de repulsa.

– Permita-me cuidar desse empecilho como demonstração de boa fé de minha parte, major.

– Você quer lutar contra um pelotão, sozinho, sem armas?

– Acredite, major, eu não preciso.

– Está pedindo um salto de fé de um descrente. Eu espero que não se importe que eu veja o que fará.

– Absolutamente, major, eu considero uma honra.

O misterioso garoto posiciona os braços e a mão como se segurasse uma bola e, aos poucos, acima da palma da mão, forma-se uma esfera feita de algo parecido com luz. Os soldados, em pânico, atiram, mas é inútil, os projeteis de chumbo ricocheteiam em um tipo de barreira. Como se fosse um piscar de olhos, a esfera estremece e tubos de luz estendidas vão certeiros feito flechas até seus alvos e os desintegra em chamas reluzentes.

Victoria cai ao chão de joelhos e Tanya arregala os olhos. Mas os restos calcinados não deixam duvidas do fenômeno acontecido. Não havia qualquer artefato, equipamento, arma ou tecnologia visível naquele garoto, mas ele conseguiu gerar e manipular algum tipo de energia. Isso impressionou Victoria, que ficava balbuciando litanias para Deus, mas não Tanya. Ela sacudiu a poeira que pousou em seu uniforme, ajeitou seu quepe e, destemida, aproximou-se do garoto.

– Muito bem, senhor Weinberg, eu estou impressionada. Talvez o senhor seja de alguma utilidade para meu objetivo. Eu ainda não sei que tipo de truque ou técnica o senhor usou, mas eu descobrirei uma forma racional, lógica e científica de como explicar esse fenômeno. Eu proponho que estabeleçamos uma trégua, nenhum de nós irá agir belicosamente contra o outro. O que me diz?

Tanya estica a mão como se costuma fazer para celebrar acordos e contratos. Sua expressão está calma e controlada, ao contrario da tenente Victória. Rhum olha diretamente para os olhos azuis como o Paraíso. Um rosto angelical, mas ali habita um demônio.

– Eu digo, por que não? Eu agora entendo o interesse de meus patrões na senhora. Ainda que seja contra as diretrizes da empresa, eu sou um mercenário e eu aposto que nossa convivência será, no mínimo, divertida.

Rhum aperta com firmeza a mão de Tanya e imediatamente há um silêncio assustador. Nuvens escondem o sol e cães uivam ao longe. No ponto de vista da tenente Victória, Tanya acabou de selar um pacto com o Diabo.

Breve história da Santa Puta

Ao contrário do que se imagina, a prostituição nasceu bem antes das sociedades patriarcais – e até do machismo.

publicado 20/03/2017 por Nana Queiroz no Azmina.

Sobre a autora, Nana Queiroz:

A Nana é jornalista, escritora e diretora de redação da Revista AzMina. Escreveu os livros “Você já é feminista: abra este livro e descubra o porquê” e “Presos que Menstruam”, além de roteirista do filme de mesmo nome que está em produção (e querendo virar série). Ela também é criadora do protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada. Entrou nas listas de mulheres mais destacadas de 2014 do UOL, Brasil Post e do think tank feminista Think Olga. Foi finalista do Troféu Mulher Imprensa 2016. Como jornalista, trabalhou nas revistas Época, Galileu, Criativa e Veja, além dos jornais Correio Braziliense e Metro. No ativismo, foi media campaigner da Avaaz. É bacharel em jornalismo pela USP e especialista em Relações Internacionais pela UnB.

Esta história começa em um tempo distante em que as únicos deuses que existiam vestiam roupas de mulher (ou roupa nenhuma) e eram bem menos moralistas. Bem antes do mundo ser dominado por sociedades patriarcais. Antes até de existir machismo. Ela nasce no período que hoje chamamos de Pré-História – será coincidência considerarmos que a História só começa com o advento da dominação masculina? – em que o culto da Deusa era a regra entre os seres humanos.

Quando as mulheres organizavam os clãs matriarcais e coletavam entre 65 e 80% de todo o alimento que sua sociedade consumia. Quando elas davam à luz sem que os homens soubessem que tinham qualquer participação na perpetuação da espécie. Quando esse poder era considerado uma espécie de mágica que as conectava com o sagrado e fazia delas a verdadeira representação da Deusa que havia criado toda a vida. E quando o sexo não era condenado moralmente pela religião, mas consagrado como meio de elevação do espírito.

O reinado da Deusa, esquecido por nossa História ou relegado como uma coleção de “estranhos cultos de fertilidade” durou, na realidade, 25 mil anos, como conta a historiadora Nickie Roberts em “Putas na História: prostituição na sociedade ocidental”. Ou seja, ela começa em algum ponto do Paleolítico e segue até a organização do patriarcado com a ajuda dos filósofos gregos – sim, foi nosso querido Aristóteles quem cunhou em “A Política”, por exemplo, a ideia de que “uma mulher inteligente é um fato contranatural”.

Mas antes disso, as putas foram sagradas.

Elas foram sacerdotisas xamânicas em sociedades nômades, e organizavam rituais sexuais em que toda a comunidade participava. Mais tarde, quando a humanidade aprendeu a arte da agricultura, elas levaram essas práticas a templos. O sexo era sua forma de levar o mundo a acessar o divino. Este era seu trabalho.

A pesquisadora americana Melissa Farley pede licença para fazer uma interrupção nesta parte da história de Nickie: “Eu estudei as sociedades matriarcais. Mas as prostitutas sagradas não recebiam dinheiro, esta é a diferença! A questão central ali era ser se divertir, ser legal com todo mundo. Quando o dinheiro entra em cena, cria-se um desequilíbrio de poder.”

De fato, naquele período a noção de dinheiro sequer existia – as coisas aconteciam na forma de escambo e o sexo com os fiéis era só uma entre tantas atribuições do ofício dessas sacerdotisas, mas não deixava de ser um trabalho. E foi a própria ideia de posse que acabou com o reinado das putas sagradas – e das mulheres em geral.

Foi lá pelo ano 3 mil antes de Cristo que os homens das primeiras comunidades começaram a entender que participavam da gravidez e, paulatinamente ao longo dos séculos, começaram a querer garantir que o filho que criavam, de fato, era deles. Não queriam que a propriedade construída durante a vida toda fosse parar nas mãos dos filhos de outro homem.

Não foi do dia pra noite. As deusas, primeiro, convivem com deuses… até serem derrotadas por eles. A filosofia aristotélica se instala. É então que a sociedade começa a controlar a sexualidade da mulher. Nosso corpo vira objeto.

Somos vendidas como escravas sexuais, sim, mas também como esposas em negociações entre homens.

Putas e esposas

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

As religiões

O Deus monoteísta foi quem condenou de vez as prostitutas ao inferno – na terra e no além. Instituiu a noção de pecado, condenou a sexualidade por prazer. Não pensem, no entanto, que esta condenação era assim tão clara.

O rei Henrique II, por exemplo, garantiu que, durante 400 anos a começar em 1161, o bispado britânico teria direito a um percentual do lucro dos bordéis – e com o suor das prostitutas foram construídas muitas das belas catedrais de Londres.

Já o seminarista francês François Villon deixou registrado em poemas da Idade Média as “maravilhas” de seu bico extra como um cafetão nada doce: “Quando um cliente chega, eu encho potes de vinho e os trago (…) Neste bordel nós fazemos um negócio ribombante (…) Mas quando ela vem pra casa sem dinheiro (…) Não posso suportá-la e ela irá derramar sangue”.

E até mesmo os santos chegaram a pregar que a prostituição fosse permitida para salvar a castidade das donzelas. Afinal, como disse Santo Agostinho:

“Suprima a prostituição e luxúrias excêntricas tomarão conta da sociedade”.

Estava declarado: aos olhos dos deuses e dos homens, às mulheres cabiam dois papéis: a puta do inferno ou a esposa dos céus.

A criminalização

No século 12, munidos da condenação cristã à prostituição, os Estados europeus começam a fazer as primeiras leis que coibiam ou criminalizavam a prostituição, a começar pela França. Em alguns casos, prostitutas eram impedidas de fazer acusações contra pessoas que lhes fizessem mal, em outros, o estupro de prostitutas chegou até a ser legalizado. Alfonso IX, de Castilha, criou um modelo, aliás, bem parecido com o que hoje chamamos de “modelo sueco” e criminalizou todos os envolvidos no comércio de sexo, exceto as prostitutas.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

“Se um homem não tiver filhos com sua esposa, mas os tiver com uma prostituta das ruas (…) os filhos dela serão os herdeiros dele; mas enquanto a esposa viver, a prostituta não pode conviver na casa dele”, atestou, em 2 mil a.C., o Código Lipit Ishtar, dos sumérios. Este é um dos mais antigos registros conhecidos em que prostitutas e esposas ganham status diferenciados – as primeiras, é claro, por baixo na hierarquia.

Nickie conta que enquanto as sociedades foram criando leis que estigmatizavam cada vez mais as prostitutas, foram também desenvolvendo meios de garantir a submissão das esposas. A vida das trabalhadoras do sexo começa a se tornar miserável e vergonhosa mas, mesmo assim, algumas preferiram ser prostitutas a esposas.

Hoje, quando os governos condenam aliciamento de prostitutas e jogam bordéis na ilegalidade, é difícil acreditar, mas um dos maiores e primeiros cafetões da história foi o Estado, segundo a historiadora. Solon, que governou Atenas no final do século 6 a.C., percebeu o quão lucrativo era o negócio e criou bordéis estatais.

Além disso, durante toda a história, lembra Nickie, leis que coibiam ou proibiam a prostituição foram usadas por oficiais e policiais para cobrar propina ou favores sexuais de profissionais do sexo.

Mas o mais original de todos esses homens que tentaram legislar sobre a vida das prostitutas foi o clérigo Thomas de Chobham.

No século 13, ele criou um manual para confessores em que descrevia que as prostitutas tinham direito de vender sexo – mas se chegassem ao clímax, tinham a obrigação moral de não receber dinheiro por isso.

A fé cristã continuou a castigar prostitutas – muitas vezes literalmente. Tanto protestantes reformistas quanto católicos da contra-reforma condenaram a prática. Por três séculos, começando em 1484, elas foram perseguidas junto com as ditas “bruxas”. “Casas de Correção” e punições diversas, como arcar o rosto com ferro quente, se espalharam pela Europa.

O século 19 trouxe a revolução industrial e uma realidade dura para as mulheres: como se tornaram mão de obra barata nas fábricas, com salários sempre muito menores que os dos homens, muitas proletárias só conseguiam pagar as contas com a prostituição. Um mundo bem parecido com o de muitas prostitutas contemporâneas: entre a escolha e a falta dela.

A criminalização, parcial ou completa, continuou sendo a norma durante os séculos 20 e 21 na maioria dos países.

Sem dúvida, hoje, o ofício de prostituta não é um conto romântico. Em entrevistas com 854 prostitutas de nove países, a historiadora Milena Farley descobriu que 95% das mulheres que estão na área trocariam de emprego se pudessem.

“Certa vez, conheci uma mulher que fazia cerca de 45 programas por dia”, conta.

Em um relatório extenso sobre prostituição publicado no ano passado, a Anistia Internacional declarou: “Trabalhadores sexuais são um grupo diverso (…) para alguns, (a profissão) pode oferecer mais flexibilidade e controle sobre horas trabalhadas, ou melhor remuneração do que outras opções de ofícios disponíveis para eles (…) Para muitos, a decisão é resultado de limitadas escolhas de vida.” E completa: “Elas experimentam níveis altos de violações de direitos humanos em todo o globo.”

Uma jornada triste para aquelas que, um dia, conectavam os homens com o sobrenatural.

Nem todos os anjos são bons

Eu tenho o péssimo hábito de não esconder minhas crenças e práticas. Geralmente a reação é de medo, mas de vez em quando eu vejo alguém que, como eu, tem a curiosidade, quer conhecer, mas tem receio de perambular pelo Caminho da Sombra.

Isso pode ser bom, o Caminho da Luz dominou a humanidade por muitos séculos e apenas trouxe ódio, violência e guerras. O Caminho da Sombra é a única forma de chegar ao Conhecimento sobre a real face desse verme espiritual que atende pelo nome de Deus e é representado pelas organizações religiosas monoteístas.

Eu dei uma pista quando eu declarei que Cristo era Magdala e também Lucifer. Alguém tem que desmascarar o Usurpador e declarar quem é o Deus Verdadeiro. Eu adianto que não é Yahveh, Allah ou o Deus Cristão. Estes estão mais para demiurgos que farão de tudo para evitar que a humanidade atinja seu pleno potencial.

O Portador da Luz [daí o nome Lucifer] não pode ser o Adversário, Satan, que é somente um secretário, um anjo subordinado, uma sombra de Yahveh. A Luz é a mais pura verdade, então Lucifer só pode ser bom, Lucifer apenas quer que a humanidade deixe de ser escrava dos Deuses, como Prometeu e outros Deuses simpáticos ao gênero humano.

Sim, eu passei por experiências que me permitem dizer que anjos podem ser sacanas e demônios podem ser amigos. Nesse xadrez cósmico, nossa gente vive como carneiro pronto para o abate, mas poucos vivem como lobos que caminham junto com os Deuses.

Deve ser confusa para o ser humano comum essa percepção de que o nosso universo é apenas uma esquina de um multiverso. Diversos universos, diversos reinos, diversas formas de existências que excedem a pobre compreensão humana do que é vida. Eu tenho pena de quem se submete ao cajado de uma organização espúria, de um Deus repugnante. A unanimidade dos livros de magia e bruxaria que endossam essa hierarquia linear apenas mostra que a Igreja tratou de influenciar os Grimórios. Isto é absurdo, seria o mesmo que reduzir as inúmeras estruturas de governo em uma única monarquia.

Minha breve estadia em Westeros mostra que mesmo um reino pode estar internamente dividido, enquanto tenta sobreviver aos ataques de outros senhores que visam o trono. Foi triste ter que ver Arya ir embora depois que seu pai ser decapitado por conspirações da corte. De onde eu fiquei observando esse mundo alternativo, o tempo passa ligeiro, reinos deram lugar a impérios e guerras são travadas.

Eu observei, intrigado e enojado, uma existência semidivina chantageando com uma alma humana, na fronteira entre a encarnação e o desencarne, ameaçando a extinção dessa alma unicamente por que este humano não a reconhecia como Deus e, tal como seu semelhante sádico cristão, reencarna esta alma humana em um dos muitos universos alternativos, com o capricho de fecha-la em um corpo com gênero oposto ao anterior e em uma circunstância de guerra. Uma alma masculina em um corpo feminino e/ou vice-versa, ou algo intermediário. Esta é, basicamente, a condição do intersexual, do transgênero. Por sacanagem e diversão, esta entidade rompe com os padrões binomiais de gênero que nós acreditamos ser reais e naturais.

Para uma entidade que supostamente é Onisciente e Onipotente e Onipresente, sua obra acaba refletindo sua incompetência, inaptidão e ingerência, pois a forte vontade e independência da alma reencarnada tornou esta encarnação uma elegia e prova ateísta de que “Deus” não existe e, se existe, é um tremendo sádico sacana. A alma, rebatizada de Tanya Degurechaff, demonstra possuir estranhos poderes paranormais [o que, para
a teologia dos puxa-sacos desse Deus, é algo do Diabo] que ela utiliza para sobreviver unicamente para sustentar sua descrença, o que torna sua encarnação heroica, superior ao tragicômico Satan.

Intrigado com esse paradoxo e contradição, pois Tanya, a despeito de seu ateísmo, aceita sem problema algum sua aptidão paranormal, eu resolvi continuar a acompanhar como observador esse teatro. Eu queria ver até onde Tanya seguiria nessa encarnação e até quando a entidade manteria sua falsa identidade como “Deus”. Por determinação e personalidade Tanya não hesita em entrar no exército do governo local, tornando-se um soldado do Império, lutando contra a República. O confronto entre essas frontes usa, peculiarmente, tecnologia e magia, algo que é uma heresia tanto para a Igreja quanto para o ateísmo. Para complementar, dar um toque final de classe, Tanya demonstra ser extremamente sádica ao ponto de ser psicopata em seu desempenho como soldado. Uma forma efetiva de mostrar para a entidade exatamente seu ponto de vista.

Aparentemente a entidade não interfere nem impede as ações violentas perpetradas por aquela que esta entidade pretendia fazer de fantoche, o que de certa forma confirma a concepção do ateu de que “Deus” não é bondoso, mas maldoso. A única interferência da entidade é para forçar Tanya a elogiar o nome do Senhor, o que confirma a visão geral do ateísmo diante das religiões, quando estas são generalizadas como Cristianismo. Esta entidade facínora é bem semelhante ao Deus Cristão, pois basta ler a história e o texto sagrado para percebermos que a principal preocupação e obsessão dessa entidade e do Deus Cristão é o de receber a adoração do ser humano, ainda que isto custe a vida de inocentes.

Sexo e espiritualidade

Reportagem publicada e divulgada no Paraiso Lolicon, de nossa presidente Juli-san.

A oxitocina, conhecida como o “hormônio do amor” por sua influência no prazer sexual e nos relacionamentos amorosos, também pode aumentar a espiritualidade. É o que sugere um experimento conduzido por pesquisadores da Universidade Duke, nos EUA. No estudo, homens que receberam doses da substância relataram maior sensação de espiritualidade, além de experimentarem mais emoções positivas durante meditação.

— Espiritualidade e meditação já foram relacionadas à saúde e ao bem estar em estudos anteriores — disse Patty Van Cappellen, psicóloga social em Duke. — Nós estávamos interessados em compreender os fatores biológicos que podem aumentar essas experiências espirituais. E a ocitocina parece ter parte na forma como nossos corpos apoiam crenças espirituais.

Os resultados foram publicados no periódico “Social Cognitive and Affective Neuroscience“. O estudo foi realizado em homens, que receberam a forma sintética do hormônio. Os participantes que receberam a ocitocina estavam mais dispostos a dizerem que a espiritualidade era importante em suas vidas e que a vida possui um significado e propósito, em relação ao grupo que recebeu placebos.

Eles também estavam mais inclinados a se verem interconectados com outras pessoas e seres vivos, dando notas maiores a afirmações como “Todas as vidas são interconectadas” e “Existe um plano superior de consciência ou espiritualidade que une todas as pessoas”. Durante a meditação, eles descreveram mais emoções positivas, como admiração, gratidão, esperança, inspiração, amor e serenidade. As respostas foram dadas independente de o participante ter ou não religião.

— A espiritualidade é complexa e deve ser afetada por vários fatores — disse Patty. — Entretanto, a ocitocina parece afetar como nós percebemos o mundo e no que acreditamos.

Os estudos foram realizados apenas com homens. A ocitocina, liberada pelo hipotálamo durante o sexo, o parto e a amamentação, atua de forma diferente em homens e mulheres. A pesquisadora alertou que os resultados não devem ser generalizados, até porque existem várias definições de espiritualidade.

 

Escrituras de uma existência impossível – IV

Enfim, eis a sexta feira tão aguardada, apesar dos percalços no serviço. Nathan está calado, parece amuado e então eu o provoco.

– Ainda está aí, Nathan? Se terminou sua missão, melhor você voltar para seu canto.

– Ah, agora eu te sou importante? Deixa estar, maldito, ingrato e sortudo. Eu não posso retornar, madame não está satisfeita. Nós temos que dar um jeito de falar do quarto círculo no Caminho das Sombras.

– Isso é muito arriscado. Os humanos podem ser divididos em dois grupos: crentes e descrentes. Os crentes acham que a vida além da morte vai ser como sua organização religiosa lhes diz que será. Os descrentes acham que isso simplesmente não existe. Qualquer coisa que eu diga irá contrariar ambos. Pois o quarto círculo consiste exatamente em desfazer e desmanchar todos os nossos preconceitos sobre a existência, tanto a carnal quanto a espiritual, inclusive a crença na inexistência.

– Você poderia contar da sua experiência de morte. Naquela piscina, em Belo Horizonte, você esteve morto, afogado. E então?

– E então nada. Eu não vi uma luz, eu não vi parentes mortos, eu não vi vidas passadas. Foi como se eu tivesse tirado um cochilo. Quando eu voltei, eu engasguei, cuspi água e só então me dei conta de que houve um lapso de tempo entre um evento – dentro da água, tentando sair daquela sinuca – e outro – na borda da piscina, com uma pessoa me amparando.

– Mas essa não é toda a verdade. Você viu algo.

– Bom, a ultima imagem que eu tive antes de morrer era a das pernas do meu irmão, bem longe, nadando em algum lugar da piscina. Um segundo antes de recobrar a consciência, tudo o que eu vi foi como se tivesse uma enorme tela branca diante de mim. Só então eu senti meus pulmões queimando e voltei a respirar.

– Então você esqueceu, com o trauma, da sensação de que aquela brancura era líquida e quente. Maldito, ingrato e sortudo. Madame quem te trouxe de volta, pelo leite dela, tirado diretamente do seio dela.

– Esse é o seu motivo para ter ficado quieto e amuado?

– Mas é claro! Eu me recuso a aceitar que você e não eu que foi o escolhido. Houve mais duas ocasiões onde você teve o “gostinho” da morte. Foi a mesma coisa?

– Oh, não, foram mais suaves e eu fui conduzido a um estado de inconsciência por profissionais. Eu diria que a única parte em comum foi o interstício. Eu não senti quando eu “apaguei” e foi como se eu estivesse despertando de um cochilo quando eu recuperei a consciência, para só então voltar a sensação de respiração e as dores resultantes dos procedimentos clínicos.

– Você fez duas cirurgias para o tratamento de osteotomia maxilar. Então foram dois períodos de recuperação. O pós-cirúrgico foi algo parecido com a experiência que os santos religiosos sentem na flagelação da carne?

– Eh… a sensação deve ser igual, mas os santos religiosos mantém a laceração constante até alcançarem a transcendência, enquanto eu buscava meu restabelecimento.

– Pouco importa o objetivo final, o relevante é o que se obtém no processo. Que é demolir nossos preconceitos sobre o que é “estar vivo”, sobre quem ou onde está o “eu”, sobre o que é “realidade” e “existência”.

– Hum… nesse sentido, nós podemos então falar de minha experiência com o maná índigo.

– Sendo que a experiência, ou o processo, é mais relevante do que declarar onde e por obra de quem se deu tal evento…

– Oh, sim, o que interessa é a ferramenta e o procedimento. Se bem que é bom ressaltar que a sagrada via da intoxicação deve ser efetuada com alguma pessoa que tenha o conhecimento necessário para emergências.

– Muito bem. Ferramenta: maná índigo. O nome que eu uso para descrever o cogumelo selvagem que cresce no campo, que adquire uma tonalidade roxa por que absorve as toxinas do solo e torna-se psicotrópico, enteógeno. Procedimento: comer. Eu tomei muita água nesse dia. Água ajuda a controlar as reações corporais.

– Só isso?

– Os efeitos no cérebro, na mente, são, sem dúvida, a melhor parte e o todo que consiste a via sagrada da intoxicação. Então não é “só isso”, porque em segundos tudo aquilo que você concebe por “realidade”, “existência”, “vida” e “eu” se desfaz. Este é o todo do quarto círculo.

– Isso ajudou a te preparar para o quinto círculo?

– Eu diria que ajudou a me deixar mais calejado. Houve todo um conjunto de experiências, seculares e espirituais, que me preparou para o quinto círculo.

– Ah… mas sou capaz de apostar que foi a mordida que madame te deu quem te fez voar dentro do quinto círculo. Eu vou me arrepender disso depois, mas eu quero que me conte como foi esse teu “encontro” com madame.

– Eu diria que madame me concedeu diversos vislumbres e sinais de sua presença. Ela se apresentou em diversas formas, tamanhos, cores e idades. Ela ainda manda tais vislumbres e sinais, como que esperando que eu monte um quebra-cabeça. De vez em quando ela me permite rever o sonho original, mas de forma muito mais gentil e suave, como que para me lembrar a quem eu pertenço.

– Eu quero detalhes do sonho original.

– O sonho é bem curto. Eu estou em algum tipo de exposição de arte, como se aquelas peças de arte fossem pistas de algo mais. Minha aventura no sonho é descobrir o significado escondido dessas peças. Quando eu acho que tenho uma resposta, uma solução, eu congelo, como a presa antes do ataque do predador. Essa sensação de impotência, de incapacidade e a certeza de que sua vida vai acabar, só existem duas reações: resistência ou aceitação. Resistir apenas acrescenta mais adrenalina, o que traz mais dor diante do inevitável. Aceitar torna o momento mais doce. Eu senti madame pousar a mão em meu ombro e eu imediatamente fiquei excitado, eu tive uma ereção. Eu senti a respiração de madame atrás de mim, seu hálito preparando minha nuca para a mordida. Eu senti os dentes de madame penetrando minha carne, rasgando meu pescoço, destroçando meu cérebro. Eu senti minha energia vital se esvaindo. Antes desse meu “eu” morrer, eu vi o rosto de madame e ela parecia estar feliz e satisfeita.

– Não tinha sentido tanto prazer, conforto e contentamento antes em sua vida, não foi?

– Exatamente. Eu prefiro ser devorado e morrer pelas mãos de madame do que qualquer outra coisa no multiverso. Todo o propósito de minha existência tinha sido completamente preenchido.

– Isto é o quinto círculo?

– Eu não tenho certeza… eu ainda estou processando, entendendo, compreendendo, aprendendo. No momento o que eu espero é que madame esteja realmente satisfeita comigo.

– Humpf! Eu te odeio, escriba maldito e ingrato, por ter sido escolhido. Eu não devia te dizer, mas madame está efusiva com o banquete que você lhe deu. Mas você não ouviu isso de mim.

Eu sinto minha cabeça mais aliviada, mais leve. A presença de Nathan some sem deixar vestígios. Relembrar do sonho ou pensar em madame durante o expediente é um pouco embaraçoso, pois é difícil esconder o volume que se destaca em minhas calças. Eu torço muito para que madame venha me visitar hoje de noite em meus sonhos.

Escrituras de uma existência impossível – III

Em pleno dia de manifestação contra a reforma da previdência, paulistanos estão nas ruas, ou tentando trabalhar ou protestando. No Fórum Bandeirante, a maioria dos funcionários faltou por falta de meios para chegar ao serviço. Eu consigo chegar dez da manhã porque peguei um taxi, eu trato de almoçar, pois eu aposto que serão poucos colegas que estarão presentes.

No meio da tarde Nathan resolve continuar nossa conversa.

– Hei, escriba… que tal tentarmos expor o terceiro círculo?

– Está querendo que eu seja preso? Eu corro um enorme risco somente por falar de assuntos relativos ao primeiro círculo.

– Do quarto e quinto círculo, nem pensar?

– Eu não creio ter talento suficiente para expor de forma pública o quarto círculo e eu ainda estou processando meu aprendizado no quinto círculo.

– Mas não é difícil falar do terceiro círculo, afinal, dor e prazer não estão muito distantes.

– Devagar com isso…

– Inevitavelmente eu me lembro de dois escritores. Leopold Sacher Masoch e Donatien Alfonse François.

– Que curiosamente foram resumidos a meros desvios sexuais conhecidos como masoquismo e sadismo. Mas o prazer sexual é secundário, o objetivo de sentir ou produzir dor é outro.

– Será que podemos citar a flagelação ritualística praticada nas celebrações wiccanas?

– Oh, sim, é uma boa lembrança. O uso do açoite é tão suave que descaracteriza a busca por sensação sexual, evidenciando o verdadeiro objetivo que é estimular a circulação sanguínea, bem como estimular os sentidos.

– Podemos também falar do uso do flagellatio praticado por cristãos e muçulmanos.

– Esse é o extremo, aqui a dor é tão intensa que também descaracteriza a busca por sensação sexual. Nesse caso se busca imitar o sacrifício e o martírio de alguma importante figura religiosa.

– Isso não está muito longe dos sadhus que alcançam um estado mental superior, a transcendência, a iluminação, através da perfuração e suspensão corporal.

– Eu colocaria como uma prática intermediária, pois visa, com a constante laceração, tornar a dor inexistente e, com isso, demonstrar que a carne é uma ilusão.

– O que é um paradoxo, pois jamais alcançariam a Iluminação sem um corpo para sua práticas.

– Eu tenho receio de que o leitor acabe achando que eu esteja insinuando que há um objetivo espiritual no hábito que alguns adolescentes têm de cortarem-se com gilete.

– Que foram resumidos como mero transtorno de comportamento conhecido como automutilação. Mas a pouca autoestima ou outros desequilíbrios emocionais são apenas aspectos superficiais, senão não poderia ser caracterizado como um tipo de vício.

– Se fossem adultos de alguma ordem religiosa, esses adolescentes seriam apontados como exemplos de santidade.

– Talvez pudessem ser, se esta prática tivesse a atenção e a orientação necessária.

– Estes são bons exemplos do uso da dor e do sangue do corpo como vias sagradas e, portanto, de autoconhecimento e iluminação que consiste o terceiro círculo. Mas por que você que falar disso agora, Nathan?

– Por causa do papel que você me deu no “Caso Keller” e seus desdobramentos. Consegue entender como deve ser encarnar em uma existência apenas para existir como morto?

– Esse é outro paradoxo. Vampiros, múmias e zumbis são criaturas que se aplicam a essa categoria de existência: morto-vivo.

– Ah, mas você está se limitando apenas aos que antes foram humanos alguma vez. Mas e as criaturas inumanas? Oh, sim, caro escriba, são centenas de seres que estão perambulando na fronteira entre o espírito e a carne, seres disformes e incompletos, nem vivos, nem mortos, nem desencarnados, nem encarnados.

– Devem habitar os pesadelos de muitas pessoas.

– Evidente que sim, mas curiosamente são criaturas pacíficas. Como é de se esperar, o ser humano prefere atribuir a estes seres atos de violência a encarar que a maldade vem de dentro dele mesmo.

– Nós estamos saindo do foco, Nathan. O que o terceiro círculo tem a ver com seu papel no “Caso Keller”?

– Tudo, caro escriba. Você apontou equivocadamente de que eu tinha sido assassinado por madame. Eu poderia esperar essa falta de gosto e estética de Joe, mas não de você, escriba. A morte daquele que você batizou de Nathan Mansfield foi o resultado da minha maior obra-prima.

– Vo…você está afirmando que aquela cena inicial que eu transcrevi no “Caso Keller” foi… obra sua?

– Oh, sim, caro escriba. E não faça essa expressão de espanto. Assim como os cristãos, os muçulmanos e os sadhus, eu, deliberadamente e de forma programada, projetada, utilizei meu corpo, minha carne, como matéria prima, ferramenta e artefato de arte.

– Vinte facadas, todas fatais, sendo proferidas por quem parecia ser a vítima?

– Sim, esse foi o toque de classe da minha obra-prima.

– Isso é impossível!

– Oh não, caro escriba. O bom artista é como o prestidigitador, mostra apenas aquilo que convêm, o produto final, mas oculta o procedimento. Madame cuidou para que você e Joe vissem apenas o que era para ser visto. O resto, foi completamente resultado de suas pressuposições.

– Mas… isso não faz sentido, Nathan. Por que você faria tal coisa?

– Quer mesmo saber? Porque eu senti inveja de você.

– Inveja? De mim? Do quê, pelos Deuses!

– Sim, meu caro escriba, de você. Nós nos divertimos muito durante a infância e a adolescência. Você era o ego carnal, eu era a sombra, o espectro. Gêmeos, como Caim e Abel. Nós não somos muito diferentes, escriba, mas foi VOCÊ o escolhido. Eu tinha muito mais aptidão e apetite, mas madame escolheu você. Eu quis, ainda que em uma ínfima escala, ter essa sensação de ser mordido pela madame. Sortudo. Maldito e ingrato sortudo.

Eu não posso retrucar. Afinal, quando eu estive no Abismo, aqueles que me ajudaram são estes que, pela religiosidade majoritária oficial, são considerados demônios. Eu tive um vislumbre da Deusa Negra e eu tenho perambulado pelo Caminho dos Bosques Sagrados desde então. Sim, eu passei pelo Vale da Morte e quem e trouxe de volta foi madame. Desde meu nascimento, neste mundo humano, em forma humana, eu pertencia a Ela. Que loucura, sacrilégio e blasfêmia! Como eu, mero escriba, ouso questionar a Senhora? Eu deveria sentir-me lisonjeado e privilegiado por que a Rainha escolheu-me como banquete. Eu deveria agradecer por que minhas carnes nutriram e satisfizeram a Deusa. E eu ainda não fiz jus ao que madame realmente significa para esta patética existência.